(sem título)
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
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Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
canela
ela tem uma cor que ilumina tudo, uma pele que brilha mesmo na luz fria. sapatos de salto alto de madeira, os dedos de fora, com batatas-da-perna deliciosamente delineadas. estou atrás dela, e posso observar tranquila cada cor e cada curva. ela é alta, morena, e veste saia e casaco cor de creme. a saia tem uma fenda atrás, pude ver as coxas fortes enquanto ela subia, distraída, a escada. a calcinha marca um pouco, é pequena, tento adivinhar a cor e o estilo (ela deve ser daquelas que usam conjuntos sempre combinando, calcinhas com rendinhas e detalhes femininos, creme ou preto). cintura fina, aquele jeito bonito de andar de salto, gingando degrau a degrau. a bunda é grande, bonita, combina com o conjunto. ela tem celulite, percebo. mais um indício de que é uma verdadeira mulher, cheia de hormônios de fêmea. nada da magreza andrógina de algumas mulheres-meninos e nem os músculos excessivos das mulheres-homens. é uma legítima mulher-mulher, quase sinto o cheiro dela de longe.
a escada acaba, ela senta e vejo seu rosto: uma moça de 25 a 30 anos, olhos grandes e castanhos, não é bonita e nem feia, é viva. sentada, ela olha distraída e não percebe que a observo. sinto uma ternura tão grande, como aquela que sinto pelos cavalos e pelos bichos grandes de forma geral: uma vontade de abraçar e afagar vigorosamente, sem nada dizer. sorrio de leve (ela nem vê) e vou tomar meu café, aquecida pela cor da moça.
distrair-se da própria vida é uma arte e ao mesmo tempo um perigo. quantos anos vivi outras vidas que não a minha? a soma de pequenos minutos, insignificantes minutos somados: uma vida todinha. ocupar-se de outro com os olhos da mente é uma grande ilusão. melhor seria abordá-lo, carne com carne, para a lambida ou a mordida, para a vida. jamais o olho do pensamento e o escrutínio inútil, estéril. diabinho e anjinho batem papo nos nossos ombros, decidindo entre imaginar e viver, e vemos com certo alívio que deixamos de matar e morder, mas o fato é que também deixamos de lamber e amar.
aprender a viver a própria vida, sim, é uma arte.
arena
mulheres são óbvias. seres complexos, sem dúvida, mas absolutamente óbvios aos olhos de quem é semelhante. jogam o tempo todo, uma eterna batalha por sêmen. os homens não percebem, nunca. acham que estão sempre controlando e conquistando, eternamente iludidos nas teias femininas. há jogos de corpo para aquelas bem dotadas de corpo, jogos intelectuais para as mais dotadas de neurônios e jogos emocionais para as mais sensíveis. como se deram as regras deste jogo, se ele sequer é conhecido? regras hormonais, talvez. e os homens? são incompreensíveis, vistos através destes olhos de fêmea. atuam de estranhas formas. mistérios. gozozos, dolorosos. santíssima trindade, homens múltiplos.
(somos personagens de teatro? a vida é mais curiosa que a ficção. vejo clowns, máscaras por cima dos rostos.)
narcisistas precisam de um espelho, de mulheres que nada façam além de ecoar sua própria beleza (a deles). elas jogam com a vaidade deles, repetem o que eles dizem, perguntam, reforçam a imagem de que se parecem, são iguais na beleza. elas são superficialmente amadas por eles, pois essa relação jamais se realiza completamente. servem bem elas ao propósito deles de se sentirem poderosos; eles servem bem aos propósitos delas de se sentirem minimamente amadas (mesmo que sejam mero reflexo), contentam-se com migalhas. admiram, rastejam, querem sentir-se parte da vida daquele que admiram, querem o sêmen dele, do semideus.
confiantes não acreditam que são manipulados, e desejam mulheres fortes, tão fortes quanto eles. espelham-se nelas e sentem-se ainda mais poderosos por conquistar mulheres admiráveis, que não se mostram frágeis e nem tolas. elas sabem que eles precisam ver-se nelas, precisam da segurança e confiança, jamais se permitem ser frágeis. sofrem a vida toda em silêncio, frustram-se estoicamente, engolem e os odeiam profundamente a cada dia. quando eles quebram (e eles sempre quebram um dia), elas gozam e riem um riso amargo.
inseguros têm medo e raiva. sabem que são desprezíveis. mulheres deprezam homem fracos. mulheres cuidam de homens doentes como se fossem crianças, jamais homens feitos. homens devem ser fortes. elas são tão inseguras e frágeis quanto eles, temem homens fortes. mas precisam dos fracos para sentirem-se necessárias, fortes, alimentam-se disso. eles precisam delas para ter coragem, alimentar o fogo da raiva que supera o medo. elas testam os limites, eles fraquejam. elas pedem uma surra de homem, provocando, enfrentando. eles eventualmente transformam-se em homens, às vezes até matam. e elas eventualmente encontram um homem de verdade que as trate como fêmeas e aprendem a gozar.
quero todos nus, os personagens, todos eles.
homens não falam, fazem. mulheres simplesmente são. (ou assim devia ser, ah, devia!)

não, solidão, hoje não
quero me retocar
nesse salão de tristeza onde as outras
penteiam mágoas
deixo que as águas invadam meu rosto
gosto de me ver chorar
sinto que estão me vendo
eu preciso me mostrar
bonita
pra que os olhos do meu bem
não olhem mais ninguém
quando eu me revelar
da forma mais bonita
pra saber como levar
todos os desejos que ele tem
ao me ver passar
bonita
hoje eu arrasei
na casa de espelhos
espalho os meus rostos
e finjo que finjo que finjo
que não sei
lua nova
ciclicamente, amanheço e anoiteço em mim mesma. há o tempo de colher e o tempo de plantar, regar, entender o mistério da vida e da germinação. no recolhimento, com a absoluta escuridão de fora, vê-se melhor o que está dentro. a luz externa se apaga para que do lado de dentro as coisas façam sentido. pra que sejam sentidas, mais que compreendidas.
faz-se necessária uma instrospecção respeitosa. maré baixa, tempo de refletir.
pensamentos inócuos
ouvi dizer que o baião vem debaixo do barro do chão
mas acho que dali o que vem é o calor de vida, mesmo.
por isso inclusive a gente se sente assim, fraquinho, de vez em quando:
haja vida pra atravessar tanto asfalto e chegar aos meus pezinhos, socorro.
saturno
queria um anel, dado de presente. anéis são laços e promessas, além de adorno. não, mas não quero adorno. quero promessa e sonho. emprestado de alguém, por um tempinho curto, pois meus sonhos estão desvairados. o tempo de seca deixa os sonhos irritados, melhor não provocar. preferia receber visitas de sonhos convidados, aqueles recebidos com o anel do qual falava. recebi uma vez dois anéis que eram gêmeos complementares. eu o dei a dois homens que se amam, e eles usam cada um sua metade do anel, e esse é seu sonho compartilhado. o outro que ganhei tinha "i love you" gravado dentro, ele era plano como os anéis de poder o são. sentia-me poderosa usando aquele anel, pois ele era simples pra quem olhava, mas ali onde tocava minha pele, havia um "i love you", e só eu sabia.
são fortes os segredos verdadeiros. serão os sonhos segredos? já compartilhei alguns. ganhei uns, outros dei. barganho sonhos, descobri. hoje estou à procura de algum sonhozinho. vou procurá-lo nos livros, nas entrelinhas, nas orelhas, nas anotações de pé de página. geralmente é ali que eles estão: onde menos esperamos.
chocolate
tudo brilha, arco-íris, felicidade química. só quem é sensível ao chocolate e seus poderes terapêuticos, sabe. a luz é mais intensa e a vida parece linda, mesmo nesses dias opacos de recolhimento.
duas barras, por favor?
um plano simples de fazer feliz a uma criança com uma surpresa de aniversário (que só se dará meses adiante) faz sorrir, qualquer que seja o dia, a hora e o estado de espírito. crianças, surpresas e desejo de fazer outros felizes operam mágicas.
limão
poucas vezes me permito ser má, de fato. uma série de travas me impedem, não gosto de sentir raiva, ódio. me identifico mais com a história d'o búfalo, da clarice. preciso cavar muito aqui dentro pra encontrar o ódio.
mas há dias, ah... que queria ver algumas pessoas nas manchetes deste projeto que "homenageia" aqueles que foram capazes de contribuir com o aprimoramento da raça humana livrando-se de si mesmos.
sim: santo mau-humor, batman.
ele come comida do lixo, pega bitucas de cigarro no chão e jamais, nunca mesmo, toma banho. barba comprida, com o bigode misturado, não se sabe onde começa o cabelo e termina a barba. a cor é curiosa, algo entre preto e branco, passando por todos os tons possíveis, um gradiente de sujeira e pele. histórias devem estar estampadas naquele corpo, cabelo, cheiro, gosto e hálito. ele não aceita comida fresca. ele não aceita água limpa. ele não quer dinheiro, nem esmola e nem cortesia. ele vive como um bicho, remexe o lixo e caminha pelas ruas há anos, descalço.
de certa forma o invejo: ele é, de fato, livre.
basilisco
o que apavora você? a mim, é a cobra. os dentes que machucam, o corpo que envolve, o veneno que mata ou paralisa.
tive um sonho: uma cobra grande e negra, rajada de dourado, apareceu. não me ameaçou, mas eu (apavorada) tentei subjugá-la. eu não a venci, ela era forte, apenas consegui segurá-la e a impedi de me matar. pedi ajuda e não fui ajudada. ninguém ligou para a cobra nas minhas mãos, as pessoas olhavam pra ela como se fosse uma borboleta. e para mim, ela era o próprio mal, encarnado em corpo e escamas. queria me livrar dela. fui mordida, meu corpo sentiu o veneno, mas não morri. acordei antes de matá-la, ou dela me matar.
será que ela teria me mordido se eu não a tivesse atacado antes?

surpresa de olhos fechados
maçã-do-amor, chocolate quente
e uma canção de ninar.
cavei, cavei, cavei. não achei o que procurava, mas achei muita coisa esquisita. destruí o quintal da casa alheia, completamente. o que a gente não faz por amor?
tem um rapaz de olhos azuis que sempre usa a camisa combinando. acho bonito, mas penso em como os contrastes também são doces. bem que ele podia um dia se rebelar e usar rosa ou verde. nesse dia, seria como uma flor desabrochando em pleno inverno, a surpresa e a beleza recompensando a gente que fica aqui só olhando.
matemática e inadimplência
se eu sofro antecipado, aquele sofrimento do futuro não acontece ou estou na verdade sofrendo em dobro? eu quero ser só feliz, sempre e muito. quero negociar o sofrimento, se ele for mesmo necessário, em parcelas suaves, bem suaves. devo, não pago e nego enquanto puder.
penélope
eu tinha uma história pra contar, de uma moça que ama, que chora mais do que há lágrimas, que se sente mais bonita nua que vestida, que adora um homem como a um deus, que só lembra das coisas boas, que pensa em coisas ruins que nem são (e talvez não serão), que garimpa amigos verdadeiros, que oferece mais do que tem, que cobra muito, que se cobra mais ainda, que ama bichos e que quando criança queria ser patinadora, que engordou e emagreceu e tem estrias, briga à toa e se arrepende, que fala muito, que sonha em ser mais bonita do que é, que se gosta mas fica insegura quando o cabelo tá esquisito, que foi muito consumista e hoje é só consumista, que adora viajar mas gosta mais ainda de voltar, que fica tímida quando alguém a acaricia sem dizer nada (mas se esquenta por dentro), que gosta de frutas e bossa-nova, que aprendeu a gozar de jeitos diferentes com o mesmo homem (e sempre se espanta com isso).
na verdade não sou eu: ela é que tem histórias pra contar, mas sempre esquece e vive as histórias, um tico por dia, e não divide com ninguém.
egoísta!
To see a World in a Grain of Sand
And a Heaven in a Wild Flower,
Hold Infinity in the palm of your hand
And Eternity in an hour.
(William Blake)

Às vezes - o destino não se esquece -
as grades estão abertas,
as almas estão despertas:
às vezes,
quando quanda,
quando à hora,
quando os deuses,
de repente
- entes -
a gente
se encontra.
(Guimarães Rosa)
dedicado a você
não sofre mais não, sim? olha a estrada, tem flores aqui, é, essa branquinha de miolo amarelo que você tanto gosta. dá vontade de comer, não dá? é, dá. e aquele cachorrinho que lambe a mão da gente (e esquecemos de lavar pra almoçar, e não faz mal nenhum), ele tá ali também, olha! e tem aquele cara mais doce que primeiro beijo, que te sorri quando você menos espera e pega você no colo e diz "você é linda". tem também a rua que você vê todo dia e é bonita, cheia de árvores. ah, esqueci da casa que você mora, do sol que bate (incomodamente) na janela todo dia mas que no fundo você gosta, porque é mais um dia que chegou e você tá aqui, resmungando um bom dia quase bom. o guaraná que a gente pede e demora, o café que você detesta e as conversas intermináveis. os temas que se repetem (mas mudam, perceba que mudam sutilmente) e as alegrias continuadas, pequenas e grandes, que te fazem sorrir mesmo quando chove e não tem 2 reais pro ônibus. tem as festas e álcool e drogas e bobagens alucinógenas mais que qualquer química. tem as fofocas inócuas que fazem chorar de tanto rir, bolinhos fritos na hora e a gula interminável dos amigos. tem também o amor de longe, de perto, os telefonemas e as letrinhas e as visitas fora de hora ou na hora certa, luzes vermelhas e xampus cheirosos. e tem os inimigos em comum, aqueles do bonequinho de vodu, que matamos um pouquinho por dia de tanto espetar as agulhinhas na sola do pé *tic tic tic*
e tem uma amiga onipresente e doida, esperneando e chorando e reclamando e apelando e querendo morrer e querendo matar por você. ela às vezes chega com flores e às vezes com cactus, mas você sempre pega e olha com aquele olhar oblíquo de quem tudo sabe. ei, curupira, a vida te mandou um beijo, e eu vim dá-lo. smack.



pantalaimon
dizem que há um mundo
no qual uma flor escarlate se transforma em bocal
e chamamos ajuda do céu
na forma de uma linda mulher que voa e tem
braços muito brancos.
ainda lá, as pessoas têm
animais que são um pouco delas mesmas
e jamais nos sentimos sós.
eu queria um furão branco, de olhos vermelhos
pra me aconselhar e dormir no meu colo
à noite.
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