« dezembro 2002 | Main | fevereiro 2003 »

janeiro 2003 Archives

janeiro 7, 2003

(sem título)

porque hoje ainda é hoje

compartimentos arrumados
céu azul enquadrado
música
água fresca no copo de vidro, alto
lambidas
beijos, beijos, beijos
doces-azedos
areia branca
vento que canta
abraço, com mãos na nuca
langor
preguiça
sabor
domingo de manhã
creme nas pernas
cheiro de gente
madeira
cebola e alho
amor
saudade
pau, buceta
cu e muita saliva.

(sem título)

diet
-- Só uso maionese light, 50% a menos de calorias...
-- Sei. E infinito dividido por dois é quanto, hein?!
--- ...

(sem título)

2003

é, só eu sei quanto amor eu guardei
sem saber que era só pra você

é, só tinha de ser com você
havia de ser pra você
senão era mais uma dor
senão não seria o amor
aquele que o mundo não vê
o amor que chegou para dar
o que ninguém deu pra você

é, você que é feito de azul
me deixa morar nesse azul
me deixa encontrar minha paz
você que é bonito demais
se ao menos pudesse saber

que eu sempre fui só de você
você sempre foi só de mim

eu sempre fui só (de você)
você sempre foi só (de mim)

(sem título)

SIM

devagar abri os olhos
e o azul do céu, tão intenso
me fez sorrir
por entre restos de lágrimas

lembranças
dias ruins, palavras cuspidas?
não quero mais
fecho os olhos da alma, esqueço;
nãos são pequenas mortes,
não são?

dou lustro ao que é doce
e azul, ao que é sopro.

respiro seu hálito
escuto seu coração
esfrego pele com pele
e digo sim
ecoando meu corpo
que me lembra que afinal
estou viva.

pra eles, com amor. e pra você, que me ensinou a dizer mais sims que nãos.

(sem título)

azul, por miró

janeiro 13, 2003

(sem título)

você é assim
um sonho pra mim
e quando eu não te vejo
eu penso em você
vejo o amanhecer
até quando eu me deito

eu gosto de você
e gosto de ficar com você
meu riso é tão feliz contigo
meu melhor amigo é o meu amor

e a gente canta
e a gente dança
a gente não se cansa
de ser criança
a gente brinca
na nossa velha infância

seus olhos meu clarão
me guiam dentro da escuridão
seus pés me abrem o caminho
eu sigo e nunca me sinto só

você é assim
um sonho pra mim
quero te encher de beijos
eu penso em você
vejo o amanhecer
até quando eu me deito.

(sem título)

a vida com trilha sonora

lá fora um calor insuportável, aqui dentro gelado (pra quê mentir, fingir que perdoou) e a poeira vermelha parece névoa no fim de tarde. lusco-fusco (tentar ficar amigos sem rancor) como dizem às vezes -- cada vez menos -- e aquele céu azul que não é de dia nem de noite, os vagalumes começam a aparecer (a emoção acabou, que coincidência é o amor). pirilampos. (a nossa música nunca mais tocou). pirilampo é mais bonito que vagalume, e eles aparecem e desaparecem, eu queria mostrá-los pra você. a luz diminui, vermelho no chão, rosa no horizonte e o céu escurecendo em faixas (pra quê usar de tanta educação pra destilar terceiras intenções?) um aperto no peito, lágrimas insistentes sem motivo à altura do cenário (desperdiçando meu mel, devagarzinho, flor em flor), culpa por sentir medo e saudade (entre os meus inimigos, beija-flor). "eu protegi teu nome por amor..." (eu protegi teu nome por amor) vou cantando sem perceber, enquanto o verde passa do lado, vejo o mundo mudar de cor, meus pensamentos que não permito sequer nomear (em um codinome, beija-flor) porque nomes têm poder. (não responda nunca meu amor, nunca, a qualquer um na rua) anseio por seu nome escrito e falado, pois tudo lembra você (beija-flor). descubro que há mundos paralelos, sim: aqueles que não me pertencem; vidas que vivem sem nos pedir licença (e só eu que podia) e são felizes sem nosso consentimento e participação (dentro da tua orelha fria). as felicidades que não causo me machucam (dizer segredos de liquidificador), quero ser onipresente na alegria, exterminadora das tristezas, eva. sonhava acordada (você sonhava acordada) porque nem as cores únicas e os cheiros e gentes desse mundo real me faziam sentir viva (um jeito de não sentir dor), sorria engolindo as lágrimas (prendia o choro e aguava o bom do amor), vivia pela metade. "prendia o choro e aguava..."

por que eu nunca entendo o que ele diz no fim?

janeiro 14, 2003

(sem título)

cotidiano

mulher, ex-mulher, cunhada, cunhado, amigos toscos, inimigos não declarados, filhos mal-educados, TV de domingo, barrigas proeminentes, peitos caidinhos, alfinetadas, telefonemas escondidos, grosserias disfarçadas, mediocridade, fodas corretas, arroz empapado, ex-namorados em fotos cafonas, dry martini, baladas pseudo-modernas, livros lidos pela metade, papel higiênico sujo e mal dobrado, modess usado e aberto, pasta de dente na pia, pentelho no sabonete, recados de má vontade, contas atrasadas, conta negativa, tomate podre na geladeira, roupa suja, cama desfeita, ônibus lotado, trânsito, chefe chato, colegas de trabalho falando alto, telefone tocando o dia todo, cabelo ruim, espinhas, bolha no pé, unha quebrada, trabalho atrasado, azia, café frio, vizinho chato, parente inconveniente, traição, mentira, esquecimento, desprezo.

luz do dia, sorrisos, água fresca, xampu, cabelo despenteado, roupas limpas, edredon, janelas abertas, pessoas correndo, céu de qualquer cor, vento, folhas verdes, flores coloridas, simpatia, bom-dia, boa-tarde, boa-noite, oi e tchau, abraços, boas notícias, vozes conhecidas, pé descalço, esmalte colorido, amigos, saudade, salário, arroz e feijão, café com leite, chocolate, crianças rindo, sol, chuva, mãe e pai, carta de longe, caligrafia conhecida, presentes, flores, amarula, música, imaginação, sonhos, liberdade, caminhada, compras, doces, salgados, festa, táxi, formigas carregando folhas, cinema e pipoca, histórias, magia, poesia, chaves que encaixam, degraus macios, bife malpassado, alface fresca, limonada, calor, línguas, cheiros, lembranças.

(sem título)

muita saudade

faz um ano

(sem título)

amiga

florença no fim da tarde

janeiro 15, 2003

(sem título)

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

(leminski)

janeiro 16, 2003

(sem título)

O melhor lugar do mundo é aqui e agora
O melhor lugar do mundo é aqui e agora
Aqui, onde indefinido, agora, que é quase quando
Quando ser leve ou pesado deixa de fazer sentido
Aqui, onde o olho mira, agora, que o ouvido escuta
O tempo, que a voz não fala mas que o coração tributa
O melhor lugar do mundo é aqui e agora
O melhor lugar do mundo é aqui e agora
Aqui, onde a cor é clara, agora, que é tudo escuro
Viver em Guadalajara dentro de um figo maduro
Aqui, longe, em Nova Deli, agora, sete, oito ou nove
Sentir é questão de pele, amor é tudo que move
O melhor lugar do mundo é aqui e agora
O melhor lugar do mundo é aqui e agora
Aqui perto passa um rio, agora eu vi um lagarto
Morrer deve ser tão frio quanto na hora do parto
Aqui, fora de perigo, agora, dentro de instantes
Depois de tudo que eu digo muito embora muito antes
O melhor lugar do mundo é aqui e agora
O melhor lugar do mundo é aqui e agora

(Aqui e Agora, Gilberto Gil)

(sem título)

sabor

ah, menina, o que eu queria dizer não se diz. eu diria do seu cheiro e de como de alguma forma ele me toca, como mãos. diria também desses olhos, os verdadeiros olhos de ressaca -- que (confesso) não entendia quando conheci capitu -- que dá vontade de beijar. como se beijam olhos? ah, diria do seu jeito de se mover, de sentar e levantar e sorrir, que eu não canso de observar: a vida em você me aquece e provoca. seus peitos de mulher me enfrentam, minha igual, irmã, amiga. diria do misto de doçura e urgência, silêncios com promessas, sorrisos. língua e colo, rosa-chá. mel e limão, gengibre e laranja, chuva e maresia, suspiro.

sou pimenta e sal, pitanga, carmim.
colo, peito, sussurro, sorriso e diversão.
confusão de sentidos, paixão de nuvens e de sol.
fúria.

vem cá, vem?

(sem título)

klimt

janeiro 17, 2003

(sem título)

batidas na porta da frente: é o tempo
eu bebo um pouquinho pra ter argumento
mas fico sem jeito, calado, ele ri
ele zomba de quanto eu chorei
porque sabe passar
e eu não sei

num dia azul de verão sinto vento
há folhas no meu coração: é o tempo
recordo um amor que eu perdi, ele ri
diz que somos iguais, se eu notei
pois não sabe ficar
e eu também não sei

e gira em volta de mim
sussurra que apaga os caminhos
que amores terminam no escuro
sozinhos

respondo que se ele aprisiona, eu liberto
que ele adormece as paixões e eu desperto
e o tempo se vai com inveja de mim
me vigia querendo aprender
como eu morro de amor
pra tentar reviver

no fundo é uma eterna criança
que não soube amadurecer
eu posso, ele não vai poder
me esquecer.

(resposta ao tempo)

(sem título)

propaganda enganosa

a mulher mais bonita do mundo nua

janeiro 20, 2003

(sem título)

bolacha ou biscoito?

a curiosidade matou as gatas.

(sem título)

manga e estrela

o cheiro precede as flores, e antes de sabê-las eu as sinto. andando pelas ruas cinzas da cidade eu vez em quando fecho os olhos e sorrio de leve, cheirando minhas flores velhas conhecidas, volto aos tempos de 5 anos de idade, quando descobri o prazer e os jasmins.

havia o jasmim-manga, numa árvore belíssima, parecia uma escultura: os galhos compridos e estriados, as folhas perfeitas só nas pontas dos galhos e as flores quase comestíveis, suculentas, brancas bronzeadas. sempre achei que o jasmim-manga tem flores bronzeadas, num tom de dourado leve que pode também ser de onde vem esse cheiro de sol, que dá vontade de espirrar tanto quanto olhar diretamente pro céu num dia claro. jamais consegui passar pelo jardim sem fechar os olhos e deixar o jasmim me preencher e abraçar, uma carícia.

o jasmim-estrela é doce, delicado, quase especiaria. suas flores são sutis, pétalas mais brancas que a neve (pensava eu, que só veria neve muitos anos depois), talvez por isso o nome de estrela. mas não. acho que estrela vem da forma da flor se abrir com as pétalas bem esticadas em pontas, fugindo do centro como luz, os pestilos mínimos lembrando cócegas. muitas flores juntas, alegres numa multidão de luz e cheiro. o jasmim-estrela ilumina os sentidos, sinto ganas de correr e abraçar todas as flores, dizer a elas que me fazem feliz, agradecer. elas sorriem, eu juro, todas juntas. na verdade é mais que um sorriso, é um risinho de sinos, guizos em forma de cheiro. queria bebê-las e prender a alegria delas em mim.

flores têm personalidade, assim como as pessoas. sou uma mulher-jasmim.

janeiro 21, 2003

(sem título)

Que roupa você veste, que anéis?
Por quem você se troca?
Que bicho feroz são seus cabelos
Que à noite você solta?
De que é que você brinca?
Que horas você volta?

Seu beijo nos meus olhos, seus pés
Que o chão sequer não tocam
A seda a roçar no quarto escuro
E a réstia sob a porta
Onde é que você some?
Que horas você volta?

Quem é essa voz?
Que assombração
Seu corpo carrega?
Terá um capuz?
Será o ladrão?
Que horas você chega?

Me sopre novamente as canções
Com que você me engana
Que blusa você, com o seu cheiro
Deixou na minha cama?
Você, quando não dorme
Quem é que você chama?

Pra quem você tem olhos azuis
E com as manhãs remoça
E à noite, pra quem
Você é uma luz
Debaixo da porta?
No sonho de quem
Você vai e vem
Com os cabelos
Que você solta?
Que horas, me diga que horas, me diga
Que horas você volta?

=)

janeiro 22, 2003

(sem título)

sonho de uma noite de verão

seu cheiro e sua saliva ainda estão em mim. fecho os olhos e vejo de novo sua boca entreaberta me provocando. ah, eu via sua língua rosa brilhando, molhada. quando finalmente senti seu gosto, com os olhos fechados vi cores, suspirei porque não tinha palavras. suas mãos eram firmes, pareciam conhecer meu corpo há muito tempo. minhas mãos se perderam na sua maciez, clara como uma manhã de inverno, aquelas dias que amanhecem brancos e frescos. seus olhos não cansavam da minha boca, e quando encontravam os meus eu via desejo, desejo escuro, nublado, como deve ser. vontade de abandono e controle, vontade de criar e destruir com minhas próprias mãos. não havia lá fora, luz, som ou outro. éramos todos os sentidos: os nossos.

quis ficar nua, vestir só minha pele, sem exibição ou prontidão para o sexo. queria ser completamente eu mesma, pra você.

(sem título)

Demora-te sobre minha hora.
Antes de me tomar, demora.
Que tu me percorras cuidadosa, etérea
Que eu te conheça lícita, terrena

Duas fortes mulheres
Na sua dura hora.

Que me tomes sem pena
Mas voluptuosa, eterna
Como as fêmeas da Terra.

E a ti, te conhecendo
Que eu me faça carne
E posse
Como fazem os homens.
(Hilda Hilst em Da morte, Odes mínimas)

(sem título)

monet, ninféias

janeiro 24, 2003

(sem título)

essa sou eu :)

(sem título)

outras palavras

Nada dessa cica de palavra triste em mim na boca
Travo, trava mãe e papai alma buena dicha loca
Neca desse sono de nunca jamais nem never more
Sim dizer que sim pra Cilu pra Dedé pra Dádi e Dó
Crista do desejo o destino deslinda-se em beleza
Outras palavras, outras palavras

Tudo seu azul tudo céu tudo azul e furta-cor
Tudo meu amor tudo mel tudo amor e ouro e sol
Na televisão na palavra no átimo no chão
Quero essa mulher solamente pra mim mas muito mais
Rima pra que faz tanto mas tudo dor amor e gozo
Outras palavras, outras palavras

Nem vem que não tem vem que tem coração tamanho trem
Como na palavra palavra a palavra estou em mim
E fora de mim quando você parece que não dá
Você que diz em silêncio o que eu não desejo ouvir
Tem me feito muito infeliz mas agora minha filha
Outras palavras, outras palavras

Quase João Gil Ben muito bem mas barroco como eu
Cérebro maquina palavras sentidos corações
Hiperestesia Buarque voila tu sais de cor
Tinjo-me romântico mas sou vadio computador
Só que sofri tanto que grita porém daqui pra frente
Outras palavras, outras palavras

Parafins gatins alphaluz sexonhei la guerrapaz
Ouraxé palávoras driz oké cris expacial
Projetinho imanso ciumortevida vidavid
Lambetelho frúturo orgasmaravalha-me Logun
Homenina nel paraís de felicidadania

Outras palavras, outras palavras.

(sem título)

rio de janeiro

conheci o rio aos 18 anos, quando ainda não conhecia outros lugares nesse mundo. cheguei sem nenhuma prevenção, e descobri que já conhecia a cidade nos meus sonhos. já passara pelo porto, tive uma sensação forte de deja vu, senti-me em casa. fiquei na tijuca em dezembro, um calor infernal. comecei ali minha vida adulta, no calor e nos cinemas da estação botafogo. vi delicatessen, conheci a cidade dos gatos, comi no cervantes, vi pela primeira vez o pão de açúcar e meus olhos ainda hoje se enchem d'água ao lembrar da sensação de espanto e deslumbramento. e o pão de açúcar o menos óbvio possível à minha frente / o pão de açúcar com suas arestas insuspeitadas. jamais vou esquecer a sensação de maravilha daqueles dias.

estou sempre atenta para ser eternamente estrangeira no rio de janeiro, pra que todas as visitas sejam sublimes, pra que nunca me acostume com o esplendor do pão de açúcar, com a beleza da areia branca e do mar verde-azul, pra que olhe sempre para o corcovado como se fosse a primeira vez. na verdade, é sempre a primeira vez pra mim, meus olhos se enchem d'água e eu disfarço -- menos por vergonha e mais para viver esse momento de contemplação de beleza forma pessoal e quase religiosa.

esta semana voltei a essa cidade linda, às pressas, a trabalho. conheci pessoas maravilhosas no decorrer destes anos todos que freqüento o rio, mas o fato é que esta viagem foi especial. foi um dia de muita chuva e raios e outro dia de brilho e cor. fui recebida de braços e corações abertos, e se cheguei com sorrisos ao rio, voltei pra são paulo radiante. nunca vou esquecer essa semana, esses dois dias. tive prazeres pequenos e grandes, revi amigos, recebi e dei abraços e amor.

em um dia, apreciei a chuva, os risos e uma sensibilidade espantosa. aprendi coisas, sorrio por dentro e por fora, obrigada, amiga e amigos.

no outro, reencontrei mulheres belas, brilhantes, poderosas. há tanta vida em vocês, tanta experiência, amor, que eu me sinto pequena pra receber tudo. devolvo todo meu amor e carinho, o que há de mais doce em mim. vocês são lindas, somos mulheres-luz.

e não: eu não comi o brownie da cora, é tudo intriga da joyce e da clau :)

(sem título)

mistérios gozozos

de onde vem tanta cor? o dia cinza amanheceu feito um arco-íris.

(sem título)

rapte-me camaleoa / adapte-me a uma cama boa / capte-me uma mensagem à-toa
de um quasar pulsando loa / interestelar canoa
leitos perfeitos / seus peitos direitos me olham assim
fino menino me inclino pro lado do sim
rapte-me, adapte-me, capte-me
it’s up to me / coração
ser querer ser merecer ser um camaleão
rapte-me camaleoa / adapte-me ao seu / ne me quitte pas

*

camaleoa

já nasceu mulher, mas quanto mais cresciam seus peitos, quanto mais seu sexo aflorava, mais fugia da fêmea cheirosa, doce.
acordou, está cada dia mais perto, mas... anda devagar, menina.
pé ante pé, pra não se perder de si mesma enquanto presta atenção ao caminho.

(sem título)

janeiro 27, 2003

(sem título)

arca de noé

o friozinho na barriga se confundiu com a noite chuvosa, não sabia mais se era ansiedade ou simplesmente os pingos de chuva molhando o cabelo. as ruas de asfalto brilham como espelhos, cada carro que passa faz aquele barulho gostoso de pneu na água, vooosshhh. sente-se observada, consciente do próprio corpo, sentidos alerta, coração levemente disparado. não é medo, é antecipação, aquele prazer anterior ao prazer, uma leve adrenalina temperando os minutos de espera. a chuvinha leve e o vento deixam o cabelo ainda mais bagunçado, um pássaro exótico com coração de leoa, menina-mulher. sorrindo por dentro, um gosto doce na boca (desejo puro, sonho), sobe, sobe e chega brincando de beija-flor. a cor da noite, o barulho abafado, aquela chuva espelhando a cidade toda deu vontade de voar, de rir sem motivo. "ele mora numa torre", pensava sorrindo para a cidade-espelho. ele bagunçou ainda mais seu cabelo com mãos firmes, sem saber que ela é pássaro que oscila entre o debate e a entrega. nas suas mãos, ela se mostra mulher-bicho: colibri, enguia, gata, corça, cadela, girafa, gazela, leoa. ele brinca com todo o zoo, tranquilo e firme; alisa a gata, acalma a corça, domina a leoa. ela se entrega, ele explora.

de súbito, como numa paródia de história fantástica (já que havia a chuva e os bichos), veio a água. uma inundação escorrendo sem controle, água por todos os lados, tomando o espaço. a água lavou pés, mãos, o chão e as paredes. ela ria feliz, chapinhando, porque a cachoeira que escorreu (e ela foi razoável) levou muito mais que sujeira e pó dos cantos. a água levou tudo o que ela não queria mais, levou o resto de medo, de pudor, os incômodos da vida. ele olhava perplexo a moça no seu estado mais natural: pés molhados no meio da água, rindo feliz. ela não é mais bicho, é só mulher em paz; ele está tranquilo em meio ao caos e ambos se reconhecem, finalmente. da madrugada, sobraram a água insistente e os dois molhados, sorrindo dos mistérios da vida.

janeiro 28, 2003

(sem título)

essa é pra tocar no rádio

sim, agora eu quero de fato brincar de ser pop.

(sem título)

nada tem nexo
tudo é apenas
um reflexo.

millôr fernandes

(sem título)

Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa

Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.

(Elogio do pecado, Bruna Lombardi)

janeiro 29, 2003

(sem título)

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto do saberes
que o alimento deles já estava em ti...

(Mario Quintana)

janeiro 30, 2003

(sem título)

pincéis

o espelho não mente, ele abre portas. quem é aquela, essa pintinha na orelha já estava aí, meu deus? acho que encontrei uma ruga, ela não estava aqui da última vez. mas enfim, essa aí não sou eu. estou certa de que ela não é a que vêem e nem é a que eu sou. aquela da foto, então, só deus sabe quem é. a cada foto é uma, camaleoa temperamental. um tom de vermelho e outro de marrom, pretos, lápis, tintas e brilhos. pra quê? essa não sou eu, não sou. olho de soslaio, que luz incômoda, aparecem todos os poros, que horror. por que as mulheres de anúncio sempre são perfeitas? por que essa aqui insiste em ser humana ou pior: outra? sem querer o lápis faz cócegas no lábio e rio, sem querer, borrando de vermelho e de repente... ah, sim, essa sou eu. sorrio pra mim, aliviada.

(sem título)

-- bom dia
-- pois não?
-- eu disse BOM DIA
-- e eu disse POIS NÃO!
-- pois nada, já que nem é bom nem é dia, pois é não, mesmo. e passe bem.
-- (passou de meio-dia, oras. gente louca...)

(sem título)

magritte

janeiro 31, 2003

(sem título)

beijo

sim, alegria! receber todos os beijos da vida, alegrias pequenas e breves. abraços de olhos fechados, beijos doces e beijos lascivos, letras sem emoção e cheias de intenção, olhos cheios de lágrimas e emoção. cheiro de vida e as cores todas. sabores, sonhos, aproveitar todos eles.

mas não de uma vez. como um doce tão bom que não queremos que acabe nunca, saborear às colheradas, com colherzinha de café. a cada pequena porção, um suspiro e um gemido, tão baixos que só se escuta de dentro. os mamilos arrepiam de prazer, aparece um quase sorriso. mãos bagunçando os cabelos e beijos no pescoço, de leve.

ah, obrigada, vida, pelos pequenos prazeres. obrigada.

About janeiro 2003

This page contains all entries posted to zel v3.4 in janeiro 2003. They are listed from oldest to newest.

dezembro 2002 is the previous archive.

fevereiro 2003 is the next archive.

Many more can be found on the main index page or by looking through the archives.

Powered by
Movable Type 3.33