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fevereiro 2003 Archives

fevereiro 3, 2003

(sem título)

Peixes é surreal

Em geral, as análises de Peixes pecam por excesso de explicação lógica. Entretanto, o seu mundo combina mais com o cinema de Luis Buñuel, com as imagens dos nossos sonhos ou com as metáforas do I-Ching.

Sempre associado à busca do êxtase através das drogas, da religião e da orgia, Peixes trata da experiência humana de dissolução dos limites. Por isso não há signo mais próximo do irracional como este. No mesmo lugar nascem o sonho e o pesadelo. E também os mitos.

Assim como o carnaval, Peixes não tem limites. Por isso acaba sendo o deus da metamorfose, que não tem barreiras para ser o que quer que seja. Dessa forma, ora se veste de herói ora banca a vítima. Num dia tem certeza, noutro está confuso. Ora é delicado a ponto de perder sua vida (1), ora é violento com olhos esbugalhados. É claro que há aqueles que tentam sufocar o que é imprevisto, buscando organizar a vida com uma lógica racional elevada ao cubo. Puro medo de perder a estribeira, de mergulhar no caos.

Andrógino por natureza, Peixes é um trapezista. Um músico, um poeta, um sonhador. Muitas vezes considerando-se um gênio (lembre que ele realmente está mais próximo da imaginação), acaba se esquivando de ver a realidade. É um sabonete em relação ao compromisso. Por isso esquece de pagar as contas. De escrever aquele poema. De compor a próxima canção de sucesso. De assinar o contrato de trabalho.

Por outro lado, cobre quem passa frio. Recolhe aquele indefeso cãozinho. Paga uma bebida ao bêbado. Medica quem está no meio-fio. Acolhe quem precisa de deus. E assim vira um salvador, um cristo, um enfermeiro. É o signo da compaixão porque se vê gravemente ferido. Só quem sofre ouve gemidos. Também é o signo da empatia, o que o faz ser o artista máximo da música.

Amante das anestesias, Peixes passa muito tempo dormindo. Junto com os desvalidos, ao lado do erotismo, abraçado com o sagrado, ajoelhado com o sacrifício. Nunca sabe se o sonho é realidade ou se a realidade é sonho. E quem sabe? Às vezes espera uma solução ou um amante romântico que o conduza às nuvens para sorver aquele vinho tinto.

O escritor Mário Prata, o beatle George Harrison, a atriz Regina Casé, a atriz Elizabeth Taylor, o arquiteto Lúcio Costa, o criador da Teoria da Relatividade – Albert Einstein, o compositor Macalé, o maestro e criador dos sons do Brasil, Heitor Villa-Lobos, são todos piscianos.

Regido por Netuno, o deus da Ilusão, Peixes trata da experiência de se desapegar do que é falso, fluir com aquilo que é música, nadar no encantamento, aceitar o acaso. Em outras palavras, bailar com a vida, que já é suficientemente surreal.

(1)
(...) inútil beleza
a tudo rendida,
por delicadeza
perdi minha vida.

Ah! que venha o instante
que as almas encante.

(Arthur Rimbaud, Canção da mais alta torre. Tradução: Augusto de Campos)

por joão.

(sem título)

Porque
Amor meu, minhas penas, meu delírio,
Aonde quer que vás, irá contigo
Meu corpo, mais que um corpo, irá um'alma,
Sabendo embora ser perdido intento
O de cingir-te forte de tal modo
Que, desde então se misturando as partes,
Resultaria o mais perfeito andrógino
Nunca citado em lendas e cimélios

Amor meu, punhal meu, fera miragem
Consubstanciada em vulto feminino,
Por que não me libertas do teu jugo,
Por que não me convertes em rochedo,

Por que não me eliminas do sistema
Dos humanos prostrados, miseráveis,
Por que preferes doer-me como chaga
E fazer dessa chaga meu prazer?
(Carlos Drummond de Andrade)

(sem título)

Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.

(sem título)

a música

'round midnight, com miles davis.

fevereiro 4, 2003

(sem título)

pandora

amo intensamente e cada vez mais quero o romantismo, o carinho, a delicadeza no dia-a-dia, os pequenos gestos de amor. com o tempo, percebi que negar o romantismo e as demonstrações de carinho era uma defesa. eu tentava proteger o que há em mim de mais doce e delicado. mas descobri a tempo: quero flores e beijos, colo e palavras doces, sim.

no entanto, quando se trata de sexo, há outra dimensão: não é possível "fazer amor" comigo. é possível me dizer palavras doces e trazer flores, mas quando meu corpo é tocado ou minha boca é beijada, algo em mim se liberta, como um bicho faminto. minha boca tem sede de mais saliva e pele, meu corpo não suporta a roupa que o cobre, não sou mais mulher, sou fêmea. minhas mãos agarram cabelos; desesperadas, procuram brechas para tocar pele nua. é uma tal ânsia que mal controlo minha respiração -- suspiro mais que respiro -- a boca fica entreaberta e os olhos nublados. respiro o calor e o delicioso cheiro de pele, fecho os olhos para beber melhor. meus peitos querem sempre chegar mais perto, e quando há mãos que descem pelas costas, sinto um arrepio de morte. balbucio quase-palavras, não sou mais eu, sou a fera, só instinto: olfato, paladar, tato, audição; minha visão se resume às cores do meu mundo interior em transe.

penso que jamais serei capaz de emular cenas tórridas e plásticas de cinema, com protagonistas em pé. minhas pernas fraquejam tanto quanto minha respiração/suspiração, preciso me recostar, me estender. a fera quer rasgar roupas e bagunçar cabelos, morder, arranhar, esfregar-se em cada centímetro de pele, escorregar no suor e na saliva, lamber preguiçosamente e sentir o sal e os cheiros de outro ser vivo, salivando cada vez mais faminta. o corpo fica mais sensível e ao mesmo tempo pede mais força, firmeza, quase violência. bons domadores me tocam com doçura nos momentos mais tensos, mas sabem (ou deviam saber) que só adiam o furacão que ganha ainda mais força. minha urgência se vê, se ouve, se sente, é tempestade se formando em nuvens pesadas de água.

não adianta me chamar pelo nome, dizer palavras doces ou pedir calma. não, não tenho calma nem sou dócil e quase não sou mais eu. ah, jamais fui capaz de repetir as cenas mágicas de sexo-amor dos filmes (será pura ficção?): o ritmo lento e sensual do início, olhos nos olhos, um crescendo que se encaminha para o esperado final silencioso, culminando com sorrisos e beijos doces, no ritmo da trilha sonora. meu sexo é atonal, desrítmico, fora de compasso e de eixo. não há trilha sonora possível para o que é urgente e furioso, há ausência de palavras pronunciadas, toda minha razão e consciência abrindo espaço para os sentidos, meu corpo inteiro é que diz: sou sua!

não sei bem quem é essa, essa outra. ela tem seu próprio espaço, sua própria voz. eu a deixo livre e ela me alimenta de prazer puro, de alegria. sei que sorrio e me espreguiço quando a fera se acalma, acho graça do espanto e/ou reverência que essa manifestação explosiva da natureza inevitavelmente provoca. me sinto poderosa, veículo de algo divino libertado nesse mundo maravilhoso.

(sem título)

Sexualidade

Eu sou heterossexual
sou roxo.
Eu sou homossexual
sou cor de rosa.
Eu sou bissexual
sou violeta neon.
Eu sou trissexual
abro meu leque na mão.
Eu sou quadrissexual
sou amarelo – limão.
Eu sou quinssexual
sou laranja – dourado.
Eu sou seis vezes
a cor do pecado.
Vou mudando de cor
até chegar no estado puro dos tons.
Sou branco virgem
na tonalidade assexuada.

(Cristiane Neder)

(sem título)

intensidade

só os sentimentos ruins me fazem -- às vezes, só às vezes -- repudiar minha intensidade. raiva, ciúme, frustração vêm em ondas, tsunamis, vagalhões capazes de destruir rochas, cidades, civilizações inteiras. se só uma pequena parte dos meus ódios chegam ao seu destino, aquele tropeção, arranhão, soluço e incômodo inesperados têm explicação. que ninguém jamais seja exposto diretamente à minha fúria sem barreiras, jamais. tenho medo das conseqüências. não provoque.

inversamente proporcional é meu amor e poder de construção e vida. sou plena de energia criadora, ofereço quantidade ilimitada de sonho e luz. sou mãe, mulher, amante, menina, sacerdotisa, oráculo, sempre há beijos e palavras doces na minha boca, sempre mãos leves para as carícias, um riso fácil e uma história fabulosa. um pensamento iluminado meu leva sorrisos sem explicação, ou dá aquela sensação de brisa morna que nos faz sentir abraçados. abra-se pra mim.

fevereiro 5, 2003

(sem título)

o inferno astral se aproxima...

O erotismo será sempre importante numa relação com os piscianos, desde que preservem o romantismo e a suavidade delicada do amor. Muito sensuais, desde cedo eles sentem prazer em beijar, abraçar e tocar as pessoas, com a mais pura naturalidade, desprovida de malícia. O contato físico é visto com tanta naturalidade, que na adolescência precisará ficar atento para não se entregar totalmente, sem limites ou precauções. A descoberta da sexualidade sempre estará envolvida com o amor verdadeiro, não admitindo ligações íntimas sem um envolvimento afetivo.

Carinhos com a ponta dos dedos fazem os piscianos estremecerem, como se estivessem saindo do plano irreal em que estão e incorporando o mundo físico. Isto os faz sentir o prazer de ter um corpo e curtir o mundo da matéria. Por isso adoram as preliminares mais do que qualquer outro signo, e vão procurar prolongar ao máximo esse momento. Durante a relação sexual vão querer aproveitar cada instante, e também prolongá-lo. É... você vai precisar de um bom reservar um bom tempo para curtir o mundo da matéria com um Peixes. Como ele sempre está num outro mundo, quando incorpora, se lambuza.

(sem título)

roubei. perdoa?

fevereiro 6, 2003

(sem título)

Someone to hold me tight
that would be very nice
Someone to love me right
That would be very nice
Someone to understand each little dream in me
Someone to take my hand to be a team with me

So nice
Life would be so nice if one day i find
Someone who would take my hand and samba through life with me

Someone to cling to me
Stay with me right or wrong
Someone to sing to me some little samba song
Someone to take my heart then give his heart to me
Someone who's ready to give love a start with me

Oh yes, that would be so nice
I can see you and me: that would be nice
Should it be you and me
I can see it would be nice

**

a vida tem trilha sonora aqui dentro da minha cabeça. cada situação me lembra uma música, eu ouço tocar no volume exato, no trecho certo, como um filme bem editado. misturo todos os sentidos, freqüentemente: um sabor me lembra uma cor, que me lembra uma música, que me lembra um cheiro que me lembra alguém, que me lembra um local, que me lembra uma época, que me lembra uma sensação que me lembra um gosto.

bossa nova me lembra rio de janeiro e seus dourados-quentes; jazz me lembra são paulo, nova iorque e frio de são josé dos campos no inverno, com aquele pôr-de-sol sensacional; samba me lembra casa, família e domingo; música brega me lembra sábado de manhã e cândida, esfregando banheiro; música erudita me lembra universidade e pó; piazzolla me lembra tesão; alecrim me lembra religiosidade e comida; mozart me lembra dé (e joão bosco também); sons de videogame me lembram mig; cebola e alho me lembram minha mãe; cheiro de madeira recém-cortada lembra meu pai; lama (o cheiro, a cor, a consistência) lembra meus irmãos; cachorros lembram a vida toda; gatos lembram minha avó; pimenta lembra nordeste; melancia lembra gravidez; fogueira lembra amigos; natal lembra patins e tender; champagne me lembra marcelo; grama cortada me lembra férias; (e vou mudar a associação) férias me lembra manga; manga me lembra estrada com curvas, que me lembra costa amalfitana, que me lembra queijo, que me lembra vinho que me lembra fá, que me lembra férias.

e paro por aqui porque gosto dessa brincadeira e ficaria dias incluindo elos dessa corrente.

lembranças são tesouros.

fevereiro 7, 2003

(sem título)

jardim das delícias

muito, muito prazer.

(sem título)

listas inúteis

cem anos de solidão (g.g.marques)
memórias póstumas de brás cubas (m. de assis)
laços de família (c. lispector)
timbuktu (p. auster)
grande sertão: veredas (g. rosa)
sandman (completo, em especial "a game of you") (n. gaiman)
poesia reunida (a. prado)
o senhor dos anéis (tolkien)
duna (completo, em especial "os hereges de duna") (f. herbert)
dublinenses (j. joyce)

(sem título)

sonho

(sem título)

OLHA O OLHO DA MENINA
(Ziraldo)

Menina crescia escutando que não adiantava mentir porque Mãe sempre sabia. Mãe dizia que lia na testa da Menina, e que só Mãe sabia ler testa. Menina tentava tapar a testa com a mão na hora de mentir. Mãe achava graça. Muita graça. E continuava lendo assim mesmo. Menina precisava entender como essa coisa misteriosa acontecia. No espelho do banheiro, mentia muito em silêncio. E na testa, nada escrito! ... Aí, Menina descobriu que Mãe também mentia. E que não era testa, era o olho, com um brilho diferente - que entregava a mentira. Menina então tentava fechar o olho com força, para esconder a mentira. Mas nem isso resolvia, pois Mãe sempre adivinhava. Menina tinha era que aprender a fingir de olho aberto, que mentira era verdade. Menina tentou, tentou... e aprendeu. Era essa a solução. Mas de noite, Menina ficava apertada por dentro. Assim, meio sufocada, não podia nem piscar. Com o olho muito aberto, não conseguia dormir. Faltava ar pra Menina. Igual quando a gente fica quase sem respirar rindo de uma cosquinha. Só que não tinha graça. Menina - sem querer - tinha descoberto a Consciência, uma coisa que toma conta da gente mesmo quando Mãe não está lendo testa, nem adivinhando olho. Menina tinha aprendido que ter que fingir doía. E que desse jeito ia ficar muito sem graça ser gente grande. Menina desistiu de crescer. Mas não adiantava. Menina via que agora já estava quase da altura do móvel da sala da vovó. E ficava muito triste, o aperto apertando mais. E de tanto que o aperto apertava, Menina achou que fingir só podia doer tanto porque era dor sozinha. Menina teve uma idéia. E ainda não sabia se era idéia brilhante. Mas sabia - isso sim - que precisava testar, pra conseguir descobrir. A idéia da Menina foi dizer para Mãe que era difícil fingir. Menina achava ruim aprender montes de coisas sem dividir com ninguém. Menina falou para Mãe que era muito complicado e que não era nada bom ter que crescer sozinha. Mãe abraçou muito apertado a Menina. E no colo tão esperado Menina estava sendo mãe da Mãe. Menina sentiu que Mãe estava chorando. E que Mãe ainda não tinha aprendido tudo. Mãe não falava nada, mas uma e outra sabiam naquele abraço apertado que em Mãe também doía ser gente grande sozinha. Nessa hora Menina entendeu tudinho. Descobriu que só carinho é que espanta a solidão. E que a dor, se dividida, fica dor menos doída. E que aí dá até vontade de continuar a crescer pra descobrir o resto das coisas.

(sem título)

cada macaco no seu galho
ou
lições de vida

lição 1: nunca escreva, fale, pense coisas importantes com raiva;
lição 2: mediocridade não é defeito, é característica (e não necessariamente ruim);
lição 3: enxergue-se!
lição 4: enxergue o outro;
lição 5: perceba qual é o seu galho, e vá pro seu.

(post editado, porque a autocrítica é uma conquista árdua)

fevereiro 10, 2003

(sem título)

como representar um divisor de águas? com água, certamente. uma onda que já esteve aqui antes, mas agora é por outro motivo.

é maravilhoso perceber como as coisas mudam. neste caso, pra melhor :)

(sem título)

onda

(sem título)

ela lia, eu rosa

quando adormecia na ilha de Lia, meu Deus, eu só vivia a sonhar
que passava ao largo no barco de Rosa e queria aquela ilha abordar
pra dormir com Lia que via que eu ia sonhar dentro do barco de Rosa
Rosa que se ria e dizia nem coisa com coisa

era uma armadilha de Lia com Rosa com Lia, eu não podia escapar
girava num barco num lago no centro da ilha num moinho do mar
era estar com Rosa nos braços de Lia, era Lia com balanço de Rosa
era tão real, era devaneio
era meio a meio, meio Rosa, meio Lia, meio Rosa, meio-dia, meia-lua, meio Lia, meio

era um partilha de Rosa com Lia com Rosa, eu não podia esperar
na feira do porto, meu corpo minh'alma, meus sonhos vinham negociar
era poesia nos pratos de Rosa, era prosa na balança de Lia
era tão real, era devaneio
era meio a meio, meio Lia, meio Rosa, meio Lia, meia-lua, meio-dia, meio Rosa, meio

na ilha de Lia, de Lia, de Lia
no barco de Rosa, de Rosa, de Rosa

(sem título)

conto marítimo

uma é sólida e quente, silenciosa como as pedras, fatal; a outra é o mar quebrando na praia, murmúrio de conchas e sal, correnteza.

ele sonha e realiza, brinca de prosa e verso, ri dos devaneios mas tem seu porto seguro. viajante, descobre mistérios aqui e ali, adivinha o que se dá nesse elemento do qual ele desfruta, mas não é o seu. prova a doçura e o sal, investiga o sabor na língua, compara. gosta do mar batendo nas pedras, das gotas espirrando no rosto, das pedras brilhando de sal. tem receio do que desconhece e espia, respeitoso.

(sem título)

relaxei...

... e tou gozando há muitos dias seguidos. perdi contas, limites, vergonhas, medos. ultrapassei limites.

tou adorando.

fevereiro 11, 2003

(sem título)

TRY A LITTLE TENDERNESS
(Harry Woods/Jimmy Campbell/Reg Connelly)

Oh she may be weary
Young girls they do got weary
Wearing that same old shabby dress
Yeah yeah yeah
But when she gets weary
Try a little tenderness

Oh yeah, that's all you gotta do

You know she's there waiting
Just anticipating
Things that she'll never, never possess
No no no
But while she's there waiting
Try a little tenderness

It's not just sentimental, no no no no
She has her grief and cares
But the soft words
That are spoke so gently, yeah
It makes it easier, easier to bear

You won't regret it
Young girls they don't forget it
Love is their only happiness
Yeah yeah yeah
Its so so easy
Try a little tenderness
You know what I mean

But the soft words
They are spoken so gently, yeah, yeah
It makes it easier, easier to bear

She may be weary
young girls they do got weary
Wearing that same old shabby dress
Yeah yeah yeah
But when she gets weary
Try a little tenderness

Yeah, a little tenderness
That's all you've gotta do
Listen to me
Try, try, try, try
One time for the last time
A little bit of tenderness
tenderness, tenderness
Ooh, need you, I love you
I want you tonight, love me, baby
A little bit of tenderness

**

escuto essa música e lembro de uma moça muito maravilhosa que me presenteou com um CD da Etta James, no qual tem uma linda versão dela. às vezes aquele nome de livro/peça de teatro, a vida é cheia de som e fúria, faz todo o sentido do mundo. saudade, saudade.

(sem título)

contratempo

um menino de bicicleta numa rua movimentada, carregando água. água em galões, alguns cheios e outros vazios. debaixo de um sol ofuscante ele pedala devagar com pernas compridas de adolescente, batucando preguiçosamente no galão vazio. ele olha do lado, guia com uma mão e batuca um samba improvisado com a outra, de bem com a vida.

eu, que só pensava no calor e caminhava apressada, diminuí meu passo e sorri pra ele -- que nem me viu -- e desandei a andar naquele passo gostoso que acompanha uma cadência, esqueci a pressa e percebi como estava lindo o dia, como era bonito aquele menino de óculos escuros. meu coração mudou de compasso. sincopei.

(sem título)

e pra quem não sabe, sim: eu tenho passado.

(sem título)

Hoje acordei debaixo de mim

e senti o orgasmo do mundo
no corpo dos outros.

(O espírito do sexo, Manuela Amaral)

(sem título)

A maioria das pessoas não presta atenção nessas coisas. Pensam nas palavras como se fossem pedras, grandes objetos imóveis e sem vida, como mônadas que jamais se alteram.
(Paul Auster)

fevereiro 12, 2003

(sem título)

a felicidade é como a pluma
que o vento vai levando pelo ar
voa tão leve, mas tem a vida breve
precisa que haja vento sem parar

chegam brisas leves de todos os pontos cardeais. bocas que sorriem pra mim, provocam, sopram levemente e eu vou ficando feliz, feliz e doce. não é felicidade de conquistar continentes, é felicidade de gatinhos brincando com novelo de lã. é felicidade que faz esquecer aquelas tristezinhas pequenas aqui e ali, que já não doem tanto, não mais.

a vida é balanço de barco, acho que estou aprendendo a navegar :)

(sem título)

milonga del angel

eu queria cantar um trecho de piazzolla, mas a música dele não tem letra, tem cor e movimento. eu preciso de mímica, de fechar os olhos e abrir a boca, de um movimento de cabeça e dos meus músculos escondidos; preciso de tecidos de cores primárias espalhados, escorrendo pelo corpo, de cheiro de framboesa e limão. suor e brilho de neon no quarto escuro, chuva no asfalto e cheiro de vinho tinto.

(sem título)

se você crê em deus
erga as mãos para os céus
e agradeça
quando me cobiçou
sem querer acertou
na cabeça
eu sou sua alma gêmea
sou sua fêmea
seu par, sua irmã
eu sou seu incesto (seu jeito, seu gesto)
sou perfeita porque
igualzinha a você
eu não presto, eu não presto

traiçoeira e vulgar
sou sem nome e sem lar
sou aquela
eu sou filha da rua
eu sou cria da sua
costela
sou bandida
sou solta na vida
e sob medida
pros carinhos seus
meu amigo
se ajeite comigo
e dê graças a deus

se você crê em deus
encaminhe pros céus
uma prece
e agradeça ao senhor
você tem o amor
que merece.

(sob medida, chico buarque)

(sem título)

python

É uma mulher tão envolvente
Que na questão do Paraíso
Há quem suspeite seriamente
Que ela era a mulher e a serpente.

descobri: sou um animal exótico.

(sem título)

fauna diversa

sinto-me um animal exótico, um exótico animal de estimação. me vejo mais ou menos como uma python: causo fascinação e repulsa, dá vontade de tocar mas também dá um certo receio. a pele é curiosa, texturizada, os hábitos são bizarros. animal arredio, mas que se deixa acariciar. de vez em quando morde, mas também se enrosca no seu braço e pescoço, olha com aqueles olhos esquisitos, é faminta de vida e quase selvagem. uma python não é melhor ou pior que os animais comuns. elas são diferentes: têm hábitos estranhos, gostos mais estranhos ainda, são imprevisíveis, não são treináveis, apesar de gostarem do contato. alimentam-se de animais vivos, e se damos a elas comida morta, aos poucos perdem seu brilho, o viço, tornam-se lentas e eventualmente morrem. elas precisam ser acariciadas, provocadas, precisam da caçada para serem o que são, plenamente.

é bom ver uma python ali, dentro do seu habitat, mas nem sempre é divertido tê-la em casa. possuir uma python causa efeito de euforia pela novidade, dá vontade de exibir. mas, aos poucos, pode tornar-se um problema adotar esse animal, se o que se gostaria na verdade é de ter um poodle branco. poodles são fofos, fiéis, dóceis, fazem truques. alimentam-se do que lhes é dado, felizes. estão sempre à disposição do dono e seus hábitos são conhecidos há muito tempo. são animais com os quais todos querem brincar, ninguém tem medo deles. pode-se levar poodles a todos os lugares, inclusive a eventos sociais. as crianças gostam deles, os adultos os acham bonitinhos. eles fazem truques: deitam, rolam, pegam bolas. e à noite, dormem na casinha, ou aos pés do dono. são animais doces e amáveis, tranquilos, previsíveis, e por isso mesmo, extremamente apaixonáveis.

lutei contra minha natureza, tentei (muito capengamente) fazer truques de poodle, sendo python. não tenho patinhas pra dar e nem curto bolinhas correndo. aceitei ratinhos mortos e fui ficando cada vez menos python e cada vez mais poodle-aleijado-incompetente. não mais agradava pelas minhas exoticidades de python, e agradava menos ainda como poodle-capenga.

sou python e pronto. tou caçando ratinhos e me esfregando com minha pele de cobra, deixo os poodles brincarem de bola com seus donos sorridentes.

(sem título)

saudosismo

tem alguém fuçando meu passado... aparece link de tudo que é mês de 2002 do blog do marcelo pra cá, e de outros blogs também. será que isso aqui tá tão sem-graça assim que tem gente revivendo histórias? :)

eu, você, nós dois
já temos um passado, meu amor
um violão guardado, aquela flor
e outras mumunhas mais

eu, você, joão girando na vitrola sem parar
e um mundo dissonante que nós dois
tentamos inventar, tentamos inventar

(a felicidade, a felicidade)

eu, você, depois
quarta-feira de cinzas no país
e as notas dissonantes se integraram
ao som dos imbecis

eu, você, nós dois
já temos um passado meu amor
a bossa, a fossa, a nossa grande dor
como dois quadradões

(lobo lobo bobo, lobo lobo bobo)

ah, como era bom!
mas chega de saudade
a realidade é que aprendemos
com joão pra sempre
a ser desafinados, ser desafinados

(chega de saudade, chega de saudade)

fevereiro 13, 2003

(sem título)

carta para uma menina

menina,

lindo seu email, lindo mesmo. e você tem carinha de menina, doce e querida.

adorei tudo. mas tem coisinhas aí que você podia repensar :) tipo: meninos fazem mal à nossa educação *hahahahhaha* não fazem não, querida. meninos são ótimos, eles nos fazem sentir mais meninas ainda, eles (por não serem o que somos) nos definem e nos complementam. isso não significa que precisemos estar com eles e nem escolher um deles pra viver a vida junto, mas eles são importantes e interessantes, eles nos fazem pensar (e isso por si só já é uma coisa ótima). sobre viver uma história de amor como a minha, pedida em casamento em roma, é maravilhoso, não esqueça nunca disso por favor! viva sim, tenha esperança de viver, você vai viver. mesmo que as histórias acabem, elas sempre valem a pena, são histórias bonitas pra contar, além de serem lindas de viver. nossas vidas são histórias, que a gente conta não só pra relembrar mas também pra doar pro outro um pouco de nós, levar até aquela pessoinha ali na frente um pouco da nossa felicidade (ela se acumula! espero chegar ao fim da vida cheinha dela).

você é uma menina muito sensível, e por isso mesmo muito instável, imagino. pessoas sensíveis devem ser fluidas, boiar nesse mar de coisas que nos surpreende, ou nos afogamos, viu? não nada contra a corrente, menina, bóia. deixa vir onda, passar onda, olha pro céu e brinca de imaginar nuvens. aquela com cara de leão e a outra com jeito de janela de casa velha, e de repente é só uma nuvem mesmo, branquinha esfumaçada. viva os instantezinhos, esse desse email que você lê e o próximo, aquele da caminhada até o ponto de ônibus. repara que tem uma mulher com o cabelo arrumado e uma bolsa que não combina com o sapato, e que mesmo assim ela é bastante bonita (será que ela tem filhos, será que ela é feliz?).

compreendemos tudo e somos todos incompreendidos, menina. do verbo "compreender":

com.pre.en.der vtd (lat comprehendere)
1 Conter em si, constar de; abranger: 2 Estar incluído ou contido. 3 Alcançar com a inteligência; entender. 4 Perceber as intenções de. 5 Estender a sua ação. 6 Dar o devido apreço a.

o que cabe em você ou em mim, o que não deixamos que caiba? não vou me limitar a mim, não mesmo. não serei eu incompreendida jamais, não seremos, somos universos, menina. expanda-se. ocupe o mundo como você ocupa essa página em branco e escreve, escreve como se alguém fosse ler, ou fosse (quem dera) se importar. importe-se.

sobre mim? eu sou contraditória, de nada adianta falar e falar se vou me desdizer logo depois. melhor é viver comigo e se surpreender com cada história e cada careta que eu fizer, se irritar com minha prepotência, se encantar com a minha voz.

vem.

beijo,
zel

**

mandei essa carta em resposta a um lindo email de uma menina interessante. reli, e achei que valia publicar.

(sem título)

posts particulares tornando-se públicos
(pra você, fer.)

Ah! Que esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Como os olhos de um bandido
Ele está na minha vida porque quer
Eu estou pra o que der e vier
Ele chega ao anoitecer
Quando vem a madrugada ele some
Ele é quem quer
Ele é o homem
Eu sou apenas uma mulher


*

você me olha de soslaio, eu não sei desviar olhares. não conheço meias-medidas, minha casa não tem portas, tem cortinas, como um harém. você não diz nada mas me observa faminto, seus olhos e seu corpo falam comigo. sinto na pele seu desejo, arrepio e amoleço; como fruta no sol, fico cheirosa e tenra, peço pra ser mordida. você sorri de leve, de leve me afaga como quem diz "espera. vai ser como eu quiser" e eu espero, ah, eu espero. você me toca e eu transbordo, quero só fechar os olhos e deixar coisas acontecerem dentro de mim, fico sensível a cada toque leve e sutil dos seus dedos, sua boca que se abre só de leve e promete um beijo e sua língua macia. fecho os olhos e adivinho onde você vai me tocar, se sua boca vai se aproximar do meu pescoço (será que você vai me afagar ou me prender?) ou se meus seios vão se encostar mais no seu peito? meu sexo parece o centro de mim, pulsa-pulsa. quando você olha nos meus olhos e diz em silêncio "quieta", eu já sei. me deixo estar, ficar, e você procura tranquilo um caminho até meus lábios mais escondidos, melados de tanto esperar. tremo e não sei se olho ou se me dedico ao escuro dos meus olhos fechados, que vêem cores e imagens de corredores, de quadros numa galeria, de tetos espelhados e mosaicos enquanto você respira meu cheiro e subitamente mistura sua umidade com a minha, sinto escorregar sua língua e não sei se sou eu ou se é ela que deslizam, que brincam, não sei se me movo ou se suspiro e grito, sei que é um caleidoscópio sensorial, montanha-russa. me confundo e não sei se quero mais ou menos, se gozo ou se desfruto mais, paro e continuo, me concentro e me distraio na sensação, rio e quero chorar, brinco de balanço. sinto suas mãos, seu suor me fazendo escorregar, mais fluida que água, salgada e doce, sou enguia, peixe, menina com medo, tenho medo de tanta entrega, de ser sua pra sempre, se ser sua naquele instante e me perder de mim. seus dedos brincam comigo como se eu fosse marionete, e eu estico fios, resisto, deixo, relaxo, fico tensa, sei-não-sei, quero mais e menos e quero sua boca, seu pau, seus braços, seus cabelos e olhos e sua voz no meu ouvido, um ponto cego, uma estrela, um carro, gotas, sons e pêlos e fogos de artifício e... torrentes. de prazer, de gozo, de grito, torneira aberta, cachoeira, canal de suez, mediterrâneo, rio, goteira, ping, ping, ping. pong.

*

me vê, pede, provoca, deseja, mete (por favor!) e me manda ficar quieta. me segura, enfia os dedos na minha boca, lambuza meu rosto, puxa meus cabelos, me morde e me fode, muito, forte, pára e espera, faz o que quiser, não me ouça, não, sim, não-não-não, mais e (ah) mais, sim, mais, assim, por favor, por favor. deixa eu me esfregar e me mexer, mas sorri pra mim e pergunta "o que foi, menina?" com esse ar doce e safado, enquanto se diverte me vendo desfalecer, sorrir boba e entregue como uma flor recém-colhida.

(sem título)

TPM
(não, ela não chegou. hoje é assunto e não problema)

descobri finalmente o que é a TPM e como fazer pra que ela não se transforme em um inferno a cada mês, e quero compartilhar.

em primeiro lugar, aceitemos a TPM como uma dádiva, como um presente da natureza. somos seres cíclicos, e nós mulheres seguimos nosso ciclo natural durante o período de 28 dias, assim como a lua. cada fase do período deve ser observada, percebida e respeitada. diferente do que o nome diz, não acho que ficamos tensas neste período, ficamos introspectivas. é nesta fase do ciclo que nos damos conta de tudo aquilo que nos incomodou nos outros dias, é nesta fase que se faz necessária uma "faxina interna": percebemos que aquele cantinho tem teias de aranha, que aquele móvel tem poeira. aquele taco solto que nos outros dias de correria não nos incomoda tanto -- embora tropecemos nele quase todo dia e corremos pro próximo compromisso sem consertá-lo --, nesses dias transforma-se no pior dos problemas e simplesmente não suportamos conviver com ele. queremos corrigir coisas, ajeitar o que está errado, limpar o que está sujo. cada bobagem parece insuportável. olhamos pra dentro de nós mesmas e percebemos que há coisas (mal) enterradas, elas fedem e incomodam. chamo esse período às vezes de "maré baixa". aquilo tudo que jogamos lá no fundo da água e ficou devidamente escondido nos outros dias, aparece quando a maré baixa. sapato podre, pneu, galho morto, bichos, tudo de mais podre e incômodo vem finalmente à tona, e não conseguimos suportar a visão inevitável de tudo isso.

o que fazer? podemos ficar chorando e olhando as coisas feias todas; podemos limpá-las, e isso vai doer, o cheiro vai incomodar, vamos sujar as mãos e incomodar àqueles que nos cercam e são muitas vezes os "donos" de toda essa tranqueira. sabe aquela questão mal-resolvida com uma amiga ou com o namorado? isso se transforma em pneu no fundo do mar, e na maré baixa... lá está ele. temos que limpar essa bagunça, e cada pequena coisa tem seu dono, seu lugar. a cada período de introspecção, é importante se olhar muito bem, o próprio umbigo, e ver de onde é cada uma daquelas coisas, o que anda deixando essa casa tão bagunçada? o que posso fazer para não acumular essa sujeira? é o período de repensar atitudes, questões, dedicar um pouco de tempo a nós mesmas e ao que é importante pra nós de fato. é nesta fase que as coisas relevantes aparecem, mesmo que tentemos nos distrair com o trabalho ou com diversão fácil. somos forçadas a olhar um pouco pra nós mesmas, e isso, sim, é um presente, nos fortalece.

eu era daquelas que não dava importância aos sinais do corpo, tentava o tempo todo dominar meus instintos e meus sinais corporais. segurava o xixi até o limite, fingia que nem ligava pro meu cansaço ou fome, ignorava as TPMs e seguia, toda-poderosa. com o tempo, percebi o quanto isso era uma agressão a mim mesma, ao meu corpo, à minha vida. meu corpo é dotado de um cérebro que pensa, mas o pensar, meu racional, não pode e não deve dominar meus instintos e necessidades básicas. o racional e o instintivo, o básico, são um conjunto harmonioso, devemos respeitar cada pedaço do todo. os períodos de instrospeção devem ser devidamente respeitados, eu devo mudar meu ritmo, assim como devo parar o que estiver fazendo para fazer xixi ou tomar água, quando for necessário. essa escravidão da razão sobre os instintos e necessidades é burra e ilusória, ela tem um preço e ele é muito alto. não sou um ciborgue e não desejo sê-lo. sou uma mulher, um bicho-fêmea-pensante, e quero tirar o máximo proveito de cada pedaço desse ser racional-instintivo, respeitar a natureza em sua plenitude.

mais que isso tudo, há um fator que foi determinante para que eu deixasse de sofrer. ah, sim, e eu deixei de sofrer. desde o início deste ano passei por dois períodos introspectivos e estive muito bem, obrigada. respeitei meu humor melancólico, pensativo. me recolhi e pensei, sem precisar chorar ou sofrer. fiz retrospectivas, analisei, procurei detectar os problemas, fiz minha faxina. e mesmo não sendo simples e fácil, feliz, é necessário e gratificante. percebi que se eu não conseguir equilibrar os demais dias do meu ciclo, meu período introspectivo será sempre difícil, pois terei sempre MUITO a fazer em pouco tempo. se aos poucos souber não acumular problemas e incômodos, meus períodos de "maré baixa" não mostrarão tanto lixo, tantos pneus. estou aprendendo a lidar com as adversidades no dia-a-dia, a evitar varrer sujeira pra baixo do tapete. é preciso aprender a dizer NÃO às coisas ruins e principalmente a dizer SIM às coisas boas. entender o que é incômodo e resolver com simplicidade e transparência, a aproveitar as coisas boas. assim, as poucas coisas que ainda ficarem pra trás poderão ser expostas e pensadas nos períodos de baixa, e o crescimento individual se dará com equilíbrio, tranquilidade.

que prímula, hormônio, que nada. tudo que a gente precisa é de respeito pela própria natureza e admiração por esse milagre que é ser mulher e ver a natureza plenamente refletida no nosso corpo. ser espelho e admirar-se continuamente.

(sem título)

decifra-me ou devoro-te

O mar
vazou de uma paixão
atravessou meus olhos
encheu a minha mão
caiu no chão
em doces gotas de amor
evaporou na noite
nublou o céu de strelas
e derramou manhã
se o amor
sabe de tudo fazer
pode ter
um jeito de acasalar
o canto do mar
com minha voz de cantor
e fazer
do meu canto
um brado tão fundo
que só um grande amor atinge
pra amolecer o mundo
e seu coração de esfinge

*

eu nada sabia, adivinhei. quem poderia ver além do rosto de mistério e silêncio, à espreita? não tive medo, arrogante que sou, invadi seu espaço e abri janelas, portas, entrou o vento e o sol brilhando na poeira do ar, estrelas à luz do dia. só os olhos me intrigavam um pouco nela, um certo brilho que eu não soube interpretar. era fome. brincante, me entreguei ao jogo de descobrir segredos em labirintos. mal sabia eu que quanto mais explorava, mais me perdia. perdi-me (felizmente) em curvas e rosas, branco-leite e pontos, constelações de pele, cheiros doces e uma ânsia que começa como um zumbido de cigarra, e cresce. tudo começa como um suspiro, do encontro de dois seres idênticos, potencialização da doçura de peitos que alimentam e acolhem e também de uma fome que nunca se extingue, do desejo maior que a vida. uma leoa-mulher mostrou seus dentes e eu me vi felina filhote, uma gatinha amarela lambendo as patinhas, os bigodes tremendo só com a respiração da uma fera legítima. me arrisquei: minha língua brincava de leve e era quase nada naqueles pêlos, minha saliva fazia brilhar ainda mais o que já era resplandecente. ela se riu de mim, doce, me mostrou como se brinca. muitos dourados e brancos e luz nos rosas molhados, línguas de felinos (ásperas, maleáveis), patas com garras que prendem como algemas.

seu silêncio -- só quebrado por quase brisas de som, presentes para os meus ouvidos -- aumenta a tensão em mim. aguça todos os meus sentidos, me faz procurar mais e melhores caminhos nesse labirinto. cada resposta, cada curva me arrepia e comove, quero saber mais, caminho descalça. acredito tolamente que sei onde estou, que chego ao centro do que ela é, mas quando menos espero me vejo apanhada nos seus cabelos, pernas e braços; não quero me desvencilhar nunca, quero mais. perdida, sonhando, me deixo e vejo você se alimentando de mim, do que em mim é mais doce. vejo a fome em você toda, em braços e pernas e na sua boca e língua que brilham. tenho medo de morrer envenenada com sua saliva, de sofrer torturas que jamais soube e (ah, sim) sofro. peço mais, querida, porque vejo uma fresta do seu mistério, daquele que sempre foi também o meu, esse motocontínuo de prazer e de sabor, o que nunca pára. labirinto eterno, no qual temo ficar pra sempre, se assim você permitir. você me leva pela mão, pelos pés, pelos meus dedos que você lambe tão vagarosamente e com tamanha ânsia que eu tremo toda, já não sei se quero seguir. meu corpo sabe, ele segue; eu acompanho atrasada, com passos trêmulos.

sou levada até todos os lugares que não conhecia, salas de espelhos sem fim, refletindo uns aos outros e eu me vejo ali o tempo todo, confundo onde estou e quem sou, pois você é o meu espelho. sinto-me abraçada, no útero, água morna e carne me cobrem, seu coração bate como se fosse o meu (tum-tum), toco a mim e (será que sou eu mesma?) você responde. não sei mais falar, eu olho e peço com minha boca absolutamente muda. um universo se mostra e eu transbordo de espanto e prazer, como se descobrindo uma nova vida: a minha, através dos mistérios dela.

(sem título)

fevereiro 14, 2003

receita de beleza

boa música, boa companhia, uma manhã chuvosa. felicidade.

(sem título)

cara de pau

tirada hoje pelo , o fofo

(sem título)

CÁ E LÁ

há tempos estamos ensaiando a peça
mas a desgraça é que não somos sempre os mesmos.
muitos já morreram, outros trocam de sexo,
mudam barba rosto língua ou idade.
há anos preparamos (há séculos) os papéis,
as tiradas principais ou apenas
"a mesa está posta" e nada mais.
há milênios esperamos que alguém
nos aclame no palco com palmas
ou até com assobios, não importa,
desde que nos reconforte um nous sommes là.
infelizmente não falamos francês e assim
ficamos sempre no cá e jamais no lá.

(eugenio montale)

fevereiro 17, 2003

(sem título)

eu gosto de ser mulher
que mostra mais o que sente
o lado quente do ser
e canta mais docemente.

(sem título)

sonhos

eu tenho um blog dedicado aos meus sonhos e esperanças.
eu escrevi nele um dia um texto imenso, com meus sonhos mais secretos, listados um a um, em tópicos.
perdi tudo, sem querer.
será que eu recupero meus sonhos?
será que ainda consigo lembrar?

(sem título)

natureza

eu vejo através do vidro embaçado do carro as gotas imensas de chuva escorredo, olho a rua asfaltada e carros-carros-carros ao lado, pessoas correndo, guarda-chuvas (inúteis, pois chove demais) por todo o lado, e penso que há um mundo acima do mundo, sufocando o mundo real. somos como uma gigantesca capa de chuva, nós todos, a civilização. quantos metros abaixo deste banco no qual me sento está o verdadeiro mundo? há terra aqui embaixo, em algum lugar, eu sei. a chuva torrencial me dá uma certa apreensão, uma sensação levemente assustadora de que a natureza procura uma fresta. essa chuva toda, será ela mesmo um simples fenômeno corriqueiro? eu essas gotas têm propósito? imagino a água, inofensiva e necessária para a vida, fustigando esse chão de pedra, procurando um caminho. como em joão e o pé de feijão, imagino uma gota, uma só, dessa chuva cheia de propósito chegando à terra escondida há tanto, aqui embaixo da avenida paulista. há quanto tempo essa terra não sabe o que é uma gota de chuva, aquela gota de chuva? uma gota é suficiente, raízes imensas como de uma seringueira gigante crescem quase instantaneamente, arrebentando asfalto, jogando carros para dentro das crateras abertas pelas árvores furiosas e suas raízes crescendo magicamente. imagino trepadeiras, raízes verdes como cobras, folhinhas querendo ver a luz do dia depois de tanto tempo escondidas no escuro. eu queria ver árvores quebrando o cimento, a chuva molhando troncos e frutas imensas como jacas brilhando de molhadas. por minutos intermináveis, vejo a natureza dominando o mundo e olho fascinada ao meu redor, um mundo de verde e sombra. boquiaberta, admiro esse mundo que só eu vejo (os demais correm ao redor, indiferentes), meu corpo estremece de medo de tanta vida.

pisco, e volto ao táxi abafado. vejo a água escorrendo triste pela sarjeta, direto para as galerias (de cimento, sempre ele). eu queria descer do carro e largar esse guarda-chuva irritante, tirar sandálias e essa calça, a camisa branca, brincar na lama e depois me esconder pra passar o frio da chuva. meus seios jamais viram a rua, nunca receberam luz direta enquanto meus pés pisam o chão de asfalto. queria ver minhocas no chão, depois da chuva, onde estão os besouros? sei que há árvores prontas para dominar esse deserto, lá no seio da terra, em algum lugar aqui embaixo. às vezes esqueço que somos bichos e que isso tudo é só uma casca, fininha. um ovo sendo chocado, esperando pra (re)nascer.

(sem título)

if i love You
(thickness means
worlds inhabited by roamingly
stern bright faeries

if you love
me) distance is mind carefully
luminous with innumerable gnomes
Of complete dream

if we love each (shyly)
other, what clouds do or Silently
Flowers resembles beauty
less than our breathing
(e.e.cummings)

(sem título)

e.e. cummings

estou apaixonada por ele. dizem que ele é maldito entre os poetas "bem". lendo as poesias, dá pra entender porquê: ele é doido. e delicioso.

silence

.is
a
looking

bird:the

turn
ing;edge,of
life

(inquiry before snow

(sem título)

calvin em português de portugal... essa é boa :)

(sem título)

uma boa tirinha pra iniciar um blog pretensioso :)

(sem título)

contradição

eu não sei o que pensaria de alguém que gosta de cummings e calvin, que escuta björk, miles davis e benito di paula. que adora big mac e foie gras (separadamente!), que assiste (e gosta muito d') a vaca e o frango e adora fellini. quanto mais me vejo, mais me espanto.

acho que teria ódio (achando que é tipo, ou mentira pura -- como pode?) ou me apaixonaria perdidamente, como me apaixono por aquelas flores esquisitas das estufas. ou como odeio as lagartas e taturanas, lindas e nojentas.

hoje eu definitivamente tou com a síndrome de excesso de sinapses-por-minuto.

(sem título)

Hate is only one of many responses
true, hurt and hate go hand in hand
but why be afraid of hate, it is only there
think of filth, is it really awesome
neither is hate
don't be shy of unkindness, either
it's cleansing and allows you to be direct
like an arrow that feels something

out and out meanness, too, lets love breathe
you don't have to fight off getting in too deep
you can always get out if you're not too scared

an ounce of prevention's
enough to poison the heart
don't think of others
until you have thought of yourself, are true

all of these things, if you feel them
will be graced by a certain reluctance
and turn into gold

if felt by me, will be smilingly deflected
by your mysterious concern

(Poem (Hate Is Only One Of Many Responses), Frank O'Hara)

i carry yoour heart with me

obrigada

hoje eu não estou num bom dia, tou melancólica e querendo colo. há poucos minutos eu recebi o presente mais lindo da minha vida toda, seja pelo gesto, seja pelo contexto. um menino lindo chegou aqui no meu trabalho sem me avisar, de surpresa (com um táxi esperando na porta, pois também ele devia estar trabalhando), com um cd e um poema, escrito à mão. esse aqui:

i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it (anywhere
i go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
i fear

no fate (for you are my fate, my sweet) i want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;
which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart (i carry it in my heart)

(e.e.cummings)

eu não vou esquecer esse dia, essa surpresa, enquanto eu viver. muito, muito obrigada.

(sem título)

(eu não conheço nada sobre esse CD que ganhei, mas ele tem um dodô na capa. como será que ele adivinhou que eu tenho uma infantil simpatia pelos dodôs?)

(sem título)

saudade

fevereiro 18, 2003

(sem título)

oxalá
oxalá, meu pai
tenha pena de nós, tenha dó
se a volta do mundo é grande,
seu poder é bem maior.

oxalá me dê licença,
com licença oxalá

oxalá abriu caminho
dentro do meu coração

(e quem souber mais, me conta. acordei com essa canção na cabeça hoje)

(sem título)

mais do mesmo...

...porque nunca sei se todo mundo lê o pop.

fevereiro 19, 2003

(sem título)

a vida com trilha sonora

Somewhere over the rainbow
Way up high
And the dreams that you dreamed of
Once in a lullaby
Somewhere over the rainbow
Blue birds fly
And the dreams that you dreamed of
Dreams really do come true
Someday I'll wish upon a star
Wake up where the clouds are far behind me
Where trouble melts like lemon drops
High above the chimney tops thats where you'll find me
Somewhere over the rainbow bluebirds fly
And the dreams that you dare to, oh why, oh why can't I?
Well I see trees of green and
Red roses too,
I'll watch them bloom for me and you
And I think to myself
What a wonderful world
Well I see skies of blue and I see clouds of white
And the brightness of day
I like the dark and I think to myself
What a wonderful world
The colors of the rainbow so pretty in the sky
Are also on the faces of people passing by
I see friends shaking hands
Saying, "How do you do?"
They're really saying, I...I love you
I hear babies cry and I watch them grow,
They'll learn much more than
We'll know
And I think to myself
What a wonderful world
Someday I'll wish upon a star,
Wake up where the clouds are far behind me
Where trouble melts like lemon drops
High above the chimney top thats where you'll find me
Somewhere over the rainbow way up high
And the dreams that you dare to, oh why, oh why can't I?

(somewhere over the rainbow, israel kamakawiwo'ole)

(sem título)

blues for pablo

essa aqui é pra você, fer. e pro will, que eu sei que adora essa música.

(sem título)

pro rogério

eu imagino você num lugar longe, cheio de flores pequenas e coloridas. imagino um céu azul mas que tem nuvens vez ou outra, uma chuva pra regar umas plantinhas que você tem num vaso ou no quintal. imagino um copo d'água sujo na pia limpa, um sol de manhã entrando na casa e um tanto de poeira que paira quando se abre a janela. temperos de cozinha espalhados (cada um num canto), frigideiras de vários tamanhos, almofadas médias, uma cadeira de madeira. um som qualquer tocando em horas improváveis e alguns livros empilhados, marcados mas ainda não terminados (um dia, um dia). alguma planta que sempre precisa de um pouco de água e lençóis em desalinho, porque o telefone tocou e foram horas falando. escova de dente que precisa ser trocada (mas ela é gostosa... não sei se devo) e toalhas sem par. chão de madeira e vontade de andar descalço mesmo ali no corredor (por que não?). caminhadas distraídas e longas paradas em bancas de revista, porque elas são tantas e tão coloridas, quem lê tanta notícia?. olho mágico, sons abafados de vizinhos e de cães que latem só de vez em quando, desejos de portas. entreabertas.

(sem título)

cantar é mover o dom...

desde ontem não paro de cantar sozinha, em voz alta. as músicas povoam minha cabeça constantemente, minha vida definitivamente tem trilha sonora e música incidental. me peguei com vontade de cantar pra alguém, cantar como presente, como dádiva. cantar no ouvido, cantar por cantar, acompanhar alguém ao violão, presentear com o que tenho de bom. escolher músicas de acordo com os sorrisos, atender a pedidos. cantar é doar uma parte absolutamente íntima, particular, única. gosto de cantar a capella pra ouvidos que ouvem e sentem os dedos macios do meu carinho de cantora, acaricio de olhos fechados, sorrio porque não consigo evitar ser feliz quando me dou.

...do fundo de uma paixão
seduzir
as pedras, catedrais, coração
amar
é perder o tom
nas comas da ilusão
revelar todo sentido
vou andar, vou voar
pra ver o mundo
nem que eu bebesse o mar
encheria o que eu tenho
de fundo

(sem título)

fractal

mandelbrot, primeiro
mandelbrot, segundo