« * 18/03/2000 + 21/09/2005 | Main | da fé »

das coisas entre o céu e a terra

se eu disser que já não sinto nada
que a estrada sem você é mais segura
(...)
e quanto finjo que esqueço
eu não esqueci nada
(...)
não é que eu queira reviver nenhum passado
nem revirar o sentimento revirado...

**

.. mas é que perder um amor presa numa jaula de impotência causa erosões internas, buracos inesperados. não é como o rio que passa e carrega as pedrinhas, dia a dia, e o leito se abala aos poucos; a gente meio que adivinha que a água vai mudar de curso, vê as estruturas desmoronando. a surpresa do fim é terremoto, deslocamento de camadas tectônicas internas.

aqui dentro desse pedaço de corpo onde fica o coração parece que caiu uma bomba e ficou o buraco; ou que alguma coisa se foi sem eu saber pra onde. a gente sabe que não vai morrer e nem se acabar, mas tudo se mexe lá dentro pra ocupar o vazio e não deixar o estrago piorar e matar um pouco mais -- e mexer coisas de lugar sempre dói, vocês sabem.

durante o dia e a noite da bomba me senti tremendo toda por dentro e qualquer silêncio de poucos segundos trazia lágrimas quentes, aquelas que vêm de um lugar diferente das outras -- as lágrimas de dor pura, sem intermediários. quando pude finalmente ficar só e deixar minha paisagem interna se recompor, doeu. minha memória brincou comigo de reviver cada pedaço da vidinha do meu amigo que passou -- ele pequenino, cabendo na minha mão; ele arrastando coisas muito maiores que ele; ele procurando meu colo quando eu chorava, lambendo minhas lágrimas muitas e muitas vezes; ele dormindo feito um anjinho; ele sozinho enquanto eu me preocupava mais com um homem insensível e suas maluquices; ele feliz e brincando sozinho ou com os irmãos, fazendo tranquinagens; ele dormindo no meu travesseiro; ele no último dia que nos vimos, deitadinho no tapete e brincando comigo.

não foi só um amigo de 5 anos e meio que se foi; uma boa parte do meu passado deste período foi embora com ele, pra sempre. revisei tudo, bom e ruim, e coloquei coisas nos seus devidos lugares. na verdade, nem ele e nem meu passado foram embora, eles só estão agora no lugar certo: no passado, na lembrança. não é fácil trocar essas coisas de lugar e deixar ir o que efetivamente se foi. ele está no jardim dos furões, brincando e dormindo com o pastel-rabugento; meu passado, do mesmo jeito, foi pro arquivo-morto de vez.

durante o luto, deu-se a dolorosa mudança da minha paisagem interna. percebi, não sem espanto, que chegou o fim da era de não acreditar. houve um homem que passou pela minha vida destruindo meu jardim de flores; ele acreditava (e me fez acreditar, por um tempo) que graças a ele, graças à sua influência, eu passaria a ter fé. ele estava errado -- tudo o que ele me fez ver foi o quanto ele era um carente reprimido e quanto eu era forte. quem veio a esse mundo pra me fazer ter fé foi ele, o pequenino pixel. durante a madrugada na qual me despedi dele foi quase como um CLIC: eu acredito num mundo além desse, onde nos encontramos com todos aqueles que amamos. acredito que ele e o pastel vão estar lá quando a minha hora de ir chegar, sim. hoje eu choro de vez em quando porque tenho muita saudade dele aqui por perto, mas logo passa.

enquanto ouvia o som das ondas batendo nas pedras, no hotel na beira do mar, percebi como é bobo acreditar em elétrons, átomos, teoria do caos e sentir vergonha de acreditar no jardim dos furões.

eu acredito. e penso, com certo espanto, que não há de ter sido à toa que o pixel veio viver (e morrer) comigo.

Quem já comentou

Zel,
Esse foi um dos posts mais lindos. Concordei intimamente com o dito sobre o paraíso dos furões. Só quem perdeu alguém que muito amou (e ama), sabe o quanto é necessário acreditar no depois. Triste pensar num fim eterno.
Beijo e fique em Paz.

escrito por Verô em setembro 26, 2005 9:58 PM

Zel, vc é uma coisa fofa. Te amo.

escrito por fal em setembro 26, 2005 11:34 PM

Eu também acredito, querida. Todo dia.

escrito por Lu em setembro 27, 2005 12:47 AM

Eu sou chorona e você sabe...transferi isso até pra minha geração. Sou das que "chora porque gosta".
Mas agora exagerei: no trabalho e chorando que nem louca, ficando com cara de Araci de Almeida, ultrapassei os limites.
O povo do meu lado não tá entendendo nada!

Mas foi mesmo um dos posts mais bonitos que li.
Bj

escrito por em setembro 27, 2005 9:24 AM

Não costumo entrar em blogs, não gosto muito de blogs, uma amiga comentou que tinha lido algo por aqui e vim conferir. Com certeza uma das coisas que li e que mais me tocou na minha vida. Talvez só quem tenha passado por esse tipo de coisa tenha noção da profundidade da dor, da perda, da falta... E as lembranças que vieram juntas com suas palavras... Lindo demais, mas quisera do fundo do coração nunca ter lido...

escrito por Alguem em setembro 27, 2005 10:04 AM

:"-) Amo você!

escrito por Gui em setembro 27, 2005 3:13 PM

Acreditar no jardim dos furões e no encontro com os amigos é que nos faz continuar vivendo... o que seria do mundo se todos acreditassem que entrar no caixão é o fim de sua existência e que nada mais fará diferença?

Beijo!
Fica bem, assim o pequeno fica bem também =)

escrito por Liu em setembro 28, 2005 9:27 AM

Zel, ler o seu post me fez sentir a compaixão mais pura (com+paixão), que não sentia há tempos. E como a ké aí de cima, também chorei na mesa de trabalho, pensando em vc, no Pixel que vi poucas vezes e no incrível jardim das gatas persas. Bjs e saudades!

escrito por ZeLuizHenrique em setembro 28, 2005 12:36 PM










eu quero ser...







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