o zoológico de sampa num domingo de sol
as fotos estão aqui, a história eu conto no fim de semana, neste mesmo post. agora a bateria do note está acabando e a minha também :D
**
antes de falar do zoológico, uma frase do agent smith de matrix:
"I'd like to share a revelation that I've had during my time here. It came to me when I tried to classify your species. I realized that you're not actually mammals. Every mammal on this planet instinctively develops a natural equilibrium with the surrounding environment, but you humans do not. You move to an area, and you multiply, and multiply, until every natural resource is consumed. The only way you can survive is to spread to another area. There is another organism on this planet that follows the same pattern. A virus. Human beings are a disease, a cancer of this planet, you are a plague, and we are the cure. "
**
eu tenho uma relação de amor e ódio com zoológicos. ao mesmo tempo que amo e admiro todos os animais -- o que é uma forma indireta de amar a natureza e, quem sabe?, deus -- fico muito triste por vê-los encarcerados, "na vitrine" para nossa visitação. a idéia de tirar um animal de sua terra natal e colocá-lo numa jaula realmente me incomoda. então os passeios ao zoo são sempre uma mistura de encantamento e indignação, talvez na mesma medida. acho que a observação dos animais, seja na TV, zoo, em casa ou na rua, me devolve a dimensão do milagre que é a vida, o mecanismo incrível que são os seres vivos. são todos pequenos (ou grandes) milagres ambulantes.
e as pessoas, que também se enquadram na categoria dos animais? sinceramente, acho uma afronta ao reino animal a nossa mera existência. somos seres patéticos, arrogantes e extremamente burros na medida em que não respeitamos o sistema que nos rodeia. nossa trajetória evolutiva é admirável e talvez o homem tivesse sido o animal mais extraordinário de toda a criação, não fosse sua total incapacidade de cooperar com os demais elementos da natureza. a humanidade não é auto-sustentável. agent smith tem toda razão: nos comportamos como um vírus, e nada nos deterá até que o nosso hospedeiro esteja morto (o que nos matará por conseqüência, mas somos burros demais pra perceber e seguimos adiante).
voltando ao zoológico: o parque recebe 15 mil pessoas num domingo. não há um só lugar em todo o parque em que seja possível observar os animais em silêncio e paz, procurando perturbá-los o mínimo possível. todas as pessoas gritam, assoviam, batem palmas, "chamando" os animais, esperando que ele se comportem como animais de circo. elas querem espetáculo, não querem vida.
as crianças correm e gritam, jogam papel de sorvete no chão (os pais também), xingam os animais quando eles não aparecem ou não fazem o que eles gostariam que fizessem. olho ao redor e tenho a sensação incômoda de que deveríamos nós ser encarcerados e deixar que os animais andem soltos. grande parte das jaulas é protegida por vidros, não exatamente para nos proteger dos animais, mas para que ninguém joge coisas lá dentro. as fotos ficam prejudicadas, mas até achei bom: protege os pobres animais dos gritos histéricos dos que estão do lado de cá.
e câmeras, muitas câmeras com flash na carinha assustada dos pássaros, dos bichos todos. lá na entrada está escrito em letras garrafais: NÃO USE FLASH. NÃO JOGUE NADA DENTRO DAS JAULAS. as pessoas usam flash, jogam coisas dentro e fora da jaula sem nenhum pudor. gritam, empurram, são mal-educadas.
tem um quadrinho do calvin que, depois de uma conversa com o hobbes, ele tira a roupa e sai andando, virando as costas pra humanidade. essa, de coração, é minha vontade. a forma com a qual nos relacionamos com a natureza e as vidas que nos cercam não é digna, nós não merecemos viver entre criaturas tão extraordinárias.
**
e há também os que arrancam flores, cortam árvores, jogam lixo na rua, na praia, no mar, nos rios. sem nenhum pudor, incômodo, nada. preste atenção ao fumante mais próximo e veja como ele não se incomoda em jogar cinzas e resto de cigarro no chão, além da fumaça fedorenta e tóxica no ar que você respira. olhe os carros e caminhões com fumaça preta na rua. consumir recursos é parte do ciclo da vida: matar, comer, cortar árvores, vegetais, produzir coisas. a impressão que eu tenho é que esquecemos que também nós fazemos parte do ciclo da vida, somos parte da natureza e não estamos ACIMA dela, ela não está aqui para nos SERVIR. o encantamento e respeito pela vida, seja qual for a forma que ela adote, desapareceu, dando lugar ao politicamente correto, aos engajamentos idealistas ou à indiferença total.
esse é um mundo muito triste de se viver, às vezes. minha sorte é que, por mais que eu queira, não consigo deixar de me emocionar e admirar o milagre absurdo que é a vida, mesmo a desses seres imbecis que são os humanos. vira e mexe aparece alguém da nossa espécie que me faz sentir feliz por ser humana. e sempre há os crocodilos, que me lembram que a natureza é sábia e paciente: só os mais aptos sobreviverão.
