tratado sobre como algumas lições são mais difíceis que outras

numa conversa sobre relacionamentos no ambiente de trabalho percebi com mais clareza uma interessante característica minha: faço contatos iniciais com facilidade, estabeleço relacionamentos superficiais com quase nenhum esforço. não é nenhum milagre ou dom: procuro, logo de cara, criar laços, descobrir afinidades, fazer com que as pessoas fiquem à vontade comigo. nada disso é calculado ou proposital, deve ser fruto de tentativa e erro nos primórdios da minha vida.

fato é que as pessoas geralmente gostam de mim logo que me conhecem e, graças ao meu jeito expansivo, consideram-se amigas cheias de intimidade. e aí começa o meu problema: apesar de ser calorosa com todas as pessoas eu não as considero exatamente amigas. os que eu considero de fato amigos se contam nos dedos de 1 mão, se tanto. o fato de não considerar alguém como amigo não modifica o tratamento que dispenso ou coisa parecida. a diferença significativa é que só os amigos sabem de fato o que se passa comigo; os demais só sabem das coisas do dia a dia, superficiais. nenhum demérito para os não-amigos, é uma questão simples de confiança, só.

independente do grau do relacionamento tenho um problema constante de interface com o mundo: sou extremamente objetiva, não tenho paciência com subjetividades e confusões mentais e não cedo a chantagem emocional. essas minhas características seriam um problema para qualquer mortal, certo? agora imaginem isso tudo aliado ao estabelecimento precoce de aparente intimidade: você se relaciona facilmente comigo logo de cara mas (a) não consegue aprofundar a amizade rapidamente e/ou (b) se vê diante de alguém “duro na queda” quando começa a usar os velhos truques emocionais que funcionavam tão bem com todos até o momento.

não é incomum nos meus históricos de relacionamentos — seja com amigos, colegas ou ex-amigos — a crise do “você é escrota!” (ou algo equivalente). eu sei: colocar pingos nos is e dizer verdades é difícil pra quem diz e ainda mais pra quem ouve, sempre. mas quando a pessoa que resolve rasgar o verbo é desse meu tipo (objetiva e sem paciência com não-me-toques sentimentais) tudo se complica ainda mais. mas o apocalipse está montado mesmo é quando a pessoa escrota em questão era considerada alguém muitíssimo amigável. eu entendo a confusão, mas — caramba! — o fato de eu ser amigável e simpática não quer dizer que vou achar normal você ser inconveniente, invasivo ou filho da puta comigo. não significa também que vou passar a mão na sua cabeça quando você errar, seja comigo ou com outras pessoas.

sei que há formas e formas de abordar problemas de relacionamento e também sei que a minha forma não é a mais delicada ou sutil. logicamente, é tudo simples: eu trato os outros como gosto de ser tratada, com objetividade e sem nhé-nhé-nhé. no entanto, sei que muita gente precisa de cuidado e escolha criteriosa de palavras ao tratar de questões sensíveis. procuro me adaptar, mantendo alguma fidelidade ao meu jeito, mas o balanceamento é difícil e ainda não domino, não acertei a mão. confesso que esse é um desafio em todos os relacionamentos da minha vida: equilibrar meu lado amigável-superficial com meu lado sincera-assertiva.

(quem dera todos se dessem ao trabalho de fazer uma auto-análise e melhorar os pontos que causam dificuldade nos relacionamentos…)

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já passei pela fase de “vou dizer o que penso, do meu jeito, e quem não gosta que se foda” e também pela fase “vou ser mais delicada, quem sabe a pessoa me ouve?”. aprendi, com diversas decepções, que a grande maioria das pessoas não quer ver o óbvio e muito menos ouvir o que os outros têm a dizer. a maioria quer mesmo é um ouvido, um ombro e/ou, na maior parte dos casos, um penico (repositório de merda, exatamente). já consigo servir de ombro e ouvido somente, sem dar palpites; penico, minha gente, eu me recuso. não, não mesmo.

e houve um tempo em que eu me empenhava, procurava de todas as maneiras chegar e mostrar pro outro como ele se parece pra mim, servir como espelho (o que aliás acho que é o maior favor que qualquer amigo pode fazer), explicar que falta um semancol ali. mas confesso que com a idade perdi a vontade de levar luz aos cegos e quando sinto que o outro é refratário, desisto sem dó. admiti finalmente que nem todo mundo quer ser melhor, aprender com seus erros e saber como ele se parece para os demais mortais. tenho evitado conversar com quem só quer falar sozinho (afinal, tenho mais o que fazer) ou deixo o papo entrar por um ouvido e sair pelo outro. tem gente que vive tão isolada no seu mundinho particular que nem percebe que está falando sozinha mesmo quando tem alguém replicando.

até através de emails, pasmem, já me deparei com pessoas-que-monologam e não percebem. elas juram que estão conversando com você mas não ouvem/lêem uma só palavra do que você replica. na prática, se você fosse um robô que respondesse automaticamente “recebi sua mensagem, obrigada”, era a mesma coisa.

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em suma, após anos de terapia eu parei de achar que todo mundo que é legalzinho é meu amigo. ser legalzinho é uma coisa, ser muito legal é outra e ser meu amigo é ainda outra coisa. parece óbvio? pois pra mim não era. eu acabava tratando todo mundo como amigo e (óbvio) só passei raiva e frustração. a dura realidade é que nem todo mundo merece ser considerado amigo e em algum momento alguns antigos amigos vão deixar de ser, pois já não se encaixam mais nessa categoria. é difícil, mas é assim.

neste processo de aprendizado sobre mim mesma e sobre as interfaces com outros me tornei mais solitária e seletiva. há, no meu círculo de convívio, os que acham essa minha mudança negativa e, não por acaso, são exatamente os que mudaram de categoria. por outro lado, me sinto cada vez mais fiel a mim mesma, aos meus sentimentos e valores. troquei quantidade por qualidade e continuo aprendendo que, por mais legais que algumas pessoas sejam, elas nem sempre servem pra mim.

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adoro metáforas e não podia deixar de arranjar uma pra resumir essa minha elucubração toda… estabelecer relacionamentos é mais ou menos como garimpar: é preciso peneirar muita areia pra achar as pedras preciosas. a mim só interessam alguns tipos específicos de pedra, o resto volta pro rio e vai brilhar noutra freguesia.

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  1. Puxa, Zel, falou e disse…

    rs

    Concordo contigo que ser educada e agradável facilita nossos relacionamentos do dia-a-dia, mas isso não nos torna super-amigos-de-infancia, e as pessoas tendem a confundir muito isso.

    Beijo!

    gosto muito do que escreves.

  2. daniel, agradeço a visita e o elogio. venha sempre!

    claudia, é difícil ser simpática e ao mesmo tempo manter alguma distância, né? obrigada pelas palavras gentis!

    débora, quando a gente precisa mesmo, muda, não se preocupe 🙂

  3. Zel, algumas vezes eu venho aqui e sou atingida na jugular. No bom sentido, claro, senão eu não vinha mais.

    Apesar de ser do tipo que cosidera as diferentes categorias de amigos simplesmente diferentes muito recentemente foi que eu descobri que eu não preciso me aborrecer, que tem gente que chega na nossa vida e fica e tem gente que passa e outras pessoas a gente tem que expulsar mesmo. mas olha que até eu descobrir que existem pedras que apesar de preciosas não me interessam foi um árduo caminho. como diz um bom amigo: Win Wenders e aprendenders

  4. Também já fui do tipo que achava que era legal ter amigos por quantidade! Hj preservo meus poucos amigos (que coincidentemente tb podem ser contados nos dedos de uma mão) e vou te dizer que é a melhor coisa que existe. Procuro ser agradável e simpática sempre. Não raro me aparece uma pessoa dessas recém-conhecidas me chamando de “amiga”.

    E quanto a questão de confiança sou mais restrita ainda. Foi bacana vc dizer isso aqui no blog, pq vc pode até expor algumas coisas que acontecem no seu cotidiano, mas daí virar melhor-amiga já é um pouquinho demais!

    Beijos! =D

  5. melissa, *HAHHAHA* obrigada 😀 mas como disse a rosa, às vezes as pedras mais preciosas não nos servem 🙂 poderia te indicar dúzias de pessoas que não me querem por perto nem pagando 😀

    paulo, enão posso ser sua amiga de infância porque te conheci já véia, mas se pudesse seria, tá? 😀 eu não tenho amigos de infância e confesso que não fazem falta.

    rosa, é isso mesmo, menina. demora a cair a ficha né? às vezes me sinto uma idiota por ter demorado tanto…

    suleima, essa questão da exposição (ou excesso dela) complicou ainda mais todo esse contexto, por um bom tempo. hoje em dia eu evito ser pessoal demais mas o mal já está feito… 😀

  6. Amei o texto… Me identifiquei muito em tudo.

    Eu achava q somente eu pensava dessa forma em relação a amizades, eu sou auto-crítico em escolher “amigos”, mas é uma pena quando escolhemos errado e oq parecia bom foi pro ralo…

    Parabéns pela sua história, desabafo e texto…

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