mulher com TPM perambulando
aos poucos vou recuperar alguns posts apagados que acho mais interessantes ou que por algum motivo quero manter aqui. segue o 1o da série!
**
hoje cedo me dediquei a tarefas ingratas. a primeira: ir a um cartório. sabem como é: reconhecimento de firma, xerox autenticado, fila, número apitando num painel, essas coisas cafonas. a segunda: enfrentar fila de banco pra acertar contas, encerrar conta, coisas assim gostosas. andando pra lá e pra cá pela av paulista, dou de cara com um homem e um menino, na calçada, ambos sentados no chão. cabelos pretos e lisos, muito brancos, ele com um bigodinho tipo chaplin e aquela cara de eternamente triste dos pedintes. ele tocava um acordeão azul, e uma placa grande se apoiava numa caixa de papelão, para as contribuições. a placa era curiosa, começava assim: solo uno refugiato... e eu parei de ler, já imaginava que era mais um dos muitos refugiados não se sabe de onde que resolveram brotar pela cidade nos últimos anos (e tem gente que se refugia no brasil, meu deus? que idéia!).
passei indiferente, mas ele começou a tocar o acordeão, uma música triste... e eu vi, na frente do menino sentado no chão, uma caixinha pequena, de papelão, quatro vezes o tamanho de uma caixa de fósforo, digamos. e lá dentro, uma tartaruguinha. quietinha, com a cabecinha levantada, como quem procura a saída. meu coração se apertou vendo o bichinho lá dentro daquela caixa mínima e pensei meu deus, que vida ruim ela deve levar! presa numa caixa, exposta ao sol e ao vento, e sem escolha. e a trilha sonora de filme italiano meloso no fundo. foi me dando uma vontade horrível de chorar e eu continuei andando. titubeei, pensei em dar esmola, em comprar a tartaruga, mas não fiz nada disso, fui adiante. e liguei pro namorado, pra contar das mazelas da humanidade, mas ele não atendeu. me senti um tanto estúpida por sentir pena, e na seqüência comecei a me sentir simplesmente um monstro por sofrer pela tartaruguinha refugiada e simplesmente esquecer que havia gente ali também. confesso: deles eu não senti pena. o homem era simplesmente a trilha sonora da desgraça da tartaruga e o menino o carcereiro da infeliz.
quando conto a história as pessoas riem muito. eu também, depois, acabei achando engraçado, mas a verdade é que meu coração ainda tá pequeno por causa da tartaruga. e naqueles poucos segundos de angústia, juro que pensei que nós também vivemos em caixas e passamos a vida a esperar sabe-se lá o quê. a diferença é que nós temos escolha, e acho que por isso não consigo sentir pena das pessoas. acho.
(11/jun/2002)
