como lidar com a adversidade
assisti ontem um programa hilário-horrível sobre churrascos de amigos. no caso era churrasco dos amigos de infância do marido e todas aquelas coisas péssimas que acontecem nesse tipo de ocasião: amigos bêbados, machistas (às vezes as 2 coisas) e com mania de brincadeiras idiotas; mulheres cafonas que adoram show do chiclete com banana e que provavelmente seu marido já apalpou; carne dura e pouca; música de merda e histórias constrangedoras.
por essas e outras é que eu não vou a festa de colegas de faculdade nem de amigos de infância. tenho medo de me ver frente a frente com meu próprio passado e perceber que não resta nada daquilo que já fui.
porque é importante admitir: por mais que se creia que a mudança é para melhor, o que de bom poderá ter sido perdido nessa mudança de rota? será que eu seria mais feliz gostando da música da ivete sangalo?
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tenho dificuldade com muitas coisas na vida, mas tem uma que quase me tira do sério: pessoas que se dão o direito de serem desagradáveis porque desta forma se sentem mais protegidas. provavelmente esse tipo me incomoda porque eu tendo a ser assim, então posso explicar melhor: com medo de ser agredida, eu ataco primeiro. pros que são de ditado, faço parte do do time cujo lema é "o ataque é a melhor defesa".
cada vez que vejo alguém subindo nas tamancas (reais ou virtuais) e despejando verdades e constatações a respeito do mundo, olho um pouco melhor pra mim mesma e suspiro irritada; não são as supostas verdades que me incomodam, é o espelho. me sinto ridícula quando vejo o meu comportamento reprovável através da atuação de outros personagens.
e prometo, não pela última vez, que não serei mais desagradável só pra me proteger ou parecer espertinha.
(ilusão pura, já que cada vez que não consigo lidar com o mundo eu chuto ele na canela, de preferência pelas costas, pra não levar porrada de volta)
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sou muito melhor reclamando e proclamando regras aqui no blog; aqui do outro lado da tela, onde as pessoas têm faces e bocas pra responder e eu não posso apagar os comentários, sou uma covarde na maior parte do tempo. não digo exatamente o que penso porque (1) as pessoas vão me odiar e (2) as pessoas vão dizer o que pensam de mim (e eu não quero saber!).
já pensei mais de uma vez em como a vida seria mais simples se houvesse um filtro de gente como há filtros de email. mais de uma vez coloquei no filtro de "apagar para sempre" pessoas que me incomodavam. e se fosse possível fazer isso na vida? e se eu pudesse apagar coisas que foram ditas e eu não gostei, do mesmo jeito que apago comentários e emails?
seria mesmo mais simples e eu seria certamente uma pessoa mais horrível. e ainda acharia o máximo (como já achei) ver outras pessoas escolhendo os mesmos caminhos tortos, gritando suas constatações irrelevantes e agressivas. lembro como eu achava divertido quando uma ex-amiga escrevia textos escrotos detonando outras pessoas, com ou sem razão (e isso não faz muito tempo).
eu me perguntaria por que alguém acha graça em expor as mazelas alheias como se estivesse acima disso tudo, se a resposta não fosse óbvia.
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não é simples escolher. todo dia e toda hora aparece uma opção que inclui, quase sempre, ser boa ou ser escrota. eu acho que é simples assim, sim, e pareceria óbvio optar pelo "caminho do bem", se não fosse a minha percepção torta do que é ser "bom".
na minha cartilha, ser boa ainda é sinônimo de agradar os outros. não precisa me explicar que não tem nada a ver, eu sei. ou melhor: minha cabeça sabe; o restante de mim duvida, e embora minha cabeça lute bravamente para dominar minha existência, ela está em segundo plano.
por isso que toda vez que me convenço que não preciso agradar todo mundo pra ser boa e resolvo ser menos panaca, acabo descambando pra escrotidão. falta de treino nessa brincadeira, relevem e perdoem (por favor, porque eu não relevo e tampouco perdôo, preciso de uma forcinha).
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mas por que eu estou dizendo isso tudo? acho que é porque uma semana de molho me deu tempo de pensar, inclusive no que me causou a doença (pausa para informação importante: eu acredito que todas as doenças têm fundo emocional, pasmem).
tive problema no fígado que, aprendi, tem a ver com raiva. e não é que eu tinha passado raiva mesmo? ou melhor: engoli um bocadão dela, porque tive medo de me expor, de ter que falar sobre assuntos que são difíceis, dos quais tenho medo.
e com 35 anos nas costas ainda não aprendi a lidar direito com minhas raivas, medos e incômodos: ou solto os cachorros e atropelo quem está na frente ou engulo sapos homéricos.
há 5 anos venho tentando resolver esse dilema e posso dizer que evoluí, mas a semana passada me mostrou que preciso me empenhar mais em expressar o que sinto e não engolir sapos. essa semana, sincronamente, me lembrou através do comportamento de outros que não quero mais atropelar ninguém.
bem... que venham então mais outros tantos anos de adversidade, porque ainda tenho muito pra aprender.
