sobre escolhas
"mas, parece que neste nosso tempo acreditamos que tudo é possível: casar e estabelecer outras relações amorosas, ter filhos e continuar a ter sossego e a se divertir como antes, envelhecer e manter-se jovem etc. como fica a vida vivida dessa maneira? bem descompromissada."
(tudo é possível ao mesmo tempo?, rosely sayão - post de 6/fev)
não tenho nada contra tornar nossa vida mais simples e melhor, a questão é o como isso é feito, a que preço.
vou dar um exemplo: outro dia, esperando o resultado de um exame no saguão da clínica veterinária, vi uma mulher com seu cão e a babá do cão. a dona estava ali pra pagar a conta e desfilar do lado do cachorro (que a babá levava pela coleira, claro). ter cão de raça dá status, é chique. dá trabalho, claro, mas pra isso existem serviçais.
é mais ou menos como fazem algumas mães e pais modernos: eles vão pros restaurantes e bares da cidade exibir seus rebentos e, a tiracolo, levam as escravas vestidinhas de branco. porque criança - como os cachorros, aliás - são uma gracinha mas dão trabalho, fazem sujeira, bagunça e tal.
pois vejam que simples ficou a vida: deixemos as mães-pretas cuidarem da parte suja e chata, como quando éramos crianças e sempre tinha alguém pra ajeitar nossa bagunça e resolver nossos problemas.
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já falei aqui sobre a história de achar que nos tornamos adultos infantilizados, mas acho que agora consegui resumir a questão como eu a vejo de uma forma mais clara: não queremos escolher, não queremos lidar com as conseqüências destas escolhas. como as crianças, aliás - não é verdade que existe o momento de ensiná-las que não é possível sempre ter tudo de uma vez? aprendemos em alguma parte da nossa vida que temos que escolher e, pra isso, às vezes precisamos abrir mão de outras coisas que também gostaríamos de ter.
é isso que percebo nos adultos infantilizados (ou mimados): eles não querem abrir mão de nada, eles não querem "perder". e quando perdem - porque não tem como evitar! - ficam frustrados e colocando a culpa no mundo. prestem atenção ao seu redor, em vocês mesmos, vejam o quanto disso é verdade.
acho que todos queremos ganhar e ter tudo, sempre, o desejo é natural; o que não me parece razoável é crescer e não perceber que nem sempre querer significa poder ou dever.
não tem nada de triste em fazer escolhas. escolher, aliás, é um grande prazer, é ser de fato livre. foi a claudia que me ensinou que um dos significados do diabo (ou a tentação) no tarô é aquele comportamento de "não largar o osso". quem não larga o osso, não escolhe e não muda, não evolui.
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repensei essa semana uma questão que me surgiu há alguns anos: quem são meus amigos? por que eu considero fulano ou sicrano como amigo?
eu tinha e tenho mania de achar que todo mundo é legal, ótimo, maravilhoso. mesmo depois de levar invertidas, eu vejo o lado bom das pessoas. pode parecer uma qualidade, mas é uma armadilha, é burrice emocional: eu não aprendo com meus tombos e caio de novo, continuamente.
até que minha terapeuta, numa sessão, me interrompe enquanto eu falava de uma pessoa "super-legal" que fazia parte do meu círculo de amizades: "me explica no que essa pessoa é legal, me conta alguma coisa legal que ela tenha feito pra você". primeiro foi difícil pensar no que significa ser legal pra mim (perguntinha danada!); depois foi um choque perceber que era difícil de explicar o que era tão legal na tal pessoa. e aí veio o choque ao admitir que, na real, a tal pessoa nunca tinha sido legal comigo. não é que a pessoa em questão tenha sido o oposto de legal, vejam bem. mas também não era aquela brastemp toda que eu estava pintando!
diante da minha cegueira, reavaliei uma série de amizades e contatos (além de rever essa minha mania, claro) e percebi que tem pouca gente, pouca mesmo, que de fato merece o título de amigo na nossa vida. e não existe fórmula pra descrever o que é ser amigo, isso depende muito de você, do que você valoriza em alguém.
percebi que pra mim importa muito o quanto as pessoas respeitam meu espaço e minhas escolhas na vida; e descobri que detesto chantagem emocional. cortei da minha vida todas as pessoas que se valem dessa "técnica" infernal.
e o que isso tem a ver com escolhas? tudo. dentre os montes que eu chamava de amigos, escolhi conviver com alguns que de fato me traziam coisas boas, me faziam bem ou me faziam ser uma pessoa melhor. e perdi algumas coisas nessa escolha, sim. alguns dos que eu propositadamente me afastei levam consigo partes de mim, e têm em si muitas coisas boas, é claro. abri mão dessas coisas boas porque as que me incomodavam pesavam mais.
e houve os que nunca foram bons ou legais, os sanguessugas. foram tarde, amém.
