desde sempre fui piadista, engraçadinha e cheia de contar histórias. quem lê meu blog sabe disso, geralmente tenho uma visão bem humorada da vida, até dos eventos mais desagradáveis e irritantes.
o que vou compartilhar com vocês tem aquele caráter ovo-galinha comum a tantas questões comportamentais: sou palhaça e falo as coisas em tom de piada, sendo irônica ou sarcástica; tenho dificuldade de expressar verbalmente que algo ou alguém me incomoda.
durante 30 anos convivi comigo mesma e com dezenas de outras pessoas com o mesmo perfil: alguma coisa me incomoda, me chateia, e eu ao invés de expressar claramente que X ou Y me incomodava, eu fazia uma piadinha. exemplo: meu colega de trabalho me interrompe com freqüência quando estou no telefone, e isso me incomoda; na primeira oportunidade eu solto algo como "cara, você sabe o que significa quando eu estou com esse aparelhinho com fio enrolado aqui na orelha? isso não é brinco, significa que tem alguém do outro lado, entendeu? ha ha ha ha!", tudo isso dito num tom de "olha, eu nem me importo tanto assim, tou só sacaneando...". aliás, se a pessoa percebe que foi inconveniente e chega a se desculpar, eu mais que rápido digo coisas como "ah, que nada, deixa pra lá, tava brincando".
eu dei um exemplo bobinho, mas quem é adepto do estilo irônico/sarcástico sabe muito bem que as "brincadeiras" costumam ser mais pesadas e às vezes ofensivas. mas é tudo piada, certo? se a pessoa se incomodar, é porque é sensível demais e não sabe brincar.
isso era assim, até eu fazer terapia, quando minha comunicação verbal e tudo o que estava por trás dela foi colocado à prova, destrinchado e devidamente dissecado.
foi um processo doloroso, mas muito revelador: descobri que me escondia, covardemente, atrás da ironia e sarcasmo. tudo aquilo que eu não tinha coragem de expressar de forma objetiva eu revestia com tintas de piada, hipérbole, metáfora e qualquer outra figura de pensamento e/ou linguagem inventada pelo homem. por quê? porque assim eu criava o que vou chamar de "alçapão retórico" - eu sempre tinha uma forma de escapar se o interlocutor se irritasse com o que eu estava dizendo. eu sempre podia lançar mão do "calma, foi só uma metáfora!" ou "pô, não se pode nem fazer piada com você, que horror..." e por aí vai.
esse é o recurso do covarde, do que precisa se comunicar, mas também precisa desesperadamente da aprovação do outro. muito prazer, covardona à sua disposição!
vejam a pergunta da terapeuta que fez meu mundo cair: "você alguma vez na vida disse a alguém, olho no olho, absolutamente séria e calma, como você se sente em relação a esta pessoa?"
a resposta foi não. nunca, em tempo algum, eu fui capaz de dizer "você me chateou por causa de X" ou "eu não gosto quando você faz Y" de forma direta e objetiva, sem historinha, sem piada, ironia ou sarcasmo. todas as vezes que eu proferi frases desse quilate foram no calor de uma discussão, provavelmente gritando a plenos pulmões ou chorando (ou as duas coisas). eu dizia "ah, mas realmente, você é uma pessoa que SUPER respeita horários..." quando eu queria dizer "você se atrasa demais e eu não gosto disso".
foi triste admitir que eu simplesmente não sabia comunicar verbalmente minhas emoções, sentimentos e contrariedades de forma saudável. mas triste ou não, admiti e resolvi que mudaria e aqui estou, mudando todo dia um pouco.
eu me transformei na pessoa mais objetiva do mundo quando estou incomodada? não, não estou nem perto disso. mas melhorei muito e me seguro muitas vezes ao dia pra evitar as pequenas ironias e sarcasmos que eu bem sei que são meus esconderijos.
com essa mudança da minha atitude, outra coisa importante mudou: não tolero mais esse comportamento nos outros. não admito mais que "reclamem" de mim usando ironia, sarcasmo ou o cacete de asa. quer reclamar e brigar comigo por qualquer motivo? seja homem/mulher e me diga, olho no olho, o que está acontecendo. eu quero ouvir exatamente o que você tem a dizer, e não uma opinião disfarçada de piadinha.
e já não aturo mais as insinuações, arremedos de conversa, coisas como "nossa, olha quem está de unhas vermelhas! não era você que dizia que unhas vermelhas eram cafonas". diga diretamente, como uma pessoa adulta e bem resolvida, "você não gostava de unhas vermelhas antes, o que houve, reconsiderou?". mesmo conteúdo, mensagem completamente diferente. a primeira frase é ofensiva, a última é simplesmente curiosidade.
eu sei que muitos dos que usam ironia, sarcasmo e etc. não são só covardes, são maldosos. e é exatamente por isso que tenho me tornado cada vez mais direta. tenho questionado mensagens dúbias, pergunto coisas como "você está perguntando por curiosidade ou é só retórica?". geralmente alguns segundos de investigação revelam qual é a da pessoa, e a partir daí é possível se comunicar de forma mais franca e saudável.
e por que todo esse esforço? porque a vida é curta e eu quero ser feliz. não preciso de pessoas na minha vida que emitem mensagens confusas porque não têm coragem de dizer o que pensam; não preciso também de pessoas maldosas. e as pessoas que são boas porém equivocadas na comunicação aprendem rapidamente - basta uma ou duas respostas diretas pra que a verdade comece a aparecer. e se não aparecer, eu desconecto. tenho metas bem claras de felicidade, e uma delas é não me envolver com gente do mal.
para o bem dos outros (e meu também, é claro), me empenho diariamente em ser direta e não brincar com os sentimentos ou com a cabeça alheia. e para o meu bem, evito contato com pessoas que abusam de ironia, sarcasmo e etc. elas que procurem sua turma, essa não é mais a minha.
concordo 100% com a opinião da minha terapeuta: ironia e sarcasmo são os piores tipo de agressão, às vezes piores que a violência física. muitas pessoas (geralmente as mais inteligentes) praticamente violentam as pessoas que vivem ao seu redor usando esse recurso, que é muito mais difícil de detectar e eliminar que um chute ou um tapa. e tem conseqüências, não se iludam. as marcas são invisíveis, mas estão lá.
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antes que seja tarde: acredito que ironia e sarcasmo têm seu valor, quando se trata de comunicação para um público e não para uma pessoa. estes recursos, na literatura e nos discursos, funcionam muito bem e dão todo um charme ao texto.
e tais recursos funcionam e são legais exatamente porque não têm alvo certo, são somente idéias com as quais eventualmente o leitor / ouvinte se identifica. não faria sentido (ou seria chato demais) usar mensagens diretas o tempo todo, afinal o objetivo é fazer pensar e/ou divertir, e não estabelecer conexão emocional e afetiva.
mas se você é daquelas pessoas que não estão nem aí pra como o outro se sente quando você se comunica, mesmo que o outro seja seu amigo, amante ou colega, ignore o que eu estou dizendo e siga fazendo inimigos e chateando pessoas.