do poder de um livro e da amizade

ontem comprei, ali na linda livraria da travessa do centro do rio, sonhei que a neve fervia, da fal. ele tem uma capa linda. o vendedor me disse “que capa bonita, tão minimalista. gostei!”. eu podia ter dito que uma parte da minha história estava lá dentro, e que a autora era minha amiga (aquele sentimento bobo de conhecer celebridades, sabem como é) mas me contive.

comecei a ler ali mesmo, no almoço. e a cada intervalo, no táxi, no banheiro, e antes de dormir. na verdade, dormir veio depois de acabar o livro. a última vez que isso tinha me acontecido foi quando saiu o último harry potter! (a fal vai morrer de orgulho disso aqui :)).

tenho uma confissão a fazer: eu leio as últimas páginas dos livros antes de acabar (é, eu sou dessas pessoas horríveis). e quem já leu sabe o quanto justamente o final deste livro significa pra mim. estou ali no meio da história, tem um tanto da minha vida registrada pelas entrelinhas, na vida do meu melhor amigo.

eu também passei por aqueles 365 dias que ela registrou, e lembro perfeitamente do telefone tocando (tão cedo. odeio telefone tocando cedo, nunca é boa notícia, NUNCA) e ela dizendo “zel, eu não sei como dizer isso, mas o alexandre morreu. ele morreu, zel.”. eu fiz perguntas idiotas, tipo “como, quando, por quê?” e ela respondeu do jeito que era possível, e entendi que não importava COMO, importava era o fato. meu melhor e mais antigo amigo, uma das pessoas mais divertidas e doces que conheci, não existia mais.

era 28 de agosto, minha renovação de carteira de motorista estava marcada pra esse dia. a data está lá, ainda, na carteira que vence este ano, 5 anos depois.

nunca tinha visto ninguém morto antes. amigos nossos do ITA me ligaram, chorando, ou mudos, tentando entender. um deles nem apareceu no velório/cremação, encheu a cara e sumiu. outros estavam lá, lembrando dele, contando histórias. eu estava lá, com o fer e minha mãe, que adorava ele. ele estava lá e não estava. era um corpo, uma coisa que não era ele. foi tudo estranho, e a fal estava cercada de pessoas, mal consegui falar com ela. a irmã dele estava lá, me procurou pro abraço mais longo de todos. não consegui falar nada, não chorei, não nada.

estava com viagem marcada de férias, na semana seguinte. viajei pra longe, um lugar lindo, e eu pensava nele todos os dias. no aniversário dele (10 dias depois, que coisa triste), lembrei e não tive coragem de ligar nem escrever pra fal, eu acho. lembro todo ano do aniversário dele. e se eu senti tanto essa perda, o que terá sido para a mãe dele (que eu adoro, é uma mulher incrível), os irmãos (conheço todos), a esposa que ele amava mais que qualquer coisa no mundo?

já tinha lido quase tudo que estava no livro conforme acontecia, no blog, e através dos emails (raros) trocados com ela. mas não é a mesma coisa ler tudo seguido, dia após dia, tão intensamente. e não tinha lido o começo, e nem o fim.

mesmo sem a fal dizer, eu sabia que minha presença não era (e não é ainda) boa pra ela. minha existência lembra a dele, é claro, pois éramos tão amigos e com tantas histórias e pessoas em comum. nos amávamos, éramos como irmãos. ele me contava dela quando se conheceram, com tanta felicidade e estranhamento (“isso está mesmo acontecendo comigo, zelíndia? será que existe alguém que realmente seja COMO EU, feita pra mim?”). ela existia sim, meu irmão querido, ela existe.

nunca me ressenti dessa distância após a morte dele, procurei respeitar sempre que possível. mas escrevi ou liguei de vez em quando, pra uma fofoca compartilhada, uma piada, ou às vezes só pra dizer que lembrei dele por causa de X (coloque motivos variados aqui). eu lembro muito, e às vezes rio sozinha de piadas que ele faria.

semana passada pensei muito nele, não sei exatamente o porquê, mas não poder compartilhar com ele essa experiência incrível que é criar um filho é muito triste. lembro da tentativa maluca dele de adotar uma criança (e não deu certo, infelizmente), do quanto ele gostava de crianças e do quanto ele adoraria conhecer o otto. do quanto ele amaria o nome dele, os cabelinhos cacheados e loiros, o temperamento observador e sensível. ele seria um tio tão perfeito pro meu menino, o tio alê, o que sabia todas as coisas e explicaria pra ele aquela física que está além dos conhecimentos de nós, mortais.

o otto só vai conhecer o tio alê da minha lembrança, das fotos, das histórias hilárias. porque faço absoluta questão que meu menino saiba que antes dele nascer, antes mesmo dele ser uma ideia, houve alguém tão especial na vida da mamãe que merece lugar e espaço próprios na história que levou até ele, e que teve um livro inteiro dedicado a esse cara super incrível.

obrigada, fal, por registrar os 365 dias depois da morte dele. ele está lá, em cada lembrança e na sua dor, foi bom (e doído) relembrá-lo, sentir de novo sua perda. porque a ausência é tão grande quanto a presença, é sua sombra, e sentir a falta é também reconhecer o quanto ele foi importante. um pouco dele vive em nós. estou aqui pra quando você quiser e precisar resgatar uma parte do seu amado.

e o livro? é muito intenso, impossível de parar, e pra mim teve um efeito muito importante: me fez lembrar que se deve viver e amar muito todos que são parte da nossa vida, a cada instante. nunca se sabe quando tudo acaba, ou muda. estou só no rio enquanto escrevo este texto, como estava enquanto li o livro. só pensei em abraçar meu amado, e dizer o quanto ele é importante pra mim, o quanto me fez e faz feliz apesar de qualquer tropeço no caminho. quero abraçar meu filho, meus irmãos, meus pais, meus amigos. e beber cada instante de presença, para que no dia em que ela vier, a ausência seja mais suportável.

**

mas pessoas morrem todos os dias, não é? pais, mães, filhos (toc-toc-toc, a mais antinatural das perdas), irmãos, amigos. a dor é maior, menor, mais próxima ou distante de nós, e seguimos vivendo, até porque não há outra escolha sã. mas não é todo mundo que se vai e tem uma história tão rica, que tem um livro publicado registrando parte da sua vida com tanto amor tornado real no papel. é o mínimo que ele merecia.

mas não é só isso que é tão incomum nessa história, pelo menos não do meu lado da história. o alexandre se foi no dia 27 de agosto de 2007. 3 anos depois, sem planejamento algum, meu filho nasceu às 6:34 do dia… 27 de agosto. o dia que até então era de lembrança da perda do meu amigo-irmão tornou-se uma data de festa, a ser comemorada todos os anos, com bolo brigadeiro e parabéns para o menino mais lindo que já vi. virginiano, observador e doce, como você sempre foi, meu amigo.

estou certa que você riria disso, meu querido alexandre.

(e eu sei, minha querida fal, que isso não deve ter graça nenhuma pra você. mas se um dia doer menos, e você quiser também comer bolo e brigadeiro lembrando do nosso menino querido de sardas, a casa e a família são sempre suas)

14 comments to “do poder de um livro e da amizade”
14 comments to “do poder de um livro e da amizade”
  1. Zel, perdi uma grande amiga (que teve câncer junto comigo) há 2 anos e me afastei da família dela por achar que a minha presença lhes causava dor… sou amiga da família inteira, mãe, pai, irmãs, filhas adolescentes…Na verdade seu pai os conhece, o Sr Ali de Caraguá e a família linda dele…No ano passado fui passar o Reveillon lá e liguei prá elas. Acabamos passando a virada do ano com a família que insistiu e nos acolheu de forma muito carinhosa. Lembramos o tempo todo dela, eles lembram a todo instante com alegria de saber a mulher maravilhosa que ela foi e que nos deixou uma linda lembrança. Pensei que a minha presença pudesse causar dor, mas a mãe dela me apresentava, sorrindo, aos amigos e dizia com um enorme orgulho: Essa aqui é a Irene, a melhor amiga da Amirinha!
    …pausa pro choro 🙁 ………
    Eu penso nela todos os dias, da tristeza que é eu estar aqui e ela não, sendo que tivemos o mesmo problema…
    Amei o seu texto e o carinho com que o escreveu.
    Deu vontade de ler o livro.
    Um beijo.

  2. Por vezes tenho tanta raiva de ler tanta coisa linda, sincera e bem escrita ao mesmo tempo. Aquela vontadezinha de ver você tropeçar e falar “bem feito!” (risada má de irmã mais nova)
    Mas é pura inveja!! E não tem nada de branca ou boa. É da mais maléfica que alguém pode desejar!
    No fundo no fundo (lá no fundinho mesmo) é até confortante ler qualquer coisa que você escreve, mesmo quando o assunto não agrada ou não “bate o santo”. Seus textos nos fazem pensar demais e, na maioria das vezes, enxergar “caralho porque não pensei nisso antes?”
    De verdade, é um orgulho TÃO grande dizer, de bocão cheio, “sou irmã da Zel (ok, a gente pula as chatices, desavenças e se “achices” de ambos os lados) que irrita.
    Fazia tempo que não lia com tanto gosto um post!!

    Amo você de montão e preciso ler o livro da Fal com todas as minhas forças!!

  3. Lembro até hoje que li no blog da Fal que o Ale tinha morrido e a ficha não caia, eu ficava pensando “mas qual gato da Fal é o Alexandre”, eu não deixava a ficha cair. Perder pessoas queridas é algo do qual a gente nunca se recupera, a gente aprende a conviver com a falta e a saudade.
    :o*

  4. Oi Zel. Eu lembro que lia muito o blog da Fal nessa época (que conheci por meio do seu blog) e fiquei paralisada quando li essa notícia. Você expressou de forma lindamente clara essa dor que só quem já viveu entende. Texto incrível. Um beijo.

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