Render-se nunca, retroceder jamais!

O Carnaval nasceu pagão, muito antes do nascimento do Cristianismo [1] e [2], e embora tenha se modificado com o tempo e também dependendo de onde é comemorado, nunca perdeu sua principal característica: a prática de inversão de papéis sociais e protestos contra os que estão no poder. Carnaval é epoca de soltar aquele grito engasgado, e levar pra rua tudo que queremos expressar e não temos espaço ou coragem. É no Carnaval que os pobres fingem ser ricos, reis e rainhas, que o operário finge ser patrão. As máscaras, tradicionais dessa festa, eram usadas exatamente para permitir às pessoas a anonimidade necessária para protestar contra os poderosos sem medo de retaliação.

Como vivemos em uma democracia, não precisamos mais usar máscaras para protestar – temos liberdade de expressão! É nesse espírito que o bloco do qual participo tem buscado cada vez mais reforçar seu caráter político e apartidário (até porque temos membros de vários partidos e também apartidários): através da expressão artística. A escolha do tema, do repertório e do trabalho cênico são uma mensagem para o nosso público. Este ano, apresentamos o tema “Render-se Nunca, Retroceder Jamais”, e reforçamos o caráter popular e de rua do nosso trabalho. Nossa playlist de referência vale a pena ser ouvida [3].

O motivo de não tocarmos no Carnaval de Vinhedo foi justamente uma reafirmação do nosso posicionamento – se o Carnaval não é de rua, 100% popular e com acesso irrestrito, não nos interessa fazer parte dele. Queremos ocupar as ruas com a população, como é nosso direito. Valinhos decidiu investir nesse formato de Carnaval em 2019, e nos convidou a estar lá. Aceitamos com prazer e liberdade, pois não fomos pagos para participar – construímos nosso Carnaval de forma colaborativa, numa organização horizontal e sem hierarquia. Fazemos arte em conjunto, como voluntários, e com pouquíssimo apoio financeiro de alguns poucos comerciantes fãs do nosso trabalho.

Na avenida colocamos nossa mensagem através dos arranjos feitos pelo músico Elias Mendes, com músicas selecionadas de forma colaborativa com nossa bateria, e do nosso cênico, dirigido por Nayla de Souza e Vinicius Schiezaro. Buscamos levar ao nosso espetáculo a voz de tantos que não são ouvidos.

Nossas apresentações são sempre emocionantes, e não só pra nós que concretizamos um ano todo de trabalho em 2 dias de apresentação; nas fotos e vídeos sempre podemos ver crianças, idosos, homens, mulheres e outros emocionados, envolvidos. Vemos choro, riso, lágrimas de emoção provocados pelo espetáculo. O público é uma parte essencial do nosso espetáculo, é nosso grande parceiro, ao mesmo tempo coadjuvante e papel principal. Todo ano temos surpresas nesse lindo improviso na avenida.

Esse ano, assim como em todo Brasil [4], nosso público quis se manifestar contra o presidente eleito (assim como aconteceu também em 2018 [5] e, sejamos francos, em todos os Carnavais da história! Carnaval é oposição!). Aplaudimos a liberdade de expressão do público, e apoiamos quaisquer manifestações populares, especialmente na rua. Mas nunca é pouco lembrar que nosso tema de 2019 é muito mais amplo, é sobre a onda conservadora e opressora que acontece mundialmente.

Resistiremos, juntos, na rua.

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[1] https://brasilescola.uol.com.br/carnaval/historia-do-carnaval.htm

[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Carnaval

[3] https://open.spotify.com/user/222hglnliwoceegt3vw3iahdq/playlist/7mZSa2f5zrA8pP4hzhurjU?si=vb7RZNSMT1q1Sh6ozdefcw

[4] https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2019/03/05/interna_politica,741112/protestos-politicos-ganham-as-ruas-do-pais-durante-o-carnaval.shtml

[5] http://www.jornaldaparaiba.com.br/politica/protestos-contra-a-classe-politica-marcam-desfiles-do-carnaval-de-sao-paulo-e-do-rio.html

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