Comer, amar e viver

esse é um assunto muito importante pra mim (por motivos a ver no decorrer do post), e sobre o qual tenho falado há anos (antes do FB existir; tem texto no meu blog sobre isso) e que vem se consolidando ano a ano. acho que dá pra fazer um textão sobre isso agora! os links de referência eu coloco nos comentários.

me sinto gorda desde os 9 anos de idade, quando meus hormônios começaram a mudar. e está claro que me sentia gorda porque (1) as roupas da minha idade não serviam bem. a roupa de educação física na escola era uma tortura, um horror, credo; (2) as meninas me chamavam de gorda; (3) todas as referências de beleza são magras (e brancas, nem vamos entrar nessa área porque senão socorro).

então, gorda. sendo gorda, e portanto feia e inadequada automaticamente, a gente ouve comentários o tempo todo sobre o quê? COMIDA. se encher o prato, é “nossa, por isso é fortinha assim né?” e se não encher o prato ouve “ah, tá fazendo dieta né? que bom!”. não tem como não ser constrangida. aliás, ó: se comer batata frita — “cuidado, hein, já tá gordinha…” e se comer salada — “tá de dieta? muito bem, assim você perde uns quilinhos!”

gente que não é magra não tem sossego na vida, e desenvolve desde muito cedo uma relação de amor e ódio com a comida. comer dá prazer, a gente vem de fábrica preparado pra comer, comer sempre, e comer coisas doces, gordurosas e salgadas. leiam “o dilema do onívoro” (a) para saber mais sobre isso, sobre o que nos move a comer, e as coisas “melhores” de comer, que nosso cérebro vem prontinho pra escolher. então o amor vem de fábrica, mas o ódio é plantado em nós a cada comentário ruim sobre a comida como sua inimiga.

“isso engorda”, “isso é porcaria”, “isso é trash food”, “nossa, isso mata do coração!”, “afe, isso acaba com o fígado”, “ai, essa comida pode dar alergia”. eu poderia ficar o dia todo aqui lembrando de exemplos de transformação de algo tão simples quanto uma bala 7 belo numa arma mortal que deve ser banida do universo. e agora tá pior, porque até vegetais viraram veneno, graças às políticas infelizes de agrotóxicos. e os trangênicos, que são tratados por alguns como sanatás chegando na terra (b).

a relação entre a comida e a obesidade, diferente do que tentam nos convencer o tempo todo, não é uma relação diretamente proporcional, uma regra de 3 (comeu muito = engordou; comeu “porcaria” = engordou). não é uma regra de 3, é uma equação complexa, que mistra genética com bactérias intestinais, com neurônios, com alimentação, metabolismo, condições mentais, estilo de vida, e talvez mais um monte de coisas que eu não sei.

aliás, não sou especialista em nada disso. só sou curiosa, e gosto de ler, pensar e questionar. e sou uma gorda com alimentação saudável, o que significa que sou um unicórnio, porque ninguém acredita em mim. sempre tem alguém pra me dizer que eu devo fazer X ou Y pra perder peso. sempre.

voltando: todo mundo assume que a gente é gordo porque não segue a dieta e não tem força de vontade, porque “come porcaria” e é preguiçoso. a real é que, conforme a ciência da nutrição avança, fica claro que um dos fatores que causam a obesidade é a DIETA.

sim, colega. fazer dieta ENGORDA. (c)

aí, você que não é magra quando criança ou pré-adolescente e é bombardeado por sugestões bem intencionadas, faz o quê? DIETA. e emagrece um monte (porque sempre funciona no curto prazo!), fica “linda e magra”, recebe um monte de elogios por sua magreza (e se sente ainda mais inadequada por ter estado na condição anterior). aí o tempo passa, e como mais de 95% das pessoas do mundo que fazem dieta, engorda não só o que perdeu, mas um pouco mais. porque seu metabolismo, amiga, mudou quando você passou fome pra ficar magra. seu corpo se adaptou.

aí você faz o quê? quando não aguenta mais olhar pras suas fotos “magra” e pensar que você era mais linda e mais feliz, faz OUTRA dieta. e o ciclo se repete, e a gente continua engordando. quanto mais velhas ficamos, pior, porque o metabolismo vai mudando (pela idade e pelas dietas) e já não é mais tão simples ou rápido.

e tem os 5% que ficam magros, sei lá a que custo.muitas de nós desenvolvem transtornos alimentares (d) que podem ser mantidos pra sempre.

seja pra eles, ou pra nós, a relação com a comida se transformou pra sempre em algo tenso, contraditório e difícil. e é incrível como todo mundo que fala de “comer direito” está preocupado com a SAÚDE, mas sempre a saúde física, nunca a mental. quem se preocupa que comentar sobre o peso de alguém, sobre a comida que alguém come pode se transformar numa neurose, depressão, ansiedade ou distúrbio? (e)

“ai, você vai morrer do coração!” — mas a ansiedade e anorexia também matam mais do que a gente pensa. e vêm aumentando.

mas então não podemos falar de alimentação saudável?! podemos e devemos. o documentário “muito além do peso” é (f) um tapão no meio da cara, e dialoga com ‘o dilema do onívoro — o que estamos comendo? por que não comemos mais comida feita em casa? pra quê tanta embalagem? pra quê tanto açúcar, gordura e farinha, pra quê?

falar sobre a indústria alimentícia e sobre o marketing para crianças é fundamental nessa discussão. precisamos educar nossas crianças (e os adultos também!) a comer, cozinhar, ter uma relação saudável com a comida. só que isso passa também por não demonizar ingredientes nem produtos alimentícios. tem gente com fobia de farinha! há alguns anos o vilão era o ovo, pobre dele.

as comidas não são más, nem mesmo as industrializadas. elas são versões, podem ser divertidas e gostosas. comida não é só caloria nem vitaminas e fibras, comer é uma experiência sensorial, emocional. chiclete de tutti-frutti lembra infância, lembra minha amiga Naomi. e chiclete não serve pra NADA do ponto de vista alimentar, mas é um alimento pra minha alma e meu afeto SIM.

eliminar o componente afetivo e divertido da comida e reduzi-la a combustível “limpo” é deixar de considerar a complexidade da experiência de comer e beber.

educar a nós mesmos a nossos filhos sobre comidas de todo dia e comida de vez em quando é fundamental. não dá pra beber tequila todo dia, mas pô, de vez em quando é mágico. não dá pra comer um monster X burguer bacon cheddar todo dia, mas aquele final de balada com os amigos comendo um lanchão é história pra vida toda.

vamos comer, beber, ser felizes, usufruir dos nossos sentidos. vamos aprender a plantar, colher, cozinhar. aprender a respeitar diferentes corpos, e lembrar que somos corpo e mente, e ambos precisam ser saudáveis.

não dá pra ser saudável nos odiando porque amamos comer coisas gostosas e bem loucas de vez em quando.

moderação, educação, amor, sempre.

beijo.

(a) https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/ciencias-sociais/sociologia/o-dilema-do-onivoro-3218265
(b) https://www.forbes.com/sites/erikkobayashisolomon/2019/02/15/heres-the-real-reason-why-gmos-are-bad-and-why-they-may-save-humanity/#430fb6eb4877
(c) https://www.healthline.com/nutrition/do-diets-make-you-gain-weight#section2
(d) https://www.todamateria.com.br/ortorexia/?fbclid=IwAR0NCmTASDwYtMVoxmnz0YcQOxO7c5gnXlUSu-DoCt4ks2Fuhcjlw6rZhXE
(e) https://www.eatingdisorderhope.com/treatment-for-eating-disorders/special-issues/teen-adolescent-children?fbclid=IwAR24EB9Emryc1tlRb9jBmK59bgQPa1mwJuOuAK1Nb_N535zO_kXz-RG-vo0
(f) https://muitoalemdopeso.com.br/en

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