Vai, meu irmão

Estou na última hora de moradora do Brasil e sentindo um monte de coisas LOUCAS. Nenhuma delas tem a ver com as pessoas que ficam (elas estão comigo, tá tudo certo), a saudade a gente resolve fácil.

Parei em todas as lojas — mesmo as mais cafonas — de “coisas do Brasil”, pensando no que é ser brasileira, no que estou deixando pra trás.

Ser brasileiro é um privilégio e uma maldição. Nascemos e vivemos rodeados por coisas maravilhosas do ponto de vista natural e cultural. Nossa comida é sensacional, além de nutritiva. Nossa cultura popular é de uma riqueza que não cabe em livros, é imensa, complexa, diversa. Nosso artesanato é de tirar o fôlego, com sua estética única e também tão diversificada quanto é nosso país de norte a sul. Nossa música é tão misturada, única, além de linda e louca (é África, Europa e indígenas tudo junto). Nosso idioma é uma representação tão perfeita de nós como povo, cada região com sua característica. Nosso português é tão fluido, delicioso, malemolente mesmo. Tropical, divertido, papagaios gritando na floresta.

Nossas cores, nosso sol, as árvores e flores. As frutas ❤

Pra pessoas como eu, que tiveram a sorte e privilégio de estudar, ler, ouvir, viajar tanto, conhecer o Brasil e tantos lugares do mundo, essa riqueza é mais evidente e mais dolorida.

Somos tão maravilhosos, e sofremos tanto. Destruímos nós mesmos tudo que temos de melhor, tentando parecer menos o que somos, copiando o que há de pior no mundo.

Somos criativos, flexíveis, inteligentes, curiosos, amorosos. E nossa sombra — a bagunça, o jeitinho — nos mata.

Agora entendi porque na minha mudança eu fiz um inventário de artes, artesanatos, referências da nossa cultura: jamais quero deixar de ser brasileira. E quero mostrar pra mim mesma que é possível ser brasileira e ser MELHOR, não ceder ao jeitinho.

Quem sabe um dia a gente perceba que somos melhores do que as escolhas que temos feito, e que não precisamos copiar ninguém. Que podemos criar um futuro diferente, do nosso jeito, com amor e muita música e arte.

É a arte que pode nos salvar.

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