Desejo para 2020

Houve um tempo em que eu achava que as pessoas tinham inveja de mim e por isso faziam [adicione aqui coisas que eu acho estranhas ou sacanagem comigo]; houve um tempo em que eu achava que aquilo que incomodava os outros em mim era algo errado com eles; houve um tempo em que eu achava que o que os outros pensam a meu respeito é problema deles e não meu.

Envelhecer é um privilégio, e se você souber aproveitar é um presente sem tamanho! Aprendi muito graças à terapia (melhor decisão que tomei na vida, aos 30 anos), e a coisa mais importante que aprendi está relacionada aos pontos acima: **não me cabe dizer nada a respeito de como outros sentem, sobre as motivações deles**. Nada, absolutamente nada. Supor qualquer coisa sobre os outros é perda de tempo e distração, mas geralmente é ainda pior — somos nós tentando projetar nos outros nossas inseguranças e problemas.

O que aprendi, em linhas gerais (e continuo buscando praticar; erro muito!):

(1) A gente tem que lidar com o que as pessoas dizem e fazem, e não com o que a gente ACHA que eles sentem, até porque muitas vezes nem quem sente sabe o que sente 🙂 O que nos cabe é observar os fatos, ações, e se for o caso trazer para conversas. A menos que a pessoa, ela, queira falar com você sobre seus sentimentos, aí é hora de ouvir. Isso se a pessoa tiver a capacidade de se mostrar vulnerável e de fato abrir seus sentimentos. A maioria de nós vira um porco-espinho quando se trata de falar de sentimentos. É difícil acolher quem ataca quando se sente vulnerável.

(2) O que eu faço pros outros e incomoda é problema meu, e não deles. Não se eximir da responsabilidade quando machuca os outros mesmo de forma não intencional é fundamental — mas (3) é o outro que tem que me dizer que eu pisei fora da linha. Os limites de cada um são diferentes e não me cabe adivinhar. Relações maduras são feitas de pares de pessoas se falando, e trazendo à tona o que sentem, mostrando como as ações de um afetam o outro. É assim que a gente cresce e melhora. Quando eu machuco o outro, não é problema dele, é meu. Mas é responsabilidade dele me mostrar que eu errei. Senão isso não é troca. Se alguém reclama de você pra uma terceira parte e não pra você, faltou coragem e respeito. É difícil confrontar sim, mas quem se importa confronta e luta por uma relação melhor.

Inclusive se você tiver uma relação muito próxima e não tiver coragem de entrar em confronto, sua relação vai acabar mal, é só questão de tempo.

A ideia de inveja e olho gordo afetando a nossa vida é ridícula. São meras desculpas pra não confrontarmos pessoas sobre comportamentos que nos incomodam, que podem trazer à tona comportamentos nossos que as incomodam. Essas conversas são difíceis e truncadas, é preciso muito amor e desejo de superar pra enfrentá-las.

E isso é outra coisa que aprendi — (4) não é sempre que eu quero confrontar, nem sempre vale a pena. Dá muito trabalho escutar o outro, e ser vulnerável. É um grande risco, e é um grande esforço. Então reservo minha energia para fazer isso com quem amo muito ou com quem sou obrigada a conviver de forma construtiva (trabalho, grupos de voluntários, etc.)

Nada é a seu respeito. O mundo do outro tem muitas nuances, então não julgue. Quando estiver em diálogo, fale sobre fatos e não sobre o que você acha. Ouça, com atenção. E se decidir não falar com a própria pessoa, não fale dela pra outros, isso é perda de tempo (não adianta nada, não muda a realidade, não ajuda ninguém) e/ou ficção pura (interpretação e julgamento).

(5) A culpa de mal entendidos, desconfortos e conflitos nunca é só do outro. É construtivo e bom abordar dificuldades diretamente com a pessoa envolvida, mas dá trabalho. Se decidir que não quer ter esse trabalho, está tudo bem, mas então esqueça o assunto ao invés de levar sua história de ficção para uma terceira parte. Ninguém se beneficia da sua versão enviesada da realidade — nem você, que continua com a ilusão de que a culpa é do outro; nem o outro, que sequer sabe que a questão existe; e nem a terceira parte que recebe um fardo desnecessário de um conflito que não é dela.

Coragem, é o que desejo pra mim e pra todos nós, a cada ano que chega. Coragem de decidir se quero resolver meus conflitos e incômodos ou se quero simplesmente deixar que eles fiquem no passado. Nada no meio do caminho me interessa, e é perda de energia.

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