Parasita

Assisti Parasita e me senti super desconfortável, porque aquela dona de casa contratando empregados também sou eu. Aquele homem de negócios com motorista? Sou eu também.

Não porque eu despreze pobres, ou a pobreza (tampouco glamurizo; queria que ninguém fosse pobre), mas porque eu também já me coloquei nesse lugar de contratar mão de obra barata me convencendo que estava “dando emprego”. Como se contratar alguém pra fazer tarefas ÍNTIMAS que eu mesma posso fazer não fosse degradante, mesmo pagando.

Não vejo nada errado em contratar serviços especializados, que não sei fazer, ou faço mal. Levar uma roupa pra lavanderia, contratar comida pronta ou lavagem de janelas me parece tão OK quanto chamar um marceneiro pra arrumar minhas janelas. São atividades especializadas, que de repente eu não tenho competência pra fazer bem.

Mas essa terceirização não é comparável a ter alguém dentro de casa, ou atrás de você, fazendo coisas dentro da sua casa e super entranhada na sua intimidade, que você seria perfeitamente capaz de fazer.

Lavar louça, limpar banheiro, usar a sua própria máquina de lavar. Tirar lixo do seu banheiro. Guardar suas calcinhas. Lavar privada. Varrer os cabelos que você deixa pelo chão.

Não importa que a pessoa esteja disposta a ser paga pra fazer isso — TÁ ERRADO. Todo mundo, no mundo todo, precisa cuidar de si mesmo, do seu espaço. Não há nada mais importante que isso, porque lembra a cada um de nós que a existência tem impacto, que existir faz sujeira e bagunça e precisamos manter as coisas limpas e organizasse pra que a vida de todos seja mais leve e mais fácil.

Como dá pra ensinar pra alguém que não separa e coloca o lixo pra fora sobre o impacto do consumo e das embalagens?

Como entender o quanto de água se consome lavando roupa e jogando detergente no esgoto se você não lava roupa nem louça, e não vê o tanto de tempo que se gasta com água correndo?

Como convencer alguém que não limpa a privada da importância de usar com cuidado, de lembrar que mais gente vai usar aquele espaço?

Só quem limpa privada suja e separa lixo é que sabe o quanto é melhor EVITAR que efetivamente ter que cuidar da sujeira. Não tem forma de educar sobre isso que não seja fazendo.

Contratei minha primeira funcionária doméstica com 28 anos, ironicamente quando morava sozinha. Morava num ap imenso e trabalhava muito, eu achava que precisava de alguém pra limpar e cozinhar. A real é que eu não precisava não, só não queria fazer as coisas. Além de gastar dinheiro desnecessariamente, ainda tinha um trabalho enorme de controlar a existência dela, os pagamentos, compras. Aí me acostumei a ter alguém fazendo tudo, e me convenci que era necessário.

Quanto Otto nasceu, a gente precisou muito de ajuda, mesmo. Ele não dormia, e era difícil viver, que dirá fazer tarefas domésticas. Foi uma época muito difícil, mas a real é que nosso caso era atípico — o Otto não foi um bebê e uma criança padrão. Consigo aceitar melhor a necessidade de ajuda (especialmente pra quem não tem família próxima) quando crianças dão trabalho fora do normal. Mas ainda assim, jamais foi necessário ter babá acompanhando fora de casa ou dormindo em casa. Nunca. Nem com uma criança tão complicada quanto o Otto.

Não tem desculpa, gente. Essa é a real. Contratar alguém pra servir você, limpar sua sujeira e arrumar sua bagunça é simplesmente explorar quem não tem outra opção pra se sustentar. Não existe quem goste de fazer esse tipo de trabalho.

Estamos aqui há 3 meses somente e eu já me sinto MUITO constrangida de ter contratado pessoas em tempo integral pra cuidar da nossa casa por nós.

É CÔMODO, não vou mentir. Mas é errado.

Aqui eu trabalho o dia todo, chego em casa e Fer e eu fazemos jantar, arrumamos as coisas, ajudamos o Otto. Ele faz compras, cuida do lixo, eu cuido da roupa, ambos cuidados da comida e da limpeza, ele leva e traz Otto da escola e faz as atividades com ele, ambos cuidamos dele.

É perfeitamente possível, se todos colaboram e mantêm as coisas organizadas. Nossa casa é limpa e relativamente organizada — poderia ser mais, se tivéssemos menos coisas.

Ter menos coisas ajuda a vida a ser mais simples.

E você só percebe isso quando é diretamente responsável por limpar e organizar.

Jamais terei empregados domésticos novamente. Essa decisão é política, e necessária pra manter os pés no chão e a cabeça no lugar certo.

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