The Sopranos, última temporada

Último episódio de “The Sopranos”, gente: tá de parabéns  . MARAVILHOSO ❤️

Pra quem não assistiu e quer assistir, talvez queira pular esse post porque vou falar sobre a última temporada e o último episódio 🙂

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Achei a última temporada muito interessante, porque me parece que além da óbvia degradação da personalidade de Tony (ele fica cada vez mais sociopata, o que acaba sendo motivo pra finalização do relacionamento com a terapeuta) tem ao mesmo tempo a degradação da “instituição” Máfia. Acho a doença de Júnior Soprano um detalhe importante — ele parece uma alegoria da própria instituição, que no final decai e diminui como a própria Little Italy, tão bem colocada no penúltimo episódio. A China invade a Itália.

A série toda me parece ser sobre masculinidade tóxica (mas sei que é uma leitura minha, muitos anos depois da criação da série), e o arco de Vito, que expõe o conflito de Tony, me parece também uma forma de mostrar que a instituição, a “família”, fazem parte de um outro tempo, que ficou pra trás e não tem mais como sobreviver no novo mundo da América. Os velhos morrem, de doenças degenerativas, se tornam “fracos” e incapazes. Da mesma forma eles vão minguando, os envelopes ficando mais leves — num episódio nem envelope tem! — e o italiano sendo substituído pelo espanhol pouco a pouco nos meios em que eles antes dominavam.

Os filhos de Tony, não à toa, tomam caminhos também conflitantes com a “familia”: Meadow quer ser advogada de casos de colarinho branco, e defender minorias; AJ se envolve profundamente com as questões de defesa da pátria contra o terrorismo, e se compadece do sofrimento do mundo. Eles são o mundo novo, e Tony e a família, o mundo velho.

Eu entendo a última temporada com a derrocada da famiglia, do método, dessa forma de “fazer negócio” e de viver. O último episódio, “Made in America”, foi pra mim uma linda alegoria do fim de uma era, e da aceitação de que ali é a América, e que outra era começou.

Pela primeira vez na série Tony come em um restaurante que não seja chique ou italiano. Até esse momento na série (e ele come o tempo todo!) tudo que ele come é italiano, e quando não é glamuroso é típico, é “raiz”. Comer comida italiana é muito importante pra ele, e ele só come cereal por exemplo nos momentos de dificuldade ou depressão.

Eles fecham a série num restaurante tipicamente americano, com aquele leiaute tradicional anos 50, comendo onion rings e ouvindo “Don’t Stop Believing”, que aliás é escolhida pelo Tony deliberadamente na juke box. Os componentes no restaurante são sensacionais: um “red neck”, de boné com bandeira dos USA, uma mesa com escoteiros (!), um grupo de homens negros com roupas de rapper, e um típico italiano de jaqueta.

Ele chega primeiro, depois Carmela, depois AJ, e é um típico jantar de família normal, não fosse a constante tensão de Tony ser quem é, sempre na corda bamba, esperando o pior acontecer. Meadow chega por último, se demora numa tentativa de estacionar o carro que pra mim foi tão HUMANA! Eles são uma família americana, finalmente, e pela primeira vez, fazendo uma refeição simples num dining.

O italiano entra no banheiro, estilo poderoso chefão, é verdade. E tem o corte abrupto, e o silêncio, que traz de volta o diálogo com Bobby sobre a morte ser súbita e silenciosa (diálogo depois repetido por Tony).

Eu não sei se Tony morreu, que é a grande discussão dessa série, mas de verdade pra mim não importa tanto assim. Acho que quem morreu no decorrer da série foi a máfia, incorporada pelo jeito americano, pro bem e pro mal.

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