Armadilha da feminilidade

Vi um post agorinha com um vídeo do TikTok perguntando — “já enalteceu uma travesti hoje?” — e mostrando travestis se montando, maravilhosas. Muitas bocas, caras, cabelões, peitos e bundas.

Hoje mais cedo compartilhei um post sobre como seria mais fácil a vida de quem tem gêneros não óbvios ou alinhados com seu aparelho reprodutivo de nascença se não houvesse uma pressão tão imensa pra separar o feminino do masculino de forma tão radical.

Um dos comentários que li nesse post era de uma mulher transgênero (ou travesti, não tenho certeza) dizendo “mas eu quero ser uma gostosa!”.

Tanto o comentário do post quanto o vídeo que acabei de ver têm a mesma fundação: ser mulher é equivalente a ser uma criatura ornamental e altamente sexualizada, porém tudo isso sempre a partir do olhar masculino do que é bonito ou desejável.

Me entristece e desanima observar tantas mudanças boas acontecendo quanto à liberdade de gênero, a ampliação do espectro da sexualidade humana e ao mesmo tempo esse conceito do que é ser MULHER continuar tão cristalizado numa versão antiga, cafona e limitada.

“A gostosa.”

Amo a versão de Laerte mulher. Uma mulher artista, com a idade que tem, fazendo coisas de mulher como VIVER, CRIAR, LUTAR.

É triste ver nossas colegas mulheres não cis sucumbindo à mesma cobrança de mão de ferro para que sejamos “as gostosas”, já que mulheres que não entram nessa categoria não servem pra nada. “Nem pra serem estupradas”, lembrem.

Ao mesmo tempo, homens que ousam expressar o mínimo de feminilidade ou qualquer característica associada a nós, mulheres-enfeite, mesmo que tão simples quanto cuidar do próprio cabelo, sao massacrados. Nenhum espaço pra ambiguidade, para a complexidade.

Eu quero um mundo mais diverso. Quero um mundo em que ser mulher não seja sinônimo de carão – bocão – cabelão – teta – bunda.

Deixe uma resposta