Quase 50

Ok, gente: várias amigas me marcando / mandando o tal vídeo da moça de 50 anos reclamando do Porta dos Fundos e o artigo da Folha da moça também de 50 anos dizendo que “tem 50 anos mas é gata, e trepa”. Vou comentar aqui e falaremos em breve sobre esse assunto no podcast, porque envelhecer é um assunto universal e parte da experiência humana (com sorte), porém envelhecer sendo mulher é outra história.

Pra começar, achei tanto o vídeo quanto o artigo da Folha só a confirmação de que o patriarcado e o capitalismo estão firmes e fortes, apertando nossos pescoços. Vou elaborar.

As duas mulheres-de-50 se manifestando parecem ter 30, são brancas, magras, “modernas” e bem privilegiadas. Podiam sair na capa de qualquer revista feminina, são branca-padrão, trabalhadas no pilates e comida orgânica.

A piada do PdF é sobre uma mãe de 57 que não sabe usar um smartphone, e que o filho trata como incapaz digitalmente, que acredita e espalha fake news, etc. A crítica é que se trata de preconceito de idade (“etarismo”, sem H. Ou “ageism” em inglês), porque as pessoas de mais de 50 hoje não são mais como eram antigamente.

Concordo 100% que o conceito de idoso mudou nos últimos anos, e que uma pessoa de 50 hoje não é a mesma coisa que uma pessoa de 50 há 100 anos. Vivemos mais, temos mais saúde, etc.

Concordo também que o impacto no mercado de trabalho é brutal, especialmente quando reduzem a idade de aposentadoria — pessoas mais velhas continuam trabalhando por mais tempo, competindo com os mais jovens. Só que os mais jovens ganham menos, o que acaba tornando a competição complicada pros 2 lados (mais velhos começam a aceitar menos, aos jovens são oferecidos salários ainda menores).

Não tenho nenhuma dúvida que envelhecer é mais difícil para as mulheres, porque os atributos negativos comumente associados à velhice são somados à cobrança do patriarcado de que mulheres devem ser jovens (e bonitas e magras e etc.). Para as mulheres, ter mais de 30 é indesejável, vide as 30+ que buscam sempre esse visual “pareço ter 30”.

As 2 moças que têm 50 porém parecem ter 30, na minha leitura, parecem estar basicamente preocupadas em provar que são capazes, gatas, transantes, criativas, ativas na sociedade. E esse esforço todo só é necessário porque graças ao patriarcado mulheres só têm valor se forem atraentes (independente da idade. Se vira!) e ativas sexualmente; graças ao capitalismo, o indivíduo só tem valor se for consumidor e também produtor de algo que pode ser vendido.

Ah, e que sabem usar internet!

Então a primeira parte do meu incômodo com esse discurso todo é o reforço absurdo da imposição do patriarcado e do mercado. SOMOS COMÍVEIS! SOMOS PRODUTIVAS!

(E por isso temos valor. Nos respeitem!)

As não comíveis e não produtivas também merecem o mesmo respeito, será?

(Homens são mais respeitados quando mais velhos. Alicerce do patriarcado e do capitalismo né gente? Outra categoria de cidadão)

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Bom, agora vamos à questão de outros recortes: uma mulher privilegiada e branca de 50 anos é igual à diarista de 50 anos? Tem a mesma saúde, aparência, educação digital?

Por que será que pessoas mais velhas são mais suscetíveis a golpes digitais e fake news?

(Ah mas 50 anos não é velha! — desde que você seja privilegiada, colega. Esse é o ponto)

Pessoas mais velhas e mais privilegiadas sempre estiveram em outra categoria de ser humano. Ainda assim, o patriarcado e o capitalismo não poupam ninguém, e são especialmente cruéis com as mulheres que não se enquadram.

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Há uns 2 anos eu estava no caixa do supermercado com o Otto e o rapazinho no caixa (uns 20 anos talvez) falou pra ele: “ajuda a VOVÓ a colocar a compra aqui!” e eu fiquei chocada. AVÓ?!

Pra uma parcela IMENSA da população do Brasil não faz nem sentido uma mulher de 46 anos ter um filho de 8. As moças engravidam cedo, com frequência ainda adolescentes. Quão privilegiada sou eu que pude escolher quando ter meu filho, e esperei até os 37 anos pra engravidar?

Minha avó foi avó com 37 anos. Essa é a realidade da enormidade maioria da nossa população.

Não há motivo algum pra eu me ofender pelo rapaz achar que Otto é meu neto. Na realidade dele, do meu país, isso faz muito mais sentido que eu ser mãe do menino.

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Há uns anos eu estava viajando com o Fer e uma mulher (bem mais velha) achou que eu era mãe dele. Ele é 2 anos mais novo que eu, e acho que aparentamos a idade que temos, que é quase igual.

Tirando a falta de noção da pessoa de comentar isso, não é completamente maluco achar estranho um homem de mais de 30 estar com uma mulher de mais de 30. A expectativa é que os homens façam par com mulheres MUITO mais jovens. Inclusive outro dia descobri que tem uma “regra”: metade da idade + 6 (nem me pergunte, não tenho ideia do motivo).

Ou seja, o Fer atualmente devia estar com uma mulher de 29 anos (ele tem 46).

Combina com o modelo de sucesso vendido aos homens. Combina com a meta de toda mulher sempre parecer congelada nos 30 anos.

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A piada com a mãe sem noção de 57 é perfeitamente crível, e por isso mesmo, engraçada. E digo mais: se a piada fosse com o pai tiozão sem noção sendo tratado como um menino mimado e sem noção, a piada seria igual e não haveria polêmica alguma.

Porque homem ser velho e ignorante digital tá tudo bem. Inclusive tá tudo bem ser HOMEM, gente.

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Não quero me tornar uma mulher mais velha “com cabeça de 15”. Amo minha cabeça de 48. Não amo meu corpo de 48, nem ter que usar óculos pra ler, nem o colesterol mais alto. Envelhecer é uma bosta pro corpo, e é maravilhoso pra mente.

Envelhecer sem dinheiro, sem saúde, sem educação, sem aposentadoria, num mundo frenético e que quer nos moer até o bagaço é que fode.

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Entendo o incômodo das moças de 50-que-parecem-30, é ruim mesmo ser comparada com a sua versão pobre, preta e moída pelo patriarcado e o mercado. A versão que acredita nas mentiras estúpidas do zapzap e na manipulação dos programas pinga-sangue da TV. A versão que sai de casa às 5h e volta às 22h, que não leu Marx nem Simone, que aliás nem lê.

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Sei lá se o Porchat devia ser menos etarista nas piadas; o que eu sei é que enquanto a gente não se revoltar contra o patriarcado e o mercado, está todo mundo fudido, e a piada do PdF é só um reflexo da realidade; me importa muito pouco.

E definitivamente tou sem tempo de ouvir reclamação de mulheres que representam tão brilhantemente o supra sumo da branquitude de capa de revista.

Minha luta é outra: não sou enfeite; não quero ser 100% útil. Quero poder ser respeitada mesmo sendo feia, velha, inútil e ociosa.

Um beijo, rumo aos 49.

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