Posts com a tag “poesia”
aprendi com a primavera a me deixar cortar. e a voltar sempre inteira.
(cecília meireles)
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é liberdade ou estou sendo mandada? pois venho notando que tudo que é erro meu tem sido aproveitado. minha revolta é que para eles eu não sou nada, eu sou apenas preciosa: eles cuidam de mim segundo por segundo, com a mais absoluta falta de amor; sou apenas preciosa.
(clarice lispector)
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olha-me de novo. com menos altivez.
e mais atento.
(hilda hilst)
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o que eu adoro em tua natureza,
não é o profundo instinto maternal
em teu flanco aberto como uma ferida.
nem a tua pureza. nem a tua impureza.
o que eu adoro em ti - lastima-me e consola-me!
o que eu adoro em ti é a vida.
(manuel bandeira)
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não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? na noite escassa
com um insolúvel flautim.
entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.
(carlos drummond de andrade)
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um blog antigo, sobre poesia, uma palavra: saudade. e um excelente blog recém-descoberto, também sobre poesia: castelo preto.
vibra do cio sutil da luz,
meu homem e afã
vem turbulento da noite a flux
de pã! iô pã!
iô pã! iô pã! do mar de além
vem da sicília e da arcádia vem!
vem como baco, com fauno e feran
e ninfa e sátiro à tua beira,
num asno lácteo, do mar sem fim,
a mim, a mim!
vem com apolo, nupcial na brisa
(pegureira e pitonisa),
vem com artêmis, leve e estranha,
e a coxa branca, deus lindo, banha
ao luar do bosque, em marmóreo monte,
manhã malhada da àmbrea fonte!
mergulha o roxo da prece ardente
no ádito rubro, no laço quente,
a alma que aterra em olhos de azul
o ver errar teu capricho exul
no bosque enredo, nos nás que espalma
a árvore viva que é espírito e alma
e corpo e mente - do mar sem fim
(iô pã! iô pã!),
diabo ou deus, vem a mim, a mim!
meu homem e afã!
vem com trombeta estridente e fina
pela colina!
vem com tambor a rufar à beira
da primavera!
com frautas e avenas vem sem conto!
não estou eu pronto?
eu, que espero e me estorço e luto
com ar sem ramos onde não nutro
meu corpo, lasso do abraço em vão,
áspide aguda, forte leão -
vem, está fazia
minha carne, fria
do cio sozinho da demonia.
à espada corta o que ata e dói,
ó tudo-cria, tudo-destrói!
dá-me o sinal do olho aberto,
e da coxa áspera o toque erecto,
ó pã! iô pã!
iô pã! iô pã pã! pã pã! pã,
sou homem e afã:
faze o teu querer sem vontade vã,
deus grande! meu pã!
iô pã! iô pã! despertei na dobra
do aperto da cobra.
a águia rasga com garra e fauce;
os deuses vão-se;
as feras vêm. iô pã! a matado,
vou no corno levado
do unicornado.
sou pã! iô pã! iô pã pã! pã!
sou teu, teu homem e teu afã,
cabra das tuas, ouro, deus, clara
carne em teu osso, flor na tua vara.
com patas de aço os rochedos roço
de solstício severo a equinócio.
e raivo, e rasgo, e roussando fremo,
sempiterno, mundo sem termo,
homem, homúnculo, ménade, afã,
na força de pã.
iô pã! iô pã pã! pã!
(hino a pã, fernando pessoa)
(hilda hilst)
I
toma-me. a tua boca de linho sobre a minha boca
austera. toma-me AGORA, ANTES
antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
da morte, amor, da minha morte, toma-me
drava a tua mão, respira meu sopro, deglute
em cadência minha escura agonia.
tempo do corpo este tempo, da fome
do de dentro. corpo se conhecendo, lento,
um sol de diamante alimentando o ventre,
o leite da tua carne, a minha
fugidia.
e sobre nós este tempo futuro urdindo
urdindo a grande teia. sobre nós a vida
a vida se derramando. cíclica. escorrendo.
te descobres vivo sob um jogo novo.
te ordenas. e eu deliquescida: amor, amor,
antes do muro, antes da terra, devo
devo gritar a minha palavra, uma encantada
ilharga
na cálida textura de um rochedo. devo gritar
digo para mim mesma. mas ao teu lado me estendo
imensa. de púrpura. de prata. de delicadeza.
II
tateio. a fronte. o braço. o ombro.
o fundo sortilégio da omoplata.
matéria-menina a tua fronte e eu
madurez, ausência nos teus claros
guardados.
ai, ai de mim. enquanto caminhas
em lúcida altivez, eu já sou o passado.
esta fronte que é minha, prodigiosa
de núpcias e caminho
é tão diversa da tua fronte descuidada.
tateio. e a um só tempo vivo
e vou morrendo. entre terra e água
meu existir anfíbio. passeia
sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
noturno girassol. rama secreta.
(...)