Archive

Posts Tagged ‘cultura’

o dilema desta onívora

fevereiro 5, 2013 2 comments

sugiro ver o documentário muito além do peso antes de ler o post. e se tiver lido o dilema do onívoro, tanto melhor.

**

tenho lutado com meu peso a vida toda, desde mais ou menos 9 anos. só me tornei obesa de fato depois dos 30, mas desde sempre me lembro de alterar entre peso normal e sobrepeso. nunca pude e nunca poderei simplesmente relaxar e comer, sem engordar. é duro chegar a essa conclusão, porque é preciso admitir uma fraqueza, uma falha.

não tenho doença alguma que me faz engordar, sou absolutamente saudável (inclusive enquanto obesa). meu problema com a comida é de outra ordem, e pelo que ouvi dizer somente 2% dos obesos de fato têm alguma condição que os faz engordar. os demais, suponho que sejam como eu e têm uma relação complicada com a comida e com o ato de se alimentar.

comida não é pasto, bebida não é água. comida e bebida são amor, cumplicidade, conforto, felicidade, prêmio, glamour, conquista (amorosa e meta), mágica. comer é a coisa que mais fazemos na vida, durante toda ela. comer é também e principalmente uma grande atividade social, um meio de se relacionar, momento de olhar nos olhos, oferecer, trocar, compartilhar. o desejo de compartilhar, tão bem explorado e usado pelas redes sociais, é inato. não existe religião na história que não passe pelos rituais do alimento, que não o utilizem como alavanca e não explorem o milagre e alegria de ter comida à mesa para dividir.

comer é um ato social, desde o primeiro momento — quem alimentou um bebê no peito sabe perfeitamente do que estou falando. é um ato muito maior que simplesmente fornecer alimento, é a criação de um laço de amor e comida, intimamente relacionados. e suponho que o mesmo se dá se for preciso usar uma mamadeira, nestes primeiros momentos de vida. a experiência de se alimentar pelas mãos de outro, num abraço absoluto e intenso, olhos nos olhos, é poderosa. e depois, experimentar o mundo com a boca, alimento por alimento, sendo ensinado como comer e, em última instância, sobreviver. a forma através da qual nos alimentamos nós, humanos, é totalmente permeada pela experiência social e cultural, é uma extensão de quem somos, como espécie e como indivíduos de uma determinada sociedade. sim, somos exatamente o que comemos, e não estou falando do aspecto nutricional da alimentação.

essa mistura de cultura, afeto e socialização, para alguns indivíduos (como eu), desanda e comer já não é mais meio, mas fim. come-se para ficar feliz, para comemorar, para relaxar, para se relacionar e para esquecer outras coisas. some a isso um estilo de vida sedentário, e está feita a fórmula da obesidade.

**

no documentário muito além do peso mais algumas variáveis dessa equação complicada se mostraram: o poder da propaganda (que explora muito bem todo o aspecto emocional e social da comida); a influência do meio (família, amigos) na alimentação; o despreparo ou descaso das escolas e das próprias famílias no que diz respeito à alimentação das crianças.

somos onívoros. um dos principais motivadores da nossa espécie (primeiro? segundo, talvez, depois de procriar?) é procurar comida, e comer. mas não é simplesmente procurar qualquer comida, é procurar as melhores comidas, as que têm maiores benefícios. nossos antepassados sobreviveram graças à sua habilidade em se alimentar, e sobrevivemos e prosperamos como espécie graças à nossa capacidade em grupo de ensinar uns aos outros como comer, o que comer. é através da imitação, da transmissão do conhecimento, que o ser humano se tornou o mais bem sucedido onívoro que já habitou este planeta.

e o que aconteceu, depois de tanta evolução? já não aprendemos mais a procurar e selecionar alimentos notoriamente bons para nossa sobrevivência; o conhecimento dos nossos antepassados, toda nossa cultura alimentar desaparece rapidamente, geração após geração. agora aprendemos a comer com a TV, com a propaganda. não é mais nossa tribo, nossa família que nos mostra o que devemos comer, o que é bom, é um outdoor, um comercial, uma embalagem no supermercado. não, é pior: desde pelo menos a década de 50 as famílias pararam de preparar suas comidas e começaram a comprar tudo pronto, industrializado. você não escolhe mais as batatas mais bonitas para fazer seu purê, ao invés disso, compra o pó pronto numa caixa bonitinha, que é muito mais prático. ninguém mais vê a galinha sendo morta e depenada (eu vi quando criança!), o que existem são bandejas plásticas com pedaços. não sabemos mais o que estamos comendo. nossos alimentos vêm em caixas pretas metafóricas (experimente tentar descobrir a exata composição do que você compra e come), e engolimos sem questionar. desaprendemos dia a dia uma das capacidades mais importantes da nossa espécie — procurar e consumir os melhores alimentos.

**

esse post vai ficar um livro, mas não consigo parar: ontem fui ao supermercado, depois de meses sem entrar em um deles (quem faz compras aqui em casa é o marido). fiquei absolutamente chocada (e hipnotizada) pela quantidade de cores, embalagens, opções. e o desbalanceamento injusto entre alimentos industrializados versus alimentos in natura é assustador. a seção de frutas, verduras, legumes e carnes é muito pequena, comparada com o restante do mercado!

alimento pra mim é compensação e prazer, o que combinado com a vida sedentária que adotei, se transforma em peso adicional. mas ainda como de forma minimamente saudável, sou o tipo de pessoa que gosta de comida feita em casa, carnes, grãos, verduras, legumes e frutas. e é assim também que crio meu filho — comendo comida feita em casa, usando ingredientes frescos. com 2 anos e meio ele sabe reconhecer frutas, legumes, verduras e até temperos direto da horta ou do pé. considero esses ensinamentos (sobre os alimentos, sobre os preparos) parte essencial da educação dele, tão importante (mais importante!) do que aprender matemática, por exemplo. acho assustador que tantas famílias permitam que a cultura alimentar se perca, ou seja substituída por industrializados cujo apelo afetivo é falso, fabricado, kitsch.

é preciso repensar (em especial os que decidiram ter filhos) os próprios hábitos, e questionar não somente se são saudáveis mas principalmente se são legítimos, se são seus mesmo ou efeito propaganda. não faz sentido ser escravo de uma marca. é uma vergonha ser “viciado” em coca-cola, ou qualquer outra marca de comida que vive de criar propagandas que nos induzem ao consumo. é um crime perpetuarmos essa cultura do consumo para as próximas gerações. é simplesmente errado não ensinar as próximas gerações a se alimentar de forma saudável e prazerosa.

**

a lei da ação e reação é implacável, e é claro que como resposta ao “ataque do doritos assasssino” a que somos submetidos o tempo todo em todos os lugares, nasceram os radicais da alimentação saudável. eles são muito melhores que os inconscientes, os que simplesmente se deixam levar pela maré e chafurdam no cheddar. o radicalismo serve um propósito nobre, mas não acho que seja uma boa opção. o mundo está dominado pelas comidas industrializadas de propaganda, e SIM, elas são extremamente gostosas e viciantes. há milhões de dólares investidos nestes alimentos e na propaganda deles, justamente para que todos queiram experimentar, e quando experimentam a experiência é UAU. estes alimentos são exatamente como drogas — eles dão prazer. são feitos pra isso, e por isso são tão consumidos. as pessoas não são simplesmente estúpidas (ok, algumas são), elas simplesmente são inconscientes, ou não se preocupam com o resultado dessa complicada equação.

ou você também é dos que acham que gordos são meramente preguiçosos e hedonistas, e por isso são gordos? é claro que deixar de ser gordo é possível para todos (com raríssimas exceções), mas definitivamente não é simples e nem fácil.

drogas, bebidas alcoólicas, comidas gordurosas, cheias de açúcar e sal — tudo isso é gostoso, dá prazer. queremos mais, e mais. não vamos nos enganar. é difícil abandonar drogas, é preciso empenho, muito apoio e força de vontade.

como ensinar às nossas crianças (e a nós mesmos) sobre drogas (todas as acima)? negando sua existência? proibindo terminantemente senão-você-vai-ver? não comprar, não ter à mão, é uma boa opção, e funciona por um tempo, mas não pra sempre. porque (insisto) comer (e consumir drogas, a propósito) é um ato social. a menos que você pretenda se trancar numa caverna, ou montar uma sociedade alternativa dos sem-ruffles, sugiro que pense como lidar com o mundo lá fora. claro que você também pode optar por ser aquele mala sem alça que leva arroz integral num tapauér pro almoço na casa do amigo e não come nada que lhe oferecem, mas a maioria de nós não quer ser essa pessoa. a outra opção, que na verdade não é sequer uma opção mas uma necessidade, é educar-se, aprender a conviver com essa realidade da comida-que-não-me-faz-bem.

**

penso muito nesse assunto (alimentação saudável, relação com a comida, propaganda). desde que meu filho nasceu e começou a se alimentar, tomei essa tarefa de educá-lo para se alimentar bem muito seriamente. e é claro, não podia mais ignorar minha condição de obesidade, já que o assunto é ser mais saudável. iniciei em agosto/12 uma reeducação alimentar séria para voltar a um peso aceitável e me alimentar da forma que considero adequada. porque afinal, a melhor forma de educar nossos filhos é dando bons exemplos.

uma das coisas que concluí, nessas reflexões sobre alimentação, é que não quero categorizar os alimentos como maus e bons, permitidos e proibidos. meu primeiro motivo pra evitar essa divisão é que realmente acredito que equilíbrio entre prazer/obrigação é o caminho (e busco isso, todos os dias). existem as coisas que (1) são boas pra nossa saúde, mas não são tão gostosas; (2) existem as coisas que são super gostosas e que nos fazem mal (ou são neutras, não contribuem em nada); (3) existem as coisas que fazem mal e que não gostamos; (4) e existem as coisas saudáveis e gostosas.

pode parecer óbvio, mas juro que precisei pensar pra começar a balancear melhor minhas escolhas, considerando os 4 cenários ali em cima. a minha prioridade alimentar deve ser o (4), é claro. nesta categoria devem estar a maioria das coisas que eu consumo, e essas são as coisas que devo escolher ter sempre em casa, à mão. no meu caso, nesta categoria estão quase todas as frutas, verduras, legumes, castanhas, etc.

as coisas (3) eu simplesmente devo excluir da minha vida, não comprar, e pronto. uma coisa interessante aqui é perceber o que não se gosta. confesso com um pouco de constrangimento que eu não sou completamente consciente do que eu realmente gosto. depois de um escrutínio forte eliminei algumas coisas, mas percebo que ainda como/bebo coisas por influência do meio, como forma de socialização. um exemplo chocante? pão de queijo. eu não gosto de pão de queijo! não tenho aversão, mas não tenho muito prazer consumindo. mas cada vez que servem numa reunião, e todos adoram e comentam e tals, eu acabava pegando (só pra me decepcionar). pois parei.

o diabo está nas coisas (1) e (2). por exemplo — eu não sou fã de pão integral e cottage, mas eles são melhores pra minha saúde que um pão francês na chapa, a gloriosa categoria (2). então decidi consumir saudáveis durante a semana, e o pão francês com manteiga fica pro fim de semana.

fazer dieta e perder peso é fácil, gente. acreditem em mim, eu já fiz várias, e já perdi uns 100kg nestes 40 anos. é chato, irritante, frustrante e TRISTE, mas é fácil. difícil é manter o peso, aprender a se alimentar e viver de forma saudável, sustentável, e ser feliz. eu jamais seria feliz sendo vegetariana, macrobiótica, comendo salada e grelhado todos os dias ou nunca comendo açúcar branco. preparar e comer um bolo de aniversário, um brigadeiro, servir para os amigos, para o meu filho, é parte da minha bagagem cultural.

comer não é só obter vitaminas, combustível, para ter um corpo saudável. cheirar, mastigar, engolir, sentir o sal ou açúcar na língua, é uma experiência sensorial. comer é prazer também, e não precisa sempre, o tempo todo, ser para fins de nutrição. como o sexo também não serve somente para se reproduzir!

eu também como para sentir prazer e socializar, e ponto final. jamais tratarei minha alimentação como questão meramente de saúde. meu grande desafio neste momento é encontrar esse equilíbrio, fazer as pazes com meus hábitos alimentares, essa questão tão central da vida de cada ser humano. e, é claro, preciso também mudar alguns conceitos, eliminar vícios, repesar a importância da comida na minha vida, em detrimento de outras coisas prazerosas (como mexer meu corpo, por exemplo).

**

depois de tanto falar, pensar, ver filme e ler, coloquei pra mim mesma algumas metas ou diretrizes que acho essenciais para ter uma alimentação melhor e ser mais feliz:

– consumir o máximo de alimentos naturais (não industrializados)

– preferir a comida feita em casa, a partir de ingredientes básicos

– consumir orgânicos sempre que possível

– beber água, durante o dia todo. não suco, não refrigerante. ÁGUA

– comer frutas frescas e castanhas no decorrer do dia

– não ficar mais de 3h durante o dia sem comer. a fome atrapalha a concentração, irrita e leva a comer em excesso quando chega a refeição

– preferir grãos integrais, sempre que possível

– lembrar de escolher, em função do meu desejo. não me deixar levar pelo impulso ou pelo “efeito grupo”: “eu realmente QUERO comer isso?”

– e finalmente: não virar uma chata neurótica com a alimentação. continuar tendo prazer em comer, dividir refeições, exagerar de vez em quando, comer simplesmente porque é gostoso.

**

em 5 meses perdi 11.5kg. estou estacionada neste momento, e revendo novamente meus hábitos para chegar a um peso mais adequado ao meu tamanho. tenho absoluta certeza que vou chegar a um peso melhor, é só questão de paciência e persistência. meu maior esforço no momento é identificar mudanças de comportamento que possa carregar para a vida toda. pois esse movimento que estou fazendo é porque quero viver meus próximos 50 anos — oxalá 🙂 — com um corpo mais leve, mais ágil. carregar a mim mesma tem sido difícil, essa é a verdade. ainda tenho 15kg (ou 10kg, segundo a meta colocada pela minha nutricionista) pra deixar pra trás, e poder caminhar só com o peso realmente necessário.

comer também serve para acumular, como preparação para os tempos difíceis. pois eu decidi que os tempos difíceis se foram, e tenho muita fé no futuro. não preciso de bagagem extra.

agora falta o próximo passo, não menos importante e pra mim extremamente difícil: sair da inércia, me mexer, fazer o sangue circular. porque quando eu chegar aos 90, quero estar caminhando pelo meu sítio e cuidando da minha hortinha 🙂

**

eu hoje!

Bêj!

sou mais macho que muito homem

setembro 14, 2012 10 comments

por conta das redes sociais me vejo cada vez mais embrenhada em assuntos que sempre fizeram parte da minha vida, mas sem nenhum tipo de engajamento. confesso que engajamento excessivo me cansa e enche o saco. não faço parte de comunidades, grupos, não sou afiliada a nada e nem me considero parte de movimentos disso ou daquilo.

sou adepta do que chamo de “micro movimentos”. procuro fazer como aprendi — tentar influenciar os que estão ao meu redor, colocar luz sobre o que está obscuro. porque nem sempre é preciso realmente influenciar, basta trazer assuntos à tona, fazer pensar. as coisas mudam. às vezes lentamente, é verdade, mas sem dúvida.

acho que é isso que venho tentando fazer neste blog desde sempre e como venho fazendo na vida: conto minha história e minhas vivências, pensando que alguém pode ler e se inspirar (mesmo que não goste ou concorde), e tentar fazer diferente.

venho de uma família de muitas mulheres. todas elas subjugadas pelo machismo dos pobres e ignorantes (a esmagadora maioria das mulheres da família não estudou, considerando a geração da minha mãe e as anteriores). na verdade, as únicas mulheres que estudaram na minha família são do lado do meu pai, que tinham uma condição econômica melhor. mas enfim — todas elas de alguma forma massacradas pelo machismo, e obviamente repetindo boa parte do padrão.

mas não todas. algumas delas, entre elas minha mãe, nascida em 1953, foi um caso à parte. não estudou, porque não gostava ou nunca foi incentivada. era linda, de parar o trânsito. foi “presa” com 15 anos porque um policial mexeu com ela na rua (“elogiou” a bunda dela, parece), e ela mandou ele se foder. ela apanhou do pai na delegacia, na frente de todo mundo, porque era “vagabunda” e usava roupas indecentes, o que ela esperava?

saiu de casa aos 16 porque apanhava dos pais por ser muito “saidinha” e “boca dura”. engravidou (e casou-se) aos 18 anos. pensou em abortar, pagou o aborto clandestino e desistiu na última hora (era eu na barriga!). com 21 anos tinha 3 filhos. pariu a nós 3 em hospitais públicos, partos normais. praticamente não amamentou (no máximo 3 meses. não sabe explicar porque não conseguia, “não tinha leite”), nunca teve uma figura feminina que a apoiasse e ajudasse. deixou os filhos pequenos em casa para trabalhar fora o dia todo e garantir comida na mesa. foi bancária, levou porrada de polícia, cantada de muitos chefes e clientes escrotos. foi humilhada e sacaneada por colegas mulheres que se intimidavam com sua personalidade e sua aparência. sempre foi de temperamento difícil, nunca levou desaforo pra casa. de ninguém — de homem ou mulher.

foi ela que me ensinou a não ter medo do meu corpo, do meu sexo. a mostrar com orgulho meus peitos, minha bunda, meu sorriso, minha “casca”. me ensinou que meu corpo não é motivo de vergonha nem base para julgamento. que meu corpo é MEU, e de ninguém mais, e eu devo usá-lo, mostrá-lo e escondê-lo conforme MINHA vontade. e insistiu muito para que eu valorizasse meu cérebro e investisse no meu intelecto, pra ter uma vida diferente da dela, com mais escolhas (sorte minha, pois não herdei a beleza dela, o cérebro fez diferença :)). me ensinou que eu não precisava me “guardar” pra ninguém, que ninguém jamais seria meu dono, que eu era livre para ser e fazer o que quisesse, e que por isso mesmo devia aprender a ser independente e ter as rédeas da minha vida.

ela sempre defendeu nosso direito, como mulheres, de sermos donas das nossas vidas e nossos corpos. e a mandar a polícia se foder 😉

ela me ensinou, de forma direta e indireta, a me defender. que além de não me importar com julgamento, não devia temer represálias, pois é meu direito ser quem sou, vestir o que quiser, fazer como bem entender o que quiser da minha vida e do meu corpo. ela me ensinou a me impor e não aceitar ameaças, me convenceu de que eu não era mais “fraca” que homem nenhum por definição. me incentivou a responder à altura, enfrentar.

vi minha mãe enfrentar homens, alguns bem maiores que ela, alguns além de grandes, ignorantes. minha mãe já me defendeu, quando ainda adolescente, de “cantadas” na rua. olhou homens feitos cara a cara e disse que não eram bem-vindos, que fossem cuidar das suas vidas. e vi também ameaçar ir pra porrada com homens insistentes (e ela iria, estou certa disso). e eles sempre recuaram! qual era/é o segredo dela? confiança.

minha mãe é temerária. um pouco demais, pro meu gosto, mas admiro seu ímpeto e sua crença em si mesma. sempre funcionou. e era aí que eu queria chegar: ela me ensinou que eu também tenho poder. que homens não são necessariamente “mais fortes”. alguns são, outros não. cabe a mim usar minha força na hora e na medida certa. dentro de uma margem de segurança eu posso e devo medir forças e me impor, sim.

pois sempre me impus. hoje em dia já não sou jovenzinha, nem gostosa e nem ando a pé pelas ruas. mas até os quase 30 anos, fui assediada de formas leves e grosseiras, e seguindo os ensinamentos da minha mãe, me saí bem em quase todos os episódios.

em primeiro lugar, aprendi que cantada não é elogio. cantada só é elogio se você não se sente constrangida, e se é alguma abertura para o flerte. se eu não olhei pro caboclo, obviamente não vamos nos conhecer e ele está cercado de amigos “incentivando”, não tem conversa. em segundo lugar, não é OK comentar sobre minha aparência e sobre minha roupa. quando sou confrontada, reajo imediatamente o “agressor”, sempre olho no olho, de frente. digo que não gostei, e que guarde seus comentários para si. já cheguei a dizer “não tenho medo de você. não conheço você, e você não me conhece. não se meta com quem não conhece!”

já mandei homens (em grupo) pararem de comentários e saírem andando, que não queria conversinha. “anda, anda, que eu não estou com paciência! não conheço vocês, e não quero conhecer”.

já fui xingada? já. com 12, 13 anos (eu já tinha corpo de mulher) ouvi muita barbaridade. eu era mais medrosa nessa época. mas reagi assim mesmo. e sempre saí de cabeça erguida, porque não tenho motivo pra me envergonhar do meu corpo, do meu sexo e nem de me impor.

e já fui embora quieta, e com medo, pelo menos 2 vezes, torcendo pra que nada de mau me acontecesse. essas 2 vezes me confrontei com um predador sexual, que ficava à espreita no caminho que eu fazia para a faculdade. ele tinha olhar de psicopata, andava com o pau de fora nos cantos da rua, em locais ermos, e eu sabia que se houvesse confronto era pra valer e teria que lutar pela minha integridade física. eu tinha 18 anos, e tive muito medo. se fosse hoje, eu chamaria a polícia. se não funcionasse, na boa? chamaria uns amigos pra dar uma surra nele de deixar aleijado pra sempre.

e esse texto não é só para mulheres. é para os homens que pensam que é OK dar “cantada”; é para os gays e trans que sofrem assédio também, e ouvem “piadinhas”. boa parte do poder que os “machos adultos brancos” têm vem de nós, que permitimos que eles se imponham. vem também de outras mulheres que perpetuam o discurso de vítima e não se impõem, seja por medo ou comodidade.

pese e julgue, sim, quais batalhas você vai abraçar. não vale a pena passar o tempo todo brigando, e há batalhas com risco alto demais, mas não se acomode. mude a você mesma/o, deixe pra trás essas ideias de que você não pode/deve isso ou aquilo, ou que você é frágil, fraca, vulnerável.

imponha-se, mulher 🙂