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sobre ser vista e ouvida

Maio 29, 2017 Leave a comment

Conflito não é sinônimo de violência.

 

Discordância não é sinônimo de briga.

 

Às vezes a violência e a briga são necessárias, tem coisas que não mudam sem isso. Há momentos em que só tirar o chão e chacoalhar estruturas funciona pra mudar.

 

Mas nem sempre.

 

E percebo que tem horas que a briga e a violência são menos uma forma de melhorar o mundo e mais uma forma de fazer o mundo olhar pra você e reconhecer que você existe.

 

(Como a criança que enfrenta os pais ausentes porque qualquer atenção, até a surra, é melhor que nenhuma)

 

Eu existo! Estou aqui, e quero ser enxergada e ouvida.

 

Mas tento todo dia, de coração, ser percebida sem precisar atropelar ninguém pra isso.

a abertura para o diálogo

Março 15, 2013 11 comments

há muitos anos um amigo querido, professor doutor em literatura, fez um elogio sutil, mas que me deixou cheia de felicidade — ele disse que o motivo do meu blog ser tão popular e tanta gente se interessar pelos textos era muito devido à forma como eu escrevo, e não somente conteúdo. segundo sua interpretação, meus textos são “abertos”, convidam à reflexão e ao diálogo, mesmo quando o assunto é polêmico ou estou colocando uma opinião unilateral. meu texto seria um convite ao diálogo, à conversa.

não consigo pensar em elogio melhor ou mais gostoso para quem escreve! e nestes últimos meses, de diferentes fontes, recebi o mesmo retorno sobre meu comportamento no trabalho, com meus colegas e funcionários: que um dos meus pontos fortes é ser direta, objetiva porém sempre promovendo o diálogo e ouvindo o que os outros têm a dizer. fico  feliz com esse tipo de retorno, claro, mas também me fez refletir sobre o caminho que percorri pra chegar aqui.

o dia de ontem me fez pensar muito na questão de dar abertura para o diálogo, pois participei de um evento sobre diversidade na empresa. foram feitas entrevistas, em grupo, perguntando sobre o que é diversidade, quais são as barreiras que encontramos no nosso dia a dia, etc. sendo mulher, líder, já nos 40, mãe, da área de tecnologia, vocês imaginam que eu tive bastante pra falar 🙂 a sessão foi muito interessante, com pessoas de variadas idades e experiências. aprendi muitas coisas novas! uma delas (embora já soubesse disso de forma intuitiva) é que diversidade é muito mais que etnia, gênero, habilidade física ou religião. diversidade inclui tudo que compõe a cada um de nós como indivíduo, tudo o que faz de nós únicos.

me esforço muito para dar margem ao debate, a ideias diferentes, à perspectiva do outro, na vida pessoal e em especial no trabalho. não porque desejo ser popular exatamente (embora isso seja legal e útil), mas principalmente porque de fato valorizo o que aprendi que se chama diversidade. sempre pensei nisso de outro ponto de vista, o da dialética. o problema deste “método” é que o conflito é inevitável (e desejável!), e nem todo mundo lida bem com a contraposição de ideias. é preciso em primeiro lugar lembrar que o objetivo é superar, evoluir, mudar, que ideias não devem ser cristalizadas. estar disposto a mudar de ideia, se for o caso, é essencial. a abordagem de respeito à diversidade é menos conflituosa, mais demorada, mas com a devida habilidade para conduzir os debates, chega às mesmas conclusões (e, no fundo, está lá a dialética também :))

tenho cá minhas paixões e opiniões, mas verdadeiramente valorizo demais as paixões e opiniões alheias, mesmo que discorde delas. creio que é através do outro (e só assim) que crescemos, mudamos e melhoramos. sínteses precisam de antíteses. respeito profundamente — e agradeço — os contrapontos oferecidos por outros. o que não significa que mudo de ideia sempre, mas a opinião se transforma, muda, é viva.

e me alegro por ver reconhecida em mim essa característica que considero tão essencial para ser melhor a cada dia — o desejo de dialogar. o desafio é fazê-lo com respeito, humildade, gentileza, para que o outro se sinta ouvido, e tenha desejo de contribuir, trocar, oferecer aquilo que faz parte da sua individualidade, que é único. (e também não desistir por medo do conflito!)

mas para que seja possível apreciar a diversidade, tudo o que é único e especial no outro, é preciso educar e domar o ego. parar de olhar só pra si, de falar só de si mesmo. quem se concentra somente no próprio umbigo acaba falando sozinho. conheço diversas pessoas extrovertidas, que falam muito, mas não dialogam. falam basicamente sozinhas, ou falam a respeito de si mesmas com quem está disposto a embarcar neste assunto. não falam de ideias, nem têm interesse em ouvir de fato outro, são narcisos encarnados, que só se interessam pelo outro como reflexo de si mesmos.

houve uma época em que me enredei nesta armadilha. um ex-namorado, muito lucidamente, observou que boa parte dos meus amigos/leitores no blog não me agregavam nada, pois eram “seguidores”. não havia diálogo e valor nos relacionamentos, só oba-oba. que era só confete, palavras vazias. e ele tinha toda razão — quando refleti seriamente, percebi que eu estava escrevendo em função dessa relação narcisista. que estava “pescando” elogios, risadas, comentários engraçadinhos. e funcionava muito bem, é o uso “cosmético” da abertura para o diálogo, é o palhaço chamando a atenção no picadeiro, fazendo rir e chorar. sou muito boa nisso, sem modéstia. mas graças à “dica” deste ex e alguns anos de terapia, optei por não seguir mais esse caminho.

há 10 anos, meu foco mudou. não escrevo mais pra ganhar “estrelinha”, porque não preciso mais destas migalhas de atenção, dispenso os “seguidores”, quero amigos e leitores interessados em ideias (em especial as diferentes das minhas, embora seja gostoso também ser validado). e tem outro detalhe perigoso — “seguidores” alternam amor e ódio com bastante facilidade. quando concorda com você, te ama; quando discorda, odeia e vira inimigo. eu não preciso e nem quero desse tipo de “relacionamento” doentio.

me interessa o diálogo real, mesmo que seja mais difícil e trabalhoso, mesmo que o número de leitores do blog tenha se reduzido absurdamente (até porque tenho escrito tão pouco, afinal). e continuarei me esforçando (aqui também, mas em especial na vida offline, cara a cara) para que essa minha qualidade de saber ouvir e promover diálogos ricos se fortaleça, para que eu cresça, e todos ao meu redor cresçam e melhorem também.

para os poucos e bons que ainda me lêem, saibam: eu continuo aqui, cheia de desejo de dialogar online também, apesar da produção escassa de textos. e agradeço a cada um de vocês que oferece perspectiva, e um pouco do seu olhar único sobre o mundo. eu realmente aprecio e valorizo seu ponto de vista, agradeço por continuar lendo meus textos e comentando aqui, por email, no twitter…

que o diálogo continue 🙂