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Posts Tagged ‘feminismo’

gota d’água

junho 7, 2017 Leave a comment

Passei o dia hoje falando de diversidade e inclusão para funcionários de uma planta industrial, de todas as idades e tipos e gêneros.

 

A última parte foi só com mulheres — respondi perguntas sobre questões de gênero e desafios que enfrentamos, com a ideia de manter esse assunto vivo, e propor mudanças construtivas e constantes, com a ajuda delas e dos homens também (faço uma palestra específica pra homens chamada “homens como aliados”, que é bem legal).

 

Várias me procuram depois das palestras pra contar suas questões específicas, e gosto muito de poder ajudá-las, talvez seja a parte mais legal do trabalho.

 

E veio essa mulher, já na casa dos 50 anos, e me contou que perdeu um filho (ela tem 3), não faz muito tempo. Que participa de um grupo de apoio de mães que perderam filhos, e que se deu conta hoje de como a sociedade massacra os homens que sofrem. Ela se fortalece (na medida do impossível, né, porque perder um filho, pessoal, não tem nome) com o apoio das demais, mas seu marido, ela me conta, não fala sobre isso. Se recusa a ir à terapia por motivo de ‘homens não fazem terapia’, não chora pelo mesmo motivo, e sofre calado, “se muere por dentro poco a poco”, me diz ela.

 

Homens não são vítimas e não passam pelas mesmas coisas que nós, mas que sociedade horrível que construímos, na qual mulheres não valem nada, são seres de segunda categoria, e homens não se admitem como humanos!

 

E essa mãe, vivendo um dia de cada vez, aprendendo a conviver com sua dor que não acaba nunca, e ainda assim atenta ao que podemos fazer pra mudar o mundo, e ser mais felizes.

 

Eu me senti tão pequena.

 

Mas é assim, às vezes: uma gota d’água que pinga na hora certa e no lugar certo, e que com sorte transborda e transforma.

 

(Eu sei que eu tento!)

un-coach

junho 6, 2017 Leave a comment

há 3 anos mergulhei de cabeça nas discussões sobre gênero, diversidade em geral (inclui etnia, orientação sexual, gênero, introversão x extroversão… tudo que eu consegui pensar), e há mais tempo ainda já estava envolvida em ajudar pessoas a se desenvolver em suas carreiras. sou líder de pessoas há 15 anos, e essa é a parte que mais amo do meu trabalho.

tenho feito palestras nos últimos 10 anos, nada profissional, sempre como voluntária, dentro e fora da empresa. falo normalmente para profissionais (de IT ou não), interessadas em se desenvolver como executivas ou líderes. no ano passado recebi meu primeiro convite para falar para moças jovens sobre carreira, e foi incrível. percebi o quanto eu estava desconectada dessa realidade de quem ainda não começou ou está começando sua carreira, e mais desconectada ainda da realidade de quem não está no mundo corporativo e nem quem entrar nele. na época em que eu era menina, “trabalhar em firma grande” era o que havia de mais maravilhoso como meta e resultado na vida.

hoje as coisas são muito diferentes — inclusive por causa da tecnologia — e isso é sensacional. levei um chacoalhão de realidade e depois do choque, eu amei.

fiz essa apresentação aqui pra 2 audiências bem jovens e recebi perguntas muito legais, e a maioria gostou e me procurou pra falar mais. não tenho intenção alguma de dizer pras pessoas o que fazer, o que quis foi contar um pouco da minha trajetória, das coisas que penso e sinto. dou algumas dicas bem simples que acho úteis, que podem ajudar a organizar os desejos e demandas (que vêm de diferentes fontes) também.

me perguntaram na última palestra: “você acha que todo mundo deve fazer faculdade?”

e eu respondi, já avisando que os pais iam me odiar: NÃO.

a gente deve fazer o que se vê feliz fazendo. e “feliz” aqui é bem amplo, e passa também por assumir a responsabilidade por suas escolhas. não há opção na vida completamente boa, não há como escolher sem abrir mão de outra coisa… o que dá pra fazer (e muito recomendo) é tentar se entender melhor, tentar entender melhor o mundo ao redor, e fazer escolhas que sejam alinhadas com o que pensamos e sentimos.

o problema é que muito mais fácil falar do que fazer 🙂

a boa notícia é que SEMPRE é tempo de mudar, rever o que escolhemos e tentar diferente.

e o título é porque, depois desse papo com a molecada, fiquei pensando que sou quase uma coach ao contrário — ao invés de sugerir carreiras, e dar dicas de desenvolvimento de competências complementares, tento convencer as pessoas a ouvir mais seu coração, não insistir em melhorar em coisas que NÃO são boas, e ao invés disso valorizar o que já têm de bom e buscar explorar mais isso.

não vou ficar rica fazendo isso, mas fico bem feliz 😀

É possível trabalhar para criar um cenário diferente para as mulheres na tecnologia?

junho 6, 2017 Leave a comment

 

(pergunta feita pelas moças do UP[W]IT)

Entendo que existem algumas barreiras que precisam ser quebradas, e infelizmente todas são muito estruturais, relacionadas à nossa cultura e difíceis de mudar – algumas profissões e inclinações são atribuídas a homens e mulheres como “naturais”. Meninas não são estimuladas a se envolver com e apreciar a física, matemática e a tecnologia; são antes ensinadas a cuidar, enfeitar, limpar, cultivar relacionamentos, ouvir, falar. É claro que todas e todos temos nossas inclinações inatas, mas elas são não mais que metade da equação de quem nos tornaremos – a outra metade é puro estímulo. Ou seja, em primeiro lugar: enquanto as famílias não estimularem os meninos e meninas igualmente, sem direcionar por gênero, teremos poucas meninas engenheiras e técnicas e poucos meninos enfermeiros e professores primários.

 

Em segundo lugar, a escola continua reforçando os mesmos estereótipos, pro anos a fio. E quando estas poucas meninas que conseguiram passar pela infância e adolescência sem acharem que não foram feitas paras as áreas de tecnologia entram em faculdades e cursos técnicos, e são hostilizadas. O ambiente (desde o início do mundo escolar, aliás) não promove a inclusão de mulheres, e muitas vezes reforça estereótipos, tornando a continuidade neste tipo de curso muito mais difícil. Formar-se em cursos de tecnologia é difícil por natureza, tudo que as moças não precisam é todo o entorno jogando contra. Então mudar o ambiente nas faculdades, escolas, cursos técnicos é urgente. Tenho achado inclusive que devíamos (nós, ativistas) nos concentrar mais e mais em estar presentes nas escolas falando para estas meninas e meninos, devemos abrir mais espaços de tecnologia amigáveis para meninas e moças, para que elas tenham finalmente liberdade de explorar e descobrir se essa área de atuação é a que elas amam. Precisamos estar mais presentes nas universidades, precisamos de grupos de apoio a estas mulheres para que saibam que não estão sós e como persistir, como mudar seu entorno. Sem apoio isso é muito difícil. Lembro quando entrei na faculdade (de tecnologia, o CSTC/ITA, em 1989) e METADE da turma era de mulheres. Éramos unidas, amigas, nos ajudávamos. Não sei como seria se fôssemos poucas.

 

Finalmente, precisamos mudar o ambiente empresarial para acolher as poucas que ultrapassaram as barreiras da infância e vida adulta para se dedicar à tecnologia. Não é à toa que tantas mulheres se tornam empresárias, autônomas, freelas – o ambiente corporativo é difícil pra nós. As que “chegam lá” criam uma casca tão dura que frequentemente se tornam iguais aos seus opressores e não mudam o entorno – elas se tornam parte do problema. A boa notícia é que as empresas multinacionais perceberam há alguns anos que diversidade é importante para o crescimento e maior lucratividade, e resolveram investir nisso. As empresas menores estão aos poucos entrando nessa onda, a discussão se expande para o mundo da politica e da academia, fomentada e apoiada pela ONU, que tem alcance global.

 

Claro que essas mudanças no mundo corporativo são excelentes e necessárias, mas realizar mudanças no mundo dos negócios, dos “adultos” é pouco; as ações que tomamos dentro do contexto corporativo não se estendem normalmente às casas das pessoas. Os pais, mães, tios, primos que estão participando de ações afirmativas nas empresas raramente levam isso pra dentro de casa e mudam sua forma de agir com as crianças que amam e convivem. Precisamos de mais gibis, programas de TV, filmes, novelas, livros, peças de teatro com mulheres cientistas, engenheiras, técnicas, empilhadeirista, motorista de caminhão. Precisamos normalizar a presença de mulheres nestes ambientes, pra que uma menina tenha liberdade de se apaixonar por, estudar e trabalhar com qualquer assunto, e não só o que nos ensinaram há séculos que é “apropriado para moças”.

representatividade

junho 4, 2017 Leave a comment

Essa semana tive uma experiência que quero compartilhar, pra mostrar como ainda tem muito pra mudar no mundo, mas estamos mudando.

 

Visitei uma empresa incrível de inovação tecnológica que trabalha com IoT (internet das coisas, assunto muito da moda mas que existe desde 1999 :D). Quem me recebeu foram dois senhores (em torno de 60 anos), muito simpáticos e ótimos. Eles empregam 280 pessoas, todas da área de tecnologia (engenharia, de Hw ou Sw).

 

Como não podia deixar de ser, perguntei sobre a questão de diversidade — vocês conseguem contratar mulheres, ou ainda são muito poucas?

 

(Pausa: nos cursos de tecnologia e engenharia, somente 15% são mulheres, em média. Destas, 80% desistem do curso. Não li nenhum estudo sobre os motivos, mas suspeito que uma boa parte é graças à falta de incentivo externo — esses cursos não são fáceis, mas te tornam mais difíceis se todo mundo, a família inclusa, faz você acreditar que está no lugar errado)

 

A resposta deles me surpreendeu: “temos MUITAS mulheres aqui! Somos 4 no time senior de vendas e 2 são mulheres!”. Caramba, achei incrível. Até me comprometi a colocá-los em contato com grupos de mulheres na tecnologia, que vai ser bom pra todo mundo.

 

Aí vamos visitar o laboratório e o escritório, pra conhecer, e encontramos com a gerente de RH. O senhor, todo orgulhoso, pergunta pra ela: “conta pra ela: quantas mulheres temos no nosso time?”

 

Ela me diz, com uma carinha meio desapontada: “não somos muitas, infelizmente. Em torno de 10% somente!”

 

(Este número não me surpreende!)

 

Ele ficou super desconfortável, e eu disse: “são poucas mulheres, mas não é diferente de muitas outras empresas. Tem uma oportunidade aí, e eu ajudo a fazer uma ponte.”

 

Mas o que mais me chamou a atenção é o quanto normalizamos a falta de presença feminina em alguns lugares, a ponto de 10% ser percebido como MUITO. Não estou criticando o senhor, foi muito nítido o interesse dele no assunto e também sua surpresa ao ter sua percepção confrontada com a realidade.

 

(Mas notem que a moça de RH tem uma percepção diferente, independente dos números, e não é à toa)

 

Precisamos continuar falando sobre isso, e buscando melhorar o mix de gêneros em todos os lugares da vida. Chega de clube do Bolinha e clube da Luluzinha.

você não precisa fazer cinquina no “bingo da vida”

junho 4, 2013 14 comments

gostei muito dessa matéria sobre a oprah em que ela fala um pouco da sua relação com corpo/peso. vou traduzir alguns pedaços que achei mais interessantes e também colocar meu ponto de vista e vivência sobre o assunto.

peso/aparência física tem sido um assunto importante pra mim desde menina, pois eu era a “gordinha” da família. minha irmã sempre foi magrela, minha mãe sempre teve um corpo lindo (nunca foi magra, mas longe de ser considerada gorda tampouco), e eu… era gorducha. comecei a notar o quanto isso era um problema com 9 anos, mais ou menos.  nas brigas, ou no momento de provocação, era sempre “sua baleia”, “sua gorda”, etc. não sei dizer porque ser gordo deve ser motivo de vergonha, mas fato é que me envergonhava de sê-lo. e nem era GORDA, sabe? rechonchudinha, só. mas essa condição me colocava em desvantagem, e era sempre associada à preguiça, lerdeza, desleixo, “decrepitude” (sim, e vou chegar lá).

cresci e descobri que as coisas são assim no mundo, não era algo específico da minha família. ser gordo é sinônimo de ser feio, lerdo, preguiçoso, desleixado, acabado. “ih, olha lá: casou e largou mão!”; “quanto mais velho, mais gordo”; e eu poderia passar o dia aqui dando exemplos da associação de gordura com coisas ruins cuja correlação com o peso não é necessariamente verdadeira. há magros preguiçosos e desleixados; há gordos dispostos e saudáveis. existem inclusive estudos mostrando que atividade física está mais relacionada à saúde que o peso. ou seja — se você for gorducho e ativo, está melhor que um magro sedentário.

não quero aqui defender os gordos, vejam bem, eu mesma quero deixar de ser tão gorda. a questão é que em qualquer julgamento ficam em segundo plano a condição de saúde, como o sujeito se sente ou se vê no espelho: se for gordo, tá errado e pronto. gordos são nojentos, feios, piores. e se você é gordo, é porque tem preguiça ou é excessivamente auto-indulgente. toda uma gama de julgamentos é feita cada vez que se olha pra alguém gordo, sem considerar nenhum dos inúmeros outros aspectos que o compõem. não importa se ele tem exames médicos ótimos, vida sexual ativa, faz suas caminhadinhas, se alimenta com comidas legais, tem uma profissão, é feliz. você não pode e não deve ser feliz e saudável se for gordo, não combina. alguma coisa está errada com você, se é gordo.

vamos lá, da perspectiva de uma gorda crônica: não existe milagre e nem maldição em relação ao acúmulo de gordura. se você consome mais do que gasta, a gordura acumula, é assim que nosso corpo foi programado pra funcionar. ou seja: acumular gordura é sim o resultado de comer de mais e gastar de menos. gordura é reserva, é gestão de risco para tempos de vacas magras, é proteção contra o frio (e, se quiser extrapolar para o âmbito emocional, proteção de forma geral). gordura é uma parte do seu corpo físico, como os músculos, nervos, ossos, sangue. alguns corpos têm mais reserva, outros têm menos. só.

e é só isso — é só um corpo, uma parte de um corpo físico! que, por outro lado, é apenas parte do que torna você o que é. não “somos” nossas medidas, assim como não “somos” nosso endereço e nem nossa profissão. medir quem você é pelo seu peso (e pautar sua vida por isso) é tão estúpido quanto medir quem você é pelo seu QI ou sua profissão.

a oprah diz assim: “eu achava naquela ocasião que ser magra fazia de mim uma pessoa melhor”. ela conta que recusou ir a festas porque não estava magra o suficiente. tornou-se obcecada com a própria aparência e com o peso (e passou a vida oscilando entre estar magra e gorda, vivendo em função disso). por que devemos deixar a quantidade de gordura do nosso corpo, peso ou formato da bunda interferir tanto na nossa vida, na convivência com outros seres humanos, na relação com o mundo?

“você não é o seu corpo”, ela diz (e eu concordo demais!). “[o ego] é doentio. é ardiloso, esperto, enganador. é um impostor, impondo-se ao seu ‘eu’ real. você não é seu status. você não é sua posição social. você não é seu carro, não importa quão chique ele seja. você não é sua casa.”

é difícil escapar dessa armadilha de acreditar que você “é” basicamente a sua aparência. afinal, somos bombardeados dia e noite com críticas subliminares, nos dizendo como devemos parecer e ser. magros, bonitos, ricos, calmos, chiques, brancos, sorridentes, felizes, bem-sucedidos. e dessa receita toda aí, convenhamos, ser magro é mais fácil que ser bem-sucedido ou feliz, é uma meta ao alcance de basicamente todo mundo. não é à toa que tantos de nós lutam com unhas e dentes pra completar pelo menos essa pedrinha do “bingo da vida”. você é magro, branco, tem curso superior? uau, fez um terno!

que se danem as especificidades de cada ser humano, seu momento, sua genética, seu apetite, sua preguiça, oras. por que todos precisam ser igualmente magros, saudáveis, de pele linda e cabelos esvoaçantes? só ganhando no “bingo da vida” é que o indivíduo é feliz? a se pautar pelas inúmeras matérias sobre saúde e beleza, sim. cremes, dietas milagrosas, tratamentos, pílulas, séries de exercício. tudo pra que você se enquadre no ideal do sujeito saudável-e-feliz.

com um senão: o sujeito geralmente não é feliz. porque, graças ao seu ego dominante e uma distorção da autoimagem (nunca adequada e equivalente ao ideal), sempre falta alguma coisa, a cartela nunca está completa. emagrece, e fica flácido; faz exercício, mas o tempo é inadequado; está caminhando, mas devia estar fazendo spinning; sobra aquela gordurinha na barriga, que tal uma lipo?; a perna é grossa demais; a perna é fina demais; tem cabelo branco!

o pior dos pecados? envelhecer.

uma amiga (que ela me perdoe o exemplo, não é uma crítica pessoal, mas uma questão que eu acho muito pertinente do ponto de vista feminista) perdeu montes de peso, ela era uma mulher que eu achava normal (nunca, jamais categorizaria como gorda) e que se tornou magra. está muito bonita, e (acho) feliz com sua aparência atual. dia desses ela resgatou de seu guarda-roupa uma peça que comprou e usou aos quinze anos (ela hoje tem perto de 30, acho), e estava triunfante porque voltou a ter “corpinho de quinze anos”.

isso não é exclusividade dela: o sonho de consumo da mulher moderna é ter corpo (rosto, pele) de quinze anos, já notaram? ser uma eterna menina-moça, com corpinho quase infantil, só um anúncio de seios e curvas, pele e cabelos ainda de bebê (vide modelos). é o inverso da maturidade, das curvas da feminilidade madura, da mulher feita. queremos ser eternamente adolescentes. segundo algumas reflexões sobre o assunto, estamos nos tornando uma sociedade disfarçadamente pedófila. mulheres magras como meninas-moças, andróginas, peladas (tem homem por aí declarando que não faz sexo com mulheres que não se depilam!), pré-púberes. porque não há pior maldição e castigo que a passagem do tempo, os sinais de que nos tornamos finalmente adultas — pelos, peitos, curvas, rugas, os famigerados cabelos brancos.

pergunto: o que tem de errado em não ter mais quinze anos, ter peitos, curvas, rugas, cabelos brancos? por que perseguir eternamente esse ideal de aparência, e viver em função dele?

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e que moral tenho eu, que estou lutando contra o peso, pra tocar nesse assunto? afinal não estou eu também cedendo ao padrão? estou convencida que não.

sou uma mulher de 41 anos, que nunca foi magra. estive muito mais gorda, e ainda assim era saudável (sem contar o sedentarismo, que é independente do peso). mas estava impossível comprar roupas, e subir um lance de escadas. eu carregava 87kg em 1.52m. independente de IMC e qualquer outra bobagem métrica dessas, é peso demais para um corpo tão pequeno carregar.

estou aqui na luta pra chegar a um peso que meu corpo pequeno possa carregar sem tanto esforço (e que me permita comprar roupas sem tanto drama). para os médicos, eu devia pesar menos de 50kg (a proporção de altura peso de modelos é algo como 50kg em 1.75m, pra vocês terem ideia). é ridículo — eu nunca pesei isso nem quando tinha 15 anos 🙂 minha meta é algo entre 60 e 65kg, o que ainda me mantém na categoria de gorda diante dos padrões estéticos.

meu ego acha que eu devia pesar 50kg, no entanto. porque seria um prazer inenarrável ganhar essa bolinha do “bingo”. vestir uma calça 38, quiçá tirar (e compartilhar, claro) fotos mostrando pro mundo que entrei na calça que não me servia desde os 18 anos. quem sabe até finalmente me sentir parte do seleto clube das pessoas-que-estão-no-padrão.

mas uma das minhas metas na vida (e mais importante que a meta de peso) também é domar meu ego. porque ele não sou eu; meu corpo não sou eu. sou bem mais que meu peso, altura e medidas. sou mais que meu colesterol, ou o número de minutos de caminhada que eu faço X vezes por semana. também sou o livro que eu leio, a história que conto, ou aquela ligação no meio da semana pra minha mãe pra pedir receita. sou o papo de trabalho com minha irmã, o filme com meu marido-e-companheiro, o passeio com meu filho, a barra da calça que conserto. o texto que escrevo, a música que cantarolo no trânsito. sou muito também a falta de atenção aos detalhes, os erros todos, os esquecimentos e as mesquinhezas.

meu peso é só, e tão-somente, um detalhe, uma parte de mim (e definitivamente não a mais importante). é aquela pontinha do iceberg, que por acaso todo mundo vê. e aliás é por isso que não falo muito da dieta, e nem do processo. é pouco, é quase nada, perto de tantas outras coisas que me interessam.

umas das coisas mais legais de chegar aos 41 (ou aos 38, ou aos 55…) é observar a distância daqueles 15 anos (ou 16, ou 18). existe uma ponte entre a juventude e a idade adulta, que não tem comprimento exato. ela aliás pode nunca aparecer, e você ficar do lado de lá pra sempre. há pessoas que nunca deixam pra trás aquela necessidade fisiológica de agradar ao grupo, de fazer parte, de pertencer, de se provar, de obter validação. é saudável, é parte do processo de aprendizado sobre relacionamentos, mas precisa passar um dia! ou você fica escravo da aprovação do outro, o que pode ser bem inconveniente.

cada um sabe de si, é claro. acredito que para algumas pessoas sua aparência É tudo, e é mesmo a parte mais importante do seu todo. mas que difícil deve ser para estas pessoas a simples passagem do tempo, não? uma luta inglória contra a realidade do envelhecimento, da transitoriedade da aparência e, em última instância, da morte.

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concluo que não, não tenho como meta ter corpinho de adolescente. sou bem feliz com minha idade, com meu corpo atual. pragmaticamente, quero poder comprar calças com facilidade, subir escadas sem carregar peso extra, amarrar os sapatos sem a barriga impedindo o movimento.

meu ego quer fazer ensaio sensual na playboy como a “tiazona enxuta” da vez. bolinha dourada no “bingo da vida”.

felizmente meu ego é só uma parte de mim, e não cedo à sua falta de noção. não preciso expor ou exibir meu corpo como troféu, pra provar que EU CONSIGO ser magra, ou que finalmente estou “dentro do padrão”. sou muito maior que ele, e quem manda aqui sou eu, a combinação de corpo e mente, ação e pensamento.

tudo isso pra dizer que tomei uma decisão importante na vida: já fiz como a oprah e deixei de ser feliz e viver porque “sou gorda”, mas jamais deixarei novamente o ego interferir na minha felicidade.

eu não sou o meu corpo. ele é que é meu 🙂

e neste caso, a ordem dos fatores altera demais o produto, acreditem.

é tanta coisa que não cabe num post

Maio 28, 2013 2 comments

tenho usado muito o facebook, e percebi que escrevo por lá de forma resumida coisas que queria escrever aqui, mais elaboradamente. mas o facebook eu uso no celular, com tanta facilidade, que acabo deixando pra lá. será que é assim que os blogs vão morrer? é possível. mas enquanto ele vive, vou trazer algumas coisas de lá pra cá. até porque muita água passou debaixo dessa ponte virtual desde que comecei a escrever aqui, em 2000 (esse mês são 13 anos!), muitos aplicativos nasceram e morreram e o blog tá aqui. firme e forte.

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então, fiquem com uma receita delícia de sopa de legumes feitos no forno. não é uma boa ideia? assá-los dá um sabor especial, e evita aquele gosto aguado.

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este artigo é uma tradução de um texto que li há algum tempo, falando sobre como conversar com meninas. uma das grandes armadilhas (e eu caio nela, sempre, se não estiver atenta) é elogiar e comentar sobre a beleza ou aparência das meninas. por que fazemos isso? e por que em especial com meninas? (ou você comenta com meninos “nossa, como você está lindo! seu cabelo é maravilhoso”. não, né?)

porque somos machistas. porque presumimos que meninas devem ser bonitas, ter boa aparência. perguntamos (eu não pergunto, zeus me livre) de “namorados”. não perguntamos do que gostam, do que brincam, pelo que se interessam.

devíamos.

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este vídeo hilário recria as situações que nós, pais de crianças com mais ou menos 2 anos de idade, passamos. se não tem filhos, assista e ria muito (é assim mesmo). se já passou dessa fase, relembre 🙂

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esse artigo levanta uma questão importante sobre a sexualização de crianças. ensaio sensual com uma menina de 10 anos? por quê? e os pais, nessa história? não deviam preservá-la de situações de exposição como objeto?

a mãe é modelo, a profissão que mais objetifica a mulher. que exemplo estamos dando?

não tenho opinião 100% formada sobre a questão, mas na dúvida eu não exporia minha filha de 10 anos a um ensaio “sensual”. nosso mundo está maluco — crianças se tornaram o centro do universo, podem tudo, e ao mesmo tempo estão sendo expostas a questões de adultos cada vez mais cedo.

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esse artigo é tão legal que vou escrever um post em separado, só pra ele (em inglês): “você não é o seu corpo“.

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e finalmente, pra fechar, texto excelente sobre como é ser uma mulher. pra quem acha que ser mulher é moleza, e que machismo “não existe”. leia, e saiba como é.

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blogagem coletiva, mulheres negras

novembro 23, 2012 4 comments

queria muito contribuir com essa blogagem coletiva. porque sou mulher, e sendo mulher sei o quanto pode ser difícil e incômodo sê-lo às vezes. e não estou falando de menstruar, TPM e nem parir. acho todas essas coisas inclusive muito interessantes, não sou do tipo que acredita que “ser mulher é sofrer”, até porque isso é papo de cristão atrasado.

é difícil e incômodo porque ainda há quem trate mulheres como inferiores, as considere piores ou más e invejosas intrinsecamente. como se caráter fosse definido pelo gênero. creio nas diferenças, mas não aceito pré-julgamentos ou rótulos. cada indivíduo deve ter a oportunidade de se provar, de ser antes de receber rótulos. ou sua vida torna-se mais difícil, e limitada.

queria contribuir ajudando a pensar e falar sobre a condição da mulher negra, mas como? não sou estudiosa do assunto, e sou branca. jamais saberei como é ser uma mulher negra, jamais saberei como elas são olhadas, (des)tratadas ou simplesmente ignoradas.

talvez isso seja a coisa mais importante que eu possa fazer: lembrar você, homem, que não, você não sabe o que é ser mulher, e nem sabe o que passamos; e lembrar aos homens e mulheres brancos que não sabemos e nem nunca saberemos o que é ser negro. ser negro não é como ter cabelo moicano, ou uma tatuagem, ou ser “diferente”. a menos que você tenha um chifre na cabeça ou seja azul, não compare sua condição àquela dos negros.

consegue imaginar uma situação em que sua mera existência e presença física causam aversão, incômodo e uma série de reações inconscientes que frequentemente culminam em julgamentos e às vezes violência (verbal ou física)? e que é simplesmente impossível “esconder” o que se é?

convivi com o racismo desde criança. aquele racismo mais nojento e grudento, o que não se acha racista. minha avó paterna, loura de olhos azuis, filha de espanhóis (só pra dar um exemplo. tenho inúmeros outros, de diferentes membros da família) uma vez disse numa ocasião familiar: “olha, contratei fulana pra trabalhar aqui em casa, estou espantada! sabe que ela é preta mas é muito limpinha?”. eu era criança ainda, e me lembro de pensar “como assim? o que a cor dela tem a ver com ser limpa ou não?”. lembro vagamente de algum protesto depois da frase (da minha mãe? meu mesmo?), ao que ela responde “mas gente, disse que ela é limpinha, isso foi um elogio!”.

pra não falar de comentários de “cabelo ruim”, e outros tantos que passam pelas frestas, quase desapercebidos. não duvido nada que eu mesma solte comentários racistas sem nem perceber, tão entranhado isso é no nosso dia a dia, na cultura brasileira. o racismo da piada, do escracho, que sempre tem a “saída pela direita” de dizer que era brincadeira.

não quero ser racista, não sou racista! quero ver e viver a diferença, com respeito pela etnia, opção, condição de cada indivíduo. tenho uma meta pessoal de responder a esse tipo de comentário “inofensivo” todas as vezes, não deixar pra lá. pedir respeito, explicar porque isso não se diz, porque é tão errado. é difícil e cansativo. e decepcionante, pra ser sincera. como amar e conviver com pessoas que pensam assim? não é fácil e francamente a convivência precisa ser limitada mesmo, ou fica impossível.

admiro mulheres que se impõem, se posicionam e não se deixam moldar e oprimir pelo peso do machismo; admiro em dobro as mulheres negras que têm o desafio ainda maior de superar o machismo e o racismo, que somados são mais que as partes juntas. saibam que no que depender de mim, dentro do meu minúsculo universo de influência, vocês serão defendidas. que estou criando meu filho para não ser racista e nem machista; que faço tudo o que posso para que aqueles que estão dentro do meu alcance de influência tenham mais respeito e admiração pelos que lutam por um mundo melhor, mais livre de preconceito e julgamento.

e, se me permitem um pitaco: deixem seus cabelos naturais. cabelos de negros são lindos! 😉

sou mais macho que muito homem

setembro 14, 2012 10 comments

por conta das redes sociais me vejo cada vez mais embrenhada em assuntos que sempre fizeram parte da minha vida, mas sem nenhum tipo de engajamento. confesso que engajamento excessivo me cansa e enche o saco. não faço parte de comunidades, grupos, não sou afiliada a nada e nem me considero parte de movimentos disso ou daquilo.

sou adepta do que chamo de “micro movimentos”. procuro fazer como aprendi — tentar influenciar os que estão ao meu redor, colocar luz sobre o que está obscuro. porque nem sempre é preciso realmente influenciar, basta trazer assuntos à tona, fazer pensar. as coisas mudam. às vezes lentamente, é verdade, mas sem dúvida.

acho que é isso que venho tentando fazer neste blog desde sempre e como venho fazendo na vida: conto minha história e minhas vivências, pensando que alguém pode ler e se inspirar (mesmo que não goste ou concorde), e tentar fazer diferente.

venho de uma família de muitas mulheres. todas elas subjugadas pelo machismo dos pobres e ignorantes (a esmagadora maioria das mulheres da família não estudou, considerando a geração da minha mãe e as anteriores). na verdade, as únicas mulheres que estudaram na minha família são do lado do meu pai, que tinham uma condição econômica melhor. mas enfim — todas elas de alguma forma massacradas pelo machismo, e obviamente repetindo boa parte do padrão.

mas não todas. algumas delas, entre elas minha mãe, nascida em 1953, foi um caso à parte. não estudou, porque não gostava ou nunca foi incentivada. era linda, de parar o trânsito. foi “presa” com 15 anos porque um policial mexeu com ela na rua (“elogiou” a bunda dela, parece), e ela mandou ele se foder. ela apanhou do pai na delegacia, na frente de todo mundo, porque era “vagabunda” e usava roupas indecentes, o que ela esperava?

saiu de casa aos 16 porque apanhava dos pais por ser muito “saidinha” e “boca dura”. engravidou (e casou-se) aos 18 anos. pensou em abortar, pagou o aborto clandestino e desistiu na última hora (era eu na barriga!). com 21 anos tinha 3 filhos. pariu a nós 3 em hospitais públicos, partos normais. praticamente não amamentou (no máximo 3 meses. não sabe explicar porque não conseguia, “não tinha leite”), nunca teve uma figura feminina que a apoiasse e ajudasse. deixou os filhos pequenos em casa para trabalhar fora o dia todo e garantir comida na mesa. foi bancária, levou porrada de polícia, cantada de muitos chefes e clientes escrotos. foi humilhada e sacaneada por colegas mulheres que se intimidavam com sua personalidade e sua aparência. sempre foi de temperamento difícil, nunca levou desaforo pra casa. de ninguém — de homem ou mulher.

foi ela que me ensinou a não ter medo do meu corpo, do meu sexo. a mostrar com orgulho meus peitos, minha bunda, meu sorriso, minha “casca”. me ensinou que meu corpo não é motivo de vergonha nem base para julgamento. que meu corpo é MEU, e de ninguém mais, e eu devo usá-lo, mostrá-lo e escondê-lo conforme MINHA vontade. e insistiu muito para que eu valorizasse meu cérebro e investisse no meu intelecto, pra ter uma vida diferente da dela, com mais escolhas (sorte minha, pois não herdei a beleza dela, o cérebro fez diferença :)). me ensinou que eu não precisava me “guardar” pra ninguém, que ninguém jamais seria meu dono, que eu era livre para ser e fazer o que quisesse, e que por isso mesmo devia aprender a ser independente e ter as rédeas da minha vida.

ela sempre defendeu nosso direito, como mulheres, de sermos donas das nossas vidas e nossos corpos. e a mandar a polícia se foder 😉

ela me ensinou, de forma direta e indireta, a me defender. que além de não me importar com julgamento, não devia temer represálias, pois é meu direito ser quem sou, vestir o que quiser, fazer como bem entender o que quiser da minha vida e do meu corpo. ela me ensinou a me impor e não aceitar ameaças, me convenceu de que eu não era mais “fraca” que homem nenhum por definição. me incentivou a responder à altura, enfrentar.

vi minha mãe enfrentar homens, alguns bem maiores que ela, alguns além de grandes, ignorantes. minha mãe já me defendeu, quando ainda adolescente, de “cantadas” na rua. olhou homens feitos cara a cara e disse que não eram bem-vindos, que fossem cuidar das suas vidas. e vi também ameaçar ir pra porrada com homens insistentes (e ela iria, estou certa disso). e eles sempre recuaram! qual era/é o segredo dela? confiança.

minha mãe é temerária. um pouco demais, pro meu gosto, mas admiro seu ímpeto e sua crença em si mesma. sempre funcionou. e era aí que eu queria chegar: ela me ensinou que eu também tenho poder. que homens não são necessariamente “mais fortes”. alguns são, outros não. cabe a mim usar minha força na hora e na medida certa. dentro de uma margem de segurança eu posso e devo medir forças e me impor, sim.

pois sempre me impus. hoje em dia já não sou jovenzinha, nem gostosa e nem ando a pé pelas ruas. mas até os quase 30 anos, fui assediada de formas leves e grosseiras, e seguindo os ensinamentos da minha mãe, me saí bem em quase todos os episódios.

em primeiro lugar, aprendi que cantada não é elogio. cantada só é elogio se você não se sente constrangida, e se é alguma abertura para o flerte. se eu não olhei pro caboclo, obviamente não vamos nos conhecer e ele está cercado de amigos “incentivando”, não tem conversa. em segundo lugar, não é OK comentar sobre minha aparência e sobre minha roupa. quando sou confrontada, reajo imediatamente o “agressor”, sempre olho no olho, de frente. digo que não gostei, e que guarde seus comentários para si. já cheguei a dizer “não tenho medo de você. não conheço você, e você não me conhece. não se meta com quem não conhece!”

já mandei homens (em grupo) pararem de comentários e saírem andando, que não queria conversinha. “anda, anda, que eu não estou com paciência! não conheço vocês, e não quero conhecer”.

já fui xingada? já. com 12, 13 anos (eu já tinha corpo de mulher) ouvi muita barbaridade. eu era mais medrosa nessa época. mas reagi assim mesmo. e sempre saí de cabeça erguida, porque não tenho motivo pra me envergonhar do meu corpo, do meu sexo e nem de me impor.

e já fui embora quieta, e com medo, pelo menos 2 vezes, torcendo pra que nada de mau me acontecesse. essas 2 vezes me confrontei com um predador sexual, que ficava à espreita no caminho que eu fazia para a faculdade. ele tinha olhar de psicopata, andava com o pau de fora nos cantos da rua, em locais ermos, e eu sabia que se houvesse confronto era pra valer e teria que lutar pela minha integridade física. eu tinha 18 anos, e tive muito medo. se fosse hoje, eu chamaria a polícia. se não funcionasse, na boa? chamaria uns amigos pra dar uma surra nele de deixar aleijado pra sempre.

e esse texto não é só para mulheres. é para os homens que pensam que é OK dar “cantada”; é para os gays e trans que sofrem assédio também, e ouvem “piadinhas”. boa parte do poder que os “machos adultos brancos” têm vem de nós, que permitimos que eles se imponham. vem também de outras mulheres que perpetuam o discurso de vítima e não se impõem, seja por medo ou comodidade.

pese e julgue, sim, quais batalhas você vai abraçar. não vale a pena passar o tempo todo brigando, e há batalhas com risco alto demais, mas não se acomode. mude a você mesma/o, deixe pra trás essas ideias de que você não pode/deve isso ou aquilo, ou que você é frágil, fraca, vulnerável.

imponha-se, mulher 🙂