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para o meu pai

agosto 10, 2014 Leave a comment

Não dou bola pra dia dos pais, até porque procuro amar meu pai todos os dias e em todas as oportunidades.

Mas não custa aproveitar pra lembrar de tudo que faz dele o melhor pai que eu poderia querer, ou vendo de outro ângulo, lembrar que sou quem eu sou graças a ele. Somos diferentes, muito, mas tem tanto de mim que foi moldado pela maluquice crônica dele, e estou certa que esse meu jeito de colorir o mundo e as pessoas e ver arco-íris onde só tem nuvem vem dele.

Foi com ele que aprendi a contar histórias e ver o lado bom de tudo, de todos. Definitivamente foi dele que aprendi a não dizer não (e desaprendi depois, para o meu bem).

E também aprendi que ser pai é bem mais que ser provedor, presente, ou essas coisas todas. Pai precisa ensinar a gente a voar, a arriscar, a acreditar na gente mesmo e ir pra vida, e ele ensinou direitinho.

Beijo e amor, Papi. Beijo pra todos os pais daqui, e outro pras mães que são pais.

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big fish na vida real

Janeiro 10, 2014 2 comments

Kali, vô Ivan, Otto

Meu pai pode ter (e tem) todos os defeitos do mundo, mas me faz rir até chorar com suas histórias. Hoje liguei pra ele pra bater papo enquanto dirigia pro trabalho, e vejam o que ouvi:

 

– Ele chama os próprios patos (ele tem vários. E galinhas normais e de angola, e um galo) de qüencos. E todos têm nome: o Otto é o maior e mais gordo; a Belinha é a mais boazinha. Parece que estão todos bem.

– A cachorra dele, Kali (uma Golden Retriever enorme que ele adotou, depois que a antiga dona não quis mais ficar com ela porque era “muito brava”) agora leva ele pra passear, e no máximo por 15min (ela se recusa a andar mais e faz ele voltar)

– Ele tinha um casal de gansos, que é como deve ser (em pares. Eles vivem juntos a vida toda e não trocam de parceiro). Pois que roubaram a gansa dele, e o pobre ganso ficou viúvo e deprimido (palavras dele). Mas um milagre aconteceu e agora uma das patas dele está namorando o ganso, que voltou a ser feliz. Segundo ele, no final da tarde os dois ficam na porta da casa dele “conversando”. Ele imitou o ganso no telefone, e ele parece uma buzina

– Ele mora no meio do mato. Tem um lagarto gigante que mora por ali na região e é o nêmesis dele (come os ovos, ataca os bichos, etc.). Estavam ele e a Kali no galinheiro pegando ovos e ele (meu pai) foi atacado pelo Menezes (acabo de batizar o lagarto), que conseguiu derrubar meu pai depois de dar uma rabada na canela dele =O (o que leva a crer que ou o lagarto é um velociraptor ou meu pai está protegendo a Kali, que na ânsia de pegar o lagarto deve ter derrubado ele). A Kali não pegou o lagarto (ela tenta todo dia). Parece que o Kito, meu irmão, apelidou os 3 de “3 patetas”, e eu achei adequado.

– Uma gata deu cria no meio do mato, e a vizinha do meu pai acolheu, mas não antes dos OITO gatinhos serem atacados pelo Menezes e terem seus rabos comidos (!!!!). Segundo meu pai, estão todos muito bem, porém todos cotocos em diferentes graus.

(Quase tive que estacionar o carro no meio dessa conversa, pois eu ria tanto que escorriam lágrimas)

Bom dia e bom fim de semana surreal pra vocês também 🙂 (fotos de onde ele mora, aqui)

<3

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entre a arte e o registro

setembro 23, 2013 6 comments

a popularização das câmeras digitais e smartphones mudou o mundo — na época que eu era criança, câmeras fotográficas eram raras, coisas que custavam muito dinheiro, assim como os filmes e o processo de ampliação. era todo um mundo mágico, esse das fotografias, reservado àqueles com condição financeira e conhecimento técnico somente. minha tia mais chique e exótica era (ainda é) fotógrafa, e sempre a vi como artista.

bem mais tarde, quando comecei a me interessar pelas artes em geral e estudar um pouco de história da arte, me deparei com a questão do que é ou não arte. achei curioso o quanto esse assunto é polêmico e gera discussões acaloradas. sempre me perguntei por que tanta preocupação com o que é ou não arte? pessoalmente, sem nenhuma análise filosófica ou estética, consumo arte como meio de obter prazer e como fonte de reflexão. gosto muito da arte moderna exatamente pela provocação do intelecto, já que nem sempre é possível estabelecer uma relação óbvia com a obra. mas para aí a minha análise, e procuro simplesmente me deixar levar pelo enlevo estético ou intelectual, “saboreando” a arte, como boa hedonista que sou 🙂

não tenho/tinha opinião formada sobre fotografia como arte, mas gosto de fotografar como forma de registro, simplesmente. nunca pensei nas minhas fotos como forma de arte, em absoluto. comprei minha primeira câmera analógica com vinte e poucos anos, e a primeira digital com mais de 30. nunca usei câmeras que não fossem automáticas, nunca me interessei pela parte técnica da fotografia, pra mim trata-se somente de registro para a memória, e sou dessas pessoas que voltam às fotos com frequência, para lembrar e reviver.

meu acervo digital pessoal começou em 2005, e já tenho incríveis 8 mil fotos no flickr (ferramenta que gosto muito), provando que fotos me divertem. minhas fotos não são artísticas, e às vezes nem são boas — não me importo. elas servem bem ao propósito de lembrança e registro, alimentam a memória e me ajudam a reviver emoções, situações. acho a discussão meramente interessante, mas tem quem critique com emoção a popularização da fotografia, o que eu acho bobagem. deixem que fotografem, oras. nem todos precisam ou mesmo querem ser artistas. gente como eu quer só poder lembrar do momento.

esse não é um assunto que ocupa meu tempo, ou meus pensamentos. semana passada vi a polêmica sobre este fotógrafo que capturou imagens dos seus vizinhos, e fez uma exposição que ficou famosa (além de vender as fotos por muitos dinheiros). ele alega que não há caracterização, e que as fotos são nada mais que uma composição usando elementos (pessoas/locais), não há exatamente invasão de privacidade ou uso de imagem. é arte, como um quadro pintado usando alguém como referência. o objeto sendo retratado deixa de ser um indivíduo específico para ser um representante universal do ser humano, na obra, naquele instante retratado. entendo a comoção do indivíduo que ficou na foto, mesmo sem caracterização; entendo a sensação de invasão. mas pra ser sincera, fico mais do lado do artista. seu olhar e a beleza do ensaio são mais importantes que o indivíduo.

(mas essa é minha opinião pessoal e de não envolvida. fosse eu nas fotos, talvez pensasse diferente)

**

e aí, neste fim de semana, encontramos com alguns amigos para um almoço. sempre tiramos fotos, e compartilhamos no instagram, e facebook, faz parte da diversão dos encontros em época de redes sociais. fotografo muito minha casa, meu filho, minha família e amigos, meu entorno. é uma forma de lembrar, e também de viver com os que moram longe através das redes sociais.

a adriana estava fotografando com uma câmera mais chique, diferente de nós todos carregando iphones. (hoje em dia eu estranho gente carregando câmeras, veja só). ela não é uma amiga íntima  — é amiga de uma grande amiga, e uma pessoa muito querida. além de ser a paixão da vida do otto, que a amou desde o primeiro contato. e bem no final do dia ela publicou no facebook duas fotos que me emocionaram profundamente, vejam vocês mesmos:

Gente, olha essa foto da @dricota e me diz: é muito amor pra sorrir assim; é muito amor pra fotografar assim! <3
otto, feliz brincando com ela

Mais uma roubada da @dricota -- lindos <3
fernando e otto doentinho

as fotos não são “apelativas”, tipo cachorrinho bebê ou daquelas composições feitas para causar emoção. mas essas fotos me causaram uma emoção fortíssima, e não só porque estão ali retratados meu filho e meu marido e companheiro. as fotos são lindas, tecnicamente, mas o que me levou às lágrimas foi o retrato tão transparente das emoções nas pessoas ali na foto.

na primeira, a felicidade do otto é contagiante. ele sorri com a boca (enorme!) e com os olhos, e não é um sorriso qualquer: é um sorriso pra ela, especial, porque ele adora a adriana. desde a primeira vez que a viu ele demonstrou um carinho e afinidade enormes, espontâneos, muito bonitos de ver. e ela, com a câmera, eternizou esse carinho e felicidade perfeitamente. e quão lindo é poder olhar mil, 10 mil vezes para essa foto e reviver essa emoção, esse amor? quanta generosidade e entrega é preciso ter para conseguir captar isso num clique? não é só o amor dele por ela que está nesta foto, é também o carinho dela por ele que está lá.

a segunda me emociona todas as vezes que olho, porque além de estarem lindos na foto, a pose e os olhos (em especial do fer) são transparentes e revelam todo amor e emoção que sentem estes dois um pelo outro. essa relação de entrega do otto com o pai (em especial quando frágil e doente como estava neste dia) fica nítida, assim como o abraço protetor e o olho de leão do fer. eu, a mãe e companheira, já tinha visto e sentido esse amor feroz que ele tem pelo otto, no dia a dia. é um amor tão grande e protetor que parece amor de bicho. é um amor diferente do meu, que sou muito mais solta e leve com o meu filho, mãe-macaca-orangotanga. o fer é pai tigre, pai leão. pai que protege, guarda, cuida e mata quem tentar chegar perto.

essa foto é a síntese do amor deste pai por este filho, é um retrato de amor feroz e de entrega absoluta. lindo, emocionante, translúcido. emoção eterna, que posso reviver sempre que olhar para esta foto.

agradeço com todo coração à adriana pelo lindo olhar, e pelo registro. e depois de anos sem pensar neste assunto, penso: como não considerar estas fotos como arte? são em tese retratos banais, de um almoço na casa de amigos. são pessoas comuns, cenários comuns. mas o amor e as emoções retratadas são universais. a alegria do otto é a alegria de todas as crianças do mundo que sorriem porque existem e amam; o olhar de abandono do menino e de proteção do pai representam todos os pais e todos os filhos da história da humanidade.

não tenho o devido afastamento para julgar, de verdade, mas pra mim essas fotos podiam ir diretamente para uma exposição de arte. ou para um dicionário, nos verbetes “alegria” e “proteção”.

obrigada, dri.

<3

receitas e não-receitas

Abril 23, 2013 7 comments

as coisas que fazem mais sucesso aqui nesse blog, desde sempre, são minhas receitas (ou as que não são minhas mas que testo e aprovo) e opiniões. as receitas eu acho perfeitamente compreensível, afinal todo mundo come e gosta de comer, e procuro fazer receitas fáceis a maioria das vezes. já as opiniões, credito puramente ao meu desejo de diálogo, porque o que comprovo na prática, todo dia, é que penso bem diferente da maioria das pessoas que cruzam meu caminho todos os dias (amigos inclusos).

tenho me sentido muito incomodada nos últimos meses observando o mundo e pessoas próximas, através de redes sociais e do convívio do dia a dia. pela segunda vez na vida tenho desejos de isolamento (o primeiro foi no final da adolescência, quando entrei para a vida adulta) e estou de “saco cheio” generalizado com as pessoas, em especial com o que é diferente de mim e coisas sobre as quais discordo. justamente porque já vivi isso e depois concluí que me tornei uma chata pedante por alguns anos, decidi que desta vez preciso entender melhor o processo e ao invés de me afastar simplesmente do que me incomoda, vou encarar e aprender, por mais que seja desagradável.

há mais ou menos 1 ano vivo um processo ativo de mudança de hábitos, e de vida. há uma manifestação externa e mais óbvia da mudança (há 9 meses comecei uma dieta de perda de peso) mas isso é muito menor que tudo o que passa aqui dentro. venho observando o que me incomoda, nos outros e em mim mesma. tenho repensado decisões, amizades, direções, e tenho reestruturado não somente meu cardápio mas também meu comportamento geral, disponibilidade e paciência para as pessoas. tive nos últimos meses muitas conversas francas (e difíceis), expus incômodos e em alguns casos, não expus e deixei pra lá. sobraram incômodos não expressos, mas também decidi não gastar energia com questões fechadas. repito meu mantra pessoal, continuamente: problemas que não têm solução não são problemas. deixo partir, como mera observadora.

não faz 1 ano ainda que voltei a praticar a bendita ioga (e pratico muito menos do que gostaria e deveria), e uma constatação triste é que deixo meu pobre corpo sempre em segundo plano. mesmo quando pratico ioga, meu fascínio maior é sempre quanto à filosofia envolvida e todas as questões da dualidade entre corpo/consciência. a verdade é que esse tem sido meu drama constante — a energia enorme consumida no mundo interior/imaginário versus a necessidade de concretização e enfrentamento da realidade.

não é que eu não seja prática — sou bastante. mas somente com o que é essencial, necessário para a sobrevivência. podendo divagar e me perder no mundo etéreo, pode me esquecer. até porque viver no universo paralelo (dormindo ou acordada) é muito, muito mais fácil que enfrentar a realidade fora do meu controle 🙂

mas divago. (claro)

no mundo exterior, meu esforço é domar os impulsos alimentares, aprendendo a comer de tudo um pouco, balanceando prazer e saúde. quero comer o mundo todo, às colheradas. pois aprendo a cada dia, um de cada vez, que é possível provar todos os gostos, um tico por vez, saboreando mais. degustando devagar, e sempre. quero colocar o mundo todo pra dentro do meu universo, do corpo, em contraposição à necessidade de colocar também coisas pra fora, fazer com que meu corpo acorde, se mova, saia da inércia e interaja com o mundo concreto. preciso mover a energia de dentro pra fora, transformar potencial em cinética.

tudo que preciso acelerar no corpo, preciso desacelerar na mente, na mesma medida. esvaziar, tranquilizar. dissipar raiva, frustração, julgamento. dissolver o ego, parar de olhar (e julgar) o outro, eliminar a necessidade do espelho (real e também o mais difícil deles, o que se encontra em quem não somos). descobrir o porquê dos incômodos, da inveja, da falta de paciência, ir ao fundo desse poço, pra que possa finalmente me dedicar às não-receitas, a simplesmente viver e deixar que vivam, sem categorizar ou racionalizar tanto.

meu pai, homem maluco e sábio do seu jeito, sempre tentou me ensinar a ser mais livre, menos exigente, a improvisar com o que aparece na vida. mais ou menos como ele faz, em sua profissão de marceneiro: transformar com as mãos a madeira bruta em algo útil ou simplesmente bonito. aos 41 concluo que o improviso e a flexibilidade são artes, sim. são úteis, são também uma forma de ser feliz.

ainda aprendo, papi!

**

e como não podia deixar de ser, em especial neste post, cumpro uma dívida antiga e coloco uma não-receita (e uma das muitas histórias divertidas) do meu pai.

todos em casa cozinham bastante bem, e meu pai é um dos melhores. seus pratos são sempre caóticos, servem dezenas de pessoas e não têm receita. das coisas que ele faz muito bem é o molho bolonhesa, desde que me lembro. quando cresci um pouco, pedi que me ensinasse a fazer o molho, e ele sempre dizia “não tem nada demais: tempero, carne moída e tomate!”. mas nenhum molho era igual ao dele, nunca.

até o dia em que fui junto comprar os ingredientes para o danado do molho, e ao pararmos no açougue tive o momento “ah-ha!” — ele pediu acém moído na hora, mas mandou misturar mais ou menos 1/3 do volume de carne de porco e mais um pedaço de bacon!

fiquei p da vida com o “segredo”, e ele riu muito da minha indignação, com aquela cara de “peguei você!”. eu devia ter desconfiado, tendo aprendido a jogar buraco com ele, que é do estilo esconde-o-jogo-e-pega-todo-mundo-de-surpresa. tinha segredo, claro, e era a deliciosa carne de porco e bacon.

então a receita é assim, estilo maravalhas:

ingredientes

carne moída magra

1/3 do mesmo volume de carne de porco magra moída

um pedaço de bacon de boa qualidade moído

cebola

alho

pimenta do reino

tomate pelado / molho de tomate

azeite

 

utensílios

panela, colher, faca, tábua

 

modo de fazer

refogue a cebola ralada, até secar um pouco mas sem dourar. adicione o alho amassado, só para tomar cor. coloque então em fogo bem alto as carnes misturadas, tempere com sal e pimenta a gosto e refogue, mexendo bem, até a carne toda tomar cor mas sem secar.

adicione o molho ou os tomates pelados, até que cubram a carne e formem um molho bem grosso. acerte o sal e a pimenta. salpique um tico de canela (esqueci de avisar né? receita do meu pai é assim), misture bem e deixe apurar em fogo baixo.

sirva com macarrão fresco, que é o preferido do meu pai (não coloque óleo do cozimento do macarrão, faça o favor), e muito queijo parmesão ralado na hora.

**

que a vida seja mais leve, mas que não falte o talharim a bolonhesa nunca! 🙂