Archive

Archive for the ‘feminismo’ Category

como se tivesse 7 anos

agosto 17, 2018 Leave a comment

cada dia mais eu acho que coisas que não são possíveis de explicar para uma criança de 7 anos, como o otto, a gente precisa rever. essa semana me deparei com um caso curioso, vejam lá:

descobri que o otto gosta de ouvir rádio no carro, o que muito me surpreendeu. ele é da geração de Spotify, NetFlix e YouTube como fontes de lazer e informação, o formato de disseminação de informação com propaganda não faz parte da vida dele, e é repudiado. ele pula as propagandas do YouTube (e assiste pouco, prefere NetFlix), e simplesmente não entende a lógica da TV ter programas “fixos” (que não podem ser controlados) e interrupções regulares longas. Já conversamos inclusive sobre os conteúdos do YouTube que são propagandas disfarçadas de histórias, que servem só pra deixar a gente com vontade de comprar (ele conseguiu perceber isso, mas não deixou de ter vontade de ter e comprar; esse é outro passo da evolução, que não sei se acontecerá).

mas voltando pro rádio — achei curioso ele querer ouvir o cara falando, no meio das músicas aleatórias. imaginei que esse menino que gosta tanto de controle e está familiarizado com a tecnologia podia se irritar com o formato, mas não só não se irrita como gosta. interessante.

mãe preocupada com a questão da propaganda que sou, comecei então a prestar atenção nas propagandas do rádio e… meodeos. são inúmeras, mas tem essa uma propaganda em especial é que bastante repetida aqui na região de campinas (especialmente pela manhã, no horário que vou pro trabalho) e que me deixou muito incomodada: doutor formen.

FOR MEN, no caso, “para homens”, é uma clinica especializada em desempenho sexual. do homem, claro. a propaganda é bem gráfica: “dificuldades com desejo sexual? impotência? ejaculação precoce? temos a solução para os seus problemas, etc. e tals.”

estou longe de ser puritana, e busco sempre explicar as coisas pro otto de forma bem direta, desde muito cedo. já explicamos por alto como funciona o nascimento dos bebês, embora não tenhamos explicado a mecânica pênis-vagina para que o espermatozóide chegue ao óvulo (ele não perguntou detalhes, e somos adeptos de fornecer somente os detalhes que interessam pra criança). dito isso, meus incômodos com essa propaganda são vários, e pensei em como explicá-los pra vocês. decidi fazer um diálogo simulado com uma criança de 7 anos pra tentar ilustrar.

(AVISO: o diálogo abaixo é ficção, mas poderia ser real. vamos assumir que a criança de 7 anos já entendeu o que é sexo)

c7a: “ei, o que é ‘desejo sexual’?”

eu: “é a vontade de ter contato sexual com alguém, vontade de praticar sexo”

c7a: “e o que é ‘impotência’?”

eu: “é falta de potência. nesse contexto quer dizer que um homem não consegue fazer seu pênis ficar duro.”

c7a: “por que ele precisa dele duro? e por que se não estiver é ‘impotência’?”

eu: “o pênis precisa estar duro para poder entrar na vagina. se ele não fica duro, os homens se sentem impotentes e acham que não pode haver sexo. já aproveito pra explicar pra você, criança, que sexo não é só o que acontece quando há um pênis envolvido diretamente ou ele está duro. sexo não é só o pênis na vagina. uma relação sexual acontece mesmo que não haja pênis, inclusive. mulheres também fazem sexo entre si ou sozinhas, sem precisar de um pênis.”

c7a: “mas o que é ‘ejaculação precoce’?”

eu: “quando o pênis fica duro e entra na vagina, depois de um tempo acontece a ejaculação, que é quando os espermatozóides são liberados para chegar até o óvulo, que fica no útero. é assim que os bebês são feitos, através da fecudação do óvulo. ‘ejaculação’ é a liberação dos espermatozóides, e ‘precoce’ é quando essa liberação acontece de forma rápida demais.”

c7a: “por que não pode ser rápido?”

eu: “porque existe essa ideia de que demorar mais para liberar os espermatozóides é bom, porque sexo é uma atividade que dá prazer, é boa. então quanto mais durar, teoricamente, melhor.”

c7a: “e por que o moço tá oferecendo solução no rádio pra isso?!”

eu: “porque há homens que têm problemas com isso, e o prazer e a auto-estima do homem são assuntos importantes o suficiente para merecer anúncio no rádio com soluções pra resolver isso.”

c7a: “e as mulheres não têm problema com isso?”

eu: “as mulheres, criança, têm muitos problemas com isso. elas não são ensinadas a se preocupar com seu próprio prazer e felicidade nas suas relações sexuais. elas não são ensinadas a conhecer e cuidar das suas vaginas. as mulheres são ensinadas a garantir que podem reproduzir, e que estão aptas pra isso. ninguém oferece soluções para que mulheres sejam mais felizes nas suas vidas sexuais.”

OK, admito que talvez não fosse possível (ou razoável) ter essa conversa com uma criança de 7 anos. mas talvez seja viável ter essa conversa com uma criança de 10, 12 anos. precisamos falar disso — por que é normal uma propaganda falando sobre como melhorar o desempenho sexual masculino, o mundo girando em torno do pinto e como ele deve ser duro e apto a ejacular, enquanto não falamos NUNCA sobre a vagina, a vulva, o clitóris, o orgasmo feminino?

alguém já viu uma propaganda tipo “amiga, você tem bons orgasmos durante o sexo com seu parceiro? você sabe se masturbar? nós da PRAZMINA temos dicas pra te ajudar!”

sabem quantas mulheres nunca sequer viram a própria vulva? A MAIORIA. e os meninos enquanto isso, desde pequenos seguem balangando seus pintos pela vida, tirando o dito cujo da calça sempre que possível, a onipresente representação da sua sexualidade em forma de apêndice (que inclusive é tratado como tendo vida própria, olha que maluquice), epicentro de toda civilização.

quantos homens sabem fazer sexo sem pinto? quantos deles sequer consideram que é sexo se não tiver pinto envolvido?

(pra não ser injusta, essa cultura pintocêntrica é tão forte que muitas mulheres também acham que sem pinto não tem sexo, mesmo sendo somente a minoria — alguns estudos falam de apenas 25% — das mulheres que têm orgasmos somente com penetração!)

modosque me incomoda sim ter que explicar essa propaganda bizarra pro meu filho, caso seja necessário, mas me incomoda muito mais a existência tão naturalizada dessa propaganda no rádio quando a maioria dos homens sequer sabe que a entrada da vagina e a uretra são orifícios diferentes e o clitóris é um ilustre desconhecido.

não é à toa que só existe viagra-e-afins pra homens. ainda vivemos numa sociedade em que mulher não tem desejo, tem obrigação.

sonho de igualdade

julho 20, 2018 Leave a comment

É louco observar esse mundo dos homens do século passado. Um mundo em que as mulheres são:

 

Enfeite

Suporte

Alívio

Fardo

Troféu

 

Repare que elas (nós, eu) nunca são:

 

Referência

Par

Meta

Ídolo

Exemplo.

 

Sempre tem os que

 

(nossa como são legais, eles!) 

 

agradecem à santas mães

 

(por tê-los botado no mundo e criado, tarefa mais importante da vida de uma mulher)

 

e também às zelosas

 

(e lindas, porque vocês sabem que beleza é fundamental)

 

esposas, por permitirem que eles se dediquem ao seu sonho e vocação, e sejam esses homens ma-ra-vi-lho-sos.

 

 

Tou pra ver homens elogiando, admirando e usando mulheres como referências intelectuais. Como se elas fossem homens, sabe? (Cof cof)

 

 

Aliás, quantas de vocês já ouviram que

 

“Nossa, você é tão legal, tão inteligente, NEM PARECE MULHER!”

 

(Todos sabem que mulheres são serem complexos e instáveis, com humores inescrutáveis e, acima de tudo, não são confiáveis)

 

Hoje em dia talvez ninguém mais fale isso, mas certamente pensa. Ou fala de outro jeito, mais moderno:

 

“Você não é como as outras!”

 

ASOUTRAS, aquelas que não me tratam como minha mãe ou minha (futura) esposa, sabem? Com a veneração e submissão que todo macho merece.

 

 

Tenho aqui uma fantasia secreta de que as meninas de 20 vão ler esse texto e pensar — “nossa, essa mulher de meia idade está BEM LOUCA, quem são esses homens de outra era aos quais ela se refere?!”

 

 

Porque se minha fantasia se realizar, é sinal que o macho do século passado tá em extinção, e é só uma questão de tempo e paciência pra vermos homens admirando mulheres, como iguais. É só uma questão de tempo para eventos terem homens e mulheres palestrando. É só uma questão de tempo para ver mulheres no poder em todas as esferas. E ver mulheres sendo citadas igualmente como cientistas, escritoras, cineastas, artistas de toda sorte.

 

 

E quem sabe, em breve, não seja tão triste observar ao meu redor e ver mulheres brilhantes e maravilhosas sendo reconhecidas somente pelas suas bundas, pelo fato de terem parido os filhos dos veneráveis homens ou basicamente por cuidar deles.

 

 

Quero viver muito pra ver um mundo em que a gente vai poder nascer mulher sem ter que ser bela e cuidadora pra ser valorizada.

Categories: feminismo Tags:

somos poucas, mas sempre somos demais

julho 10, 2018 Leave a comment

Uma vez fui a uma empresa de inovação na área de engenharia para um pré projeto e perguntei quantas mulheres eles tinham na equipe. O sócio diretor, muito orgulhoso, disse “muitas!”. Quando fui conhecer o RH fiz a mesma pergunta, e a moça respondeu: “ai, somos tão poucas… menos de 10% no total.”

 

Numa outra ocasião um rapaz da minha equipe, quando soube que estávamos iniciando uma frente de apoio às mulheres em posição de liderança, ficou verdadeiramente chocado: “nossa, mas pra que isso? Vocês já dominam tudo!” (Não dominamos, claro, bastaria contar né?)

 

O problema não é só sermos poucas (ou poucos no caso dos gays): é que QUALQUER quantidade é grande demais pra quem prefere que a gente não ocupe espaços “deles”.

Categories: feminismo

mulheres têm cérebro, uau!

junho 29, 2018 Leave a comment

Acabamos de sair de um evento num hotel, 3 mulheres juntas conversando. Um rapaz da área de entretenimento do hotel nos aborda com um chapéu Mexicano e começa a falar espanhol…

 

… respondemos as 3 em espanhol e já seguimos a conversa com ele em espanhol mesmo. Ele, sem graça, começa: “opa, acabou meu espanhol, haha! Vamos fazer um jogo?”

 

Num quadro, bandeiras de vários países, e um logo da Copa.

 

Nós: “vambora!”

 

Ele começa a perguntar como se tivéssemos 7 anos os nomes dos países, e nós — a Mariana arrebentando, nem precisava das outras 2, sabe tudo! — respondemos tipo TUDO. Sei lá, a gente não sabia a bandeira do Egito, talvez.

 

O cara não tava sabendo lidar. Dava pra ver a cara de espanto dele.

 

“Gente, vocês sabem tudo! Tinha um bando de homem agorinha aqui, uns 10, não sabiam nada!”

 

Nenhuma novidade aí, né, meu amor? Sigamos.

 

Mariana, pra provocar: “vamos então pro próximo nível? Capitais!”

 

O cara desacreditou. Ela falou de cara metade, Cris e eu mais alguns, outros demoramos e uns 3 tivemos que olhar no Google, mas no geral foi arraso.

 

Tiozão sentado atrás de onde estávamos — “uau, essa mulherada é inteligente hein?!”

 

Mariana, não satisfeita 😂😂😂: “esses aqui do Grupo X, já foram eliminados, esses aqui passaram… pô, você podia colocar aí os outros países pra gente falar qual saiu, qual ficou, placar…”

 

O cara tava rindo já de nervoso e bateu palma tipo “nossa, legal, verdade, mas CABÔ MINAS, XÔ!”, e fomos embora rindo bastante.

 

2018 e tem homem surpreso que mulher tem cérebro, não é uma coisa assim espantosa? 😉

Categories: feminismo

as que colhem cogumelos

junho 18, 2018 Leave a comment

Esse poema foi escrito por Neil Gaiman e apresentado pela Amanda Palmer (link lá embaixo), e Daniela e eu ficamos tão encantadas que fizemos uma tradução a 4 mãos para espalhar essa lindeza pelo mundo dos que falam Português.

 

Mulhes podem ser tudo que quiserem, especialmente cientistas 🙂

 

❤️🍄

 

As Que Colhem Cogumelos  

 

A Ciência, criança, como se sabe é o estudo

da Natureza e dos mecanismos do Universo.

Baseia-se na observação, no experimento, na medição,

e formulação de leis que descrevam os fatos

assim revelados

 

Há muito tempo, dizem,

já existia um cérebro na cabeça dos homens

preparado para perseguir feras desembestadas

lançando-os cegamente rumo ao desconhecido,

para depois, perdidos, encontrar seu caminho de volta

carregando juntos o antílope abatido.

 

Ou, nos dias ruins, antílope nenhum.

 

As mulheres, que não precisavam perseguir feras,

tinham cérebros atentos aos marcos do caminho

e ao trajeto possível entre um e outro.

À esquerda no espinheiro, passando os seixos

olhe bem os ocos das árvores caídas

porque neles pode haver cogumelos.

 

Antes da clava e da pedra lascada

a primeira ferramenta que existiu

foram as tipoias de carregar os filhos

amarradas para deixar as mãos livres

e ter onde guardar as frutas e os cogumelos

e as raízes e as folhas boas,

as sementes e os bichinhos.

 

Só então veio o pilão de amassar,

de macerar, de moer e quebrar.

 

E havia os dias em que os homens

perseguiam as feras nas matas escuras,

e não voltavam mais de lá.

 

Há os cogumelos que matam

e os que revelam deuses,

e há os que saciam a nossa fome.

Há que se saber identificar.

 

Uns são mortíferos se comidos crus

E novamente nos matam se aferventados

Mas se fervidos na água fresca que se descarte

e depois mais cozidos, servem então para comer.

Há que se saber observar.

 

Observar crianças que nascem,

medir as barrigas, as formas dos seios

E com a experiência descobrir

maneiras seguras de partejar.

Observar tudo.

 

E assim as que colhem cogumelos

palmilham caminhos

de olhos atentos ao mundo

vendo o que há para observar.

 

E algumas vicejaram

lambendo os lábios

E outras caíram mortas

varadas de dor.

 

E assim foram estabelecidas

e passadas as leis

sobre o que era ou não seguro.

Há que se saber formular.

 

As ferramentas que criamos

para construir nossas vidas:

as roupas, a comida, o caminho para casa…

Todas nasceram da observação,

do experimento, da medição – e da verdade.

 

E a Ciência, lembre,

é o estudo da Natureza e dos mecanismos do Universo.

Que se baseia na observação, no experimento, na medição

e na formulação de leis que descrevam o que se dá.

 

A corrida não para.

Uma cientista dessas primeiras

desenhou feras na caverna

para os filhos da irmã,

já bem saciados de frutas e cogumelos,

mostrando bichos que eram bons de caçar.

 

Os homens correm perseguindo feras desembestadas.

 

As cientistas caminham com calma

pelo pé da colina

e descem para a beira d’água,

até depois de onde o barro vermelho brota.

Elas levam os filhos nas tipoias que teceram

e têm as mãos livres para colher cogumelos.

(Neil Gaiman)

**

 

O original:https://www.brainpickings.org/2017/04/26/the-mushroom-hunters-neil-gaiman/

Categories: feminismo, poesia Tags: , ,

ser legal não é suficiente

maio 25, 2018 Leave a comment

Uma coisa urgente que precisamos repensar (especialmente pessoas brancas / hétero e os homens) cada vez que nos deparamos com casos de racismo, homofobia e machismo:

 

Vamos parar de nos autocongratular dizendo que nós não somos assim, grazadeus, e que “temos até amigos negros / gays” ou “tenho maior respeito por todas as mulheres” ou “inclusive sou feminista / simpatizante”, enfim, espero que esteja claro.

 

Não porque essas coisas não tenham algum valor, mas porque esse tipo de afirmação é meio um passe livre, tipo: “eu faço minha parte, tá? Eu sou legal. Não tenho nada com isso!”

 

Você pode até achar que não, mas cada vez que se auto-elogia, se colocando fora do sistema que é ESTRUTURAL, você não está fazendo parte da mudança.

 

Nós somos racistas, machistas e homofóbicos SIM, porque é impossível não ser dentro da sociedade que fomos criados e vivemos.

 

Cada um de nós pode ativamente lutar para ser menos preconceituoso, todo dia, toda hora, e isso faz de nós pessoas conscientes, cidadãos melhores. Que bom! Isso é fundamental.

 

Mas nenhum esforço passivo nosso será suficiente até que a sociedade mude. E reafirmar nossa “bondade” só nos torna complacentes, não ajuda ninguém, nem a nós mesmos.

 

Cada vez que você puder falar sobre isso, ao invés de se auto elogiar por ser tão legal, pense: o que MAIS eu posso fazer? E faça.

 

Nunca será suficiente, não tão cedo.

 

**

 

Ou, sendo mais direta: não é porque você tem amigo gay que você não é homofóbico, não é porque você tem amigo negro que você não é racista e nem porque você respeita sua mãe, irmã ou amiga que você não é machista. E mesmo que você não seja mesmo NADA prconceituoso, isso não ajuda a melhorar o mundo. Podemos fazer mais.

 

E tudo bem, é isso aí. Sigamos ATENTOS para nos tornarmos pessoas melhores e principalmente pra ajudar a tornar o mundo melhor, já que estamos na contramão. Somos nós que queremos mudar que vamos ajudar o mundo a melhorar.

 

**

 

Dou um exemplo: sou uma mulher adulta, branca, cis, com educação superior, num casamento hétero e com 1 filho, executiva de uma empresa multinacional. Na hierarquia social, só os homens brancos estão acima de mim. Ou seja: embora eu sofra uma série de problemas por ser mulher, eu não sofro um montão de outras coisas.

 

Será que basta eu não ser racista ou homofóbica? Basta por exemplo eu estar disposta por exemplo a contratar uma pessoa negra para uma posição na minha equipe?

 

Eu acho que não. Porque pra que essa pessoa negra chegue até mim, para uma entrevista, existe um longo caminho cheio de portas trancadas. Abri um processo seletivo ano passado para estagiários e funcionários e apareceram pouquíssimas mulheres e NENHUMA pessoa negra.

 

Pois eu fui atrás de todos os meus contatos buscando mais candidatos, porque queria ao menos colocá-los no páreo.

 

Consegui. Com um super esforço! E contratei 1 moça para uma das vagas de funcionários e 1 moça negra para uma das vagas de estágio. Ambas talentosíssimas, e a moça negra em especial é fora da curva, excepcional.

 

Se eu tivesse ficado passiva, só esperando a mudança chegar até mim, ela não viria tão cedo (será que viria um dia, na minha vida?).

 

Nós, pessoas esclarecidas e do bem, precisamos tomar as rédeas e acelerar a mudança.

 

Vem comigo <3

Categories: elucubrações, feminismo

mudança ativa

maio 24, 2018 Leave a comment

Li e me emocionei com a história da menina negra sendo rejeitada pelas colegas, e a mãe tentando consolar e ajudar, mas ver  e ouvir essa mãe falando e pedindo ajuda acabou comigo.

 

A dor que é o nosso filho ser rejeitado, em especial por algo que ele não pode controlar nem mudar (como a cor; o cabelo; entre outras tantas coisas).

 

Nós, brancos, nós, pais, precisamos assumir essa responsabilidade de mudar a realidade através dos nosso filhos SIM.

 

Dá um trabalho insano, porque o que ela diz é real: as crianças rapidamente absorvem os preconceitos estruturais. Nós temos que LUTAR ATIVAMENTE CONTRA ELE.

 

Ser uma boa pessoa, passivamente, não ajuda. Não se iludam.

 

Lutem.

Categories: feminismo

senhora… senhora?

maio 21, 2018 Leave a comment

Uma moça de vinte e poucos agora há pouco me perguntou (numa situação informal): “e é pra senhora mesmo?”

 

Tou de chinelo, bermuda, camiseta, cabelo preso, como quase sempre.

 

Isso já aconteceu quando eu tinha a idade dela, sempre me incomodou, e hoje também, mas foi diferente.

 

Pensei: “Porra, tenho 46 anos e sou uma senhora mesmo. Nada a ver me incomodar com isso. Relaxa.”

 

Não sou jovem; não tou tentando parecer jovem, não faço NADA pra isso, então por que me incomodar?

 

Prazer, senhora.

Categories: elucubrações, feminismo

representatividade importa!

março 19, 2018 Leave a comment

Adoro fazer trabalho voluntário de forma geral, mas gosto mais ainda quando é pra ajudar outras mulheres a se desenvolverem na carreira. Sempre aceito pedidos de mentoria, palestra, coaching, bate-papo, apoio, treinamento, enfim. Quero ver a mulherada liderando, com confiança.

 

Hoje fui voluntária num painel sobre carreira, de mulheres mais (cof cof) experientes para mulheres líderes iniciando nessa carreira. Aprendo tanto com esses eventos que tenho a sensação que eu é que devia pagar pra estar lá, sabe? É sempre maravilhoso.

 

Mas nada poderia me preparar pra hoje.

 

Alê e eu respondemos muitas perguntas e dúvidas, todas ótimas. Falamos da importância de ser flexível, mas assertivas; falamos de liderar por influência e não por autoridade, e de não ter medo de errar. Ou melhor: ter medo sim, mas não deixar que isso nos impeça de arriscar. Permitir-se errar. Praticar a generosidade ao olhar para o outro, e trabalhar em conjunto aproveitando as diferentes qualidades dos colegas e equipe pra nos tornarmos líderes melhores.

 

Neste ambiente, e neste contexto, nem surgiu o tema representatividade de mulheres na tecnologia, porque afinal todas sabemos como é.

 

Aí no final, na última pergunta, essa moça (a Karla; só lembrei do nome dela depois de ver o crachá) pegou o microfone e contou essa história:

 

“Você não deve lembrar de mim, mas te conheci há 11 anos. Eu era estagiária, na equipe do Fulano e Beltrano, eles sempre foram muito legais e me ensinaram muito sobre TI, mas eu nunca senti que podia progredir nessa carreira. Eu achava que só serviria pra servir cafezinho.

 

Aí um dia você chegou, e deu uma palestra pra gente [era um treinamento sobre gerência de projetos, para TI e para o time de negócios] e eu pensei ‘nossa, EU POSSO SER COMO ELA! Eu também posso chegar a essa posição!’.

 

Eu saí de lá, não fui efetivada, mas sabia que era ali naquela posição que eu queria estar — de líder. Sendo mulher. Eu não ia servir cafezinho.”

 

Tou escrevendo aqui enquanto lembro, e chorando tudo de novo. Eu vi a Alê chorando ali também do meu lado, porque

 

PUTAQUEPARIU

 

é pra isso que a gente tá aqui, ok? Pra ajudar as outras. Pra mostrar que a gente pode ser o que a gente bem quiser. E arriscar, se expor, ABRIR esse espaço importa, e muito.

 

Amigas, queridas: se exponham. Abram espaço, ouçam essas mulheres que rodeiam vocês, sejam exemplo pra suas amigas, irmãs, filhas, primas, sobrinhas, vizinhas, ou uma estagiária.

 

O fato de EXISTIRMOS, e ocuparmos os espaços, faz diferença.

 

Não sei como agradecer à Karla por me contar essa história.

 

Perguntaram antes dessa história pra gente “como você quer ser lembrada? Qual o legado que você quer deixar?”

 

Eu quero ajudar outras pessoas a serem versões melhores delas mesmas. É isso que eu quero pra mim também: ser melhor, me orgulhar do meu caminho, encontrar formas de ser melhor e ajudar os outros.

 

Pelo menos hoje eu sei que consegui ajudar UMA moça. Não tem medida pro tamanho da minha alegria.

 

Obrigada, Karla, por persistir e acreditar em você mesma; obrigada Carine, pela oportunidade; obrigada Alê por não me deixar chorar sozinha.

 

😘❤👊🏻

Categories: feminismo, tecnologia

dia da mulher, 2018: um pedido

março 9, 2018 Leave a comment

No dia da mulher, comecei o dia dando uma palestra para mulheres sobre como se comunicar mais objetivamente. Voluntariamente. Com amor.

 

Não porque é dia da mulher, mas também porque é. Adoro escrever sobre isso aqui, e no blog, e onde for, é preciso falar sobre igualdade de gênero, mas muito mais importante que falar é FAZER alguma coisa para que o mundo mude.

 

Nesse dia das mulheres — e de aniversário 🙂 — eu queria pedir que cada um de vocês pensasse como pode ajudar alguma mulher a ser mais forte, mais feliz, mais segura.

 

Faça alguma coisa por outra mulher.

 

Se for mais experiente, seja mentora de alguém no trabalho; se for menos experiente, envolva-se com outras mulheres. Não chame a colega de puta. Não duvide de mulheres quando elas denunciam abuso. Não duvide da capacidade de uma mulher porque ela é mulher. Pare de pensar que ser mãe define uma mulher, para o bem ou para o mal. Lembre que mulheres não estão aqui pra enfeitar o mundo nem pra agradar todo mundo.

 

Elogie uma mulher sem mencionar seus atributos físicos. Pratique isso.

 

Pare de julgar tanto outras mulheres. Isso vale pra você também, amiga.

 

Se você for homem, leia tudo e pratique. Mas faça mais — não seja omisso quando houver mulheres sendo oprimidas ao seu redor. Aliás, abra os olhos e veja; ao ver, aja. Confronte seus amigos machistas.

 

Não se cale.

 

Nosso silêncio, nossa paralisia, são fatais. Pro mundo mudar, a gente tem que colocar a mão na massa, empurrar a roda, puxar mesmo.

 

Tou aqui firme no arado, meninas. Pra mim, e pra vocês também.

 

Que o dia da mulher sirva pra lembrarmos que estamos vivas, fortes e chutando.

 

❤👊🏻

Categories: feminismo