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clarice

agosto 31, 2017 Leave a comment

Clarice Lispector é minha autora favorita. O que é um saco, porque ela virou um clichê ambulante, e gostar muito dela ficou esquisito nos últimos anos. Mas é, desde que li pela primeira vez “Laços de Família”, com 15 ou 16 anos. E reli 1000 vezes, e saí lendo tudo dela. E mesmo quando não entendo nada eu amo, porque o jeito que ela escreve é mágico, e não precisa sempre fazer sentido.

 

30 anos depois de tê-la lido pela primeira vez eu escuto sua voz e a vejo em vídeo. Acreditam? Nunca nem me ocorreu procurar nada dela pra ver, e esse vídeo chegou a mim por acaso.

 

Estou sentindo uma mistura de encantamento e ternura. Ela é minha ídola, quase sobrenatural, mas esse vídeo me mostrou uma humana muito cheia de questões, mau humor, dúvidas. E ela é ainda mais incrível por isso tudo, por ser humana e cheia de questões. Por negar a condição (o status, talvez) de escritora. Por admitir não entender seus próprios textos.

 

Os escritos dela me tocam profundamente, o estilo dela me encanta como feitiço. Admirava muito a escritora pela obra, e agora senti amor e uma mistura de alegria e melancolia vendo ela falar. Morreu tão cedo. 💔

**

Na entrevista ela menciona que suas obras favoritas são o conto “o ovo e a galinha” (amo. E ela diz que é um mistério pra ela, que não entende o próprio conto hahhaha) e a história do Mineirinho, que morreu com 11 (ou 13? Ela não lembra ❤️) tiros, quando apenas 1 bastava. O primeiro tiro é ele que morre, os demais quem morre somos nós.

 

Ah, Clarice.

 

Aí o Fernando (ouvindo de longe a entrevista aqui) lembrou dessa música da Fatima Guedes, e parece coincidência demais né? Deve ter relação.

 

Elis ao vivo, essa música, Clarice.

 

Vale a pena estar vivo só pra ler, ouvir, sentir isso tudo, a despeito de tudo o mais.

Categories: livros, música

sobre tecnologia, amor e dor

abril 9, 2013 5 comments

espero que apreciem tanto quanto eu deste ótimo texto que compartilho logo ali embaixo, e ele vem a calhar neste momento em que reflito sobre comportamentos amplificados pelas redes sociais. recebi de uma amiga, que leu um texto meu no facebook e achou que eu ia gostar. amei mesmo!

tenho questionado o quanto a imersão nas redes sociais promove o narcisismo exagerado,  um certo descontrole do ego, que nos leva a esquecer que existe o outro (e que não, o mundo não gira ao nosso redor), o diferente, o que não necessariamente nos curte e nem concorda conosco. me preocupo com a tendência em nos tornarmos ilhas cercadas só dos que nos validam e “curtem” — mais fácil de acontecer nas redes sociais que no dia a dia, quando não podemos simplesmente esconder um feed ou “bloquear” pessoas. e me espanto com a lógica distorcida da inveja alheia: quem não me ama e curte, é porque tem inveja de mim e da minha linda vida-filtrada-pelo-instagram.

o que leva pessoas adultas a regredir aos 2 anos, voltando a interpretar tudo o que se passa somente à luz de si mesmas, perdendo a capacidade de perceber a realidade do outro?

pra além do blá-blá-blá energético (no qual não acredito), acho essencial um investimento diário e constante no que chamam de grounding, que pratico fisicamente na ioga e me esforço para praticar em todas as oportunidades. ou numa figura de linguagem perfeita do bom português, botar os pés no chão. parar de viajar na maionese. deixar de achar que você é a bolachinha mais gostosa do pacote. se enxergar. se ligar.

a realidade (e o amor) estão escondidos nos eventos ordinários do dia a dia, nas coisas pé-no-chão. observar pássaros; ouvir um amigo em dificuldade; ter conversas difíceis; lavar as janelas; escrever um texto. as coisas reais, simples e concretas nos fazem emergir da anestesia da rotina, das ilusões que criamos ao nosso redor sobre nós mesmos, sobre nossas vidas. e confrontar-se com a dor e dificuldades (quem não sente dor tem algum problema, ou não está prestando atenção!) faz parte da vida, ensina, nos modifica. com algum empenho e vontade, para melhor.

a atenção à realidade e às coisas simples do dia a dia, em contraposição à vida-filtrada das redes sociais, me remete a clarice lispector (ironicamente a musa da citação incorreta da internet). leiga em literatura que sou, arrisco dizer que toda sua obra é permeada por um talento incrível para colocar tudo o que é microscopicamente insignificante numa lupa e expor (dolorosamente, inclusive) a complexidade de estar vivo e ser. e é tão bonito!

além do texto abaixo, para quem quer viver e pensar a experiência de pés-no-chão, recomendo a leitura de laços de família.

**

1. A dor não nos matará*

(capítulo do livro de ensaios “como ficar sozinho“)

Bom dia, turma de 2011. Bom dia, parentes e professores. É com grande honra e satisfação que estou aqui hoje.

Vou começar partindo do princípio de que vocês sabiam onde estavam se metendo quando escolheram um escritor para fazer este discurso. Vou fazer o que escritores fazem, que é falar sobre si mesmos, na esperança de que minha experiência tenha alguma ressonância em vocês. Gostaria de abordar o tema do amor e sua relação com minha vida e com o estranho mundo tecnocapitalista que vocês estão herdando.

Há duas semanas, troquei meu BlackBerry Pearl, que já tinha três anos, por um BlackBerry Bold muito mais potente, com uma câmera de cinco megapixels e tecnologia 3G. Nem preciso dizer como fiquei impressionado em verificar o quanto a tecnologia avançou em três anos. Mesmo que eu não precisasse telefonar ou mandar e-mail para alguém, queria continuar manuseando meu novo Bold e curtir a maravilhosa nitidez da tela, o toque macio do pequeno trackpad, a incrível velocidade de resposta, a sedutora elegância dos ícones. Em resumo, estava apaixonado por meu novo aparelho. É claro que também adorava meu velho celular; mas, com o passar dos anos, nosso relacionamento perdeu a graça. Surgiram problemas de confiança em minha relação com o Pearl; questões de responsabilidade e de compatibilidade e também, já no fim da nossa história, algumas dúvidas em relação à própria sanidade do meu Pearl, até que finalmente fui obrigado a reconhecer que tinha perdido o interesse naquele relacionamento.

Será que preciso dizer — na falta de uma licenciosa e antropomorfizante projeção segundo a qual meu antigo BlackBerry teria ficado triste com o fim do amor que eu sentia por ele — como nosso relacionamento era absolutamente unilateral? Mas vou dizer mesmo assim. Reparem como a palavra sexy é sempre usada para descrever os modelos mais recentes dos aparelhos eletrônicos; e como as coisas tão legais que hoje podemos fazer com esses aparelhos — ativá-los por meio de comandos de voz ou ampliar a imagem da tela do iPhone usando dois dedos, por exemplo — teriam parecido, para as pessoas de cem anos atrás, verdadeiros truques de mágica; e como falamos em magia quando queremos descrever um relacionamento erótico que esteja funcionando perfeitamente. Deixem-me propor a ideia de que, segundo a lógica do tecnoconsumismo, pela qual os mercados descobrem e respondem àquilo que os consumidores mais desejam, nossa tecnologia se tornou extremamente eficiente para criar produtos que correspondam à nossa fantasia de um relacionamento erótico ideal, no qual o objeto amado se entrega por completo sem exigir nada em troca, instantaneamente, fazendo com que nos sintamos todo-poderosos, e não apronta cenas constrangedoras quando, substituído por um objeto ainda mais sexy, vai parar no fundo de uma gaveta: que (para falar de modo mais geral) o objetivo definitivo da tecnologia, a teleologia da techné, seja substituir um mundo natural indiferente a nossos desejos — um mundo de furacões e dificuldades e corações vulneráveis, um mundo de resistance — por outro mundo que responda tão bem a nossos desejos que é como se fosse mera extensão do ser. Deixem-me, finalmente, sugerir que o mundo do tecnoconsumismo é portanto perturbado pelo amor real, o que só lhe deixa a opção de responder perturbando o amor.

A primeira linha de defesa do mundo tecnoconsumista é transformar seu inimigo em mercadoria. Todos temos um exemplo favorito e sabemos citar os casos mais nauseabundos de mercantilização do amor. Eu mencionaria a indústria do casamento, os comerciais de tv com lindas criancinhas e a prática de dar automóveis como presente de Natal, e a particularmente grotesca equação que compara diamantes a devoção eterna. A mensagem, em cada um dos casos, é que, se amamos alguém, deveríamos comprar alguma coisa.

Um fenômeno relacionado a esse é a transformação, graças ao Facebook, do verbo “curtir”, que deixa de descrever um estado de espírito e passa a designar um ato que desempenhamos com o mouse: deixa de ser um sentimento e vira uma opção de consumo. E curtir é, no geral, o substituto da cultura comercial para amar. A característica mais notável de todos os produtos de consumo — sobretudo dos aparelhos eletrônicos e aplicativos — é o fato de terem sido projetados para ser bem curtíveis. Essa é, na verdade, a definição de um produto de consumo — em contraste com o produto, que é apenas aquilo que é e cujos fabricantes não estão preocupados se vamos ou não curti-lo. Estou pensando nos motores de aviões a jato, nos equipamentos de laboratório, na arte e na literatura em suas manifestações mais sérias.

Mas, se pensarmos nisso em termos humanos e imaginarmos uma pessoa definida pela ansiedade de ser curtida, o que temos aí? Temos uma pessoa sem integridade, sem um centro. Em casos mais patológicos, temos um narcisista — alguém incapaz de tolerar que sua autoimagem seja manchada pela possibilidade de não ser curtido e que portanto ou se afasta do contato humano ou se dedica a sacrifícios cada vez mais extremos da própria integridade com o intuito de ser curtido.

Se uma pessoa, no entanto, dedica sua existência a ser curtível e passa a encarnar um personagem bacana qualquer para atingir tal fim, isso sugere que perdeu a esperança de ser amado por aquilo que realmente é. E se tiver êxito na tentativa de manipular os outros para que seja curtido, será difícil que, em algum nível, não sinta verdadeiro desprezo por aqueles que caíram em seu embuste. Tais pessoas existem para que nos sintamos bem em relação a nós mesmos, mas que bem podem nos fazer se não as respeitamos? Podemos ficar deprimidos, descambar para o alcoolismo ou, no caso de Donald Trump, concorrer à presidência (e depois desistir).

Os produtos tecnológicos de consumo nunca fariam algo tão desestimulante, pois não são pessoas. São, no entanto, grandes aliados dos narcisistas, a quem facilitam a vida. Além de saírem da fábrica com a ansiedade de ser curtidos, têm incorporada a ansiedade de nos causar boa impressão. Nossas vidas parecem muito mais interessantes quando filtradas pela interface sexy do Facebook. Estrelamos nossos próprios filmes, fotografamos incessantemente a nós mesmos, clicamos o mouse e uma máquina confirma a sensação de que estamos no comando. E, já que nossa tecnologia é apenas uma extensão de nós mesmos, não precisamos desprezar suas manipulações, como faríamos no caso de pessoas de verdade. É um movimento circular sem fim. Curtimos o espelho e o espelho nos curte. Ser amigo de uma pessoa significa apenas incluí-la em nossa lista particular de espelhos elogiosos.

Talvez eu esteja exagerando um pouco. Provavelmente, você está cansado de ver as mídias sociais desrespeitadas por cinquentões rabugentos. Meu objetivo aqui é estabelecer um contraste entre as tendências narcisistas da tecnologia e o problema do amor verdadeiro. Minha amiga Alice Sebold gosta de falar em “cair no fosso e chafurdar no amor”. Ela tem em mente a sujeira que o amor inevitavelmente espirra no espelho do nosso respeito próprio. O fato é que a tentativa de ser perfeitamente curtível é incompatível com relações amorosas. Mais cedo ou mais tarde, por exemplo, você se verá envolvido numa briga horrível, aos berros, e ouvirá saindo da sua boca palavras de que não gosta, coisas que estilhaçam sua autoimagem de pessoa justa, gentil, bacana, atraente, controlada, divertida e curtível. De repente, surge algo mais real que a curtibilidade e você se vê levando uma vida real. De repente, existe uma escolha verdadeira a ser feita, não uma falsa escolha de consumidor entre BlackBerry e iPhone, mas uma pergunta: Eu amo esta pessoa? E para a outra pessoa: Ela me ama? Não existe a possibilidade de curtir todas as partículas de uma pessoa real. É por isso que um mundo de curtição é, no limite, uma mentira. Mas é possível amar cada partícula de uma pessoa real. É por isso que o amor representa tamanha ameaça existencial à ordem tecnoconsumista: ele denuncia a mentira.

Um dos alentos da praga dos celulares na minha vizinhança em Manhattan é que, entre zumbis enviando torpedos e imbecis combinando festas nas calçadas, às vezes caminho ao lado de alguém que está discutindo de peito aberto com a pessoa que ama. Tenho certeza de que eles prefeririam não discutir em público, mas de qualquer maneira é isso o que está acontecendo e o comportamento deles não é nada legal. Gritam, trocam acusações, protestam, se insultam. Esse é o tipo de coisa que me dá esperança no mundo.

Isso não quer dizer que o amor envolve apenas brigas, ou que pessoas muito autocentradas não sejam capazes de se acusar e se insultar. O amor é uma questão de empatia infinita, nascida de uma revelação do coração de que a outra pessoa é tão real quanto nós. É por isso que o amor, como eu o vejo, é sempre específico. Tentar amar toda a humanidade pode ser um esforço digno, mas ironicamente mantém o foco em nossa individualidade, em nosso próprio bem-estar moral ou espiritual. Ao passo que, para amar uma pessoa específica e identificar-se com suas lutas e alegrias como se fossem suas, é preciso abrir mão de parte de si.

Quando estava quase terminando a faculdade, participei do primeiro seminário da universidade sobre teoria literária, e me apaixonei pela estudante mais brilhante do curso. Adoramos a maneira como instantaneamente a teoria literária nos fez sentir poderosos — nesse aspecto a sensação é similar à proporcionada pela moderna tecnologia de consumo — e nos sentimos envaidecidos porque éramos mais sofisticados do que a molecada que ainda estava debruçada nas tediosas análises de texto. Por várias razões teóricas, achamos que seria legal nos casarmos. Minha mãe, que tinha passado vinte anos tentando me tornar uma pessoa totalmente comprometida com o amor, deu uma guinada e começou a achar que eu deveria aproveitar meus vinte anos “livre e solto”, como ela dizia. Naturalmente, como para mim ela estava sempre errada, parti do princípio de que dessa vez também não fosse diferente. Tive que descobrir da maneira mais difícil como esse negócio de compromisso é uma confusão.

A primeira coisa que fizemos foi deixar de lado a teoria. Numa lamentável cena na cama, minha futura mulher me disse algo memorável: “Você não pode me desconstruir e tirar minha roupa ao mesmo tempo”. Passamos um ano em continentes diferentes e logo descobrimos que, embora fosse divertido inserir uns toques teóricos em nossas cartas, não era tão divertido assim lê-las. Mas o que para mim realmente matou a teoria — e começou a me curar, mais genericamente, da minha obsessão com a imagem que eu projetava — foi minha paixão pela ficção. Pode haver uma semelhança superficial entre revisar um texto de ficção e revisar um perfil no Facebook; mas uma página de prosa dispensa aquelas imagens vistosas que favorecem nossa autoimagem. Quem se animar a retribuir o presente que representa a ficção de outra pessoa não poderá ignorar o que há de fraudulento e de segunda mão em sua própria página. Essas páginas também são um espelho, e, se realmente amamos a ficção, descobriremos que as únicas páginas que valem a pena ser guardadas são aquelas que nos refletem como realmente somos.

Há aqui, claro, o risco da rejeição. Podemos de vez em quando suportar o fato de que nem sempre somos curtidos, pois existe uma gama infinita de pessoas que, potencialmente, podem nos curtir. Mas nos expormos por inteiro em nossa individualidade, e não apenas a superfície curtível, e sermos rejeitados, é algo que pode ser insuportavelmente doloroso. Em geral, a perspectiva da dor, da dor da perda, da separação, da morte, é o que torna tão tentadora a ideia de evitar o amor e permanecer em segurança no mundo do curtir. Minha mulher e eu, tendo nos casado jovens demais, abrimos mão de nós mesmos de tal maneira e nos causamos tantos sofrimentos que tínhamos razão para nos arrependermos de ter embarcado nessa relação.

E no entanto nunca me arrependi. Em primeiro lugar, a luta para honrar nosso compromisso nos tornou o que somos como pessoas; não éramos moléculas de hélio flutuando indolentemente pela vida; nós nos unimos e mudamos. Em segundo lugar — e essa pode ser a principal mensagem para vocês hoje —, a dor fere, mas não mata. Quando levamos em conta a alternativa — um sonho anestesiado de autossuficiência, incentivado pela tecnologia —, a dor emerge como produto natural e indicador natural de que estamos vivos num mundo resistente. Passar pela vida e não sofrer é não viver. Dizer a si mesmo “Ah, vou deixar para mais tarde essa história de amor e dor, talvez para depois dos trinta” é como se resignar a passar dez anos simplesmente ocupando espaço no planeta e consumindo seus recursos. Resignar-se a ser (e emprego a palavra em seu sentido mais pejorativo) um consumidor.

O que disse antes, sobre como o compromisso com algo que amamos nos obriga a encarar quem realmente somos, pode se aplicar particularmente à atividade de escrever ficção, mas é verdade também em relação a qualquer trabalho que façamos com amor. Gostaria de concluir falando sobre um outro amor que tive.

Quando estava na faculdade, e por muitos anos depois, eu curtia o mundo natural. Não amava, mas sem dúvida curtia. A natureza pode mesmo ser algo muito belo. E como a teoria literária havia me instigado, e eu estava em busca de coisas no mundo que me parecessem erradas, querendo achar razões para odiar as pessoas responsáveis por tais erros, gravitei naturalmente em direção ao ambientalismo, porque sem dúvida havia muitas coisas erradas com o meio ambiente. E quanto mais eu percebia o que estava errado — a população mundial em explosão, o exagerado consumo de recursos naturais, o aumento da temperatura global, a contaminação dos oceanos, o corte das últimas florestas antigas —, mais me enfurecia e odiava as pessoas. Finalmente, mais ou menos na época em que meu casamento estava acabando e eu resolvi que dor era algo bem diferente do que passar o resto da vida me sentindo cada vez mais furioso e infeliz, tomei conscientemente a decisão de parar de me preocupar com o meio ambiente. Não havia nada de significativo que eu pudesse fazer, pessoalmente, para salvar o planeta e, além disso, queria continuar me dedicando às coisas que amava. Continuei me esforçando para manter baixa minha emissão de carbono, mas esse parecia ser meu limite, se não quisesse de novo sentir raiva e desespero.

Foi então que algo engraçado me aconteceu. É uma longa história, mas, basicamente, apaixonei-me pelos pássaros. Isso não ocorreu sem uma resistência considerável, pois não há nada mais brega que ser um observador de pássaros, e qualquer indício que revele uma paixão verdadeira já é, por definição, brega. Mas, aos poucos, mesmo relutando, fomentei essa paixão, e, se metade de uma paixão é obsessão, a outra metade é amor. Sim, admito que mantive meticulosamente uma lista das espécies de pássaros que já tinha visto e me esforcei para conhecer novas espécies. Mas, o que é igualmente importante, sempre que olhava um pássaro, qualquer pássaro, mesmo uma pomba ou um pardal, sentia meu coração se encher de amor. E o amor, como venho tentando dizer a vocês, é onde nossos problemas começam.

Pois agora, não apenas curtindo a natureza, mas amando uma parte específica e vital dela, eu não tinha escolha a não ser voltar a me preocupar com o meio ambiente. As notícias nesse front não tinham melhorado desde a época em que decidi parar de me importar com isso — na realidade, eram bem piores —, mas agora aquelas florestas e pântanos e oceanos ameaçados não eram mais cenários bonitos que eu podia apreciar. Eram o lar dos animais que eu amava. E foi então que veio à tona um curioso paradoxo. A raiva e a dor que eu sentia diante da situação do planeta só aumentaram por causa da minha preocupação com os pássaros silvestres, e no entanto, à medida que me envolvia com a preservação dos pássaros e aprendia sobre as muitas ameaças que eles sofrem, tornou-se estranhamente mais fácil, e não mais difícil, conviver com a raiva, o desespero e a dor.

Como pode acontecer algo assim? Acho que, para começar, meu amor pelos pássaros se tornou um portal para uma parte importante e menos autocentrada de mim, que eu nem sabia existir. Em vez de continuar viajando por aí como cidadão do mundo, curtindo algumas coisas, descurtindo outras e guardando envolvimentos para o futuro, fui obrigado a confrontar uma parte de mim que eu tinha que aceitar na íntegra ou rejeitar absolutamente. É isso que o amor faz com uma pessoa. Pois a questão fundamental para todos nós é o fato de que vivemos por algum tempo, mas um dia vamos morrer. Esse fato é a verdadeira causa fundamental de toda a nossa raiva, dor e desespero. E podemos optar por fugir desse fato ou, por meio do amor, aprender a aceitá-lo.

Como disse, esse envolvimento com os pássaros foi algo inesperado para mim. Durante a maior parte da vida, praticamente nem liguei para animais. Talvez tenha tido azar de me aproximar dos pássaros tão tarde em minha vida, ou talvez tenha tido sorte de que esse envolvimento simplesmente tenha acontecido. Mas uma vez que sentimos um amor assim, não importa se cedo ou tarde, mudamos nossa relação com o mundo. Eu, por exemplo, tinha abandonado o jornalismo depois de algumas primeiras tentativas, porque o universo dos fatos não me estimulava da mesma maneira que o universo da ficção. Mas depois que minha experiência com os pássaros me ensinou a ir ao encontro da dor, da raiva e da desesperança, e não a me afastar delas, passei a aceitar um novo tipo de trabalho jornalístico. Aquilo que eu mais odiava, em determinado momento, se transformou em algo sobre o que eu queria escrever. Fui a Washington no verão de 2003, quando os republicanos estavam fazendo coisas que me deixavam furioso. Fui à China uns anos atrás porque o que os chineses estavam fazendo com o meio ambiente me tirava o sono. Fui ao Mediterrâneo entrevistar caçadores que estavam matando pássaros migratórios. Em cada um desses casos, ao me encontrar com o inimigo, descobri pessoas que realmente passei a curtir — em alguns casos até a amar. Assessores republicanos engraçados, generosos, brilhantes e alegres. Jovens chineses amantes da natureza, maravilhosos e destemidos. Um legislador italiano louco por armas, de olhos suaves e que citava o defensor dos direitos dos animais, Peter Singer. Em cada caso, a antipatia que sentia facilmente por eles já não tinha mais nada de fácil.

Quando ficamos trancados em nossos quartos, bufando, caçoando ou nos sentindo indiferentes, como fiz durante tantos anos, o mundo e seus problemas parecem desafios impossíveis. Mas quando saímos às ruas e temos relacionamentos reais com seres reais, ou mesmo animais reais, há o perigo bastante real de amarmos alguns deles. E então quem saberá dizer que rumo a vida tomará?

Obrigado.

 



* Discurso de abertura, Kenyon College, maio de 2011.

do poder de um livro e da amizade

maio 31, 2012 14 comments

ontem comprei, ali na linda livraria da travessa do centro do rio, sonhei que a neve fervia, da fal. ele tem uma capa linda. o vendedor me disse “que capa bonita, tão minimalista. gostei!”. eu podia ter dito que uma parte da minha história estava lá dentro, e que a autora era minha amiga (aquele sentimento bobo de conhecer celebridades, sabem como é) mas me contive.

comecei a ler ali mesmo, no almoço. e a cada intervalo, no táxi, no banheiro, e antes de dormir. na verdade, dormir veio depois de acabar o livro. a última vez que isso tinha me acontecido foi quando saiu o último harry potter! (a fal vai morrer de orgulho disso aqui :)).

tenho uma confissão a fazer: eu leio as últimas páginas dos livros antes de acabar (é, eu sou dessas pessoas horríveis). e quem já leu sabe o quanto justamente o final deste livro significa pra mim. estou ali no meio da história, tem um tanto da minha vida registrada pelas entrelinhas, na vida do meu melhor amigo.

eu também passei por aqueles 365 dias que ela registrou, e lembro perfeitamente do telefone tocando (tão cedo. odeio telefone tocando cedo, nunca é boa notícia, NUNCA) e ela dizendo “zel, eu não sei como dizer isso, mas o alexandre morreu. ele morreu, zel.”. eu fiz perguntas idiotas, tipo “como, quando, por quê?” e ela respondeu do jeito que era possível, e entendi que não importava COMO, importava era o fato. meu melhor e mais antigo amigo, uma das pessoas mais divertidas e doces que conheci, não existia mais.

era 28 de agosto, minha renovação de carteira de motorista estava marcada pra esse dia. a data está lá, ainda, na carteira que vence este ano, 5 anos depois.

nunca tinha visto ninguém morto antes. amigos nossos do ITA me ligaram, chorando, ou mudos, tentando entender. um deles nem apareceu no velório/cremação, encheu a cara e sumiu. outros estavam lá, lembrando dele, contando histórias. eu estava lá, com o fer e minha mãe, que adorava ele. ele estava lá e não estava. era um corpo, uma coisa que não era ele. foi tudo estranho, e a fal estava cercada de pessoas, mal consegui falar com ela. a irmã dele estava lá, me procurou pro abraço mais longo de todos. não consegui falar nada, não chorei, não nada.

estava com viagem marcada de férias, na semana seguinte. viajei pra longe, um lugar lindo, e eu pensava nele todos os dias. no aniversário dele (10 dias depois, que coisa triste), lembrei e não tive coragem de ligar nem escrever pra fal, eu acho. lembro todo ano do aniversário dele. e se eu senti tanto essa perda, o que terá sido para a mãe dele (que eu adoro, é uma mulher incrível), os irmãos (conheço todos), a esposa que ele amava mais que qualquer coisa no mundo?

já tinha lido quase tudo que estava no livro conforme acontecia, no blog, e através dos emails (raros) trocados com ela. mas não é a mesma coisa ler tudo seguido, dia após dia, tão intensamente. e não tinha lido o começo, e nem o fim.

mesmo sem a fal dizer, eu sabia que minha presença não era (e não é ainda) boa pra ela. minha existência lembra a dele, é claro, pois éramos tão amigos e com tantas histórias e pessoas em comum. nos amávamos, éramos como irmãos. ele me contava dela quando se conheceram, com tanta felicidade e estranhamento (“isso está mesmo acontecendo comigo, zelíndia? será que existe alguém que realmente seja COMO EU, feita pra mim?”). ela existia sim, meu irmão querido, ela existe.

nunca me ressenti dessa distância após a morte dele, procurei respeitar sempre que possível. mas escrevi ou liguei de vez em quando, pra uma fofoca compartilhada, uma piada, ou às vezes só pra dizer que lembrei dele por causa de X (coloque motivos variados aqui). eu lembro muito, e às vezes rio sozinha de piadas que ele faria.

semana passada pensei muito nele, não sei exatamente o porquê, mas não poder compartilhar com ele essa experiência incrível que é criar um filho é muito triste. lembro da tentativa maluca dele de adotar uma criança (e não deu certo, infelizmente), do quanto ele gostava de crianças e do quanto ele adoraria conhecer o otto. do quanto ele amaria o nome dele, os cabelinhos cacheados e loiros, o temperamento observador e sensível. ele seria um tio tão perfeito pro meu menino, o tio alê, o que sabia todas as coisas e explicaria pra ele aquela física que está além dos conhecimentos de nós, mortais.

o otto só vai conhecer o tio alê da minha lembrança, das fotos, das histórias hilárias. porque faço absoluta questão que meu menino saiba que antes dele nascer, antes mesmo dele ser uma ideia, houve alguém tão especial na vida da mamãe que merece lugar e espaço próprios na história que levou até ele, e que teve um livro inteiro dedicado a esse cara super incrível.

obrigada, fal, por registrar os 365 dias depois da morte dele. ele está lá, em cada lembrança e na sua dor, foi bom (e doído) relembrá-lo, sentir de novo sua perda. porque a ausência é tão grande quanto a presença, é sua sombra, e sentir a falta é também reconhecer o quanto ele foi importante. um pouco dele vive em nós. estou aqui pra quando você quiser e precisar resgatar uma parte do seu amado.

e o livro? é muito intenso, impossível de parar, e pra mim teve um efeito muito importante: me fez lembrar que se deve viver e amar muito todos que são parte da nossa vida, a cada instante. nunca se sabe quando tudo acaba, ou muda. estou só no rio enquanto escrevo este texto, como estava enquanto li o livro. só pensei em abraçar meu amado, e dizer o quanto ele é importante pra mim, o quanto me fez e faz feliz apesar de qualquer tropeço no caminho. quero abraçar meu filho, meus irmãos, meus pais, meus amigos. e beber cada instante de presença, para que no dia em que ela vier, a ausência seja mais suportável.

**

mas pessoas morrem todos os dias, não é? pais, mães, filhos (toc-toc-toc, a mais antinatural das perdas), irmãos, amigos. a dor é maior, menor, mais próxima ou distante de nós, e seguimos vivendo, até porque não há outra escolha sã. mas não é todo mundo que se vai e tem uma história tão rica, que tem um livro publicado registrando parte da sua vida com tanto amor tornado real no papel. é o mínimo que ele merecia.

mas não é só isso que é tão incomum nessa história, pelo menos não do meu lado da história. o alexandre se foi no dia 27 de agosto de 2007. 3 anos depois, sem planejamento algum, meu filho nasceu às 6:34 do dia… 27 de agosto. o dia que até então era de lembrança da perda do meu amigo-irmão tornou-se uma data de festa, a ser comemorada todos os anos, com bolo brigadeiro e parabéns para o menino mais lindo que já vi. virginiano, observador e doce, como você sempre foi, meu amigo.

estou certa que você riria disso, meu querido alexandre.

(e eu sei, minha querida fal, que isso não deve ter graça nenhuma pra você. mas se um dia doer menos, e você quiser também comer bolo e brigadeiro lembrando do nosso menino querido de sardas, a casa e a família são sempre suas)

lançamento da cris lisbôa em sampa AMANHÃ, gente!

dezembro 12, 2011 1 comment

terça-feira, 13/dezembro em sampa, tem lançamento romance novo da cris saindo do forno, gente, com orelha do xico sá, olha que chique!

acho que vocês deviam ir, e dar um beijo nela. e comprar o livro, claro 🙂

duas pessoas são muitas coisas - cris lisbôa

Categories: livros

1 mês, dia 31: um livro que é difícil mas você ama assim mesmo

setembro 21, 2011 1 comment

pois que o mês pode ter 31 dias, não, tina? 🙂

decidi incluir esse dia além do combinado porque não tinha como não mencionar um dos meus livros favoritos da vida, tão lindo, sagarana. o livro é formado por contos, ou antes histórias que de alguma forma se entrelaçam, sempre cheio de invenções de palavras e formas de expressão tão típicas de guimarães rosa, um autor que admiro e aprecio muito.

gosto de como ele inventa palavras, a partir de outras ou de sons, gosto de parecer tão coloquial e ao mesmo tempo tão complexo. e as idéias e frases se desenrolam loucamente, conduzindo a gente como se fosse correnteza. acho que é a única forma que consigo explicar!

e ouso dizer que esse livro (e o autor de forma geral) influenciou minha prosa e meu modo de formular idéias e histórias. vira e mexe encontro algo nos meus textos (e principalmente na minha forma de contar histórias pessoalmente, ao vivo) que tem um quêzinho dele, desse jeito de dizer coisas como se fosse parte de uma canção. quero crer que meus textos — e minha fala — são musicais. é assim que eu penso, e ouço, e gosto.

mas são difíceis, os textos dele. as leituras dele, pelo menos pra mim, são intensas e demandam bastante atenção. outro problema que encontro nos livros dele é o desafio de decidir quando parar: é difícil achar o vou chamar de “pontos de retomada”. costumo ler à noite, e não muitas páginas de uma só vez, ultimamente. encontrar aquele local bom de parar pra poder retomar depois, no outro dia, é bem difícil nos livros dele. talvez seja uma dificuldade só minha, mas acho a pontuação difícil, e os períodos longos. dá trabalho retomar 🙂

não podia deixar de citar o livro, e o autor, então aqui está meu último dia 🙂

Categories: 1 mês 30 livros, livros

1 mês, 30 livros: day 30, a book you haven’t read yet but want to

setembro 19, 2011 Leave a comment

nossa, pod ser em ordem alfabética? 😀

vou aproveitar esse post pra confessar as falhas literárias (pelo menos as que eu tenho alguma intenção de resolver)…

1. mobydick. tem cabimento não ter lido?

2. qualquer livro de cabo a rabo de shakespeare. acreditam que nunca li 1 todinho? pelo menos UM preciso ler, né.

3. todos os que eu não conheço ainda e as pessoas vão sugerir 😀 quem tiver sugestão aí, manda bala nos comentários. aceito de tudo, e adoro coisas novas.

**

obrigada, tina, pelo desafio. adorei fazer, apesar de ser desafio mesmo! e descobri que meu universo literário gira em torno da ficção, dos mundos fantásticos, o que faz todo o sentido. sempre quis me ver como uma mulher muito lida e entendida das coisas sérias (e eu até sou mesmo), mas a verdade é que sou uma romântica, sonhadora, contadora (e consumidora voraz) de histórias. e quanto mais fantásticas e malucas elas forem, mais eu gosto.

pois continuarei mergulhando nos universos e na minha infinita capacidade de imaginar, sempre e muito. deixarei as biografias e os livros de não-ficção para o fer, que curte mais essa linha 🙂 e vou aprendendo por osmose, e o que eu não souber com certeza — adivinhem? — eu invento.

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1 mês, 30 livros: day 29, a book someone read to you

setembro 19, 2011 Leave a comment

tou me sentindo a mais traumatizada, porque não lembro de nenhum! na vida adulta, certamente nenhum. quando criança eu não lembro, porque comecei a ler muito cedo e já lia sozinha.

elesbão não tem amigo 🙁

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1 mês, 30 livros: day 28, a book you can quote by heart

setembro 19, 2011 Leave a comment

ih, fácil: ne-nhum. sério. além de não decorar nada nunca por muito tempo, ainda tenho um probleminha: sou a rainha da interpretação. eu podia chamar de paráfrase, mas seria técnico demais. o que eu faço é interpretar mesmo. ou melhorar a obra, com meu toque pessoal, digamos (hahahaha!).

o engraçado é que músicas, por exemplo, decoro muitas e várias e nunca esqueço, mas livros não tem jeito. até poesia, que eu já decorei porque precisei, esqueci.

a coisa mais próxima de citação que eu posso mencionar é a litania contra o medo, das bene gesserit de duna, que eu consigo MAIS OU MENOS lembrar (nunca exato):

eu não temerei. o medo é o assassino da mente. o medo é a pequena morte que traz a total obliteração. eu enfrentarei meu medo, permitirei que ele passe sobre mim e através de mim. e quando houver passado, voltarei meu olhar interior para ver sua trilha. para onde o medo se foi, não haverá nada. só eu restarei.

(litania bene gesserit contra o medo)

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1 mês, 30 livros: day 27, favorite love story

setembro 19, 2011 2 comments

queria registrar que, de coração, é a história dos protagonistas de his dark materials. é uma história não só de amor, mas de primeiro amor e tão doce e triste que só de escrever aqui já fiquei com os olhos cheios de lágrimas. mas essa trilogia já foi citada em mais de um post, não vale.

tem também a história intensa, triste e trágica de tanis e kitiara (encerrada neste livro, que já citei neste desafio), um amor cheio de contradições e impossibilidades. mas com tanta verdade, e também tanto auto-engano… tão real. adoro!

como não consegui colocar esse livro em nenhum dos outros posts, aproveito a oportunidade: aragorn e arwen, da trilogia senhor dos anéis 🙂

um amor sereno, maduro e cheio de doçura. cercado por diferenças (de raça, inclusive) decisões difíceis, perigos e armadilhas, mas sempre firme e cheio de esperança. com o perigo de soar muito piegas — e tudo bem, o amor é cafona 😀 — creio que é assim que o verdadeiro amor deve ser: um farol em meio à neblina mais densa, mesmo quando estamos diante dos maiores obstáculos e desafios.

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1 mês, 30 livros: day 26, a book that makes you fall asleep

setembro 19, 2011 1 comment

afe, mas são assim MUITOS. quase todos, ler me dá soninho bom, é como um descanso pra mente, e por isso gosto de ler antes de dormir. quando começo a ter que repetir os parágrafos é sinal que tá na hora 🙂

mas tem que escolher 1, então vou escolher os sertões de euclides da cunha. jesus, que livro chaaaaato. interessante e importante, sim, mas chato demais.

“Do alto da Serra de Monte Santo atentando-se para a região, estendida em torno num raio de quinze léguas, nota-se, como num mapa em relevo, a sua conformação orográfica. E vê-se que as cordas de serras, ao invés de se alongarem para o nascente, medianas aos traçados do Vaza- Barris e Itapicuru, formandolhes o divortium aquarum, progridem para o norte. Mostram-no as serras Grande e do Atanásio, correndo, e a princípio distintas, uma para NO e outra para N e fundindo-se na do Acaru, onde abrolham os mananciais intermitentes do Bendegó e seus tributários efêmeros. Unificadas, aliam-se às de Caraíbas e do Lopes e nestas de novo se embebem, formando-se as massas do Cambaio, de onde irradiam as pequenas cadeias do Coxomongó e Calumbi, e para o noroeste os píncaros torreantes do Caipã. Obediente à mesma tendência, a do Aracati, lançando-se a NO, à borda dos tabuleiros de Jeremoabo, progride, descontínua, naquele rumo e, depois de entalhada pelo Vaza- Barris em Cocorobó, inflete para o poente, repartindo-se nas da Canabrava e Poço-de-Cima, que a prolongam. Todas traçam, afinal, uma elítica curva fechada ao sul por um morro, o da Favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos – e daí para o norte, de novo se dispersam e descaem até acabarem em chapadas altas à borda do S. Francisco.”

ZZZZZZZZZZZZzzzzzzzzzzzzzzzzz.

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