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Archive for the ‘poesia’ Category

Fabiola Pereira

junho 26, 2018 Leave a comment

#retratofalado de uma vida.

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ontem foi dia dela, e não há um ano sequer que a data passe em branco pra mim. a Fabiola se tornou mais que amiga, uma irmã, parte de mim e da minha vida independente de estar perto ou longe. sinto falta dela frequentemente e ao mesmo tempo cada vez que nos vemos é como se tivesse sido ontem. acho que o amor acontece independente do andamento das nossas vidas, como um ser autônomo.

a fabiola, aliás, me ensinou a amar em silêncio.

mas foi mais que isso — ela me ensinou sobre *silêncios*, esse artigo de luxo. até conhecê-la, achava que a vida era feita só de som e fúria, e ela me convidou a observar, sentir, respirar. me ensinou obviamente sem falar, através do exemplo — muito me espantava seu silêncio, a agudeza das suas observações, a sensibilidade dos comentários sempre mínimos, precisos, e sua delicadeza.

seu olhar é sempre generoso, inclusivo, mesmo quando critica. ela é de uma inteligência espantosa, e consegue captar sutilezas e profundidades que a gente nem sonha. mas isso faz com que ela sinta muito, sinta tudo por todos nós, e sei que isso não é fácil. ela é boa na essência; sabe aquelas pessoas boas mesmo, que não sabem fazer mal? ela é assim.

mas eu posso estar induzindo vocês a achar que ela é frágil, e essa mulher é uma leoa. cheia de paixão, curiosidade, ela é uma das mulheres mais corajosas que eu conheço. foi morar sozinha nos Estados Unidos, largando tudo pra trás, encarando uma vida nova com uma alegria contagiante. ela vai rir dessa lembrança, mas esse caso expressa tudo que eu não consigo: ela escolheu dirigir um carro conversível vermelho! 🙂 (e nesess tempos me senti um pouco lá vivendo essa liberdade cheia de sol, junto com ela, feito Telma & Louise com final feliz)

foi nessa época que ela se apaixonou pela dança, primeiro o tango e depois sua paixão maior, o flamenco. é dançando que você vai conhecer essa mulher cheia de força, inteligência, amor e alegria. toda a fúria que ficava escondida quando ainda éramos adolescentes veio à tona agora que estamos maduras, mulheres.

(repara que eu falo de você como se eu estivesse sempre junto, querida? é assim que eu sinto. onde você vai, eu vou).

e ela ama poesia, como eu. e já que estamos aqui, te deixo essa de presente, combinando com nossa história de estar juntas-separadas, sempre com muito amor.

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[i carry your heart with me(i carry it in]

i carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear;and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
                                                      i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it’s you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you
here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that’s keeping the stars apart
i carry your heart(i carry it in my heart)

as que colhem cogumelos

junho 18, 2018 Leave a comment

Esse poema foi escrito por Neil Gaiman e apresentado pela Amanda Palmer (link lá embaixo), e Daniela e eu ficamos tão encantadas que fizemos uma tradução a 4 mãos para espalhar essa lindeza pelo mundo dos que falam Português.

 

Mulhes podem ser tudo que quiserem, especialmente cientistas 🙂

 

❤️🍄

 

As Que Colhem Cogumelos  

 

A Ciência, criança, como se sabe é o estudo

da Natureza e dos mecanismos do Universo.

Baseia-se na observação, no experimento, na medição,

e formulação de leis que descrevam os fatos

assim revelados

 

Há muito tempo, dizem,

já existia um cérebro na cabeça dos homens

preparado para perseguir feras desembestadas

lançando-os cegamente rumo ao desconhecido,

para depois, perdidos, encontrar seu caminho de volta

carregando juntos o antílope abatido.

 

Ou, nos dias ruins, antílope nenhum.

 

As mulheres, que não precisavam perseguir feras,

tinham cérebros atentos aos marcos do caminho

e ao trajeto possível entre um e outro.

À esquerda no espinheiro, passando os seixos

olhe bem os ocos das árvores caídas

porque neles pode haver cogumelos.

 

Antes da clava e da pedra lascada

a primeira ferramenta que existiu

foram as tipoias de carregar os filhos

amarradas para deixar as mãos livres

e ter onde guardar as frutas e os cogumelos

e as raízes e as folhas boas,

as sementes e os bichinhos.

 

Só então veio o pilão de amassar,

de macerar, de moer e quebrar.

 

E havia os dias em que os homens

perseguiam as feras nas matas escuras,

e não voltavam mais de lá.

 

Há os cogumelos que matam

e os que revelam deuses,

e há os que saciam a nossa fome.

Há que se saber identificar.

 

Uns são mortíferos se comidos crus

E novamente nos matam se aferventados

Mas se fervidos na água fresca que se descarte

e depois mais cozidos, servem então para comer.

Há que se saber observar.

 

Observar crianças que nascem,

medir as barrigas, as formas dos seios

E com a experiência descobrir

maneiras seguras de partejar.

Observar tudo.

 

E assim as que colhem cogumelos

palmilham caminhos

de olhos atentos ao mundo

vendo o que há para observar.

 

E algumas vicejaram

lambendo os lábios

E outras caíram mortas

varadas de dor.

 

E assim foram estabelecidas

e passadas as leis

sobre o que era ou não seguro.

Há que se saber formular.

 

As ferramentas que criamos

para construir nossas vidas:

as roupas, a comida, o caminho para casa…

Todas nasceram da observação,

do experimento, da medição – e da verdade.

 

E a Ciência, lembre,

é o estudo da Natureza e dos mecanismos do Universo.

Que se baseia na observação, no experimento, na medição

e na formulação de leis que descrevam o que se dá.

 

A corrida não para.

Uma cientista dessas primeiras

desenhou feras na caverna

para os filhos da irmã,

já bem saciados de frutas e cogumelos,

mostrando bichos que eram bons de caçar.

 

Os homens correm perseguindo feras desembestadas.

 

As cientistas caminham com calma

pelo pé da colina

e descem para a beira d’água,

até depois de onde o barro vermelho brota.

Elas levam os filhos nas tipoias que teceram

e têm as mãos livres para colher cogumelos.

(Neil Gaiman)

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O original:https://www.brainpickings.org/2017/04/26/the-mushroom-hunters-neil-gaiman/

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legado

junho 15, 2018 Leave a comment

“Aqui deixo um sonho vivido”.

 

Não é assim, a cada encruzilhada? Ao escolher uma direção, nos damos conta do que andamos, e do que deixamos pra trás.

 

(Porque afinal não é possível carregar tudo, e é preciso sim deixar coisas pra trás)

Categories: poesia

poemas

janeiro 29, 2018 Leave a comment

publicados pela cora ronai, e eu roubei.

 

Tatu, de Reynaldo Jardim

 

O tatu é um bicho

trancado em si mesmo.

O casco esconde

seus pensamentos.

Ninguém procurou

sondar seu destino.

Ninguém tratou

de industrializá-lo.

Fazer de seu casco

objeto de adorno.

Fazer de sua carne

um creme ou um bolo.

Fazer de sua furna

um túnel do inferno.

Fazer de seu mundo

um verso moderno.

É preciso chamar

todos os jornais.

Indagar do tatu

o que é que ele faz.

Se dorme ou sonha

em seu jeito patético.

Se prefere os novos

ou se é dos herméticos.

Se prefere Picasso

da fase azul.

Os poetas do norte

os pintores do sul.

Se vive contente

se está bem de sorte.

Como vai seu blindado

e duro capote.

Se joga xadrez

ou quer morar nele.

Se prefere Paul Klee

ou os cronistas mundanos

Se troca de casca

em que dia do ano.

Se prefere os alíseos

ou o minuano.

Se já foi eleito

entre os dez mais tatus.

Se respeita o passado

ou quebra tabus.

 

Ninguém quer saber

o que pensa o tatu.

Ninguém se importa

com a sorte do bicho.

Trancado em seu casco

e fechado em si mesmo.

Sem caminho certo

ou rosa dos ventos.

No grave suicídio

do seu pensamento.

 

:::::

 

de Sidônio Muralha:

 

Quando um tatu

encontra outro tatu

tratam-se por tu:

– Como estás tu,

tatu?

– Eu estou bem e tu,

tatu?

 

Essa conversa gaguejada

ainda é mais engraçada:

– Como estás tu,

ta-ta, ta-ta,

tatu?

– Eu estou bem e tu

ta-ta, ta-ta,

tatu?

 

Digo isto para brincar

pois nunca vi

um ta, ta-ta,

tatu

gaguejar.

Categories: poesia

apanhado

outubro 23, 2013 Leave a comment

de lá do meu facebook!

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o alex castro, vocês conhecem? conheçam. ele é foda.

“o mal é a falta de empatia. o mal são os olhos cegos e os ouvidos moucos. o mal é a desatenção e o autocentramento. o mal é aquilo que sinceramente não me ocorre, que realmente não enxerguei, que juro que não ouvi, que não sei como fui esquecer.”

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uma linda carta de stephen fry para si mesmo aos 16 anos. uma carta sobre amor.

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esta tribo brasileira não tem números (contagem) em sua linguagem. e nem recursividade. não é incrível?

pra quem não sabe o que é recursividade na linguagem, um exemplo bonitinho:

João amava Teresa que amava Raimundo 
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili 
que não amava ninguém. 
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, 
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, 
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes 
que não tinha entrado na história.

(quadrilha, carlos drummond de andrade)

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manara. que descobri que conhece um amigo meu, italiano. não é chocante que ele esteja a apenas UM grau de separação? o mundo é louco.

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sobre o grande assunto de testes em animais, esse artigo é bastante interessante, pois explora um pouco os detalhes sórdidos das empresas que em tese não testam em animais. dizer que não testa o produto em animais não é suficiente, pois é preciso garantir que toda a cadeia de valor envolvida também não testa (impossível), e que os ingredientes não são testados (impossível, 2).

as leis é que precisam mudar, mas antes delas, algumas escolhas precisam ser feitas por nós como espécie. será que estamos dispostos a investir mais em técnicas alternativas, ou abrir mão de alguns testes? (por lei, em alguns países, isso hoje nem é possível).

assunto complicado, mas que vale nossa reflexão. se continuarmos pressionando a indústria (cosmética e farmacêutica), talvez isso ande mais rapidamente. continuemos!

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pegar friagem dá resfriado? não, claro que não 🙂

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essa campanha mostra o que aparece como sugestão de busca no google quando você procura por “mulheres devem” e “mulheres não deviam”. triste, e assustador.

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e no centenário de nascimento de vinícius de moraes, um poema em homenagem à minha vênus em touro:

Não comerei da alface a verde pétala 
Nem da cenoura as hóstias desbotadas 
Deixarei as pastagens às manadas 
E a quem mais aprouver fazer dieta. 

Cajus hei de chupar, mangas-espadas 
Talvez pouco elegantes para um poeta 
Mas pêras e maçãs, deixo-as ao esteta 
Que acredita no cromo das saladas. 

Não nasci ruminante como os bois 
Nem como os coelhos, roedor; nasci 
Omnívoro; dêem-me feijão com arroz 

E um bife, e um queijo forte, e parati 
E eu morrerei, feliz, do coração 
De ter vivido sem comer em vão.

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como se fosse a primavera

agosto 1, 2013 2 comments

nunca liguei pro mês de agosto. nunca achei que fosse um mês ruim, até porque não acredito em sorte e nem azar.

mas há 3 anos agosto ganhou novo significado, é o mês de chegada do meu pequenininho. e agora quando chega o dia 1 deste mês é inevitável lembrar das semanas finais antes dele chegar, do pé de jabuticaba florido, dos dias de sol com frio, das roupas de bebê no varal, e da barriga maior que o mundo.

a vinda dele pro mundo foi complicada, diferente de todo o restante do processo de espera. e agosto quase acabava quando ele finalmente veio, mas ainda deu tempo de transformar um mês insípido no mês mais cheio de lembranças do ano todo.

bem-vindo, agosto! <3

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Jabuticabeira grávida

Arquiteto, talvez? :)

41 semanas - ouch!

Otto

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amigo secreto blogueiro — um post como presente

dezembro 21, 2012 2 comments

carol mafra, você é minha amiga blogueira! e espero desde já que me perdoe o atraso, mas você sabe como é a vida de mulher, mãe, profissional, dona de casa e simplesmente pessoa vivente num mês qualquer de dezembro, especialmente no fim do mundo, certo? 🙂

e é sobre o fim do mundo esse meu post-presente pra você. porque eu queria dar um presente que fosse um pouco do que existe de melhor em mim, e já não é de hoje que percebi que boa parte do meu melhor tem a ver com contar histórias, mostrar um pouco do mundo sob meu ponto de vista. não que meu viés seja melhor, mais cheiroso ou bonito, mas é que ele é meu, único, e cada vez mais acho que enxergar o mundo através dos olhos dos outros é um dos grandes prazeres (e desafios da vida). então, pra você, um pouco de mim.

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conheci drummond com 15 anos. imagino que já tinha lido/ouvido algo dele antes disso, mas foi com essa idade que realmente prestei atenção e apaixonei, como se apaixonam os adolescentes. confesso que hoje, aos 40, esse encantamento arrefeceu, já não vejo mais as mesmas qualidades nele, meu referencial mudou. mas sua elegância e precisão ainda me encantam, mesmo quando ele fala sobre… o fim do mundo.

digo que é o fim porque para a minha geração, nascida nos 70, a bomba atômica significava o fim do mundo. um filme-catástrofe da década de 80 se encarregou de nos apavorar com a perspectiva do fim através da radiação, e permeia até hoje meus pesadelos de apocalipse. é engraçado que hoje em dia a ameaça de vírus ou outras formas de fim-de-mundo são mais fortes e cool, mas o cogumelo gigante paira como ameaça (real, infelizmente, avaliando o cenário político-bélico) e me dá friozinhos na espinha.

mas voltando ao poeta e ao poema — ele brinca lindamente com a repetição, faz pequenas piadas com a famigerada BOMBA, assim mesmo com negrito e letras maiúsculas, de um jeito que ela fica quase engraçadinha. e como sempre (diferente de manuel bandeira, tão melancólico) termina dizendo que tudo acabará bem. bom, isso é uma interpretação bastante livre minha, bem consistente com minha própria forma de ver a vida 🙂

da forma como interpreto o poema (e a vida, a propósito), o fim do mundo acontece todo dia, aos pouquinhos e de forma quase imperceptível. é a perna que coça, a má vontade, as pequenas maldades do dia a dia, o descaso, o esquecimento de tudo que de mais bonito existe no ser humano. o mundo acaba um pouco quando ignoramos mendigos na rua, deixamos de fazer uma gentileza, calamos uma palavra de amor ou consolo, sonegamos o sorriso. a bomba é somente um grande avatar das nossas falhas, milhares de átomos radioativos concentrados, cheios de potencial destrutivo dormindo, esperando.

mas como drummond, tenho esperança. porque para cada pequeno fim do mundo há um recomeço, uma mão estendida, uma gargalhada. e a natureza, pura e simplesmente o mundo que nos cerca, o sol que nasce e se põe todos os dias, ensinando que há ciclos, ensinando a recomeçar, tentar de novo, mais uma vez, até-que.

há 25 anos esse poema virou jogral, uma brincadeira entre adolescentes, escravos de jó de uma bomba metafórica, amarelinha de fim-do-mundo. zombamos da bomba e reafirmamos nossa fé na humanidade através de um poema e de vários sorrisos (nossos e da platéia).

feliz 2013, carol! que você possa brincar de malabares com seus apocalipses pessoais, com seus fins-de-mundo, e que jamais esqueça que sempre há tempo. a bomba também dorme (pelo menos até os morcegos esvoaçarem!)

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a bomba
é uma flor de pânico apavorando os floricultores
a bomba
é o produto quintessente de um laboratório falido
a bomba
é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles
a bomba
é grotesca de tão metuenda e coça a perna
a bomba
dorme no domingo até que os morcegos esvoacem
a bomba
não tem preço não tem lugar não tem domicílio
a bomba
amanhã promete ser melhorzinha mas esquece
a bomba
não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está
a bomba
mente e sorri sem dente
a bomba
vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados
a bomba
é redonda que nem mesa redonda, e quadrada
a bomba
tem horas que sente falta de outra para cruzar
a bomba
multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação
a bomba
chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés
a bomba
faz week-end na semana santa
a bomba
tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia
a bomba
industrializou as térmites convertendo-as em balísticos interplanetários
a bomba
sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose, de verborréia
a bomba
não é séria, é conspicuamente tediosa
a bomba
envenena as crianças antes que comecem a nascer
a bomba
continua a envenená-las no curso da vida
a bomba
respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais
a bomba
pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba
a bomba
é um cisco no olho da vida, e não sai
a bomba
é uma inflamação no ventre da primavera
a bomba
tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro, cobalto e ferro além da comparsaria
a bomba
tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc.
a bomba
não admite que ninguém acorde sem motivo grave
a bomba
quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos
a bomba
mata só de pensarem que vem aí para matar
a bomba
dobra todas as línguas à sua turva sintaxe
a bomba
saboreia a morte com marshmallow
a bomba
arrota impostura e prosopéia política
a bomba
cria leopardos no quintal, eventualmente no living
a bomba
é podre
a bomba
gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado
a bomba
pediu ao diabo que a batizasse e a deus que lhe validasse o batismo
a bomba
declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade
a bomba
tem um clube fechadíssimo
a bomba
pondera com olho neocrítico o prêmio nobel
a bomba
é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de paris
a bomba
oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos
de paz
a bomba
não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas
a bomba
desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger velhos e criancinhas
a bomba
não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer
a bomba
é câncer
a bomba
vai à lua, assovia e volta
a bomba
reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação em cadeia
a bomba
está abusando da glória de ser bomba
a bomba
não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba o instante inefável
a bomba
fede
a bomba
é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina
a bomba
com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve
a bomba
não destruirá a vida
o homem
(tenho esperança) liquidará a bomba.

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PS: de quebra, esse é um post também para o memê de dezembro 🙂

la reina

julho 4, 2011 2 comments

porque eu não consegui escrever nem um bilhete, e eu tenho tanto pra dizer, amiga. sobre o quanto você tem sido importante na minha vida, mas especialmente neste último ano, com a chegada do otto, com meus projetos de vida e todas as complicações e dificuldades que essas novidades trazem.

porque você tem sido mais que uma amiga, uma irmã. companheira do dia a dia internético e (graças!) ali na lida, na real. nas lágrimas e na gargalhada, como não podia ser diferente, sendo você tão emotiva, puro sentimento.

um poema do neruda, que achei por acaso, lendo poemas pro otto nesse domingo. foi ele que pegou o livro (pra morder, é claro), mas foi uma coincidência muito linda que quando o livro se abriu era esse o poema que estava lá. a propósito, eu li pra ele, e ele gostou 🙂

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Yo te he nombrado reina.
Hay más altas que tú, más altas.
Hay más puras que tú, más puras.
Hay más bellas que tú, hay más bellas.
Pero tú eres la reina.

Cuando vas por las calles
nadie te reconoce.
Nadie ve tu corona de cristal, nadie mira
la alfombra de oro rojo
que pisas donde pasas,
la alfombra que no existe.

Y cuando asomas
suenan todos los ríos
en mi cuerpo, sacuden
el cielo las campanas,
y un himno llena el mundo.

Sólo tú y yo,
sólo tú y yo, amor mío,
lo escuchamos.

(pablo neruda)

Categories: família, poesia

somos sempre iguais a nós próprios

abril 1, 2011 5 comments

ultimamente não tenho lido nem visto e nem escutado quase nada (além das vozes na minha própria cabeça :)). trabalho, empreendimentos novos, bebê e casa ocupam meu tempo de uma forma que nunca imaginei possível. dormir virou luxo, alimentação e higiene é quando dá tempo, sabem como é.

mas no meio do caos, um cd lindo do renato braz tem sido um alento: outro quilombo. gosto muito do trabalho dele, e esse cd é especialmente delicioso, porque tem canções de um outro cd que gosto muito, a música em pessoa (com poemas de fernando pessoa musicados e muito bem interpretados).

segue o teu destino / rega tuas plantas / ama tua rosa / o resto é sobra de árvores alheias.

e tem também cd da vila sésamo e musiquinhas do rá-tim-bim, pra alegrar o otto 🙂

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na minha rotina maluca, sobrevivem as séries preferidas (grey’s anatomy, private practice e supernatural, que não perco nem que mundo acabe), o café da manhã e os horários de tirar leite pro menino. e só. o resto, é como o patrãozinho mandar ;D

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estou iniciando um empreendimento muito legal, que ainda não posso contar (só quando estiver quase pronto). estou muito feliz com a possibilidade de ter um negócio nosso pra cuidar, além do meu trabalho. dá uma sensação gostosa de fazer algo do zero, que pode crescer muito. estou super animada e conto mais logo que puder. contarei com a ajuda de todo mundo que me lê aqui pra divulgar, viu?

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esse fim de semana vamos para a praia com o otto pela primeira vez. estou bem animada, e morta de medo da trabalheira que vai ser pra ficar confortável com ele fora de casa. ele está comendo super-bem, vou ter que levar MUITA fruta pra ele (e pra mim), o que por si só já é uma trabalheira. e o berço, as coisinhas dele, protetor solar e etc etc etc. muito medo da quantidade de tralha que vamos ter que colocar no carro 🙂

pra não falar da viagem em si, já que ele odeia o bebê-conforto. grita e esperneia depois de 10-15min ali. todos torçam pra gente não largar ele pra viver com os bichos-preguiça da serra do mar 😀

Categories: múltiplos, opiniões, poesia

um pouco de poesia

abril 20, 2007 Leave a comment

aprendi com a primavera a me deixar cortar. e a voltar sempre inteira.

(cecília meireles)

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é liberdade ou estou sendo mandada? pois venho notando que tudo que é erro meu tem sido aproveitado. minha revolta é que para eles eu não sou nada, eu sou apenas preciosa: eles cuidam de mim segundo por segundo, com a mais absoluta falta de amor; sou apenas preciosa.

(clarice lispector)

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olha-me de novo. com menos altivez.

e mais atento.

(hilda hilst)

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o que eu adoro em tua natureza,

não é o profundo instinto maternal

em teu flanco aberto como uma ferida.

nem a tua pureza. nem a tua impureza.

o que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!

o que eu adoro em ti é a vida.

(manuel bandeira)

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não sei se estou sofrendo

ou se é alguém que se diverte

por que não? na noite escassa

com um insolúvel flautim.

entretanto há muito tempo

nós gritamos: sim! ao eterno.

(carlos drummond de andrade)

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um blog antigo, sobre poesia, uma palavra: saudade. e um excelente blog recém-descoberto, também sobre poesia: castelo preto.

Categories: poesia