%#£¥*^!

Otto, molhando uma plantinha, derruba água fora do vaso:

O: “Ih, fiz merda!”

Eu: “HAHHAHAHHAHA! Olha, você usou a expressão direitinho, mas não é adequada pra sua idade. Criança pode dizer ‘Ih, fiz CACA’ por exemplo…”

O: “tá bom!”

**

Eu conferindo se ele tinha enxaguado o cabelo, no banho:

O: “pô, MANO, fecha a cortina!”

🙄🤣

**

Assistindo desenho comigo, algo interessante acontece:

O: “VÉIO, você viu isso?!”

Eu: 🤭

Sem condições, gente! 🤣🤣🤣

Like a prayer

Assistindo Supergirl, episódio sobre um culto ao Rhao:

O: “mãe, o que é orar?”

Eu: “é rezar!”

O: “também não sei o que é rezar!”

Eu: (vixe) “é quando alguém deseja coisas boas, fala com alguém que considera importante e não está ali. É meio como meditar, sabe?”

O: “ah, tá.”

(Que bom, porque percebi que é dificílimo explicar isso quando não se acredita num ser superior imaginário)

Hipérbole

Otto está indo muito bem na transição pro inglês, mas ainda não domina o vocabulário como faz em português. Ele sempre foi estilo Machado de Assis desde muito pequeno, altas frases complexas, muito engraçado.

Em inglês ele não consegue ainda, claro, mas ele tenta, e é hilário! A professora pergunta coisas que requerem respostas simples e ele engata o modo hiperbólico tipo, ao invés de dizer “ele se enganou e pegou o caminho errado” ele diz “ele estava andando e acidentalmente errou o caminho”.

Vocês aguardem que daqui mais 1 ou 2 anos terei histórias divertidas pra contar sobre a versão americana de MdA 🤣

Ensinar a pensar e a duvidar

Uma amiga perguntou sobre como (e se) falamos com Otto sobre política (dado o evento de Otto pró Biden 藍), e achei que valia fazer um post, porque nossas decisões a esse respeito são conscientes. Certas ou erradas, foram decisões.

Não conversamos sobre política com ele, porque não tem contexto dentro da realidade dele. Talvez se ele fosse uma criança negra, ou vivêssemos em outra realidade, a necessidade já teria se apresentado. Sendo da forma que é, a ideia é esperar o assunto cidadania aparecer no contexto escolar pra aproveitar a deixa.

Mas nossa intenção é explicar o mecanismo (como funciona o sistema), porque não achamos que faz sentido falar sobre partidos políticos e posicionamentos políticos nessa idade. A menos que ele se interesse e pergunte. Falar de política sem falar de economia e função do estado não dá, e acho que com 10 anos, vivendo a vida que ele vive, vai ficar muito abstrato. Se ele fosse uma criança mais integrada com a realidade ao redor dele, convivendo com outras famílias, talvez fosse possível falar sobre isso, mas nosso contexto é de imigrantes no meio da pandemia.

Adotamos com política a mesma lógica que adotamos com religião: falamos na medida em que ele pergunta, e sempre de forma neutra, explicando como funciona, ao invés de só dar nosso ponto de vista, que é inevitavelmente enviesado. Não falamos mal de religião nenhuma, nem de partido / político nenhum. Basicamente respondemos perguntas quando elas aparecem.

Nesse caso do Biden, por exemplo, explicamos pra ele que os vídeos que ele viu são propaganda, então sempre vão falar bem do Biden e mal do Trump. Aproveitamos pra falar sobre fake news, verificação de fontes, e porque devemos sempre investigar o que vemos / ouvimos.

Pra terem ideia da importância desse assunto, ele achava que se estava em vídeo / na internet era automaticamente verdade! Quando ele começou a ver TV, explicamos como funcionam as propagandas pra vender coisas, e pedimos pra ele observar como cada vez que ele via propagandas ele queria comprar coisas. Ele percebeu, e aprendeu a se observar e entender como funciona.

Vamos tentando fazer o mesmo com todo tipo de informação escrita ou em vídeo — não é óbvio pra criança que as coisas que ela vê e ouve podem ser mentiras ou distorções. Também não é óbvio que além das pessoas adultas poderem errar (eles acham que adultos sabem tudo, pobrezinhos), pessoas adultas também podem mentir e manipular.

Então nosso foco é mais em ensinar pra ele a ter discernimento, pra que no futuro ele possa tirar suas próprias conclusões, decidir ter ou não (oxalá) uma religião e escolher um posicionamento político alinhado com os valores dele, e não simplesmente ser uma extensão do nosso ponto de vista.

Vai dar muita coisa errada no nosso plano, claro , mas estamos fazendo o que achamos mais razoável diante da realidade e personalidade dele, e do momento.

Abundância

Otto em aula on-line e Fernando passando mal de rir ouvindo (e eu também 🤣).

Professora de ESL (inglês como segunda língua) falando sobre horseshoe crabs (procura aí, é louco):

Prof: “you know what ABUNDANT is, Otto?”

O: “yes, we say ‘A RODO’ in Portuguese”

😬🤣

Prof: (algo sobre os horseshoe crabs)

O: “wait. I want to know about the VERY FIRST LIVING THING THAT EXISTED”

Fer, acompanhando: “GOOD LUCK WITH THAT, Ms G!” 🤣

4o ano, com pandemia e tudo

Hoje Otto voltou pra aula, inaugurou no 4o ano ❤️

Tudo remoto, porém agora a maior parte das aulas no modo síncrono.

Surpreendentemente ele não causou, e não reclamou. Parece tudo bem, mas vamos ver até o final da semana.

Já o Fernando ganhou algumas dezenas
de cabelos brancos novos e em breve submeterá um artigo científico sobre um método inovador de criação de vacina contra COVID que permitirá devolver as crianças à escola mais rápido 藍

Perguntas são sempre boas

Essa semana vi um post em algum lugar sobre reprimir crianças que têm questões sobre o gênero das pessoas (se é homem ou mulher). A sugestão era dizer pra criança que isso não é da conta dela, ou que não importa.

De fato, o gênero de alguém não é da conta de ninguém, e a pessoa tem direito de não falar sobre isso. Mas isso não quer dizer que a pergunta não importa e nem que a criança não tem direito de fazê-la.

Primeiro: o gênero das pessoas importa, sim, e muito, na nossa sociedade. Somos cercados por todos os lados de regras e privilégios de gênero, desde de antes do nascimento. Tem cor, roupa, jogo, brinquedo separado por gênero. Festa de revelação de gênero. Há uma celebração dos gêneros binários, um Fla-Flu mesmo. Você pertence ao TIME quando nasce. Conforme a criança cresce, e esses conceitos vão se cristalizando graças a toda informação constantemente bombardeada, a criança quer de encaixar. Nosso cérebro é feito pra julgar e categorizar, e sendo dadas somente 2 opções, é assim que a criança entende o mundo.

Quantos de nós temos no convívio, na mídia, nas histórias, da família, pessoas não binárias, e falamos sobre isso, para que a criança aprenda a respeito?

Na sociedade em que vivemos, é absolutamente esperado que uma criança identifique 2 gêneros.

E aí vem a segunda parte — como a criança vai aprender a respeito se não puder perguntar quando se depara com o diferente? As crianças são curiosas e aprendem explorando, observando, perguntando, testando hipóteses. Como os cientistas. Como todos nós devíamos fazer, aliás, ao invés de julgar e parar de perguntar.

Quando uma criança tem dúvida sobre o gênero de alguém, é porque ela percebeu uma ambiguidade que causou curiosidade. Alimentar a curiosidade e explorar o assunto é uma ótima forma de aprender e ensinar. E pra isso não é preciso causar constrangimento a ninguém — basta conversar com a criança como se conversa sobre qualquer assunto, e mostrar que a realidade é mais complexa que os 2 gêneros predominantes.

O mesmo vale pra sexualidade, a orientação sexual — as perguntas são bem vindas! Elas ajudam a abrir horizontes. Deixem as crianças perguntar, e vamos responder ensinando sobre o mundo.

Otto já perguntou para uma amiga se ela era menino ou menina. Ela foi ótima, e com toda tranquilidade devolveu a pergunta pra ele — “o que você acha?” e ele elaborou a dúvida, a ambiguidade. Ela disse que era menina, mas que ele não era o primeiro a ter essa dúvida por causa de alguns fatores. Foi uma conversa fácil, rápida, tranquila. Ela podia também ter respondido que não se sentia confortável falando sobre isso, e ele aprenderia que isso é uma resposta aceitável.

Crianças têm curiosidade sobre gênero, faz parte da construção do gênero deles também. E é responsabilidade de todos nós educar nossas crianças, ajudá-las a entender o mundo.

Me parece absurdo (e contraproducente socialmente) ensinar uma criança que certas coisas não se perguntam, que algumas dúvidas não são válidas. Todas as perguntas são válidas, todas as dúvidas são válidas. O que pode acontecer é que algumas perguntas causam desconforto social, e temos que aprender a lidar com isso também. O jeito de lidar é dialogando.

Otto fez um comentário (só um mesmo, até hoje!) sobre a aparência de uma pessoa (pra mim, não pra pessoa). Expliquei pra ele que todos têm direito a ter opinião, mas que comentar sobre a aparência física de alguém não é adequado, porque é uma opinião não solicitada. E que julgar as pessoas pela aparência não faz sentido, afinal isso não diz nada sobre ninguém.

Como podemos ensinar uma criança (e aprender nós mesmos) sem nos permitir tentar, e às vezes errar?

Da minha parte me comprometo a sempre levar de forma positiva qualquer pergunta que alguma criança me fizer, mesmo que me incomode. E sempre incentivarei meu filho a fazer perguntas e investigar respostas. Ensinando a considerar os sentimentos das pessoas no caminho, claro.

10 anos. Uma década, em meio à pandemia

A parte ruim de fazer o aniversário de 10 anos do menino 100% virtual: não poder abraçar ninguém 😭

A parte boa de fazer a festa 100% virtual: em 20min a casa tava limpa e arrumada e a louça toda lavando na máquina 😁

Fizemos a live mais louca do mundo, com 2 grupos de chat, nave-mãe comandada pelo Vinicius com direito a filmes de transição para cada planeta, conexões da TARDIS com os planetas e satélites do sistema solar e parabéns  virtual.

Teve gente fantasiada, teve brigadeiro que deu errado, teve coxinha do tamanho de um elefante bebê, teve menino vestido de Dr Who 12a temporada (o mais velho, lógico 🤣) e teve muito amor que chega de qualquer forma até a gente.

Muito obrigada pelos votos, pelo carinho com o Otto e conosco. Vamos juntos nessa viagem bem louca, e nos divertindo e brincando, senão ninguém segura esse rojão.

(Atenção à gambiarra pra se conectar no meio da sala 🤣)

❤️💜🌈

10 anos

Construindo

Maria me liga pra falar com o Otto e ele mui educadamente (só que não) avisa pra ela que “tá muito ocupado construindo e não pode falar”. Consegui roubar uns 30seg dele, e depois fiquei conversando e contando as novidades.

Fui pro outro quarto e falávamos da escola, e contei que ATÉ O OTTO tava querendo voltar pra escola (Maria acompanhou a saga toda in loco por 8 anos né), e o menino grita lá do outro quarto:

“Pra você ver que o NÍVEL DE CHATICE tá tão alto que até eu quero voltar pra escola!”

🤣🤣🤣🤣

Maria: “não mudou nada, ele, né?”

😬

Receitinha

Otto é super metódico com a comida, apesar de comer bem e coisas muito boas. Peixe, por exemplo, não é todo tipo que ele gosta (eu idem, não posso nem reclamar) — ama salmão, cru ou grelhado, e filé de peixe frito empanado. O resto que lute 🤣

Hoje o que tinha era bacalhau fresco, que fiz no forno em papelote (envolto no papel alumínio) com cebola, salsinha, azeite, cogumelos fatiados, sal e limão, e coloco shoyu só na finalização.

Bacalhau é delicioso, mas tem uma textura mais fibrosa, fiquei tensa, mas arrisquei. O bacalhau salgado ele não gosta de jeito nenhum (amo).

Mas gente — não só comeu como pediu mais, o que é uma raridade, ele costuma comer o que tem no prato e só. Amou o cogumelo, comeu tudo, repetiu e elogiou.

Se tem coisa mais gostosa que filho comendo e elogiando a comida da gente, não conheço ❤️

Assinado: mãe italiana 🤣