Apanhado

Tenho buscado reduzir meu tempo de redes sociais, e Facebook rodou, porque é de longe onde eu mais gastava tempo.

Tá sendo bom, mas ao mesmo tempo atrapalha escrever as coisinhas rápidas que colocava lá e depois trazia aqui.

Mas a gente se adapta, aos poucos vou escrevendo mais de novo aqui!

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Hora de dormir, Otto me abraça muito e diz: “eu te amo muito, mamãe! Eu amo vocês todos. Até mesmo o Papai.”

HAHHAHAHAHAHHAA eu ri, porque é ele, o pai, que tá lá todo santo dia e deita com o Otto pra dormir. E ele é tão inocente que fala isso pro pai, como se fosse assim um favor né? 🙂

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Otto tá com mania de cortar as unhas com os dentes. Ele não “come” a unha, ele só quer cortar ele mesmo, com os dentes. Diz que é divertido. A gente tá de toda forma tentando explicar que não é bom por causa dos germes todos das mãos sujas e também porque pode se machucar.

Eu: “tá vendo aqui? Você puxa a unha, a pelinha vem junto e vai puxar carne, vai te machucar.”

O: “carne?! Isso é modo de falar né?”

Eu: (penso: vai dar ruim) “não, nós temos carne, todos os animais têm carne. Esse fofinho aqui é nossa carne ao redor dos ossos.”

O: “igual à que a gente come? A gente come a carne dos bichos?”

Eu: “sim, isso mesmo.”

O: (horrorizado) “por que alguém faria isso?!”

Eu: “é uma tradição dos seres humanos caçar os bichos e comer a carne. Mas quem não quer comer carne não precisa. São vegetarianos.”

O: …

Já não come quase nada de carne, agora então…

Accountability

Otto ficou em casa com minha mãe pra gente ir pro ensaio do bloco. Combinamos dele tomar banho e fazer a rotina normal, só não precisava dormir.

Antes de chegarmos ela manda esse diálogo com ele:

Vó: Otto, vamos pra cama, jajá papai e mamãe chegam e vão ficar bravos com você.

Otto: …. não não não…..

Vó: chega amanhã eles não vão deixar ver desenho

Otto: eu não, vão brigar com você que não arrumou um jeito de me convencer!

Pode???

Precisamos falar sobre a Turma da Mônica

Me sinto até um pouco boba falando disso. É tanto massacre (ainda mais esse ano) sobre a gente ser exagerada — como mãe, mulher, feminista — que dá insegurança. Mas quanto mais leio os gibis e vejo os desenhos, mais estou certa que a Turma da Mônica tem problemas graves de repetição de padrões atrasados, e que deviam ser repensados e mudados.

Nem vou falar sobre o Cascão, único personagem de origem claramente negra da turma tradicional, ser sujo e fedido. Entendo que fica complicado mudar algo no personagem nessa altura da história, mas, PORRA.

O que me incomoda demais, até porque vejo os reflexos disso no Otto, é a relação de competição e briga constante entre meninos e meninas (que na prática, até agora nos 8 anos do Otto, eu não vi acontecer de forma natural) e a naturalização dos xingamentos.

A Magali é comilona; a Mônica é mandona, baixinha e gorducha. Os xingamentos são sempre dirigidos às meninas, e quando não são relacionados a características físicas (tipicamente é assim que ofendemos mulheres, afinal), os xingamentos também fazem parte do universo do que é malvisto em mulheres: comer e dominar.

É ridículo estar em 2018 e ainda ter que falar disso, explicar, porque tem muita gente que sequer compreende o teor da crítica.

Por que gorducha e baixinha são xingamentos? Eu fiz essa pergunta pro Otto, ele não soube responder. A resposta é complexa, e ele não vai conseguir mesmo elaborar, porque aqui nessa casa ninguém NUNCA fez comentários de julgamento sobre aparência física. Bullying é um problema grave entre crianças e jovens, e nós todos como educadores devíamos buscar eliminar essa prática, ensinar as crianças a serem mais inclusivas. Aí uma história em quadrinhos super famosa e com alcance enorme faz o contrário: inventa uma relação estúpida entre as crianças tal que os meninos estão constantemente contra as meninas, em especial a Mônica, SEM PARAR. A vida desses meninos é infernizar a vida dela.

Mas o pior pra mim é que eles sequer são colocados como vilões (o que seria uma forma de ensinar que o que fazem é errado); eles são AMIGOS dela. Inclusive na sequência da Mônica jovem eles são NAMORADOS.

Percebem o padrão? Meninas sendo ensinadas que os meninos as agridem porque gostam delas, meninos sendo ensinados que agressão é forma de expressar interesse. Tá na hora da gente educar melhor essas pessoas pro mundo também melhorar, sabe?

É um trabalho insano ficar aqui explicando pro Otto que xingar NÃO É legal, que amigos não xingam, que ninguém gosta de ser xingado. Explicar que ser gorducha não é motivo de vergonha (e reparem que o corpo da Mônica é IGUAL aos demais. Ela nem é gorducha, caramba, mas e se fosse?).

Tenho que ficar mostrando pra ele que existem outras formas de se relacionar que não sejam pela briga e disputa.

Que difícil, gente. Por que não dá pra fazer histórias sem tanto julgamento, xingamento, relações tortas?

Muda, Maurício de Souza! Presta atenção que já vivemos em outros tempos, e queremos coisas novas e melhores.

Halloween

Amo e odeio. Amo porque não tem nada pra não amar numa festa à fantasia de terror né? E com doces. Mas odeio porque aquela correria das crianças querendo pegar doces me irrita. Porque o Otto quer conversar (*) com as pessoas que oferecem doces, e com as crianças sobre as fantasias, e todo mundo só tá preocupado em distribuir e pegar doces. Porque os doces são horrorosamente doces. Porque interagir com humanos é cada vez mais difícil.

(*) ele fez um bilhete de agradecimento pra cada pessoa que deu doces. Imagine isso no meio do furacão das crianças.

sistema de governo para crianças

NÃO SEI SE MORRO DE ORGULHO OU DE APREENSÃO, gente!

 

Otto insiste em não querer ir pra escola, como sempre. Cita pra mim OS DIREITOS DA CRIANÇA (só as partes que interessam, claro, como direito de brincar). Eu menciono uma lista maior, entre eles o direito de IR À ESCOLA.

 

O: “pera. Ir pra escola não é um direito!”

 

Eu: “claro que é. Há crianças que não podem ir à escola”

 

O: “e por que isso é ruim?!”

 

Eu: “porque elas vão virar adultos que não poderão escolher seu trabalho, e serão exploradas quando trabalharem.”

 

(Eu comecei a antever o que podia vir…)

 

O: “mas por que todas as pessoas precisam trabalhar?”

 

Eu: “porque é trabalhando que se ganha dinheiro pra viver, morar, ter coisas”

 

O: “pois eu vou QUEBRAR AS REGRAS DO DINHEIRO. Eu vou achar uma forma de não precisar de dinheiro pra conseguir as coisas que eu quero!”

 

Nessa hora eu (sério) quase comecei a chorar de tanto orgulho da inteligência dele. E ao mesmo tempo me doeu perceber como ele é privilegiado.

 

Nós não somos pais que “doutrinamos” nosso filho. Nunca falamos muito bem sobre dinheiro, nem sobre riqueza e pobreza. Provavelmente porque somos tão privilegiados que ele nunca sequer precisou saber sobre isso. Que foda.

 

Eu: “Otto, a sua ideia é MUITO interessante. Não digo que não exista forma de quebrar a regra do dinheiro, mas é difícil. E estudar vai inclusive te ajudar a quebrar essas regras. Vamos pensar juntos nisso, tá bom?”

 

O: “hm.”

 

Meu filho nasceu anarquista. ✊🏻❤️

 

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Aí na sequência ele me aparece com um gibi da Mônica que fala sobre PROFISSÕES. O puro suco da meritocracia by Mauricio de Souza.

 

🙄

 

Deixei ler, sem filtro, pra balancear.

harmonia

Eu: “Otto, vamos comer uma frutinha? Acho que você anda comendo muito doce!”

 

O: “e o que tem de mais?”

 

Eu: “comer doce demais faz mal. Tudo que é demais faz mal!”

 

O: “inclusive fruta?”

 

(Fernando gargalha ao fundo)

 

Eu: 🙄 “inclusive fruta.”

 

O: “quero um pêssego.”

tempo

“Mamãe, você sabia que algumas vezes quando as coisas se quebram, só o tempo consegue consertar?”

 

Ô se sei, meu amor. Como sei.

 

❤️

supervilões

Tanto orgulho do Otto, que começou o jogo novo de Vilões de Lego, e escolheu uma personagem mulher! <3 (o nome dela é CINDER. Não me perguntem de onde vem. Olha que linda!)

a noite

Otto agora quer dormir cedo porque tem medo da noite e “dos alienígenas”.

COMO NUNCA PENSEI NISSO ANTES?!

#mãedecesárea

 

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Descobri a causa do medo de alienígena:

SONO.

🙄

 

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Além do medo da noite e do alienígena ter voltado (conferimos na escola; teve uma brincadeira de encontrar o alienígena escondido entre os humanos, tipo jogo dos 7 erros. Ele não lidou bem), mais um episódio da famigerada hora de dormir.

 

Hoje ele quis fazer uma apresentação no show de talentos da escola ❤ e cantou e dançou ao som de “put on your sunday clothes”.

 

A amiga dele comentou que ele “dançava que nem o Michael Jackson” (own! <3) e eu fui mostrar quem era o Michael.

 

Mostrei o clipe de Bad:

 

O: “gostei. Ele é menino ou menina?”

 

Eu: “menino.”

 

O: “hmmmm não parece.”

 

Eu: “ué, é assim que é. E aí, o que achou?”

 

O: “legal! Mas ele ainda… existe?”

 

Eu: “ele já morreu. Mas ele deixou um montão de coisas pra gente assistir, foi um dos melhores dançarinos e cantores da nossa época.”

 

O: “(já chorando) mas eu queria MUITO que ele ainda estivesse aqui! Eu queria cumprimentar ele!”

 

(Improvável, e mesmo que fosse possível eu não deixaria meu filho, um dia te explico)

 

Eu: “é uma pena mesmo, amor. Mas podemos assistir as coisas que ele deixou.”

 

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Agora temos uma questão com a noite que nunca existiu.

 

Ou seja: vai começar a dormir mais cedo, porque pelamor, ninguém merece ir dormir chorando por causa do Michael Jackson ter morrido.

 

🙄

ET phone home

Otto — apavorado antes de dormir, chorando — me explica que o professor de informática mostrou pra turma o vídeo de um “alienígena com mão de faca” e que ele está morrendo de medo porque não quer sonhar com aquilo e que “nunca devia ter entrado naquela aula”.

E os minions preocupados com educação sexual.

Agora toca trazer todas as evidências pra convencer a criança que isso não é real.

😩

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Ainda sobre os alienígenas, ficamos muito tempo conversando pra entender onde estava pegando pra ele a história, de onde vem o medo e por que ele estava com dificuldade de acreditar que aquilo que ele tinha visto não existia.

Foi bem mais longo, mas vou pinçar as partes críticas do diálogo:

Eu: “Otto, não existe nenhuma evidência de que aliens existam. Muita gente já buscou e continua buscando, e nada ainda apareceu.”

Ele: “mas vocês não podem ter CERTEZA que não existe!!”

(Inferno.)

Nós: “neste momento garanto que NINGUÉM confirmou a existência deles.”

Ele: “mas eu vi o vídeo! Ele tinha mão de faca!” (E chooooora)

Eu: “amor, é igual a todos os vídeos que você assiste, os filmes — é um personagem. É mentira. Alguém inventou.”

Fernando: “existem pessoas que criam personagens pra causar medo, mas não são reais, porque tem gente que gosta de sentir medo e assistir. Sabe quem é assim? Sua mãe.”

Otto: “MAS POR QUE ALGUÉM FARIA ISSO?!” (Chooooooora)

😬

 

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Na conversa sobre ele acreditar no alienígena e não acreditar nos personagens de filmes, fiquei impressionada pela lógica perfeita:

Eu: “Otto, sabe o homem-tubarão do Flash? Ele não existe, certo? É a mesma coisa!”

Otto: “claro que ele não existe! Porque NA TERRA ele não tem como existir. Mas os alienígenas são diferentes!” (Choooora)

Fantástico.

Coisas bizarras na Terra ele sabe que são impossíveis, mas o que vem do espaço seria desconhecido, não se aplicam as mesmas regras.

 

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Aproveitei pra reforçar pra ele sempre duvidar de coisas que parecem estranhas demais, e buscar entender, pesquisar, antes de acreditar.

É um conselho que vale pra ele, e pra todos nós, afinal.