Aulas na pandemia

Nos foi dada a opção de escolher, na escola do Otto, e decidimos manter a educação à distância pelos próximos 3 meses e depois reavaliar.

Além do medo de adoecermos sozinhos e longe da nossa família (temos amigos maravilhosos aqui que sabemos que podemos contar, mas não é a mesma coisa né?), achamos impossível o Otto seguir as diretrizes de distanciamento social com as professoras, usar máscara e principalmente conseguir seguir tudo isso no almoço na escola.

Vai ser puxadíssimo pro Fernando que tá assumindo a enorme responsabilidade de ser tutor do menino, mas é a única opção que faz sentido pra nós nesse momento. Muita maracujina 🤣

A boa notícia é que o ensino à distância da escola é bem estruturado e a equipe pedagógica é espetacular. As professoras dele nos ajudaram a tomar a decisão e concordam conosco, o que é fundamental.

Força pra todos nós com crianças na escola nesse momento, e força dupla pra quem não tem pelo menos um dos pais que pode assumir essa bucha.

Um dos deuses mais lindos

Sincronicidade, ou sinapses muito loucas: o trecho é roubado da Daniela, e ressoou aqui por outro motivo, mas que é o mesmo, como vocês talvez vejam.

“Como não tive filhos, a coisa mais importante que me aconteceu na vida foram os meus mortos, e com isso me refiro à morte dos meus entes queridos. Talvez você ache isso lúgubre, mórbido. Eu não vejo assim. Muito pelo contrário: para mim é uma coisa tão lógica, tão natural, tão certa. Apenas nos nascimentos e nas mortes é que saímos do tempo. A Terra detém sua rotação e as trivialidades em que desperdiçamos as horas caem no chão feito purpurina. Quando uma criança nasce ou uma pessoa morre, o presente se parte ao meio e nos permite espiar por um instante pela fresta da verdade –monumental, ardente e impassível.”
(Rosa Montero em “A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver”)

Hoje, no almoço:

O: “tirando o círculo, que eu sei que é o que vocês iam dizer, o que não tem começo, meio e nem fim?”

Eu: “o infinito!”

O: “hmmmm não exatamente. São os números. Porque tem todos os menos antes do zero, e os mais depois.”

Eu e Fernando: (eita!) “hmm interessante. É verdade — considerando todos os números, não tem meio mesmo não. Mesmo o zero, é só uma referência, não é o meio, se os positivos e negativos são infinitos cada um pro seu lado…”

(Nossos cérebros explodindo de ideias e o conceito do zero e tantas outras coisas)

O: “isso. Como no mundo do MineCraft, que o ponto zero não é o meio, é só o lugar onde eu cheguei no mundo”

Eu: …

**

Quais são seus pontos zero? A chegada dessa criança tão peculiar definitivamente é um dos meus.

Poliglota

Essa semana Otto declarou, muito espantado (na hora que acorda, sempre… uma animação que me irrita 🤣) — “percebi que a minha voz é diferente quando eu falo inglês. E a sua?!”

A minha voz é BEM diferente quando falo inglês, português ou espanhol. Cada uma tem sua tonalidade, sua cadência. Em inglês minha voz é mais grave que em português, e em espanhol também — não só mais grave mas um pouco mais anasalada.

Achei lindo ele perceber essa sutileza; cada idioma que se incorpora em nós traz a subjetividade do contexto, da idade em que aprendemos, das nossas referências sobre ele.

Tenho dificuldade de memorizar números em inglês, só os números. Quando me sinto à vontade e relaxada numa conversa, frases em português escapam sem querer, é muito louco.

Não existe língua mais fácil, mais difícil, melhor, pior. Idiomas são mais que regras, pronúncia, são expressões culturais e afetivas.

Apanhado da semana

Tenho umas histórias boas pra contar do Otto essa semana… segurem essa marimba.

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Otto deitado comigo na cama:

O: “mamãe, seu braço parece de homem!”

(Eu: uepa! Forte?!)

Eu: “ah é, por quê?”

O: “porque tem pêlos aqui, ó” — mostra a axila

Eu: fuén. “E por que você acha que ter pêlos na axila é coisa de homem?”

O: “porque eu nunca vejo mulheres com pêlos aí, ué”

Faz sentido. Expliquei que todos os humanos têm pêlos, com diferenças de quantidade, cada um é um.

O: “mais um motivo pra não ser adulto! Não quero ter pêlos, não!”

Eu ia mostrar que ele já tem, deixei pra lá 

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O: “mamãe, o que é bee’s fight?”

Eu: “pode ser mais de uma coisa, como é a frase toda?”

O: “é o S de plural, e não de pertencimento!”

OWN MODEUSO ❤️

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Otto perdeu mais um dente, dessa vez começando a cair os que vêm depois dos caninos. Ele ficou todo feliz, colocou debaixo do travesseiro pra Fada do Dente pegar e os pais de cesárea ESQUECERAM DE COLOCAR DINHEIRO E PEGAR O DENTE 

Ele acordou, reclamou comigo, e eu rapidamente inventei que de repente a fada se confundiu, porque afinal ele mudou de país e tals, e que ele podia escrever um bilhete pra ela e esperar mais uma noite.

Pois ele escreveu um bilhete ÓTIMO (depois atualizo com foto; tá lá debaixo do travesseiro) dizendo que ficou bravo e que espera a troca essa noite 😀

Acho que ele ficou meio chateado!

Fico aqui me perguntando quão puto ele vai ficar quando descobrir que é tudo lenda — fada, papai Noel, coelho… não quero nem ver.

Há 8 anos, há 10 anos

Otto tem a história de fala mais esquisita que eu já vi. A gente tinha uma expectativa enorme dele falar, e ele até 1 ano e 8 meses falava só papá, mamã, ága, e olhe lá.

Eis que no meio de uma viagem bem louca na Escandinávia, esperando um barco, Otto fala — “pé”. Zero bebezês, foi pé mesmo. Estranhamos, perguntamos “o que você disse, Otto?”

Otto, com cara de “nossa que gente burra!” (sério), levanta o pé e diz “PÉ!”.

Gente, ele disse PÉ ❤️

Até aí tudo bem. Só que em 2 semanas depois desse dia ele formava frases completas, com flexões verbais complexas. A pronúncia, as palavras, ainda eram de bebê, mas a construção das frases não era só perfeita, era sofisticada mesmo.

Pouco tempo depois ele começou a contar, e falar as letras todas, e quando entrou na escola Waldorf com 2 anos foi um drama, levamos bronca porque ele era “muito acordado”, segundo a psicóloga.

Belzebu-menino (como chamávamos) ou espírito velho (como diz minha Mami Vera), você escolhe. O que eu sei é que é uma figura, e quando chega o mês de agosto eu lembro das histórias de cada ano.

O menino faz 10 anos, não consigo acreditar.

❤️

Comida é pasto

Um sonho: a auto consciência do Otto em relação ao que come.

Ele jantou a salada de sempre, que ele ama (tomate, cenoura, repolho, brócolis e pepino), estrogonofe com arroz e batata palha. Pediu brigadeiro ENROLADO de sobremesa.

Eu tinha feito brigadeiro de colher, ele queria enrolado. Ok.

“Quantos você quer?” — “quatro!”

Achei muito, mas ok, 4.

2 brigadeiros depois…

“Só vou querer 2 mesmo! É muito doce, afe!”

Invejo, porque não é controle, é consciência de desejo / necessidade. Ainda chego (volto) lá!

Dad pools

Mas pra não dizer que foi só chororô (pelo menos da parte dos pais :D), ontem também teve momento revolta com o Fernando que ousou dar ordens para Herr Otto fazer atividades físicas mínimas, dentro da programação da casa.

Após muito drama, e minha intervenção pra tentar apaziguar os ânimos (usamos a estratégia good cop / bad cop alternadamente), menino declara para o Fer:

— “você é o pior pai que eu já tive!”

藍

Depois de conseguir segurar a risada, perguntei: “e quantos pais você já teve?!”. Ele fez de conta que não ouviu, claro.

Fer, depois de sofrer muito, como um bom pai pisciano, até conseguiu achar graça também.

TENSO.

Meu caro amigo

Essa semana foi a primeira vez que chorei de tristeza, desde que cheguei, desde que começou a pandemia. Chorei junto com o Otto, que disse estar com saudade da nossa casa no Brasil, e da vovó Vera.

Eu também tenho saudade da nossa casa e da minha Mami. Tenho saudade dos amigos, do pão com mortadela e das flores e pássaros por toda parte.

Mas a minha saudade eu administro, lido bem com ela, convivo. Quando nosso filho sofre, ah, gente… que dor. Lembrei dos primeiros meses dele, quando ele chorava sem razão aparente e eu chorava junto, desejando poder trazer ele de volta pra dentro do meu corpo, proteger de tudo, abraçar aquele corpinho todo e fazer passar.

Eu abracei ele pra chorar, e ele melhorou. Eu, nem tanto. Quanto amor cabe fora do nosso corpo? Como amenizar as dores de crescer e entender melhor as coisas?

Explicamos sobre a pandemia, de novo. Ele acha que no Brasil ele estaria melhor que aqui (mal sabe ele), e na verdade só de ter quintal, piscina e vovó ele estaria mesmo. Mas contamos que todos nós estamos passando pelas mesmas coisas, no mundo todo, que está difícil pra todos e que vai passar.

Vai passar.

Enquanto isso a gente chora um dia, ri no outro, e tenta abraçar e ser feliz nos momentos que dá.

Idiota

Julho, 2015

(A Maria Lucia vai gostar dessa)

Graças aos vilões, Otto aprendeu a palavra “idiota”, usada pelo Locki, mas não sabe o que é (tamos tentando ensinar e evitar que ele aplique no dia a dia :D).

Ele hoje quis brincar de escrever no meu computador, no Word, ele adora. Ficou lá, daqui a pouco ele fala: “mamãe, escrevi IDIOTA!”

(Afe! Deixa ver)

Na tela, “IOA”

😉

Achei incrível a suposição dele, sem as consoantes. Como será que se dá sem indução a transformação dos sons em letras? Parece natural que as vogais façam mais sentido que as consoantes, não é?

(Nunca pensei nisso)

Ele evoluiu sozinho pra IDI- (encontrou o D na palavra, super legal), e o resto se perdeu nas distrações que vocês viram depois no vídeo que compartilhei (divertidíssimo).

Quisera lembrar de como foi a descoberta do mundo das palavras escritas. Que mágico (e tão lindamente humano!) é isso <3