de onde vem o medo ou a depressão

nem citei no post sobre o assunto o medo pelo filho (de adoecer, sofrer, morrer, enfim) porque esse é o mais básico e óbvio. nem gosto de pensar no assunto.

uma série de mulheres (muitas!), quando sabem que estou grávida ou me ouvem falando sobre o bebê chutar, comentam o seguinte: “ah, que saudade de quando estava grávida!”. confesso que não consigo me relacionar com essa saudade, seja porque ela ainda está em andamento ou porque além do encantamento com a experiência física (que é bem louca) não acho nada gostoso. sentir um ser vivo existindo e se mexendo dentro de você é incrível? caramba, se é! mas é isso: incrível, milagroso. não me parece algo que vai me dar saudades.

nesta linha de pensamento, tive uma sacada: será que essa saudade que mencionam as ex-grávidas não é no fundo a falta da versão anterior de si mesma e da vida durante/antes da experiência? porque, convenhamos, a partir do instante do parto a vida anterior (bem como a pessoa anteior) se vão para sempre. não que isso seja ruim, mas é uma perda sim. não há mudança nem evolução sem que alguma coisa morra ou se perca sem volta.

antes de sermos pais, somos filhos somente. ser filho significa (em menor ou maior grau) ser a responsabilidade de alguém. alguém cuida de nós, se preocupa conosco, é responsável por nós. na gravidez (falo das mulheres neste caso), somos tratadas como bibelôs, recebemos uma atenção excessiva de todas as partes, inclusive de gente desconhecida. é tanto elogio, parabéns, desejos de felicidade e mimos! dá uma sensação louca de euforia, viramos o centro das atenções onde quer que estejamos. tudo gira ao nosso redor, nos sentimos especiais, poderosas, admiradas pelo simples fato de termos a capacidade de gerar outro ser humano dentro de nós. são 9 meses de endeusamento por parte de todos que nos cercam. a maternidade nesta fase é um papel novo, misterioso e cheio de glamour.

e aí vem o parto, e é como se o mundo virasse de ponta-cabeça: tudo agora é em função daquele ser que você criou. aquela atenção, o espanto e endeusamento todo que antes eram pra você agora são dele. você agora ocupa aquele mesmo papel que antes era da sua mãe, e ser filha é secundário. agora você é a mãe e a coisa mais importante do mundo é aquele ser que nasceu. seu marido pensa nele primeiro, assim como todo mundo (inclusive você mesma, é claro).

não deve ser simples lidar com essa mudança de foco do dia pra noite, em questão de horas apenas! por mais que seja maravilhoso ver seu filho e tê-lo nos braços, não acho que essa mudança radical entre os papéis seja fácil de lidar. quando o bebê ainda é 100% dependente da mãe, essa sensação deve ser amenizada, afinal somos necessárias. imagino que quanto mais o bebê cresce, mais difícil deve ser lidar com o fato de que ficamos em segundo plano. fico pensando que é preciso toda uma reconstrução do nosso lugar no mundo para se adequar à nova realidade.

não me admira que algumas mulheres se deprimam ou tenham muito medo (além é claro das questões hormonais, que são outra história). eu já tenho medo desde agora 🙂 e acho que partos deviam ser acompanhados de terapia obrigatória…

curiosa e interessada que sou na construção de mim mesma (e na constante elaboração e melhoria de quem sou), estou observando atentamente tudo o que sinto e penso. por mais que tenha medo, mal posso esperar o que está por vir. creio que será provavelmente a maior aventura interna de toda minha vida.

5 thoughts on “de onde vem o medo ou a depressão

  1. Olha…

    É sim a maior viagem interior que alguém pode ter.

    As pessoas que não tem filhos odeiam ouvir isso, mas elas não imaginam o que é ter filhos e o quanto isso (como regra, tá? lógico que existem as estúpidas exceções) melhora a vida delas.

    Sinceramente eu tenho preconceito com quem não teve filhos porque não conseguiu tirar o foco do umbigo durante toda a existência. Por mais independente que tenha sido, nunca deixou de ser filho.

    Maternidade e algo que se vive duas vezes: no momento em que as coisas acontecem e muito tempo depois, quando a gente entende. Eh tudo muito rápido, avassalador. Nao da tempo de elaborar em real time. Por isso esse papo de saudade.

    Eu reclamei da gravidez, eu reclamei do parto, amamentação (odiei, mas fiz) etc. Mas ao mesmo tempo, amei tudo isso. Mas eh intenso demais, um amor exigente demais, sem folga, sem descanso, 24h por dia. Vc nao tem mais os dois minutos para fazer xixi, nao esta liberada de amamentar quando o bico racha, nao te dao nem cinco minutos de sossego quando sua cabeca esta estourando e ele fica doente logo no dia em que voce nao poderia jamais ficar em casa. Mas fica.

    Mas esta demanda louca te deixa tao mais forte, tao mais gente, valorizando outras coisas e talvez percebendo do que muito o que fazia era soh ouro de tolo. Bobagem. Por isso tantas mulheres ficam “estupidas” depois que se tornam maes, desistem de carreira, buscam caminhos lights e alternativos.

    Depois que me tornei mae entendi porque ha tao poucas mulheres na direcao das empresas. A maioria de nos que tem filhos, nao esta disposta a pagar o preco para subir na carreira. Ha um ponto de conforto em que paramos. E paramos felizes. Por que passamos a ter outros valores na vida.

    bjs e boa sorte em sua jornada.

    Desculpe a falta de acentos. Perdi a minha configuracao no meio do post.

    Raquel

  2. Zel vc disse tudo, não é saudade da gravidez e sim da nossa versão anterior. Eu achei uma experiência surreal ficar grávida, coisa divina mesmo, da primeira vez curti todos os momentos, da segunda nem tanto…não tenho a mínima saudade da gravidez.

    Mas depois dela tudo muda, a vida, o foco, todo mundo que te idolatrava e te enchia de cuidados, se precisar te pisa prá ver o bebê.

    O amor que vc sente por um filho é algo diferente, e mal posso esperar prá ver a sua explicação desse amor quando o tiver em seus braços, porque adoro o jeito que vc tem de definir os sentimentos.

    Sobre o comentário da Raquel, me senti muito ofendida.Muitas mulheres tem motivos diferentes para desistir da carreira.Atacar a escolha de outras pessoas que nem conhece de uma forma tão generalizada não me parece correto.

    Acredito que cada um tem o direito de fazer o que quiser, mesmo que seja buscar caminhos mais lights e alternativos. Minha vida teve consequências tristes que me levaram a não poder mais trabalhar na minha área, mas nem por isso “fiquei estúpida”.

  3. Irene – concordo contigo!

    Raquel – Eu acho que é possível sim deixar de ser filho sem ser pai/mãe. Tudo depende do seu investimento em você mesmo, do seu desejo de se superar e ser adulto. Não acho que ter filhos faz com que as pessoas fiquem necessariamente melhores, não. Tudo depende (de novo) do quanto você realmente quer melhorar. Tem montes de pessoas que tem filhos e são horríveis, adolescentes tardios, sem noção e etc.

    quanto ao trabalho, eu não acho que o motivo de ter poucas mulheres em cargos de liderança tem a ver com maternidade. acho que tem muito mais a ver com o machismo ainda em vigor (especialmente nos países menos desenvolvidos). as mulheres tem que se provar muitas vezes mais que os seus colegas homens para ter o mesmo reconhecimento, e sendo mãe ou não sendo mãe, é complicado dar tanto sangue. precisa mesmo ser MUITO ambiciosa.

    eu sinto isso na pele todos os dias – estou numa posição de liderança, num setor dominado por homens. eu sei o quanto me custa me destacar. mas acho que há alternativas, não é preciso sacrificar sua vida pessoal necessariamente.

    outra coisa, raquel: conversando com o marido sobre esse seu comentário, ficamos impressionados com sua visão do quanto ser mãe é uma atividade que consome e estressa. podemos estar os 2 errados, mas nos parece que esse stress enorme por parte das mães tem tudo a ver com a atuação dos pais (ou da falta de).

    conhecemos casais que tem filhos pequenos (mais de um até) e as mães não se sentem assim, estressadas… acho que é possível levar de uma forma mais leve, dividindo a responsabilidade. mas pra isso, é preciso também aprender e confiar nos outros e delegar…

  4. pois é,também não concordo com muitos pontos do comentário da Raquel,principalmente com o preconceito com quem não teve filhos.Acredito que muitas pessoas simplesmente não tem esta vontade,não sentem este desejo,e são felizes assim também.Aliás,acredito também que muitos não tem talento algum para serem pais e mães,sendo assim,melhor não tê-los mesmo.

    Tenho uma filha de 11 anos,assim como você Zel passei muito tempo sem querer filhos,de repente,aos 31,chegou esta vontade avassaladora de ser mãe,e nele de ser pai,foi de comum acordo a decisão,9 meses após nasceu nossa menina.

    Somos totalmente dedicados a ela sem abrir mão de nosso trabalho,amamentei normalmente,aos 8 meses arrumamos uma babá pois tive que voltar ao trabalho mas nunca deixei de acompanhar tudo de perto,e assim ela cresce,sabe que pode contar conosco mas tem seu espaço individual respeitado.

    Não quisemos ter outro filho para não repetir tudo novamente,esta vontade realmente não tivemos. E somos muito felizes assim.

    Zel,dá o maior trabalho,sem dúvida,mas é uma curtição sem tamanho,a gente experimenta um amor muito diferente do que sentimos por marido,família,é o tal amor incondicional que dizem por aí.E é muito bom este sentimento.

    Agora estamos entrando na outra etapa,na adolescência,novas emoções estão aparecendo,ela está começando a formar seus conceitos a respeito da vida,do mundo,amigos,escola,gostos pessoais,é uma troca de ideias constante com a gente,e a gente aprende aos montes com eles.

    Enfim,acho que vocês vão gostar muito de ser pai e mãe.

    E tem mais um detalhe:filho não gosta de mãe mala o tempo todo,que se ocupa apenas da existência dele e controlando cada passo que ele dá.Isto não significa que não estamos presentes orientando quando é necessário.

    Olha,acompanho seus blogs e gosto muito porém não sou de comentar,desejo boa sorte nesta nova etapa de vida.Um beijo carinhoso!

  5. Lindo seu post. É a maior aventura *mesmo*.

    Eu só sinto pena que as qualidades da generosidade e da graça para com outras mulheres não seja efeito colateral da maternidade para todas nós. Uma das maiores mudanças que percebi em mim depois do nascimento da Catarina foi o aumento das duas. Agora EU SEI, então sou incapaz de julgar e apontar dedos. Para quem quis ter e para quem não quis. Para quem voltou a trabalhar em duas semanas e para quem largou tudo para repensar seu lugar no mundo.

    Eu estou na última categoria, você sabe. Para mim não tem sido nada fácil esse processo de recalibragem (que não decorre só da maternidade, mas também de prévia insatisfação profissional). Fico entristecida quando leio ou escuto tantas verdades absolutas. É uma experiência tão imensamente pessoal que a ninguém deveria ser dado tirar conclusões sobre vidas alheias. Nenhuma de nós pode saber, à distância, que caminhos as outras estão percorrendo. Que transformações aquele filho trouxe. Que descobertas.

    Enfim, sorte do Otto que terá uma mãe que não tem medo de refletir e que não patina na superfície dos chavões e do senso comum. Beijo.

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