41 semanas ou “deu, né?”

todo mundo que já se deu ao trabalho de fazer uma pequena pesquisa sobre assunto sabe que a gestação pode chegar até as 42 semanas sem nenhum problema, basta acompanhar direitinho. mas por outro lado qualquer um que já pesquisou um tiquinho também sabe que o parto normal é melhor para a mãe e para o bebê, certo? quem dera fosse tão simples.

vocês acompanham a gravidez desde o começo, e sabem que já entrei nessa prevenida. fui procurar médicos alinhados com minha convicção (parto natural, mínimo de intervenção, etc.). o comecinho da gravidez é tenso, pelo risco alto de aborto, mas não tem nenhum tipo de stress em relação ao parto, esse é um assunto que só aparece muito depois. até chegar ao terceiro trimestre, confesso que achei que não seria um grande problema manter nossa opção sobre parto natural, a menos dos trâmites de maternidade que viabilizassem o que queríamos. eu não podia estar mais enganada…

hoje percebo que pra quem quer fazer parto domiciliar ou em casa de parto (SUS), a coisa é mais simples. todos que estão ao seu redor partilham das mesmas convicções e estão acostumados a lidar com as inúmeras variações que envolvem um parto natural (tempo, sinais do corpo, imprevistos, etc.). a indústria do parto “padronizado” é outra realidade completamente diferente, eles não sabem lidar com exceções e ficam extremamente tensos quando as coisas saem do roteirinho que a grande maioria segue. o roteiro do parto padrão é simples: vários exames pra livrar a cara do médico em caso de problemas, parto com data marcada no máximo até a 38 semana e o parto de 20 minutos seguindo procedimento básico.

por um lado, entendo que os médicos fiquem preocupados com processo, caso alguma coisa dê errado. estamos falando do nascimento de um bebê, afinal, talvez o maior dos acontecimentos na vida de casa ser humano diretamente envolvido (pai, mãe, bebê). mas eu esperaria que médicos fossem melhor preparados para dominar o apoio a esse processo que é puramente fisiológico e, exatamente por isso, um tanto imprevisível. aprendi nestes meses que a maioria dos médicos desta área não quer (e pior, não sabe!) lidar com o imprevisível.

minha gravidez foi absolutamente padrão e perfeita. todos os fatores foram acompanhados de perto, sem surpresas: peso, pressão, glicemia, urina, sangue, possíveis doenças pré-existentes, crescimento do bebê, placenta, líquido. tudo o que vocês puderem imaginar foi medido e verificado, e não houve nada fora do normal. um dos fatores é realmente motivo de atenção, embora não haja evidência de influência por enquanto: minha idade. estou com 38 anos e meio, e meu corpo de fato não é mais o mesmo de 10 anos atrás. talvez esses anos a mais pesem no momento do parto, depois conto pra vocês.

depois de todos os dramas relacionados ao meu plano de saúde e a falta de cobertura na maternidade que eu queria, conseguimos uma médica aqui na região alinhada com o que queríamos (ótima, aliás), e tudo corre bem até o momento. mas…

… acho importante compartilhar com vocês que essas últimas 3 semanas da gestação têm sido difíceis e os porquês. pra vocês que ainda vão passar por isso, talvez seja útil pensar nisso antes e se prevenir…

em primeiro lugar, tem a cobrança do “está na hora de nascer!”. por mais que a gente explique que o bebê pode nascer entre a semana 38 e 42 e que não dá pra prever, as pessoas não conseguem se segurar. elas ficam perguntando dia sim e outro também “e aí? já nasceu? como está?”. eu sei que as perguntas têm a melhor das intenções, mas só fazem aumentar a ansiedade dos pais (ou pelo menos da mãe). cada vez que me ligam aqui em casa é a mesma coisa: tenho que explicar que não, não nasceu ainda. (como se eles não fossem saber, caso tivesse nascido, mas enfim…). e pra mim pelo menos fica uma sensação de que o atraso é culpa minha, é como se eu estivesse fazendo algo errado. eu sei que não faz sentido nenhum, racionalmente, mas é assim que me sinto.

se pudesse mudar alguma coisa, hoje eu mentiria sobre a data prevista do parto, divulgaria pras pessoas a data de completar 42 semanas ao invés de 40.

em segundo lugar, a partir das 38 semanas começam exames intermináveis e sempre com ar de “vamos ver se o bebê está bem”. a gente que carrega o bebê ouve isso assim: “vamos ver se o bebê está VIVO ou não está SOFRENDO”. não é divertido ficar ali aguardando resultados de exames que precisam verificar se o seu filho está vivo e confortável. a impressão que dá é que o normal é o bebê sofrer ou estar em risco. dá um medo danado, mesmo pra pessoas bem informadas e racionais como eu. é todo um trabalho interno pra não entrar na pilha, e isso também estressa a gente.

em terceiro lugar tem o corpo pesado, a preocupação e os hormônios. diferente do que ouço de algumas mulheres, não me senti mais bonita na gravidez (mas também não me senti muito feia, o que é um alívio). também não senti melhora na libido, pelo contrário. ou seja: nenhum efeito positivo na auto-estima, além é claro de receber mais atenção graças ao bebê. as costas me matam um pouco por dia, graças à barriga enorme (isso porque engordei pouquíssimo), é um terror sentar e levantar. as preocupações com os “parâmetros” da gravidez por 9 meses também não são a coisa mais divertida do mundo, a gente vive em função do hóspede (já disse que me senti a ripley?) e acaba pensando nisso muito mais que em qualquer outra coisa. parei de trabalhar a partir da semana 38, e se pudesse mudar alguma coisa ficaria trabalhando até a 40. e tem os hormônios, né. no primeiro trimestre eu me sentia doente (enjôo, mal estar) e no final do terceiro eu me sinto louca. choro por qualquer motivo (dia sim e outro também), me sinto cansada e frustrada com a demora, como se fosse minha culpa.

racionalmente é possível passar por tudo isso sem grandes dramas, e a verdade é que acho que estou me saindo bem dentro do possível. consegui trabalhar muito bem por 8 meses e acho que não incomodei meu marido e família além do normal com meus pitis. mas confesso que esse final está punk, e já não vejo a hora de passar para a próxima fase do videogame.

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sobre o andamento do final: perdi o tampão no fim da semana 40, estou atualmente com 41 semanas + 2 dias e esperaremos até amanhã pra ver se o menino nasce. se ele não quiser nascer por conta própria, decidimos com a médica que vamos induzir o parto natural. apesar de tudo estar bem, com a minha idade começa realmente a ficar chato esperar mais, e eu não quero mais passar por exames com médicos pró-cesárea.

a indução do parto normal é um procedimento comum nos hospitais públicos (nos privados, simplesmente fazem cesárea), e não é necessário usar ocitocina sempre. neste caso, será feita a aplicação de um medicamento direto no colo do útero (um comprimido, parece), que provoca o trabalho de parto. esperamos que a indução funcione bem e que apesar da intervenção eu consiga fazer o parto da forma que planejei.

então a partir de amanhã estou passando pra próxima fase, de uma forma ou de outra, e dou notícias assim que possível. desejem-me sorte!

os pais

quero dizer o plural da metade masculina dos pais de uma criança, ou seja, o homem. eles podem ser nossos maridos ou não e morar na mesma casa ou não, tanto faz. quero falar um pouco sobre como vejo o papel dos pais na criação dos filhos, especialmente em colaboração com as famigeradas mães.

e só pra ficar claro: tudo o que vou dizer aqui, essa minha visão de como as coisas devem ser, se aplica somente aos pais voluntários. ou seja, aqueles que decidiram ser pais e concordaram com a empreitada. sou a favor do aborto e completamente contra mulheres que seguem adiante com uma gravidez à revelia do futuro pai. na pior das hipóteses, se ela for contra o aborto ou coisa equivalente, ela não deve cobrá-lo de nenhuma responsabilidade. afinal, engravidar é uma escolha sim, a menos que você tenha sido estuprada.

outra coisa importante de dizer já é que sei muito bem que alguns vão se identificar com os problemas que eu estou comentando, e até como forma de defesa ou auto-justificativa vão dizer que “é fácil falar” ou “quando for seu filho, depois que ele nascer, você vai mudar de idéia”. não, gente, não é fácil falar e a possibilidade de mudar de idéia quanto a algumas coisas não invalida os pontos que vou comentar. porque no fundo, vocês vão ver, estou falando de se comportar como adultos de verdade e ser (ou se tornar) um casal verdadeiramente companheiro e comprometido.

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vamos lá: fico constantemente mal impressionada com o comportamento de certos pais que vejo por aí em relação à educação e cuidado dos seus filhos. e fico ainda mais envergonhada e constrangida pelo comportamento das respectivas mães, que no fundo reforçam o problema (e podem até ser a causa deles).

nem vou me estender no mérito da escolha do parceiro pra ter filhos, porque aí a coisa fica complexa. mas me pergunto quantas mulheres refletem sobre isso antes de engravidar, como eu fiz. eu poderia ter tido filhos muito antes na vida, de muitos outros pais, e preferi esperar porque queria ter filhos somente com alguém que eu realmente identificasse como um bom pai, além de ser um bom companheiro pra mim. mas enfim.

quando vejo as mães reclamando dos seus maridos como pais, não sei de quem tenho mais raiva. as coisas que mais me chamam a atenção (e espantam) são:

cansaço excessivo: não tenho dúvidas que criar crianças cansa e dá trabalho. mas por que só a mãe vive cansada e esgotada? a menos que você não tenha nenhuma ajuda pra fazer as atividades da casa, não consigo entender o stress. mesmo que você decida ficar amamentando 6 meses exclusivamente, dar o peito é a única coisa que só você pode fazer. todas as outras (to-das!) podem ser feitas por outras pessoas (arrotar, fraldas, banho, ninar, cuidar da casa). só consigo entender esse problema se não há nenhuma possibilidade de ajuda por parte de mais ninguém ou o pai trabalha o dia todo e não mora junto. porque ainda que ele trabalhe o dia todo, nada impede que no período da noite ele ajude nas tarefas. por que só 1 dos pais deve se esgotar? ficar em casa cuidado de bebê e da casa é um trabalho como outro qualquer.

acho que muitas mulheres simplesmente assumem o papel de super-mulher e não querem pedir ajuda por questão de orgulho ou vaidade. outras muitas entram na viagem errada de que cuidar da casa e dos filhos é responsabilidade exclusiva delas, porque o marido trabalha fora.

e se seu marido é do tipo de se recusa a ajudar, desculpe mas você escolheu muito mal seu companheiro pra começo de conversa. e nunca é tarde pra resolver esse problema, seja negociando uma mudança no comportamento dele, seja mudando as coisas dele pra outro lugar 😀 (ou você acha mesmo que ficar com alguém que se recusa a ajudar com seu filho é uma boa escolha no longo prazo?)

eles não sabem fazer nada direito: como mulher, confesso que essa é uma armadilha que eu caio, independente de ter filhos. “eles” nunca fazem as coisas direito 🙂 ou melhor – eles nunca fazem as coisas do jeito que a gente quer ou do jeito que a gente faria. são coisas bem diferentes. e se você faria diferente, por que não negociar e conversar, ao invés de simplesmente reclamar ou ir lá e fazer você mesma? é verdade que às vezes é preciso ceder (e é difícil…), mas faz parte. é isso que demonstra que um casal é realmente companheiro e, bem, adulto.

creio que mulheres são controladoras por natureza, e assumir o papel de mãe do seu companheiro é uma tentação constante. é muito mais fácil ficar puta, ir lá e fazer (ou refazer) alguma coisa do que conversar e explicar o que você preferia que tivesse sido feito. até porque às vezes o outro tem seus motivos também pra fazer as coisas de outro jeito. o outro pode até estar errado, mas tem direito (e dever, aliás) de assumir responsabilidades.

seu marido não coloca a roupa na criança do jeito que você acha correto? ao invés de reclamar dele ou assumir essa tarefa sempre pra você (e depois reclamar que está sobrecarregada), converse com ele e negocie. quando os filhos entram no relacionamento, aquela fase de auto-reconhecimento do casal começa toda do zero, afinal tem mais aguém na equação. é preciso reaprender a viver junto. paciência. pular essa fase, na minha opinião, é certeza de melecar o casamento.

só eu dou bronca: essa pra mim é uma das piores armadilhas, de novo por falta de negociação e excesso de controle. é muito comum ver as mães (que assumem a maior parte da responsabilidade e atividades com os filhos) serem as chatas e os pais serem os legais. fora os casos em que o pai é a autoridade maior (vou contar pro seu pai! ou só se seu pai deixar, que eu acho execráveis). é essencial, de novo, negociar com seu companheiro, e os dois devem dividir a responsabilidade e a chatice que é dizer não, cobrar, fazer comer, dormir, enfim: educar. a criança não pode ver os pais como personagens de uma história infantil maniqueísta. é verdade que se a mãe passa mais tempo com a criança, é mais provável que tenha mais oportunidades de ser chata, e exatamente por isso é importante que o pai use o tempo que tiver para atuar nesse papel também e equilibrar as coisas.

neste item tem um fator que pra mim complica ainda mais a coisa: a culpa, especialmente quando um dos pais ou ambos trabalham. me parece que o fato de trabalhar e somente algumas horas com os filhos (se isso é pouco ou muito eu acho discutível) transforma os pais em reféns. já que passam só algumas horas do dia com seus filhos, eles querem ser “legais” e “divertidos”. nada contra ser legal, mas escuta: o papel dos pais não é ser amigo dos filhos e nem entretê-los. seu papel é educá-los e garantir que eles sejam criaturas auto-confiantes e independentes. brincar faz parte do processo, mas é só uma parte e muitas outras pessoas podem e quer brincar com seu filho. pouca gente quer de fato educá-los.

minha maior preocupação na criação do meu filho é evitar a maldita culpa, fazer minha parte e ser feliz. além, é claro, de balancear com meu companheiro a responsabilidade de educar nosso filho de tal forma que ele perceba que seus pais estão afinados no relacionamento com ele. não quero ser a mãe chata, assim como tenho certeza que o fer não quer ser o pai autoritário ou permissivo.

mensagens/atitudes contraditórias: a mãe fala A e o pai fala B, na frente da criança. algum dos dois prevalece, e o mal está feito. em primeiro lugar, fica explícito o problema da falta de conversa e cumplicidade entre os pais; em segundo lugar, a criança percebe que pode fazer aliança com uma das partes pra conseguir o que quer.

não acho que os pais têm que concordar em tudo e nem conversar sobre tudo com antecedência, até porque é impossível. mas é preciso demonstrar cumplicidade e alinhamento, sim, pelo menos na frente da criança. nem que seja pra pedir uma pausa pra decidir, algo como “fulaninho, nós precisamos conversar uns minutos antes de decidir sobre isso, por enquanto nada fica resolvido”. e se a decisão for urgente ou não der pra esperar, acho que vale a que foi comunicada primeiro pra criança, mesmo que seja errada.

sei que na prática as coisas são mais complicadas que isso, mas meu ponto é simples: os pais precisam concordar que mensagens conflitantes não são boas pra criança, e nem pro relacionamento. discordar é normal e saudável, mas precisa ser tratado com honestidade e maturidade. uma criança não tem como acompanhar certas discussões e negociações, acho saudável poupá-la de argumentações entre os pais.

ciúme do bebê: essa eu acho o horror absoluto. já ouvi histórias medonhas sobre pais que têm ciúmes dos filhos com as mães, do tipo “você agora só pensa na criança” ou até ciúme da mãe poder dar o peito e ele não (soube de uma que pai queria porque queria que a mãe tirasse leite do peito pra ele dar na mamadeira, porque era “injusto” só ela poder amamentar).

aí é o seguinte: ou você já era mãe de um adulto mal-resolvido antes do seu filho nascer (escolheu mal de novo, amiga…) ou você pode estar mesmo exagerando no papel de mãe. convenhamos, tem mulheres que piram na batatinha depois de parir e só pensam e falam nos filhos 24h/dia.

acho mais fácil consertar e estar atenta ao segundo problema, é uma questão de auto-conhecimento e adaptação. imagino que ser mãe pira a cabeça da pessoa, mas com o devido interesse as coisas se ajeitam. basta querer, conversar (pedir pro seu companheiro ser honesto e conversar quando a coisa estiver ruim) e se empenhar pra melhorar.

consertar a situação de ter um filho mais velho e não um marido é mais complicada. não quero minimizar a capacidade masculina de se corrigir, por favor, mas ELE precisa se tocar que precisa virar adulto e assumir responsabilidades, ser companheiro e não dependente. há homens que simplesmente não querem, e ponto final. querem sua mulher ali sempre disponível pra ele: linda, loura, cheirosa e cheia de apetite sexual. além, é claro, de cuidar da casa e do bebê e não trazer problemas pra ele. além de trabalhar e ajudar com a grana, quando é o caso.

é inaceitável um marido criar problemas ou conflitos com a mãe por ciúme da criança. é compreensível sentir ciúme, sim, porque sentimentos não são controláveis, mas as atitudes podem e devem ser controladas. e se a coisa estiver pegando forte, caro pai, faça um favor a você e à família toda: vá pra terapia.

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dito isso tudo, não posso deixar de comentar que vi exemplos ótimos de pais que são o oposto de pelo menos alguns pontos que destaquei. tive por exemplo a oportunidade de acompanhar por vários anos a dani e o felipeb criando suas meninas, e preciso destacar o quanto acho o felipeb um pai e companheiro nota 10 em vários aspectos (a dani com certeza deve ter suas reclamações, por que perfeição não existe :)). além de ter acompanhado a gravidez dela de pertíssimo como parte integrante e não coadjuvante, apoiá-la e estar presente no parto, ele sempre foi 100% participante nas atividades das meninas, fazendo mais do que qualquer outro pai que eu conheço faz. lembro perfeitamente dele trocando fraldas sempre, dando banho, ficando com as meninas pra dani descansar, dando comida (e inúmeras broncas :D), brincando. os dois juntos como pais me passam a sensação de responsabilidade compartilhada de fato, não é só discurso. já vi também os dois discordarem, mas isso nunca os impediu de agir como adultos responsáveis. além disso tudo, eles mantiveram sua vida como casal ativa, fazendo atividades só deles e nunca esquecendo o que os uniu antes das meninas existirem.

esse post, de certa forma, é dedicado a eles. não porque sejam perfeitos ou modelos pra nós aqui (até porque somos tão diferentes que seria impossível), mas porque eles nos mostraram e mostram que é possível ser pais e mães adultos, além de companheiros de vida, mesmo com todas as dificuldades que esse cenário apresenta. beijo pra vocês, queridos 🙂

sobre auto-estima e vaidade

a cam começou bem lá no blog novo, e trouxe um assunto que venho tangenciando há tempos, não como mãe mas como filha (e me tornar mãe vai complicar mais ainda esse caldo!): a construção da auto-estima e a influência dos pais nesse processo.

não li o artigo indicado da rosely sayão (não assino a folha), então não posso opinar, mas tenho algumas contribuições que fazem parte da minha auto-análise. e é claro que tentarei aplicar o que acho mais razoável com meu próprio filho, quando a hora chegar. mencionei um artigo da superinteressante, que a dani achou online, e mencionei também um dos livros mais importantes que li nos últimos anos: a auto-estima do seu filho (linkei um trecho ao invés do livro, que é fácil achar. pedaço interessante pra citar :)).

vou fazer uma mistura das duas referências, porque elas podem parecer contraditórias à primeira vista, mas acho que são na verdade complementares.

algumas coisas do livro são datadas (o capítulo sobre sexualidade eu dispenso), mas a base dele, que trata da construção da auto-estima, é preciosa. os meus 3 anos de terapia foram baseados nas “técnicas” deste livro, e não vai dar pra explicar num post o quanto conceitos tão simples mudaram minha vida. digo que sou outra pessoa depois de entender como minha auto-estima foi prejudicada e também como eu repetia (e repito ainda, é difícil abandonar esse modus operandi herdado dos nossos pais) o mesmo comportamento com os que me cercam. a boa notícia é que tem conserto, e nunca é tarde pra começar a mudar (seja o estrago feito em você, seja seu comportamento com os outros).

a idéia do livro é simples: as pessoas precisam se sentir compreendidas, aceitas e amadas para serem felizes. e isso não significa que devemos aceitar qualquer tipo de comportamento, muito pelo contrário: podemos e devemos mostrar ao outro que às vezes seu comportamento nos magoa, incomoda e machuca e que não queremos ser ofendidos; e da mesma forma, devemos mostrar que outros comportamentos nos deixam felizes. mas é essencial evitar o julgamento, o rótulo. o indivíduo precisa sentir (ou saber) que é valorizado por aqueles que ama e admira principalmente pelo que é, e não só pelo que faz ou demonstra.

cada vez que rotulamos alguém (e esse processo de rotulagem começa quando nascemos, pelos nossos pais e parentes), estamos limitando sua capacidade e percepção de si mesmo. e acho que aí está o link entre o livro e o artigo: sempre pensamos em prejuízo à auto-estima relacionado a críticas e repreensões, mas o elogio também é uma forma de prisão. a expectativa criada quando somos elogiados pode nos restringir também.

vou tentar exemplificar os 2 casos.

caso 1 ou “como fazer alguém se sentir inadequado”:

quantas vezes vocês já viram mães (avós, pais, tios…) dizerem a uma criança algo como “mas a vovó veio até aqui pra te ver e você nem vai dar um beijo? que feio, como você é mal-educado. a vovó também não gosta mais de você, então!”? ou o clássico “você não vai comer essa comida que a mamãe fez com tanto amor? a mamãe vai ficar triste!”. eu aliás escuto coisas neste mesmo tom com 38 anos de idade, e não só de família, mas de amigos também.

o problema aqui é o seguinte: por causa de uma ação ou comportamento (não cumprimentar, não querer comer), o sentimento de amor e aceitação é colocado em jogo. o que diz não é questionado (dizer não = não amar) e o que recebe a recusa usa seu amor como ameaça ou moeda de troca (se você quer ser amado, faça o que eu quero). as frases parecem bobas e inocentes, e afinal, estamos brincando, não é? não, não é. esse tipo de queda de braço que coloca o afeto em jogo destrói a auto-estima do outro, e impede que ele se sinta à vontade para expressar o que verdadeiramente quer. de novo: não significa que as pessoas que se sentiram ofendidas não possam se manifestar, elas podem e devem. mas de outra forma. que tal assim, por exemplo: “que pena que não vou ganhar um beijo! eu estava com saudade e adoraria receber um beijo seu”. no outro caso, que tal “fiz essa comida especialmente pra você, porque fico feliz quando você come as coisas que eu faço”.

vejam que a idéia não é ganhar a briga, mas expressar sentimentos (bons ou ruins) sem julgar o outro ou ameaçá-lo. afinal, tudo o a gente devia querer nos nossos relacionamentos é ser feliz e se possível fazer os outros felizes!

o outro problema do rótulo é que uma vez colocado, há o risco do outro aceitá-lo de vez. você diz que alguém é preguiçoso, mal-educado ou tagarela e pronto: a pessoa se acredita assim e vai fazer de tudo pra se encaixar no rótulo. já cansei de ver crianças repetindo rotulações dos seus pais: “é que eu sou tímido” ou “é que eu não gosto de TV”. é um crime rotular qualquer pessoa, mas é especialmente cruel fazer isso com crianças.

caso 2 ou “como fazer alguém não se aventurar”:

comentários críticos também cabem aqui, claro, mas gosto do ponto do artigo superinteressante sobre o prejuízo que os elogios podem causar. acho que as pessoas äs vezes confundem auto-estima com vaidade. você pode perfeitamente construir (ou não atrapalhar!) a auto-estima do outro sem apelar para a vaidade. e no caso de pais e filhos, esse limite é mesmo tênue, porque elogiar qualidades dos filhos normalmente significa exaltar qualidades dos próprios pais (senão as mesmas, herdadas, a grande qualidade de ter colocado este prodígio no mundo).

é fácil cair na armadilha de elogiar resultados/ações, rotulando as crianças (ou adultos, vale o mesmo) como inteligentes, engraçadas, sociáveis, talentosas ou seja lá o que for. e basta rotular pra que a gente se acomode no papel X, como se inteligência ou graça (pra dar exemplos) fossem dádivas que não demandam esforço ou investimento ou ainda pior: como se não pudéssemos mais fazer menos que o melhor, sob risco de sermos menos amados.

o problema todo (e a solução, na minha opinião!) está em entender que temos medo das pessoas que amamos nos admirarem ou amarem menos em função do que fazemos. porque a verdade é que as pessoas pisam na bola, errar faz parte de ser humano. é claro que tudo o que fazemos afeta os que nos cercam, e é importante que cada indivíduo entenda isso desde pequeno (ação/reação). o que realmente faz com que nossa auto-estima seja firme e forte não é receber montes de elogios e tampouco não receber críticas ou nãos, mas a certeza de que aquelas pessoas que são essenciais pra nós nos amam mesmo quando erramos e apesar dos nossos erros e fracassos. eles nos amam mesmo quando não somos assim tão inteligentes ou espertos ou legais.

quando sentimos que somos amados no matter what, nos damos o direito de errar e nos perdoamos quando pisamos na bola. e nem preciso dizer que só quem se permite errar é que acerta, não é?

como filha, aprendi a filtrar as inúmeras chantagens emocionais dos meus pais (e aprendi também a me manifestar verbalmente quando essas chantagens me machucam) e repito pra mim mesma em non-stop “eles me amam, não importa como eu me saia. eu não preciso provar nada pra eles!”.

como amiga, chefe ou coisa parecida, aprendi a não julgar ou rotular. e apesar de vira e mexe cair na armadilha, aprendi que a melhor forma de me relacionar com as pessoas é me concentrar em como EU me sinto a respeito do que elas fazem, e deixá-las saber disso. se me chateiam, eu digo que me chateei e explico como me sinto quando elas agem assim ou assado. é responsabilidade delas mudar o comportamento ou não. usando um clichê, é um jogo de frescobol mesmo: cada um precisa fazer sua parte pra bola não parar de quicar. e não se iludam: é difícil agir assim. principalmente porque nossos problemas de auto-estima se colocam como barreiras pra aceitar o outro e ser honesto.

e como mãe, vamos ver… pretendo seguir os princípios que aprendi e acredito serem corretos: ser honesta; não rotular ou julgar; dizer como me sinto (quando fico feliz ou triste); reforçar que meu amor é incondicional, sim. mesmo quando disser não, colocar de castigo ou perder a paciência 😀

e quem somos afinal?

esse assunto tá na cabeça há muitas semanas (tipo várias dezenas delas), e depois de ler o último post da cam no blog novo (viva, ela voltou!) resolvi falar de um assunto difícil porém central pelo menos pra mim: mãe, profissional, esposa, amante, blogueira, amiga, ser-de-tetas. quem sou eu?

o óbvio, a resposta intelectual e analisada, é que somos uma combinação de várias coisas, e não uma só. mas convenhamos, não é assim que vemos a nós mesmos. bom, pelo menos eu não me vejo como essa manta linda de patchwork, com cada pedacinho ou faceta cumprindo seu papel na tecelagem da minha vida… eu me julgo e rotulo, sou parcial e muito carrasca.

honestidade? eu me defino pelo meu trabalho, sou a mais perfeita tradução (e clichê) do mundo pós-industrial e capitalista. eu sou o que faço, o que entrego, o quanto dou de resultado. o que no meu caso é um arranjo sensacional, pois sou bem-sucedida na carreira, elogiada, bem paga e dou um resultado enorme. e de quebra, adoro meu trabalho. pensando bem, não deve ser exatamente à toa que preferi me definir basicamente pelo meu lado profissional, não é mesmo, minha gente? 😉

estou há 4 semanas sem trabalhar (resolvi iniciar a licença maternidade antes), e foi interessante observar como o não trabalhar/não “entregar coisas” me afetou. a sensação é de inutilidade, “displacement” (qual é o meu lugar? cadê minha mesa, meu telefone, meu notebook!), mas principalmente de não ser necessária.

sempre critiquei mulheres que se dedicam exclusivamente aos seus filhos e marido, porque creio que isso cria uma falsa sensação de ser necessária, o “centro da família”, que tem prazo pra vencer. os filhos crescem e vão embora (se a doida deixar, né. senão vira um encosto na vida dos filhos, tá cheio por aí), o casamento eventualmente acaba (até porque mães profissionais não investem no relacionamento com o marido, afinal já casaram e pariram) e elas aos 50 anos se vêem sozinhas e sem propósito. absolutamente compreensível que pirem na batatinha e se sintam péssimas. as que têm sorte continuam casadas, mesmo infelizes, ou são ricas; as azaradas se pegam sozinhas, sem profissão, sem propósito na vida, e sem dinheiro. muito, muito medo.

mas aí fiz um exerciciozinho: qual é exatamente a diferença entre a mãe profissional e a profissional-profissional? a diferença infelizmente é pequena (embora seja significativa do ponto de vista prático): a profissional-profissional provavelmente terá independência financeira e algo pra se ocupar.

me preocupa mais o que é igual nos dois casos, a unidimensionalidade (afe, inventei) do meu ser. sim, eu faço muitas coisas, e sou muitas coisas, é fato. então por que me deixo envolver tanto por um dos aspectos da minha vida? o tempo que gasto com meu trabalho (não só dentro do escritório, mas pensando nele) é desproporcional, se comparado ao restante da minha vida. e é fato que dou mais importância ao trabalho que à minha família, amigos e até a mim mesma.

(se você que me lê consegue equilibrar bem sua dedicação às suas várias atividades, parabéns. eu sou uma lástima nesse aspecto)

me pergunto: será que essa dedicação, paixão e comprometimento com o trabalho não é simplesmente uma fuga, uma válvula de escape pra compensar aspectos negligenciados da minha vida? afinal, se como profissional consigo me sentir poderosa (o que nem sempre acontece como esposa, amante ou amiga), quero ficar neste “modo” o máximo possível. melhor continuar investindo onde dá certo, ao invés de arriscar fazer besteira como mãe, amiga, escritora.

com a maternidade como nova variável da minha história, a coisa se complica. afinal, esse é potenciamente mais um papel pra eu me sair mal e me sentir péssima a respeito de mim mesma 😉 duvido muito (por mais que digam e falem e cantem aos 4 ventos…) que ser mãe vai me bastar e encantar a ponto de eu querer parar de trabalhar, mas pode balançar as estruturas aqui sim, além de adicionar mais uns goles de culpa num pote até aqui de mágoa.

da mesma forma que não acho saudável ser mãe-profissional, não gostei de concluir que sou profissional-profissional. quero ser mais que isso, quero de verdade balancear melhor os vários aspectos da minha vida e personalidade, e poder deixar algumas dessas coisas de lado de vez em quando sem me sentir vazia ou inútil. quero poder ficar 6 meses fora do trabalho sem culpa, e quero também poder tirar férias do meu filho sem culpa.

é, esse é mais um daqueles posts sem conclusão. minha conclusão no fundo é que com a chegada do meu filho, ganhei a oportunidade de, mais uma vez, me reinventar. nos próximos anos, quero me dedicar a ser eu mesma mais auto-sustentável, menos carrasca e plural de verdade.

38 semanas: agora qualquer hora é hora :)

bom, cheguei na reta final. a partir desta semana, a qualquer momento o menino pode chegar. todo mundo me pergunta se estou ansiosa, e pra dizer a verdade não estou não. estive bem tranquila a gestação toda, e continuo tranquila. durmo bem, como bem, faço quase tudo da mesma forma, e não penso no bebê 24h/dia. é difícil não falar sobre o assunto quando a barriga tá desse tamanho: todo mundo só quer saber sobre a gravidez e sobre o bebê. mas procuro dosar, é muito chato falar só sobre isso.

uma das expectativas de mim pra mim mesma no futuro próximo, aliás, é não me tornar mais uma daquelas mães chatas que só falam de criança. não suporto essa coisa “clube das mães”, e “só quando você for mãe é que vai entender” e etc. e pra quem ia comentar que eu vou ficar assim também, nem comente. não vou ficar não, porque não quero, acho cafona, chato e principalmente ridículo. afinal, ser ou não ser mãe não me define (e não devia definir ninguém), eu sou mais que isso.

todo mundo me pergunta se não tenho medo do parto. não, nenhum medo. aliás, cada vez mais acho que dor não é sinônimo de sofrimento. não tenho dúvida que o processo de dilatação pra passagem do bebê dói, afinal é uma movimentação muscular poderosa (se alongar dói, pô…). fazer exercício causa dor e desconforto muscular, o que não quer dizer que você precise sofrer. sofrimento implica julgamento, e é exatamente isso que se trabalha na ioga: desassociar o sentir (dor, desconforto, tensão, relaxamento) do pensar (classificar e julgar). basta sentir, mergulhar na sensação sem julgar se é bom ou mau. o exercício real de estar presente passa por aceitar as sensações, reconhecê-las e ter a certeza que absolutamente tudo passa. as sensações são só mensagens do seu corpo, não há necessidade da mente julgando. basta sentir e observar.

creio que será possível fazer meu parto da forma mais natural possível, por enquanto não há nenhum impedimento. não houve nenhum incidente nestas 38 semanas, pouco ganho de peso (3,5kg somente. mas eu já estava gorda, afinal), pressão normal/baixa, sem inchaço ou qualquer desconforto, durmo muito bem, o bebê mexe muito, tem o tamanho esperado e está ótimo. todos os exames estão OK (glicemia, clamídia, strepto, toxo). a médica está nos apoiando no parto natural com mínima intervenção (pra mim e para o bebê), e já falamos com a enfermeira-chefe e o chefe da pediatria sobre isso. todos estão OK com nosso plano e vão dar apoio.

mas se no final das contas por qualquer motivo não for possível fazer o parto do jeito que eu quero, também está tudo bem. pelo menos eu sei que fizemos (todos) o que era possível e o que achamos correto, estou 100% tranquila. decidi que não vou entrar na neurose de controle, aceito sem problemas que há coisas que não posso controlar. eu me adapto se for necessário.

enfim, está tudo pronto: mala com roupas do bebê, minhas camisolas (um drama pra comprar, praticamente só tem coisa cafona com abertura no peito pra amamentar), documentos necessários, o quarto, bercinho pro nosso quarto, bebê conforto, ufa!

levamos a preta no vet, pra conferir se está tudo bem (e fora os dentinhos com tártaro, ela parece bem apesar da idade avançada). arrumamos as coisinhas quebradas na casa, lavamos os carros, coloquei as contas pra pagar no agendamento, tudo pra evitar stress no próximo mês. estamos preparando as lembrancinhas pros visitantes (weno e denize nos ajudando um monte), que vai ser um CD com músicas que escolhemos pra homenagear a chegada do nosso filho (afe, como é estranho escrever isso!)

agora é só esperar e ir fotografando a barriga, semana a semana. nesse momento, essa é a barriga:

A louca do roxo

mais notícias em breve 🙂