41 semanas ou “deu, né?”

todo mundo que já se deu ao trabalho de fazer uma pequena pesquisa sobre assunto sabe que a gestação pode chegar até as 42 semanas sem nenhum problema, basta acompanhar direitinho. mas por outro lado qualquer um que já pesquisou um tiquinho também sabe que o parto normal é melhor para a mãe e para o bebê, certo? quem dera fosse tão simples.

vocês acompanham a gravidez desde o começo, e sabem que já entrei nessa prevenida. fui procurar médicos alinhados com minha convicção (parto natural, mínimo de intervenção, etc.). o comecinho da gravidez é tenso, pelo risco alto de aborto, mas não tem nenhum tipo de stress em relação ao parto, esse é um assunto que só aparece muito depois. até chegar ao terceiro trimestre, confesso que achei que não seria um grande problema manter nossa opção sobre parto natural, a menos dos trâmites de maternidade que viabilizassem o que queríamos. eu não podia estar mais enganada…

hoje percebo que pra quem quer fazer parto domiciliar ou em casa de parto (SUS), a coisa é mais simples. todos que estão ao seu redor partilham das mesmas convicções e estão acostumados a lidar com as inúmeras variações que envolvem um parto natural (tempo, sinais do corpo, imprevistos, etc.). a indústria do parto “padronizado” é outra realidade completamente diferente, eles não sabem lidar com exceções e ficam extremamente tensos quando as coisas saem do roteirinho que a grande maioria segue. o roteiro do parto padrão é simples: vários exames pra livrar a cara do médico em caso de problemas, parto com data marcada no máximo até a 38 semana e o parto de 20 minutos seguindo procedimento básico.

por um lado, entendo que os médicos fiquem preocupados com processo, caso alguma coisa dê errado. estamos falando do nascimento de um bebê, afinal, talvez o maior dos acontecimentos na vida de casa ser humano diretamente envolvido (pai, mãe, bebê). mas eu esperaria que médicos fossem melhor preparados para dominar o apoio a esse processo que é puramente fisiológico e, exatamente por isso, um tanto imprevisível. aprendi nestes meses que a maioria dos médicos desta área não quer (e pior, não sabe!) lidar com o imprevisível.

minha gravidez foi absolutamente padrão e perfeita. todos os fatores foram acompanhados de perto, sem surpresas: peso, pressão, glicemia, urina, sangue, possíveis doenças pré-existentes, crescimento do bebê, placenta, líquido. tudo o que vocês puderem imaginar foi medido e verificado, e não houve nada fora do normal. um dos fatores é realmente motivo de atenção, embora não haja evidência de influência por enquanto: minha idade. estou com 38 anos e meio, e meu corpo de fato não é mais o mesmo de 10 anos atrás. talvez esses anos a mais pesem no momento do parto, depois conto pra vocês.

depois de todos os dramas relacionados ao meu plano de saúde e a falta de cobertura na maternidade que eu queria, conseguimos uma médica aqui na região alinhada com o que queríamos (ótima, aliás), e tudo corre bem até o momento. mas…

… acho importante compartilhar com vocês que essas últimas 3 semanas da gestação têm sido difíceis e os porquês. pra vocês que ainda vão passar por isso, talvez seja útil pensar nisso antes e se prevenir…

em primeiro lugar, tem a cobrança do “está na hora de nascer!”. por mais que a gente explique que o bebê pode nascer entre a semana 38 e 42 e que não dá pra prever, as pessoas não conseguem se segurar. elas ficam perguntando dia sim e outro também “e aí? já nasceu? como está?”. eu sei que as perguntas têm a melhor das intenções, mas só fazem aumentar a ansiedade dos pais (ou pelo menos da mãe). cada vez que me ligam aqui em casa é a mesma coisa: tenho que explicar que não, não nasceu ainda. (como se eles não fossem saber, caso tivesse nascido, mas enfim…). e pra mim pelo menos fica uma sensação de que o atraso é culpa minha, é como se eu estivesse fazendo algo errado. eu sei que não faz sentido nenhum, racionalmente, mas é assim que me sinto.

se pudesse mudar alguma coisa, hoje eu mentiria sobre a data prevista do parto, divulgaria pras pessoas a data de completar 42 semanas ao invés de 40.

em segundo lugar, a partir das 38 semanas começam exames intermináveis e sempre com ar de “vamos ver se o bebê está bem”. a gente que carrega o bebê ouve isso assim: “vamos ver se o bebê está VIVO ou não está SOFRENDO”. não é divertido ficar ali aguardando resultados de exames que precisam verificar se o seu filho está vivo e confortável. a impressão que dá é que o normal é o bebê sofrer ou estar em risco. dá um medo danado, mesmo pra pessoas bem informadas e racionais como eu. é todo um trabalho interno pra não entrar na pilha, e isso também estressa a gente.

em terceiro lugar tem o corpo pesado, a preocupação e os hormônios. diferente do que ouço de algumas mulheres, não me senti mais bonita na gravidez (mas também não me senti muito feia, o que é um alívio). também não senti melhora na libido, pelo contrário. ou seja: nenhum efeito positivo na auto-estima, além é claro de receber mais atenção graças ao bebê. as costas me matam um pouco por dia, graças à barriga enorme (isso porque engordei pouquíssimo), é um terror sentar e levantar. as preocupações com os “parâmetros” da gravidez por 9 meses também não são a coisa mais divertida do mundo, a gente vive em função do hóspede (já disse que me senti a ripley?) e acaba pensando nisso muito mais que em qualquer outra coisa. parei de trabalhar a partir da semana 38, e se pudesse mudar alguma coisa ficaria trabalhando até a 40. e tem os hormônios, né. no primeiro trimestre eu me sentia doente (enjôo, mal estar) e no final do terceiro eu me sinto louca. choro por qualquer motivo (dia sim e outro também), me sinto cansada e frustrada com a demora, como se fosse minha culpa.

racionalmente é possível passar por tudo isso sem grandes dramas, e a verdade é que acho que estou me saindo bem dentro do possível. consegui trabalhar muito bem por 8 meses e acho que não incomodei meu marido e família além do normal com meus pitis. mas confesso que esse final está punk, e já não vejo a hora de passar para a próxima fase do videogame.

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sobre o andamento do final: perdi o tampão no fim da semana 40, estou atualmente com 41 semanas + 2 dias e esperaremos até amanhã pra ver se o menino nasce. se ele não quiser nascer por conta própria, decidimos com a médica que vamos induzir o parto natural. apesar de tudo estar bem, com a minha idade começa realmente a ficar chato esperar mais, e eu não quero mais passar por exames com médicos pró-cesárea.

a indução do parto normal é um procedimento comum nos hospitais públicos (nos privados, simplesmente fazem cesárea), e não é necessário usar ocitocina sempre. neste caso, será feita a aplicação de um medicamento direto no colo do útero (um comprimido, parece), que provoca o trabalho de parto. esperamos que a indução funcione bem e que apesar da intervenção eu consiga fazer o parto da forma que planejei.

então a partir de amanhã estou passando pra próxima fase, de uma forma ou de outra, e dou notícias assim que possível. desejem-me sorte!

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