a chegada do bebê: o lado B

eu tinha pavor desse momento: aquele sem volta, quando o bebê chegasse em casa. nunca tinha pego um recém-nascido no colo, não sabia o que fazer e não tinha quem ajudasse (especialmente no fim de semana). ele chegou, e no fim acabamos conseguindo dar conta e mantê-lo vivo e feliz 🙂 mas…

… preciso contar pra vocês a realidade nua e crua, sem toda a paixão e encantamento do meu relato do lado a. cuidar de bebê é muito, MUITO cansativo e estressante. não acreditem em ninguém que diga o contrário, e não se engane achando que você vai tirar de letra pelo motivo X ou Y. é difícil, é cansativo e dá um medo do cacete. imagino que o segundo filho seja menos apavorante, mas duvido que seja menos cansativo.

tudo começa com a constatação que você ainda não conhece aquele serzinho. essa coisa de amor incondicional na hora que vê o bebê eu já disse que não senti, e honestamente acho que é viagem. a gente se apaixona pela criatura conforme vai olhando pra ela e conhecendo melhor, apesar dos pesares todos que vou contar.

bem, o que é necessário pra manter um bebê vivo? limpar, agasalhar, alimentar, fazer dormir, ficar confortável e dar carinho. pragmaticamente parece que todas essas coisas são simples – dá pra ensinar e explicar, certo? errado! porque tudo que se relaciona a manter o bebê feliz e confortável tem muito a ver com quem ele é e o que funciona praquele ser especificamente. tem algumas técnicas (leia esse post, pelo amor de deus, que salvou nossa vida), mas você só vai descobrir o que funciona por tentativa e erro.

trocar fraldas, dar banho e amamentar a gente aprende rapidamente. o que ninguém ensina é o que fazer com os sentimentos de medo, desamparo, frustração e raiva (é, gente, dá MUITA raiva) quando você não sabe o que fazer pro seu bebê não chorar ou parar de chorar. porque tem outra coisa que eu não sabia: quando o bebê chora, a gente sente uma COISA, assim com letra maiúscula, uma necessidade primal de fazê-lo parar. dá desespero, vontade de chorar junto. e às vezes a gente demora pra perceber o motivo e resolver. enquanto isso, o que fazer com a urgência de parar o choro?

por mais que você ame seu filho, e você vai amar, tem horas que dá vontade de desistir, de devolver pra fábrica (hahahahaha! :)), de gritar e pedir pra descer. só que – adivinha? – não tem como desistir nem descer nem nada. hoje eu entendo as pessoas desequilibradas que fazem coisas horrorosas com seus filhos pequenos. é claro que precisa ser completamente desequilibrado pra perder a cabeça, mas sério: é preciso ter apoio, cabeça fria e paciência pra não surtar.

pense que você está sem dormir, cansado física e emocionalmente (pra não falar do efeito físico e hormonal pós-parto), com medo de prejudicar o bebê de alguma forma e ainda por cima precisa lidar com o choro e a urgência de fazê-lo parar. é de arrancar os cabelos. eu tinha uma opinião diferente sobre isso antes do otto nascer, mas hoje recomendaria MUITO que quem vai ter um bebê peça toda ajuda que puder (presença física mesmo) nas primeiras semanas, no primeiro mês pelo menos. acredite, você vai precisar, e não é porque não dá conta, mas principalmente porque precisa de uma folga nem que seja de alguns minutos, e precisa também de alguém pra dizer que tudo vai ficar bem, que vai passar.

se seu marido não pode ou não quer te ajudar, pelo amor de deus peça ajuda pra sua mãe, sogra, irmã, qualquer uma. se seu marido ajudar, peça ajuda extra assim mesmo e se arme de toda paciência de que puder dispor, porque vocês vão brigar. vão brigar porque o bebê chora e um acha que o outro podia fazer alguma coisa, porque ele é lento pra trocar a fralda, porque você não consegue fazer o bebê mamar assim ou assado, ou por qualquer outro motivo. vocês estarão cansados, tensos e chateados porque, tipo, a vida sossegada de casados de vocês acabou. é, gente, acabou. pode ser que volte depois de um tempo, mas esses primeiros meses… esqueça.

sexo? admiro quem consegue pensar nisso nesses primeiros meses. eu simplesmente só consigo pensar em dormir. comer e tomar banho estão logo depois na minha prioridade. além da questão da libido que se modifica (já ouvi de muitas mulheres que ficaram menos interessadas em sexo nos primeiros meses após o nascimento do bebê. eu mesma não ando muito interessada, pra ser honesta), o casal está tenso e cansado, foco total no bebê. não é um ambiente muito sexy, convenhamos.

conversas? o único assunto é o cocô do bebê, o que ele fez ou deixou de fazer, se dormiu, se está bem ou mal. não é fácil manter uma vida normal, mesmo fazendo um esforço. dou exemplo: estou amamentando ou limpando ou confortando o bebê OU estou dormindo, comendo ou cuidando da minha higiene. entre dormir e ler um jornal ou ver um filme, sinceramente… dormir. percebam que o repertório fica limitado.

e a frustração e tristeza de ver seu bebê sofrendo? sim, eu sei que é temporário, que todos os bebês choram e que passa, mas juro que é horrível assim mesmo. pode racionalizar o quanto quiser, gente: dói. dá a sensação de incompetência, que somada com o cansaço… afe. chororô faz parte da vida nesses meses. por isso, de novo: precisa se cuidar, pedir ajuda, repetir o mantra “vai passar; eu estou fazendo tudo certo; bebês são assim mesmo” e tal.

em suma, eu não sei como as pessoas decidem ter mais um filho. nossa, o que dá na cabeça das pessoas pra passar por isso de novo? elas esquecem, só pode ser. é chato, cansativo, difícil e estressante. e nem vem com a história de que “ah, mas compensa quando a gente vê aquela coisinha linda…”, porque não é questão de compensar. é questão de sobrevivência da espécie, a gente vem preparado pra amar e proteger os bebês. senão a espécie tinha acabado.

eu amo essa coisinha fofa que está aqui dormindo do lado? nossa, amo muito. mas a verdade é que dá vontade de colocar ele ali no lixo reciclável quando a coisa fica feia 🙂 e essa parte da maternidade o povo não te conta, mas eu tou contando pra preparar você. o seu bebê vai ser a coisa mais importante da sua vida quando nascer, mas não se sinta um ET se tiver vontade de devolver ele pra cegonha, tá?

a chegada do bebê: o lado A

como vocês devem imaginar, nós ansiávamos muito pela chegada dele em casa, depois de 8 dias de UTI. o desejo de pegar o bebê no colo e fazer carinho nele, dar banho, essas coisas simples era enorme. mal pudemos acreditar quando ele foi liberado!

foi incrível poder pegá-lo no colo, sentir o calor do seu corpinho, conhecer melhor sua personalidade, o que ele gosta e não gosta.

o otto foi um anjo na primeira semana (segunda semana de vida dele), só deu um pouco de trabalho pra dormir, porque é muito agitado. mas pegamos o jeito, e conseguimos fazer ele dormir numa boa usando as dicas do livro que comentei aqui. sozinhos, no fim de semana, demos banho nele e trocamos a fralda pela primeira vez na nossa vida (nem eu nem o fer tínhamos sequer pego um recém-nascido no colo até então!), conseguimos cuidar dele e fazê-lo ficar confortável.

nas semanas seguintes as coisas ficariam menos simples — ele começou a ter chilique numa determinada hora do dia, dor de barriga de vez em quando, e muita dificuldade pra dormir. mas a felicidade por ele estar bem e em casa superou as dificuldades, a falta de sono e o stress.

mesmo antes dele nascer, decidimos mantê-lo dormindo na nossa cama (num bercinho de recém-nascido), pra facilitar a função da madrugada. tenho muito sono das 22h-7h e seria sofrido ter que levantar pra amamentar. além disso, teríamos que lidar com a pretinha andando no meio dos nossos pés no meio da noite. morro de medo de pisar nela sem querer, então ficar dentro do quarto é o mais prático até que ele complete 3 meses.

por mais que seja uma situação completamente nova e às vezes difícil (adivinhar ou aprender o que o bebê quer/precisa não é simples!), a sensação de conseguir é maravilhosa. estamos nos conhecendo, aos poucos, e nos apaixonando cada vez mais pelo pequeno. cada pequena coisa que ele aprende e faz nos deixa babando. cada sorrisinho, carinha diferente e barulhinho que ele faz é como um prêmio pra nós. ver o bebê diferente a cada semana, às vezes até a cada dia, dá uma satisfação enorme.

o bebê é uma nova pessoa na vida da gente, alguém que estamos aprendendo a conhecer e a amar, a cada dia. mas por mais que seja apaixonante e lindo e fofo, não é moleza não. tem todo o lado B que é preciso conhecer e se preparar pra enfrentar…

o tal amor incondicional

em primeiro lugar, pra mim funcionou assim: eu não “me apaixonei” pelo bebê ainda na barriga. enquanto ele esteve do lado de dentro, era só uma idéia e eu não fantasiava muito a respeito. talvez isso tenha a ver com o medo de não dar certo até ter dado certo, sabe? mecanismo de defesa, eu acho.

até que ele nasceu, na circunstância mais desfavorável, e fui ver sua carinha através das paredes da encubadora. e aquela magia que descrevem quando vemos a cara do bebê pela primeira vez (que não esquece mais, e tal) não aconteceu comigo. é claro que eu achei ele lindo e fofo, e despertou em mim um desejo incontrolável de protegê-lo, mas estaria mentindo se dissesse que senti um amor imediato e absoluto.

fui aos poucos conhecendo e amando aquele serzinho, conforme fui conhecendo quem ele era, suas carinhas e manias. é incrível como eles já nascem com personalidade e a gente se apaixona por cada detalhe deles. mas pra mim foi aos poucos, como todo relacionamento. com a diferença que por enquanto só melhora 🙂

quase 2 meses depois do nascimento do otto, é realmente impossível pensar no mundo sem ele. vejo a carinha gorducha dele e me encho de uma sensação de felicidade e paixão, dá vontade de apertar e mantê-lo o mais perto de mim quanto possível. entendo agora quem diz que tem saudade dessa época: apesar das dificuldades dos 3 primeiros meses, eles são pequeninos e dá pra ficar grudado várias horas por dia, como se fôssemos ainda um só.

acho que amor incondicional não é a expressão correta pra descrever esse amor que sentimos pelos filhos; é um amor de proteção e preservação, sabiamente desenhado pela natureza. faríamos qualquer coisa pra manter essas criaturinhas vivas e felizes. a carinha delas quando estão tranquilas e felizes dá a melhor sensação do mundo, é alívio misturado com felicidade e “missão cumprida”.

fato é que em 2 meses me apaixonei perdidamente pelo meu menino, e ver sua carinha feliz é a coisa que mais me faz feliz na vida. acho que faria qualquer coisa pra fazer esse mocinho feliz!

dona das divinas tetas

com a história do otto ficar na UTI, ele não recebeu nenhum tipo de alimento nas primeiras 72 horas de vida. por causa da anóxia de cordão, os médicos precisavam acompanhar os efeitos nos órgãos dele, e entre os problemas que podem acontecer como consequência é algum dano nos intestinos e outros órgãos menos prioritários. mantiveram o menino então em jejum por 72h e no 4o dia começaram a dar leite via tubo, diretamente no estômago, pra ver como o sistema digestivo reagia.

sabendo que precisaria dar meu leite pra ele a qualquer momento, comecei a ordenhar no dia seguinte ao parto, manualmente de início e depois com a bombinha elétrica. o peito estava muito pesado e cheio, mas ainda assim foi difícil começar a sair alguma coisa. fiquei com medo de não sair nada, mas insisti de hora em hora, até começar a sair gotas de um leite bem amarelado e denso, o colostro. quanto mais eu tirava, mais saía, pra meu alívio!

no 4o dia de vida dele, pediram que eu começasse a ordenhar na UTI, em potinhos, pra poder iniciar a alimentação ainda via tubo. só que nesta UTI só permitem ordenha manual, na salinha de ordenha (minúscula e quente), e o processo foi um martírio. meu peito é enorme, e minhas mãos são minúsculas. a ordenha é dolorosa, cansativa e muito frustrante, porque o colostro sai em pouca quantidade (20-40ml). felizmente ele começou recebendo pouco (7ml a cada 3h), mas essa quantidade dobrou em menos de 24h e continou dobrando. fiquei sofrendo a cada 3h por 3 dias, até que no 6o dia, depois de receber o leite super bem, comecei a dar o peito ainda na UTI.

fiquei morrendo de medo de não conseguir amamentar, de não ter leite, de doer, sei lá. ouvi tanta história de dificuldade para amamentar… e a verdade é que foi simples como nunca imaginei que fosse. ele veio pro meu peito direito primeiro, pegou bem mas largou rápido. mudei pro peito esquerdo e ele mamou 15min sem a menor dificuldade. pelo que a enfermeira falou, tenho sorte porque meu mamilo é grande e comprido, então é muito fácil pro bebê pegar e mamar (e ele suga muito bem e muito forte). não senti (e ainda não sinto) dor nenhuma, o peito tem muito leite e ele mama sem nenhuma dificuldade.

tentei manter a frequência da UTI (3 em 3h), mas aqui em casa ele às vezes quer mamar antes, a cada 2h, e eu dou. à noite o intervalo se estende para 4h com sorte, mas é mais raro. no primeiro mês, ele ganhou em média 26g por dia (o normal é de 20 a 30g/dia), isso considerando a perda de peso da primeira semana! depois de sair da UTI, ele ganhou em média 31g por dia. ou seja – está mamando bem e aproveitando o leite 🙂

eu costumava dar 15min (pelo menos) de cada peito pra ele a cada mamada, mas o pediatra pediu que eu desse somente 1 peito de cada vez, por causa do tamanho do peitão. eu não sabia, mas o leite tem 2 fases quando o bebê mama. nos primeiros minutos de mamada, vem o que se chama de leite anterior, que é mais aguado e cheio de lactose, e só depois vem o leite posterior, mais rico em gordura. portanto assim fizemos: ele mama de 20 a 40min em cada peito, um de cada vez.

outra coisa que precisei ajustar: interrompo a mamada a cada 10min para arrotar, porque ele estava com gases, o pobrezinho sofria muito. melhorou MUITO depois que fiz isso. agora ele só reclama de sair do peito depois de 10min e é chato na hora, mas o benefício compensa.

então é isso – amamentar pra nós foi moleza. pretendo continuar amamentando exclusivamente até o 6o mês e como complemento até quando ele quiser (ou até 1 ano e 2 meses, quando o sistema imunológico dele estará 100% formado).

essa história pelo menos foi bem-sucedida e fácil, ufa 🙂

e apesar de tudo…

… acreditem, tiramos de letra. foi difícil, mas serviu pra aproximar não só fer e eu, mas também nossa família e amigos. o nosso menino tá aqui, lindo e fofo, e estamos mais fortalecidos por causa dele.

e me enche de orgulho perceber que passamos por tamanha provação sem drama, sem chororô imaturo. lidamos com o problema como adultos, resolvemos, tivemos muito bom humor e principalmente amor no processo todo.

somos melhores e mais fortes depois disso tudo. e meu amor pelo fer só aumentou!

aproveito pra agradecer a todos que de longe ou de perto torceram por nós. obrigada, vocês são demais.

todo sentimento

e eu falei dos fatos do parto e tal, mas falei pouco do que senti, de como foi passar pela cirurgia. e não falei sobre os primeiros dias do otto aqui conosco.

bem, pra quem quer saber como é uma cesárea: entrei na sala de cirurgia vomitando de dor (literalmente), até que eles me preparassem para a cirurgia (anestesia e etc.). a cirurgia em si eu não sei como foi, não vi nada, e o fer acabou se concentrando mais em mim que na barriga aberta. e aí quando o bebê saiu da barriga desacordado, vocês imaginam como ele ficou. ele bem que tentou disfarçar a cara de pavor, embora eu tenha percebido (e ele continuou disfarçando e mentindo que estava tudo bem).

ele mal viu o bebê, que foi correndo pra UTI, e voltou pro nosso quarto sem o bebê e sem a mulher, porque depois da cirurgia a gente fica em recuperação até o movimento das pernas começar a voltar. imaginem como o fer se sentiu, por mais de 2h sozinho no quarto, sem saber do bebê e de mim.

voltei rápido para o quarto, me recuperei bem, e foi aí que a ficha começou a cair: o bebê estava na UTI. nenhuma notícia, por várias horas. ele nasceu às 6:34h e o fer só pode visitá-lo à tarde (e eu à noite, quando consegui ficar de pé por conta própria).

a primeira imagem que tenho do meu filho é dentro de uma incubadora, com tubos para respirar e se alimentar. ele nasceu grandão, cheio de cabelos castanho-claros, e parecia tão fragilzinho naquela incubadora… a sorte é que podíamos colocar a mão nele, sentir o corpinho, saber que ele era real, estava vivo. o fer cantava pra ele o canto do povo de algum lugar, baixinho, perto do ouvido. percebo agora que eu estava em choque, anestesiada. não sentia nada: não chorei, não ri, fiquei meio inerte. eu visitava o bebê e conversava com ele, mas não consegui fazer uma conexão. acho que no fundo, era medo inconsciente de perdê-lo.

quem falasse comigo achava que eu estava super-forte (e eu parecia mesmo), e fui eu que fiquei firme quando o fer estava mais inseguro e com medo pelo bebê. a verdade é que eu estava em outro estado de consciência, eu isolei o medo e a dor completamente durante 3 dias. no dia anterior à minha alta (3 dias depois do nascimento dele) eu tive o que acredito ser um ataque de pânico (ou “a ficha caiu”): eu não conseguia respirar direito e sentia uma taquicardia constante. a única coisa que me acalmava era o fer me abraçar. passei a noite anterior à alta desse jeito – mal respirando e com o coração em frangalhos. e não conseguia chorar.

a recuperação da cirurgia foi chata, mas rápida. nos 2 primeiros dias eu não conseguia levantar, sentar, virar na cama ou deitar sem ajuda. o fer me ajudava a fazer tudo, inclusive vestir as calcinhas. por outro lado, consegui andar ereta e sozinha desde o primeiro dia, sem problema. a sensação de “órgãos soltos” dentro da barriga é o pior dos primeiros dias, é muito estranho. mas usei uma cinta por 5 ou 6 dias e depois abandonei, não precisei mais.

o otto se recuperou rapidamente (de forma incrível) na UTI, e eu comecei a tirar leite no segundo dia depois do parto. no quarto dia, comecei a tirar leite pra dar pra ele via tubo e no 6o dia ele começou a mamar no meu peito. vou fazer um post só sobre amamentação, mas digo pra vocês que tirar leite é uma das coisas mais horrorosas e chatas que já fiz. foi um sacrifício, dolorido do ponto de vista físico e emocional, e que não desejo pra ninguém. mas sabendo que aquele inferno de ordenhar manualmente vai servir pra alimentar seu filho vale qualquer esforço.

tive que voltar a ser internada no 6o dia depois do parto, com crise de pressão alta e diabetes. todo meu medo e ansiedade não se manifestaram em choro ou drama, mas meu corpo pagou o preço da minha “fortaleza”. fiz montes de exames em 48h e adivinhem? tudo normal. continuei tomando remédio para pressão até 10 atrás, quando minha pressão finalmente normalizou.

eu também comecei a cantar para o otto, junto com o fer, e pouco a pouco me permiti amar aquela criaturinha. baixei a guarda, superei meu medo de perdê-lo e deixei o sentimento me invadir. comecei a chorar de vez em quando, falei muito com o fer sobre meus medos e ansiedades, e as coisas começaram a melhorar.

e num sábado de manhã eles me avisaram: ele vai pra casa hoje. depois de 8 longos dias de espera e ansiedade. finalmente no sábado nosso filho saiu do hospital e foi conosco pra casa há tantos meses pronta pra recebê-lo. acho que foi nesse dia que eu chorei um pouquinho.

finalmente, o parto

bem, pra resumir, o parto foi um horror, completamente o inverso do que eu tinha sonhado e planejado.

vocês devem lembrar que decidimos fazer o parto numa maternidade em campinas, pois “casa de parto” só existe em são paulo (SUS) e parto domiciliar eu não queria, não me sentiria segura aqui no fim do mundo em vinhedo. achamos uma médica que privilegia o parto normal e topou seguir nosso plano: parto natural, intervenção mínima pra mim e pro bebê. na medida do possível, é claro, porque afinal estaríamos num hospital.

acontece que chegamos à 41a semana e 3 dias e nenhum sinal de dilatação. a médica então sugeriu que fizéssemos uma indução química, como é de praxe no SUS (e ela faz com frequência) caso o colo do útero esteja favorável. como era o meu caso, aplicamos a medicação no colo do útero no dia 26/ago às 15:30h e voltei pra casa. as contrações começaram às 18:30h, de 3 em 3 minutos, com duração de 30seg a 1min. fomos para a maternidade às 21h, e nada de dilatação. o bebê estava bem, então ela aplicou a medicação novamente (ainda dentro do plano) para ver se nas próximas 6h eu entrava em trabalho de parto.

nada mudou nas contrações, mas às 5 da manhã minha bolsa estourou e o líquido era verde escuro. as contrações estavam sem intervalo, e muito intensas. neste ponto, o batimento do bebê estava OK, mas quando a médica chegou ao hospital depois de 30min os batimentos dele começaram a cair, minha dilatação ainda era nenhuma, e decidimos fazer uma cesárea de emergência. esquema de emergência mesmo, tudo corrido, intenso e difícil.

o otto nasceu com apgar 1 (e recuperou para 7 no 5o minuto de vida), e foi direto para a UTI. o que significa na prática que ele podia ter morrido ou ter ficado com sequelas – houve pressionamento de cordão umbilical, impedindo o oxigênio de chegar ao bebê. foi assustador, e muito difícil. fui ver meu filho depois de mais de 12h do parto, e ele ficou na UTI por 8 dias.

a recuperação dele foi ótima, no fim ele ficou na UTI para garantir que não houve nenhuma sequela detectável nesta fase. todos os exames dele estão 100% e ele está ótimo. começou a mamar no peito já na UTI sem nenhuma dificuldade e se desenvolveu muito bem. ou seja: por agora, não há motivo pra preocupação, basta acompanhar o desenvolvimento dele normalmente.

mas sair do hospital sem ele foi difícil; ficar internada visitando meu bebê na UTI foi horrível; o medo de ele poder ter alguma sequela por conta do ocorrido foi um pesadelo. foi tão punk que eu me lembro de tudo como se fosse um filme, passado com outra pessoa.

e afinal, o que aconteceu neste parto? poderia ter sido diferente? talvez sim. poderíamos é claro ter feito uma cesárea na 40a semana, mas essa nunca foi nossa opção. poderíamos também ter esperado mais e não induzir o parto, mas essa opção não era confortável pra nossa médica. no fim, fizemos o que achamos correto, e não acho que fizemos nada errado. aconteceu porque aconteceu, e felizmente tivemos um final feliz.

tudo isso, enfim, pra me ensinar que planejar demais não serve pra nada. podemos planejar tudo nos mínimos detalhes e um evento mínimo pode mudar tudo.

fiquei triste e frustrada por não poder passar pela experiência de um parto natural, sim. como não vou engravidar de novo, já era. mas depois de tudo que passei, percebo que importante mesmo é o bebê estar bem e saudável, o resto é secundário. a frustração passou, e o otto está aqui com a gente 100%.