todo sentimento

e eu falei dos fatos do parto e tal, mas falei pouco do que senti, de como foi passar pela cirurgia. e não falei sobre os primeiros dias do otto aqui conosco.

bem, pra quem quer saber como é uma cesárea: entrei na sala de cirurgia vomitando de dor (literalmente), até que eles me preparassem para a cirurgia (anestesia e etc.). a cirurgia em si eu não sei como foi, não vi nada, e o fer acabou se concentrando mais em mim que na barriga aberta. e aí quando o bebê saiu da barriga desacordado, vocês imaginam como ele ficou. ele bem que tentou disfarçar a cara de pavor, embora eu tenha percebido (e ele continuou disfarçando e mentindo que estava tudo bem).

ele mal viu o bebê, que foi correndo pra UTI, e voltou pro nosso quarto sem o bebê e sem a mulher, porque depois da cirurgia a gente fica em recuperação até o movimento das pernas começar a voltar. imaginem como o fer se sentiu, por mais de 2h sozinho no quarto, sem saber do bebê e de mim.

voltei rápido para o quarto, me recuperei bem, e foi aí que a ficha começou a cair: o bebê estava na UTI. nenhuma notícia, por várias horas. ele nasceu às 6:34h e o fer só pode visitá-lo à tarde (e eu à noite, quando consegui ficar de pé por conta própria).

a primeira imagem que tenho do meu filho é dentro de uma incubadora, com tubos para respirar e se alimentar. ele nasceu grandão, cheio de cabelos castanho-claros, e parecia tão fragilzinho naquela incubadora… a sorte é que podíamos colocar a mão nele, sentir o corpinho, saber que ele era real, estava vivo. o fer cantava pra ele o canto do povo de algum lugar, baixinho, perto do ouvido. percebo agora que eu estava em choque, anestesiada. não sentia nada: não chorei, não ri, fiquei meio inerte. eu visitava o bebê e conversava com ele, mas não consegui fazer uma conexão. acho que no fundo, era medo inconsciente de perdê-lo.

quem falasse comigo achava que eu estava super-forte (e eu parecia mesmo), e fui eu que fiquei firme quando o fer estava mais inseguro e com medo pelo bebê. a verdade é que eu estava em outro estado de consciência, eu isolei o medo e a dor completamente durante 3 dias. no dia anterior à minha alta (3 dias depois do nascimento dele) eu tive o que acredito ser um ataque de pânico (ou “a ficha caiu”): eu não conseguia respirar direito e sentia uma taquicardia constante. a única coisa que me acalmava era o fer me abraçar. passei a noite anterior à alta desse jeito – mal respirando e com o coração em frangalhos. e não conseguia chorar.

a recuperação da cirurgia foi chata, mas rápida. nos 2 primeiros dias eu não conseguia levantar, sentar, virar na cama ou deitar sem ajuda. o fer me ajudava a fazer tudo, inclusive vestir as calcinhas. por outro lado, consegui andar ereta e sozinha desde o primeiro dia, sem problema. a sensação de “órgãos soltos” dentro da barriga é o pior dos primeiros dias, é muito estranho. mas usei uma cinta por 5 ou 6 dias e depois abandonei, não precisei mais.

o otto se recuperou rapidamente (de forma incrível) na UTI, e eu comecei a tirar leite no segundo dia depois do parto. no quarto dia, comecei a tirar leite pra dar pra ele via tubo e no 6o dia ele começou a mamar no meu peito. vou fazer um post só sobre amamentação, mas digo pra vocês que tirar leite é uma das coisas mais horrorosas e chatas que já fiz. foi um sacrifício, dolorido do ponto de vista físico e emocional, e que não desejo pra ninguém. mas sabendo que aquele inferno de ordenhar manualmente vai servir pra alimentar seu filho vale qualquer esforço.

tive que voltar a ser internada no 6o dia depois do parto, com crise de pressão alta e diabetes. todo meu medo e ansiedade não se manifestaram em choro ou drama, mas meu corpo pagou o preço da minha “fortaleza”. fiz montes de exames em 48h e adivinhem? tudo normal. continuei tomando remédio para pressão até 10 atrás, quando minha pressão finalmente normalizou.

eu também comecei a cantar para o otto, junto com o fer, e pouco a pouco me permiti amar aquela criaturinha. baixei a guarda, superei meu medo de perdê-lo e deixei o sentimento me invadir. comecei a chorar de vez em quando, falei muito com o fer sobre meus medos e ansiedades, e as coisas começaram a melhorar.

e num sábado de manhã eles me avisaram: ele vai pra casa hoje. depois de 8 longos dias de espera e ansiedade. finalmente no sábado nosso filho saiu do hospital e foi conosco pra casa há tantos meses pronta pra recebê-lo. acho que foi nesse dia que eu chorei um pouquinho.

4 thoughts on “todo sentimento

  1. Zel,

    nem posso imaginar o que vcs devem ter passado… espero que tudo esteja bem melhor agora.

    Vi as fotos do pequeno no seu flickr e nossa, como ele é fofo e lindo e charmoso!

    Muita saúde pra vcs.

    bjs.

  2. Zel,

    Quando vc falou que o parto havia sido dificil para ambos, não imaginei que tinha sido tanto. Já li seus dois últimos posts inúmeras vezes! Deus só pode ser mulher mesmo, pra nos amparar assim nessas horas.

    Que bom que ta tudo bem com vcs, e que o pequeno tá se desenvolvendo normalmente! Com amor, tudo fica bem….

    um beijo!

    Babi

  3. puxa zel, imagino que coisa terrível, mas graças a deus ele tá ai firme e forte com vocês, e isso não tem preço.

    em junho agora nasceu nossa lídia, de 8 meses, mas ficou apenas 2 horas com a gente, eu nem cheguei a vê-la com vida, foi muito muito difícil passarmos por tudo isso, pois eu sabia que ela tinha problemas, mas achávamos (até os médicos) que ela viveria normalmente. ela tinha suspeita de síndrome de edwards, mas todos os exames, inclusive cariótipo deram normais, ninguém sabia o que a pequena tinha… mas acho que deus sabe o que faz (meio torto e por caminhos-deveras-filhos-da-mãe…rs), e temos alice para nos segurar….rs

    não dá nem tempo de sofrer…rs ainda bem…rs

    agora no final do ano tentaremos novamente 🙂

    não sei se vc se lembra de mim, mas eu sou sua fãzoca, seu blog foi um dos que li primeiro…rs queria mandar uma lembrança pro otto, vc se importa? não precisa ter medo que não sou a doida dos blogs…rs

    beijos querida!

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