algumas considerações sobre estar no poder

por conta de ler histórias de parto e amamentação, continuo pensando no meu parto e como se deu o processo. fui e sou defensora do parto natural, com o mínimo de intervenção, mas tenho achado os discursos a esse respeito cada vez mais xiitas e “viajantes”.

não tenho nenhuma dúvida que o parto natural é melhor para a mãe e para o bebê. acredito nisso não por nenhum motivo místico, emocional ou romântico, mas porque sou 100% crente na natureza e na evolução. nossa espécie evoluiu e foi bem sucedida com nossas fêmeas parindo seus bebês desta forma, portanto esta é sim a forma PERFEITA. ponto final. a verdade é que as cesáreas de emergência (como a minha) ou por necessidade, são anomalias. e exatamente por isso devem sem exceções. no mundo animal, uma fêmea que tem seu primeiro filhote aos 38 anos (idosa, para fins reprodutivos) tem menos chance mesmo de ser bem-sucedida. fato biológico, não há argumento.

mas somos humanos, e vamos contra a natureza diária e insistentemente, e eu não sou diferente. adiei até os 38 anos a decisão de engravidar, e embora tenha tido uma excelente gravidez, o parto e pós-parto foram bem ruins. completamente o oposto do parto fisiológico, natural e sem problemas, como seria o correto. assumo as consequências da minha escolha, mas tenho os olhos abertos pra todas elas: engravidei tarde; decidi induzir o parto por medo de esperar até a 42a semana; decidi realizar a cirurgia de emergência quando meu filho e eu ficamos em risco.

tenho falado bastante aqui e no meu blog nestes anos todos sobre escolhas e arcar com as consequências delas. novamente, acho que é disso que também se trata quando entramos no assunto parto e amamentação (pra não falar da educação dos filhos).

sou contra procedimento cirúrgico nem necessidade quando se trata de parto, porque como já disse, acredito na perfeição da natureza. mas isso, de longe, não é o que mais me incomoda na opção pela cesárea (e outras opções, como vocês verão). muito me irrita é a ignorância acerca do processo, a transferência de responsabilidade para outro(s) e, só como bônus, a total falta de interesse pelo crescimento individual (tornar-se alguém melhor). explico.

o processo: em algum momento, deixamos pra trás o mecanismo que faz de nós a espécie mais bem-sucedida deste planeta, a transferência de conhecimento. a cada geração temos mulheres mais ignorantes que nunca acerca de gravidez, parto, amamentação e bebês. o conhecimento passado de mãe/pai para filhas e filhos é essencial. compartilhar histórias, aprendizado e cultura é o que faz de nós o que somos. não podemos perder isso. nos transformamos em poços de cultura inútil e não sabemos mais o básico. as mulheres morrem de medo de parto, de bebês, de relacionamentos. nossa espécie se encaminha pra onde, pergunto eu? não acho uma evolução positiva.

transferência de responsabilidade: é inaceitável tantas mulheres feitas fazendo cesárea porque o médico mandou, porque o médico disse isso ou aquilo, ou porque “minha mãe não teve dilatação, eu também não terei”. engravidar, parir, ter filhos enfim é justamente o processo de independência maior, é tornar-se adulto. ou seja, é a hora de você começar a assumir responsabilidades SUAS e sair da aba dos seus pais. ou dos seus médicos, neste caso. assuma suas escolhas! só que pra isso, é preciso falar do próximo assunto…

auto-conhecimento, crescimento pessoal: é possível ser melhor e evoluir sem se conhecer? talvez, mas eu duvido. para todos os animais, crescer e procriar acontecem naturalmente, bem como a independência dos pais (na verdade, isso acontece na MARRA). pra nós, esse crescimento e a independência cada vez têm sido mais adiados, e às vezes nem acontecem. filhos se tornam pais incompetentes justamente porque chegaram à maturidade sexual e reprodutiva sem amadurecer emocional e socialmente. e vão criando seus filhos que vão repetir o mesmo padrão. a capacidade de gerar um filho devia trazer consigo uma revelação biológica e emocional: SOU ADULTO. preciso ser alguém mais independente, melhor, mais capacitado, para poder criar um filho bem-sucedido, que sobreviva a mim com louvor. querer ser melhor, se conhecer, é parte de ser humano, diferente dos outros bichos. por algum motivo bizarro, simplesmente estamos deixamos de lado essa capacidade e procriamos como coelhos.

resumindo: o casal engravida, não sabe nada sobre gravidez ou parto ou bebês e prefere continuar não sabendo, delega todas as decisões a um médico ou pai/mãe (seja no parto, seja na criação e cuidado das crianças) e cria seus filhos como se fossem seus irmãos menores, com muita “consultoria externa”. veja que não falo de ajuda (que é absolutamente necessária), mas de abrir mão da responsabilidade voluntariamente, pro médico, avós ou a escola. “o médico mandou, minha mãe me disse”, etc.

finalmente, volto ao assunto: eu, defensora do parto natural, tive de me submeter a uma cesárea de emergência. irônico, ahn? também achei, na ocasião, fiquei me sentindo péssima. foi quase como um castigo pra mim. honestamente não me senti mal, deprimida e nem fracassada, mas foi frustrante sim. só que elaborando melhor nestes meses, concluí o seguinte: não me senti mal com a situação, porque apesar de ter me submetido a um procedimento invasivo e meu filho ter ficado afastado de mim por 8 longos dias, todas as decisões sem exceção foram tomadas por mim.

levei a gravidez adiante somente quando quis (para o bem e para o mal); meu pré-natal foi feito da forma que eu quis, mudei de médico várias vezes para melhor atender ao que eu desejava; fiz indução do parto porque quis, concordei com a médica que era a melhor opção, e teria me recusado se realmente quisesse diferente; fui eu que decidi ir para a cirurgia de emergência, a médica me deu a opção de esperar mais e eu não quis; concordei 100% com todos os procedimentos na UTI para o meu bebê e perguntei sobre TUDO que foi feito.

minha conclusão é que mais importante que o TIPO de parto é o quanto você participou de fato e fez valer sua vontade e sua crença. o quanto você se envolveu e tomou pra si o conhecimento, as decisões e obviamente as consequências delas. estou convencida que este é o motivo de eu estar tranquila e em paz quanto ao meu parto, que foi diametralmente oposto ao que eu “sonhei”. a frustração se dá pelo fato de não poder viver a experiência (já que não quero engravidar de novo), e não por ter “saído do meu plano”. eu fui protagonista no meu parto, mesmo com a médica tirando o bebê de dentro da minha barriga, caras mães-odaras-do-parto-natural. continuei protagonista no acompanhamento do meu filho na UTI, ordenhando colostro pra ele se recuperar mais rápido, e dando o peito ainda na UTI. sem drama, sem stress, sem expectativas não realistas.

e a conclusão mais importante de todas veio essa semana: o parto acaba se tornando “o momento de epifania da vida” para mulheres que têm problemas não resolvidos nesta seara, que idolizam ou demonizam suas próprias mães e têm expectativas românticas sobre a maternidade. pra mim, é só um processo fisiológico que eu acho massa e queria experimentar. acabou. o importante mesmo disso tudo é o bebê, a vida que se inicia (pra todos os envolvidos) a partir daquele momento.

o resto é assunto pra terapia.

2 thoughts on “algumas considerações sobre estar no poder

  1. é isso, zel. como me incomoda seres adultos q não assumem a direção q dá p/ a vida. Agarram-se fortemente nas decisões alheias. E mais ainda me incomoda (até pq trabalho com educação infantil, o resultado disso tudo vem p/ minhas mãos diariamente) esta postura do deixar as decisões p/ avós, médicos, escola na maternidade/paternidade. ô tristeza!

  2. Zel, vc está certíssima. Ainda não tive filhos, mas sei que se um dia acontecer, quero que seja parto normal. E troco de médico até achar um que tenha essa mesma preferência. Vi uma pessoa próxima insistir na médica fã de cesariana e, mesmo “querendo” o parto normal, acabou “cedendo” na última hora. Me faz pensar: se a pessoa não é madura o suficiente pra assumir que prefere cesariana e que se danem os demais que pensam o contrário, será madura pra criar uma criança? Medo.

    Mas enfim, como sempre seu texto absurdamente certeiro.

    Beijo!

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