diário do otto: 1 ano e 5 meses + 1 ano e 6 meses

otto,

pois eu já comecei a combinar os meses, já que você é um menino crescidinho e nem parece mais um bebê. fora a fala, é claro, já que o senhor não fala NADA além das vogais tônicas de todas as palavras… por exemplo: bicicleta = é; biscoito = ô; carro = á; e assim por diante. nessa de usar a vogal e apontar você consegue tudo que precisa, e suponho que não tem muito incentivo pra falar, afinal 🙂

não que a gente não insista e repita mil vezes as palavras, mas no fim dá certo, então você não precisa falar. acho que se você estivesse na escolinha sua fala teria evoluído melhor. em compensação, fisicamente você se desenvolveu muito e muito rápido, sua coordenação motora é ótima, e você já brinca direitinho com giz de cera por exemplo. já ensinamos que giz é pra brincar no papel (e você aprendeu, apesar de se rebelar às vezes). morro de rir (escondido) de você chegando perto do chão com o giz, fazendo “não” com o dedinho e apontando para a folha de papel. estou impressionada com o tanto que  você entende tudo que o falamos (provavelmente porque quando alguém não fala, supomos que não entenda também). eu peço coisas como “pega o lápis azul que está atrás de você”, e pra meu espanto, você pega! acho muito incrível você já reconhecer algumas cores, como o laranja (quando peço pra mostrar a cor você mostra certinho, e pega o lápis da cor certa). e você reconhece os bichinhos e coisas no livro de histórias direitinho: gato, cachorro, rato, pássaro, flor, menino, esquilo, lagartixa, gambá, morcego, pato, sapo.

aliás, essa hora de ler a história antes de dormir é linda! a rotina é assim: você toma banho, faço massagem (e você ajuda, passando creme na barriga), coloco pijama e você já pega a escova de dentes e escova “sozinho” (eu dou uma ajuda pra garantir que escovou todos os dentinhos, pois você já tem 14 dentes!), até a hora que começa a apontar para a cômoda onde fica o livro e dizer “IIII”. trazemos o livrão e sua chupeta, e você fica tão feliz que aperta as mãozinhas e dá gritinhos, bate palmas, é a coisa mais fofa. e aí tentamos ler as historinhas de 1 minuto (2 páginas) enquanto você escuta. o problema é que você quer folhear o livro enquanto estamos lendo, tem sido um processo interessante ensinar você a esperar e ouvir. você já rasgou várias páginas do livro tentando “ler” (e consertamos com contact), mas nem dá pra ficar muito brava com você, porque você fica tão chateado com a folha rasgada que dá dó! você olha o rasgo, faz “AHHH!” e coloca as mãozinhas pra cima, como quem diz “DROGA!”. é a coisa mais fofa <3 mas cada vez que acontece um acidente, damos uma bronca e ensinamos como se faz pra virar sem rasgar, e você está aprendendo.

sua história preferida é a do gambazinho-saruê que rouba a comida do acampamento, mas definitivamente seu bicho preferido até o momento é o GATO. você não pode ver gato de verdade e nem em desenho que fica doido, só falta pular de felicidade 🙂

você continua comendo super bem e de tudo. continuamos levando você a restaurantes, sentando na sua própria cadeira, e você se comporta muito bem, sem gritos e nem chateação, fica bem civilizado na mesa. só que faz sujeira e joga uma ou outra coisa no chão, ainda estamos ensinando você a se comportar ainda melhor. já ensaia comer sozinho, e se diverte com a colher, mas por enquanto ainda deixamos você comer mais com as mãos mesmo. atualmente sua comida preferida é… quiabo!

outra coisa que nos deixa super felizes é que você responde muito bem a broncas e comandos, costuma parar quando mandamos parar (ao invés de continuar andando ou correndo), para de chorar quando conversamos com você, mesmo quando está chateado. claro que nem sempre dá 100% certo e você às vezes chora e faz birra, mas é pouco frequente e normalmente quando está cansado ou com fome. acho que estamos conseguindo respeitar seus limites mas ao mesmo tempo ensinar um pouco de paciência. acho que podíamos ser mais rigorosos, mas por enquanto estamos felizes com os resultados.

seu sono continua mais ou menos, afinal depois de quase 1 ano e meio que você nasceu ainda não houve mais que 1 ou 2 noites completas de sono 🙁 você acorda várias vezes à noite e nem sempre dorme de novo sozinho. não tiramos mais você do berço, mas vamos lá às vezes para ajudar você a dormir novamente. frequentemente nos perguntamos se não devíamos deixar você sozinho, mesmo chorando, pra aprender a dormir. mas ao mesmo tempo achamos você tão pequeno, tão bebê, e vamos adiando o momento de deixar você se virar. há 10 dias você começou a dormir melhor, acordar 1 vez ou nenhuma, e mal conseguimos acreditar. ainda não considero uma mudança definitiva, mas temos fé que talvez o sono tenha estabilizado.

estamos muito felizes com sua presença, suas gracinhas — cada vez mais charmoso e consciente de que encanta a gente, faz fofices de propósito! — e pra nós tem sido mais e mais prazeroso estar com você. agora podemos conversar, interagir melhor, brincar e você de fato faz parte do grupo, não é mais aquele serzinho que demanda toda a atenção. ok, você ainda demanda muita atenção, mas já é possível fazer coisas JUNTO com você, como preparar comida, seu banho, escolher a roupa pra vestir…

inclusive você agora quer escolher sapatos (adora sapatos!), jogar fora suas fraldas (adora jogar coisas no lixo, “ISH”), dar tchau pro cocô (eu jogo seu cocô na privada e dou descarga e você ADORA), comer sozinho (com as mãos ou a colher), escolher os brinquedos e “obrigar” a gente a brincar, jogar no meu iphone/ipad ou ver vídeos (já começou a ver a mesma coisa repetidamente…), enfim, você já é uma criaturinha cheia de vontades e personalidade.

você agora dá tchau e beijo (só de longe, continua super desconfiado e não vai com quase ninguém), mesmo quando saio pra trabalhar de manhã, sem dramas. continua apaixonado por carros e pneus (meu carro que é grandão é seu preferido, mas até bicicleta vale), bola e o iphone. ainda não dá bola pra TV, filmes, etc.

esse mês viajei e fiquei fora por 6 longos dias, e você se comportou muito bem. eu fiquei com saudades, mas só o normal, nada sofrido nem ruim. e pra compensar, quando cheguei ganhei os abraços mais gostosos, sorrisos lindos, beijo e carinhos das suas mãozinhas gordas.

meu menino: amo você mais que antes, cada dia mais, e tenho certeza que vou amar mais ainda. uma coisa boa sobre o amor, você vai aprender, é que não ocupa espaço e pode crescer infinitamente que ainda cabe no coração da gente 🙂

com amor enorme da mamãe.

PS: você aprendeu a sentar sozinho, é MUITO ENGRAÇADA sua cara de concentração sentando como uma pessoa grande. e, pra nosso desespero, aprendeu também a escalar, bateu a cabeça 2 vezes (fez galão) e deixa a gente doido. pestinha!

(veja as suas fotos de 1 ano e 5 meses e de 1 ano e 6 meses)

a educação para o mundo

desde sempre ouvi por aí que “devemos educar nossos filhos para o mundo”. como me parece simplesmente bom senso, assumi que todos os pais se preocupariam com isso e, ora, educariam seus filhos “para o mundo”. talvez o óbvio e o bom senso não sejam tão óbvios assim, porque o tempo todo me deparo com pais excessivamente permissivos (ou ausentes, ou ambos ao mesmo tempo!) e filhos totalmente despreparados “para o mundo”. não, é pior do que despreparados, eles são péssimos contribuidores para um mundo já caótico, com recursos escassos e cheio demais.

a mim parece claro que vivendo num mundo com essas caraterísticas — superpopulado e com recursos escasseando — devíamos nos preocupar em cultivar e ensinar a gentileza, o cuidado com o excesso, o aprendizado do respeito pela natureza e pelo próximo, a paciência para lidar com as inúmeras frustrações que teremos pela frente, cada vez mais.

o que se vê pela rua, pela vida, aos montes, é o inverso: pessoas rudes (e nas redes sociais ainda mais, protegidos atrás dos seus teclados), desperdício, condescendência com a falta de educação, indulgência e a muleta do “isso não é problema meu”.

no que diz respeito à educação de crianças, como disse em outro post, o que realmente me choca não é crianças serem crianças e testarem os limites dos adultos, mas os adultos permitirem sem dizer NÃO. crianças gritam e fazem bagunça em locais que não são sua casa, desrespeitam ordens diretas e os pais não dizem não! às vezes simplesmente se omitem (porque de fato CANSA dizer a mesma coisa o dia todo) ou inventam desculpas para a falta de disciplina (“ela é muito agitada, sabe?” ou “ele tem muita energia!”).

disciplina é uma habilidade essencial para absolutamente tudo na vida. por mais que se escolha não ser disciplinado em qualquer momento, é preciso que essa habilidade seja ENSINADA. se alguém quiser optar por ser indisciplinado de forma consciente, que arque com as consequências (e isso também precisa ser ensinado).

que bem para o seu filho e para o mundo estará fazendo o pai/mãe que se exime de ensinar disciplina, respeito pelo espaço do outro e que sempre haverá consequências para a falta de respeito, a desorganização, a grosseria?

gostei muito deste artigo que compara mães francesas às mães americanas, justamente porque fala sobre ensinar paciência, disciplina, respeito, com muita firmeza. dentro dos limites (que são frequentemente aqueles estabelecidos pelos outros seres humanos ao redor), podemos ser livres. ser livre, criativo e “energético”, não é sinônimo de ser inconveniente e cheio de vontades à revelia dos demais.

brasileiros (latinos, talvez?) são ainda mais permissivos que americanos com suas crianças. vivemos na ditadura dos pequenos, temos que nos submeter à vontade deles e aos seus comportamentos inconvenientes porque “são crianças”, afinal?

não creio que esse seja o melhor caminho. talvez seja o mais simples, o que dá menos trabalho. ou que nos faça sentir menos culpados, já que passamos boa parte do dia longe dos nossos filhos e queremos compensar.

quando me bate a preguiça ou a culpa quando preciso ser firme com meu filho (e sei que ele vai ficar triste), penso que estou ajudando sua versão futura a ser mais sociável e feliz, que ele sofrerá menos com as frustrações muitas que certamente virão, vivendo neste mundo cheio de gente e dificuldades.

não sou mãe francesa, eu sei, mas vou me esforçar muito pra ser cada vez mais. com firmeza e muito amor.