só no filé

já disse e repito: sou a favor de escolhas. acho que cada mulher deve mesmo ter o direito de parir onde e como quiser. parto é um processo fisiológico, individual e não deve ser tratado como condição médica. a intervenção deve acontecer quando necessária, e somente com consentimento da gestante ou da família. no mais, os profissionais da saúde devem apoiar o parto, dar segurança à gestante e garantir que em caso de problemas a devida assistência será dada. acho legítimo e muito interessante parir em casa, com a assistência de médicos qualificados, doula, obstetriz, com o apoio da família, enfim, o que quer que a gestante escolha e se sinta à vontade em encarar.

dito isso, quero fazer algumas considerações sobre a marcha do parto domiciliar, este é o motivo do post. acho incrível que mulheres se reúnam e saiam às ruas para defender o direito de parir em casa e ter um parto natural ao invés de irem a um hospital, especialmente num país cujo índice de partos via cesárea é muito superior ao recomendado pela OMS. parir naturalmente é melhor para a mãe e para o bebê, e o índice de partos normais nos hospitais públicos vem subindo, felizmente. com mais rigor e acompanhamento dos motivos de cesárea creio que em alguns anos esse número chegará a um nível aceitável.

e chegar a 15% ou menos de incidência de cesárea é suficiente ou significa que os direitos da mulher estão garantidos? NÃO, é claro que não. porque mesmo quando parto é normal, em hospitais públicos e privados, quase nunca há respeito pelo direito da mulher de viver seu processo de parto, escolher posição, quem estará acompanhando. quase sempre as mulheres são sujeitas a episiotomias “preventivas”, procedimento extremamente invasivo e francamente quase tão impactante quanto uma cesárea, apesar de menos arriscado (o impacto deste procedimento na vida sexual da mulher e sua autoestima são significativos, e não devem ser esquecidos).

gestantes são frequentemente chamadas de “mãezinha” por enfermeiras e médicos, como se não tivessem nome e identidade, e no momento em que deviam estar no controle do processo, são infantilizadas ou desrespeitadas. quantos já ouviram histórias sobre mulheres em trabalho de parto sujeitas a frases como “na hora de fazer tava bom, né? agora aguenta!”. e pior: precisam passar por isso num dos momentos mais difíceis e impactantes da vida de uma mulher, que é trazer ao mundo seu filho.

ou seja: na rede pública, 67% das mulheres são sujeitas a partos cirúrgicos (com todos os riscos envolvidos) com recuperação lenta e dolorosa (quem acha que cesárea é moleza é porque não passou por uma, obviamente); os outros 43% das “sortudas” que fazem parto normal estão sujeitas a trabalhos de parto sem apoio emocional e não raro tratadas com desrespeito no processo. animador, não?

vou dar um chute aqui, para efeito de argumentação — suponho que cerca de 90% das mulheres brasileiras usam o sistema público de saúde para dar à luz. muitas sem pré-natal, diga-se, seja por ignorância seja por falta de estrutura da rede de saúde.

diante deste quadro, volto à marcha e ao parto domiciliar — vocês sabem quanto custa esse parto domiciliar defendido na marcha, quando cobra uma obstetriz ou um médico como o jorge (com o qual me consultei, quando grávida. ele é ótimo!)? cerca de R$1.500 o médico e mais uns R$1.000 a doula/obstetriz. além das consultas de acompanhamento, claro, todas particulares e nunca menos de R$400. faça as contas, por favor, e voltemos aos 90% da população.

parto domiciliar é assunto para mulheres RICAS. mulheres pobres têm seus filhos em hospitais, aqueles que descrevi lá em cima, ou nas (raríssimas) casas de parto, que enfrentam inúmeras dificuldades, inclusive para se manterem abertas graças ao preconceito e à pressão de médicos para fechá-las. bem, e as mulheres paupérrimas têm seus filhos em casa, como as ricas, porém sem o auxílio luxuoso de profissionais.

chego finalmente ao assunto que me motivou a escrever o post: chega a ser um pouco ridículo ver a elite das mulheres, representantes orgulhosas do feminismo, sair às ruas de grandes centros para protestar pelo direito de parir em casa, considerando que essa opção só existe para mulheres que são ricas e representam a minoria da população.

onde estão as marchas, blogs, tweets, abaixo-assinados e campanhas online desse público engajado para melhorar as condições de parto da maioria das mulheres? não seria mais útil e humanitário fazer barulho e lutar por melhores condições de parto considerando a realidade da maior parte da população feminina?

uma coisa não invalida a outra, é claro, que venham mais marchas e protestos. mas se for para protestar e apoiar movimentos, da minha parte gostaria de ver estas mulheres muito mais engajadas em mudar as condições para TODAS e menos preocupadas com as que podem pagar pequenas fortunas para exercer seu direito de escolha (e já o fazem, a propósito). queria ver estas mesmas mulheres defendendo a descriminalização do aborto, tratamento humanitário em hospitais, mais casas de parto, pré-natal disponível para todas.

o que vejo, aqui à distância e metaforicamente, são mulheres ricas (antes de dizer que não são, que não somos ricas, lembrem da distribuição de renda, pensem bem…) protestando pelo direito de comer filé e não pé de galinha. com suquinho de maçã.

18 thoughts on “só no filé

  1. ouch!!!!
    Sabe que caí na besteira de comentar em um grupo de mães que achava que a mãe tem o direito de escolher o tipo de parto que ela quer. Fui massacrada com comentários do tipo “o parto em casa é muito arriscado, pra isso existem os hospitais e a cesárea” e “depois o bb nasce deprimido e fica sem oxigênio e não há nada que se possa fazer para evitar as sequelas”. O mais impressionante foi ouvir comentários desse tipo de Obstetras e Pediatras, que deveriam teoricamente apresentar os dois lados da moeda. Enfim, desisti de continuar a discussão por pura preguiça e por saber que estava em um grupo “alucinado”. De toda forma, simpatizo com a idéia de melhorar a condição da maioria, e não só a nossa 🙂

  2. Minha cunhada é médica (dermato), está grávida de 12 semanas e já decidiu desde o início (desde antes, eu diria) que fará cesárea. Diz que quem opta por parto normal o faz por ignorância dos reais riscos… Mas ela admite que em questões médicas tende a sempre pensar no pior, ser mais pessimista do que os “leigos”. Nem discuti…
    Mas é muito engraçado mesmo lutar pelo “direito” de parir em casa. Ora, direito todas temos. Tem que lutar, como você disse, por “condições dignas e seguras” de parto, para todas, seja em casa ou em qualquer lugar.
    Bjs

    • dani, fico impressionada como os médicos vêem o parto. quase todos que conheço têm MUITO MEDO. não é incrível, como chegamos ao ponto de ter medo do processo de nascimento da nossa espécie, aperfeiçoado através da evolução? 🙂

      por isso acredito que é preciso mudar algo nas faculdades de medicina, residência, etc. não é normal tanto mito e pavor em torno de parto, não nessa altura da civilização.

  3. Zel, como sempre voce foi direto ao ponto, so file. Como voce bem disse, todas as bandeiras do movimento “mae-xiita” (e.g. parto humanizado, amamentacao exclusiva e em livre demanda, utilizacao de alimentos organicos, dedicacao exclusiva aos filhos ate “x” anos) sao incompativeis com a realidade economica de mais de 95% das maes. Sao causas importantes e praticas comprovadamente melhores para a crianca? Sim, e todos devemos lutar por elas, mas sem nos esquecermos que o buraco e bem mais embaixo. So pode marchar quem tem alguem (conjuge, familiar ou hired help) na retaguarda cuidando do filho que ficou em casa, ne nao? Quero ver alguem fazer mais do que marchar pela dignidade humana e amplo acesso a saude e educacao (licenca maternidade e creches para os filhos das domesticas, anyone?). Ate la, seguimos com o proselitismo nosso de cada dia.

    • ah, raquel. i love you. licença maternidade pra quê, se a maior parte dessas mulheres (as que trabalham) podem parar de trabalhar, ou trabalhar em casa, meio período, e ainda assim continuar vivendo bem? se eu parar de trabalhar pra ficar em casa cuidado do menino, tou lascada. mesmo baixando o padrão de vida, é complicado viver com salário de 1 só. e de creche nem vou falar, que a situação aqui é TRISTE. além do que já citei, das condições de atendimento nos hospitais, que podia ser MUITO melhor.

  4. Isso me lembra um amigo meu, que dizia que síndrome do pânico é doença ocupacional da classe média – porque só eles têm dinheiro para o psicólogo. Minha resposta padrão era sempre dizer que enquanto rico tem “síndrome do pânico” e pobre tem “faniquito para pegar atestado e faltar no serviço”, vamos mal de país. Todo mundo, independente do bolso, deveria ter direito a tratamento adequado e sério quando necessário, e não ser tachado de folgado ou de estar fazendo drama pra pegar folga.

    (já teve alguém que precisou realmente tirar atestado de incapacidade por problemas de ordem mental? É praticamente impossível, te digo… Cachorro sarnento não é tratado pior)

    Com o parto é a mesma coisa. Enquanto 90% da população feminina tem que encarar tratamento ultrajante e os outros 10% estão nessa situação por você desenhada no post, vamos mal de país. Direito a condições decentes de parto e pós-parto (creche, local para amamentar/ordenhar no trabalho, licença paternidade maior) não é frescura. Mas o enfoque que estão dando para a coisa está transformando em frescura, e não sei se isso é bom.

    • anna, você tem toda razão. e de novo — não é que eu ache que defender parto domiciliar é ruim ou coisa parecida. é que tem MUITA coisa mais importante dentro deste mesmo tema pra gastar esforço com coisas tão supérfluas, convenhamos. beijo!

  5. Ei, Zel, é por isso que sou sua fã! Vc consegue escrever e expressar sem erros as minhas opiniões, obrigada 🙂

    (posso compartilhar este link no meu FB?)

  6. oi Zel, tenho um filhinho de um ano e dois meses e tenho muita simpatia pelo seu blog. mais do que isso, muitas vezes me identifico/morro de rir/me emociono com seus posts. fazia tempo que não entrava aqui. e não acho que entrei nesse post, justamente hoje, por acaso.
    quero contar que muitas, muitas mesmo, das mulheres que marcharam pelo Parto em Casa organizaram e participarão dessa audiência Pública: Saúde da Mulher – Desafios da Maternidade no Estado de São Paulo, que acontecerá amanhã às 14h30. caso queira, aqui tem mais info: http://www.casaangela.org.br/?p=2632
    vamos?

    • Liliam, eu trabalho o dia todo, e moro em Vinhedo! Não posso participar de eventos em horário comercial. Mas posso divulgar, a causa é importante. Vou mandar via FB e Twitter, quem sabe alguém dos meus contatos pode ir? Obrigada!

  7. oi Zel, quanto mais divulgação, melhor. acabei de receber mais uma info importante: TV ALESP vai transmitir ao vivo a Audiência Pública da Reunião conjunta das Comissões de Saúde, de Educação e Cultura e de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, da Cidadania, da Participação e das Questões Sociais, com o objetivo de realizar Audiência Pública sobre o tema “Saúde da Mulher – desafios à Maternidade em São Paulo”, a partir das 14h30!
    Basta clicar no link: http://www.al.sp.gov.br/portal/site/Internet/menuitem.318c50100527ce9a1f884f10160041ca/?vgnextoid=4723a1ac72eb8110VgnVCM100000600014acRCRD
    e selecionar o Auditório Paulo Kobayashi
    Obrigada!

  8. Olá pessoal, boa noite! Acabei de ler este post e senti vontade de comentá-lo. Não sei se para mim passou de maneira despercebida, mas, as marchar que vejo a mulherada fazendo por aí é denominada Marcha pelo Parto Humanizado, justamente o que evoca o respeito ao direito de escolha das mulheres e o atendimento obstétrico digno. O que vejo ocorrer é que, infelizmente, a maior parte da mulheres da minha classe, a classe pobre, não se importa em buscar informações sobre os processos de parto e atendimento ao mesmo em hospitais, a maioria nunca sequer ouviu falar em violência obstétrica. Não podemos “apontar” que quem marcha vai atrás do direito de consumir filé, pois cabe a nós, pobres e trabalhadoras, lutar pelo que nos compete, pelo que nos aflige. A luta, as reivindicações, faço por aquilo que acredito e necessito, não pelo os demais, então, acho que ao invés de ficarmos aqui, num espaço virtual, discutindo isso, deveríamos nos organizar para lutar pelas nossas causas. Rodas de gestantes devem ser organizadas nos locais de população pobre e desinformada, mas, antes, é necessário um trabalho de conscientização, caso contrário, as rodas de discussão e as marchas ficarão vazias, pois se não entendo o por quê da luta, não compareço. O trabalho deve ser voltado a conscientizar a nossa classe e não perder tempo com o que as classes abastardas querem.

    Abraços a todos.

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