quando queres o sim e o não, talvez

uma leitora generosa desse blog deixou um link nos comentários deste post sobre como conversar com crianças que fala sobre dizer não. acho que vale compartilhar um pouco da minha experiência, pois decidi conscientemente como lidar com a questão, e até o momento fui bem-sucedida.

não sou dessas mães que são contra dizer não para crianças. já vi mães que não falam a palavra não (sei lá porque… dá azar? traumatiza? :)), e acho bem estranho. poxa, receber nãos é parte da vida!

mas concordo com o seguinte: fica complicado (e chato) quando você fala não o tempo todo, pra tudo. quando a criança começa a se movimentar e explorar, se não houver um mínimo de liberdade no ambiente onde ela fica e TUDO é proibido, a vida vai ser uma sucessão de nãos, o que é muito frustrante. crianças precisam de ambientes que possam ser explorados, experimentados com o corpo todo (a boca inclusive). você não precisa deixar sua casa inteira disponível para a criança, mas alguma área disponível precisa existir, para que ela faça o que foi programada pra fazer nesta fase (sem obstáculos frequentes): explorar.

ou seja — a criança precisa ouvir sim também, combinado com os nãos. até pra perceber a diferença, e aprender como funciona quero/não quero, pode/não pode. li em algum lugar que é bom balancear esses sim/não, de forma que um não fique muito mais frequente que o outro. falar sim demais pode criar situações de perigo ou tornar seu filho uma daquelas crianças sem limite que todos detestam; falar não demais pode deixar a criança intimidada e contrariada, e os 2 comportamentos são muito difíceis de lidar.

como equilibrar?

o ambiente

em casa, adaptamos algumas coisas principalmente para evitar perigos graves (cantos de vidro, tomadas, objetos pesados que poderiam cair em cima do bebê, etc.) e para evitar quebrar coisas que não podem ser repostas ou são caras demais (enfeites, eletrônicos mais delicados).

a casa ficou quase a mesma, mas não dá pra disfarçar que uma criança mora lá (nossa morada não é mais capa da casa claudia… :D), sempre tem um brinquedo, coisas espalhadas e alguns protetores de canto de mesa. ou seja — na medida do possível pra nós, cedemos para poder falar mais sim que não.

mas lembre que falar o sim é importante: observe a criança explorar e incentive a exploração de coisas que podem ser exploradas. dessa forma, quando você precisar dizer não, pode sempre contrapor ao sim. por exemplo: “o dvd player não pode pegar, otto, por que você não brinca com as caixas de dvd, que estão aqui?”

nós acabamos cedendo com algumas coisas que talvez não devêssemos, porque achamos graça e depois ficou muito difícil de mudar. o otto não engatinhava, ele “minhocava”. temos torres de cds na sala, e não tiramos. ele aprendeu a tirar os cds de dentro, e espalhar no chão. achamos super bonitinho ele tirando os cds com os dedinhos, e deixamos. só que ele cresceu, e começou a tirar mais e mais cds, espalhar no chão, abrir, destruir as caixas, e por aí vai. aí, aquilo que antes era permitido virou proibido, e foi muito chato ensinar pra ele a não estragar, na brincadeira. cds foram perdidos no processo, nos estressamos, ele chorou. penso que teria sido melhor já evitar a brincadeira no início, mesmo que inofensiva, pensando no futuro. mas pais de primeira viagem são assim mesmo 🙂

entenda como a criança funciona

a maior parte dos conflitos com crianças nesta idade (1 a 4 anos) é relacionada à necessidade de afirmar-se como um individuozinho independente 🙂 segundo o que tenho lido sobre desenvolvimento de crianças, isso é parte do crescimento e desenvolvimento cerebral — é sinal que a criança está se desenvolvendo como devia. está aprendendo a ser um ser separado, independente, e precisa se afirmar nesta condição.

quando os pais ou cuidadores não dão algum espaço para que a criança ocupe, a convivência pode ser muito desgastante. pense que a criança é completamente sujeita às regras e ideias de uma família que já existia, de adultos que já têm feito as coisas “do seu jeito” por muitos anos, e esperam que a criança simplesmente se adeque. só que ela vem programada para confrontar, testar e “ser ela mesma” (de preferência ao contrário do que é proposto :)).

o que fazer? criar aberturas para que a criança possa fazer as coisas do jeito dela de vez em quando. obviamente isso demanda um pouco de neurônios da sua parte — como dar à criança opções sem transformar sua vida num inferno ou criar um monstro? o que eu fiz foi dar opções em situações simples, tais como oferecer opções de roupa/sapato (viáveis, pra não me infernizar. não ofereça a fantasia de batman se não é uma possibilidade), oferecer sempre várias opções de comida na refeição (se tiver vários vegetais diferentes como opção, se a criança não quiser 1 ou 2 deles, tá tudo OK. e tem que variar sempre, pra não “viciar” a escolha).

outra coisa útil é oferecer opções no caso do não. o otto por exemplo não pode ficar de pé na banheira, durante o banho (escorrega). todo dia (sem exceção) ele tenta ficar de pé, ou fica de fato. ele sabe que não pode, porque já expliquei que ficar de pé é perigoso, e escorrega (ele já escorregou, quase caiu, ficou com medo e continua instindo, porque faz parte da idade, oras). fiz 2 coisas — avisei que se ele insistir em ficar de pé o banho acaba (e cumpro a promessa, já tirei do banho várias vezes depois de ter acabado de entrar) e disse que ele pode ficar sentado (o “normal”, que a gente espera) ou pode ficar de joelhos. ficar de joelhos é uma concessão, um compromisso entre o que eu quero (sentado) e o que ele quer (de pé). dou a ele as opções, e ele normalmente prefere (adivinhem?) “de joelhinho”. ele fica de pé, eu já aviso “otto, como é o combinado? aqui no banho, só sentado ou de joelhos. senão, acaba o banho. quer sair do banho?”. depois dessa conversa o mais normal é ele sentar ou ajoelhar, e afirmar a escolha — ele fala “sentado” ou “joelhinho”, olhando pra mim com aquele tom de que ELE optou. e quando preciso tirar ele do banho, ele já não chora, só fala “mamãe avisou!”. ou seja, ele sabe as regras, testou e entendeu as consequências.

procuro pensar em opções sempre, em todas as situações, pra evitar obrigá-lo a alguma coisa. na hora de comer eu acho o mais complicado, porque não é possível realmente obrigar ninguém a comer. isso não é problema aqui em casa e acho que temos a sorte dele ter ótimo apetite e gostar de comer, mas também acho que darmos várias opções e respeitar quando ele não quer faz diferença. ele avisa quando não quer (não insistimos) e paramos quando ele diz que está satisfeito (“feito!”, indicando com a mão que acabou). quando ele não falava, simplesmente respeitávamos quando ele cuspia. e percebi que às vezes deixava de lado as coisas que ele não queria comer, e quando eu menos esperava ele mesmo pegava com as mãos e comia, sem ninguém dar. ou seja — quando ele teve espaço pra escolher e comer sozinho, ele comeu.

também destaco algumas ocasiões que ele simplesmente se recusava a comer (entre 1 ano e 1 ano e meio), e eu tive uma intuição de que ele queria comer sozinho, deixei. funcionou muito bem — deixá-lo tentar (com as mãos e com talheres) foi a solução. várias vezes ele só comeu depois que deixamos que ele fizesse tudo sozinho. depois misturamos, deixamos uma parte do prato pra ele comer, e outra a gente vai oferecendo. essa é a melhor combinação, porque conseguimos controlar mais ou menos o que e quanto come, mas ao mesmo tempo ele se sente no controle da situação.

suponho que com roupas seja mais ou menos igual. acostumamos a escolher tudo, e sempre pensei que a criança só escolhe roupas e sapatos bem maior. a verdade é que com menos de 2 anos a criança já quer fazer suas escolhas, colocar roupas e sapatos sozinhos, e quanto mais pudermos deixar escolher, melhor. sempre orientando e ensinando, mas deixando que eles sejam independentes. o otto gosta de colocar as crocs dele sozinho. ao invés de insistir em colocar eu mesma (que é muito mais rápido e prático), deixo ele tentar, mostro como é o jeito certo e observo, corrijo. aquela tarefa que você faz em 3 segundos, ele demora 3 minutos. é chato esperar, e às vezes estamos com pressa (é a hora de não dar opção, claro), mas sempre que possível, deixe. lembre que colocar sapatos nos pés certos, sozinho, é um grande empreendimento pra um bebê, é um aprendizado que ele vai levar pra vida depois, sem nem saber.

e é disso que trata criar crianças — ensinar tudo o que no futuro nem sabemos como aprendemos. um dos grandes aprendizados (e fonte de grande fascínio) de tornar-se pai e mãe é descobrir o quanto é complexo aprender todas as coisas simples e inconscientes que fazemos quando adultos.

ensinando o não de verdade: eles também devem poder usar!

não acho que crianças devam ser tratadas como adultos, pois afinal não têm o mesmo repertório e nem entendem todas as regras de convívio. mas também acho que precisamos aproveitar toda oportunidade para ensiná-las como funciona o mundo “dos adultos”, e aprender sobre “não” é um ótimo exemplo.

para que a criança entenda de verdade como funciona o sim/não, é essencial que ela também possa exercitar e praticar. ou seja — é preciso dar espaço para que ela diga SIM e NÃO. quando começar a fase de você ter que dizer não para a criança, ensine que isso é uma “ferramenta” que ela também pode usar. por incrível que pareça, isso ajuda muito no processo como um todo e também vai ajudar você a entender o que seu filho gosta e não gosta. isso funciona também porque dá à criança a sensação boa de ter algum controle sobre si mesma, que é exatamente o que ela vai querer a partir de 1 ano mais ou menos.

falei um pouco sobre isso no bloco anterior, mas aqui quero contar sobre uma prática que com o otto funcionou bem demais: ensiná-los a expressar frustração e dizer “não” (mesmo sem falar!)

percebi quando o otto estava com menos de 1 ano (10, 11 meses) que ele dava chilique quando contrariado. foi inclusive o motivo de ter começado a ler o livro sobre essa idade, porque se tem coisa que sempre detestei é criança que dá escândalo. e o otto dava — nem andava ainda e já se jogava, gritava, uma coisa histérica.

o que melhor funcionou pra ele (entre outras coisas combinadas) foi ensinar a se comunicar de outra forma que não o chilique. pense no seguinte — o chilique funciona! comunica perfeitamente bem que ele está contrariado, e aciona todos os adultos ao redor a fazer o que ele quer (a gente acaba fazendo qualquer coisa pra aplacar chilique, principalmente em público). ou seja: corrija os chiliques em casa, mude o modus operandi, porque na rua são muito difíceis de corrigir. uma vez corrigido o problema em casa, provavelmente não vai acontecer na rua.

então, a primeira coisa que ensinamos foi como se comportar quando estiver contrariado. ensinamos 2 coisas: a dizer não com o dedinho (ele não falava nada) e a “dar bronca” quando estivesse bravo — ele aprendeu a apontar o dedinho em riste pra gente, balançando, e grunhindo, com cara de bravo 🙂

pode parecer bobo (e é super engraçado, mas não pode rir, tá?), mas funciona se você reagir da forma correta a cada estímulo. o que “combinamos” com ele depois de ensinar o não/bravo: os chiliques não vão funcionar. a gente só vai responder ao dedinho/bravo. chiliques vão ser ignorados. e assim fizemos — ensinamos, ele aprendeu e repetiu. cada vez que ele começava com chilique, a gente falava “enquanto você não parar de gritar e espernear, não vamos fazer nada”. tem que ter paciência, pois nas 1as vezes ele demorava a perceber que não ia funcionar, e depois de um tempão “testava” a outra forma de comunicação. quando ele tentava, a gente respondia imediatamente e incentivava, elogiava. em pouquíssimo tempo ele entendeu e mudou o jeito de se manifestar. crianças são extremamente perceptivas, espertas e adaptáveis. elas vêm preparadas para aprender e se adaptar ao que funciona. se o chilique funcionar, amigos, ferrou.

uma das coisas mais importantes deste processo é que a criança, além de aprender como se comunicar de forma eficiente, tem a sensação de ser compreendida. sentir-se entendido nesta fase de comunicação precária (até que eles dominem o verbo) é um calmante natural. parece mágica — basta que a criança perceba que entendemos o que ela precisa e se acalma. quando ela consegue também “ganhar” um combate (fazendo o que “quer”), tanto melhor.

o desafio é ensinar isso tudo a uma criança tão pequena, dar alguma liberdade (para criar um ser humano confiante e que toma decisões!) e ao mesmo tempo incentivar comportamentos que sejam socialmente aceitos. não é fácil, mas tenho achado muito estimulante. além de me fazer pensar sobre mim mesma (*).

**

(*) este é assunto pra outro post longo, mas dou uma palhinha: preste atenção ao quanto da sua frustração e dificuldade em lidar com a criança tem a ver com problemas SEUS (perfeccionismo, ideias “fixas” sobre o que é certo e errado, réplica inconsciente da educação que você mesmo recebeu na infância). ser pai/mãe é ter que se confrontar com todos os seus fantasmas, acredite.

diário do otto: 2 anos, 24 meses \o/

otto, meu menino grande:

esse foi um lindo mês, e como algumas pessoas tinham me contado, melhora a cada dia. você está enorme, esperto, e muito muito engraçado. essa fase de começar a ter (e verbalizar) ideias da sua cabecinha é incrível, as frases e palavras mais fofas aparecem quando menos esperamos e é impossível não morrer de fofura a cada nova situação.

enquanto escrevo você está no seu quarto, conversando com a maria (sua babá), morrendo de rir das coisas que ela fala, e tagarelando. estamos muito orgulhosos de você, que tem um temperamento tão doce e observador, é bem-humorado e esperto.

este mês, além da sua festa de aniversário (conto já como foi), tem uma novidade: decidimos colocar você na escola, finalmente! pretendo escrever um post só sobre isso, mas já conto que depois de visitar 3 escolas, escolhemos uma waldorf para sua primeira infância. o principal fator para a decisão foi realmente a estrutura da escola — muito verde, atividades artísticas e alimentação alinhada com com o que oferecemos em casa pra você. estamos ansiosos pra que você comece, e que dê certo!

neste mês você se desenvolveu bastante na linguagem, especialmente formando frases e criando estruturas por sua própria conta. a conjugação verbal continua espantosa (muito certinha), e você adora os gerúndios — sempre fala coisas como “quer andar… andando!”, “pingando” quando abrimos o chuveiro por exemplo, e sabe direitinho o passado/presente (andou, andei). mas ainda insiste em falar “venhanta!” e “trazeu” ao invés de trouxe 🙂

ontem mesmo morremos de rir de você, que levou uma bronca por ficar de pé na banheira e falou “nem pensar!” quando disse que não podia ficar de pé. de onde você tira essas expressões? 🙂

atualmente você conta até 20, reconhece todos os números e já conhece todas as letras do alfabeto, é incrível. não só quando a gente pede pra mostrar a letra, mas reconhece também nos textos (as maiúsculas somente, por enquanto). é uma graça você falando “I de vovô ivan” e “k de kito”. mas a letra mais engraçada de todas é o Y = “íbulon”! não é que a gente queira que você leia/conte tão cedo, mas é TÃO bonitinho você sabendo essas coisinhas que a gente acaba incentivando mesmo sem querer.

as coisas que você mais gosta de fazer ainda são passear pela grama e pela areia, desenhar com giz, carrinhos e todos os brinquedos com barulho. ah, e o ipad, claro! notamos que agora você se interessa mais pelas outras crianças, e quer interagir (ou seja — hora de ir para a escola mesmo). ficamos um pouco preocupados, pois você é bastante contido, e mesmo quando outras crianças tiram brinquedos de você, nunca reage ou tenta reaver. você coloca as mãozinhas pra trás e fica bravo, pede de volta mas não “se defende”. por outro lado, achei muito fofo quando a sophia (sua amiguinha de 9 meses, filha do alexei e da fer) pegou seus brinquedos bem na sua frente e você não arrancou da mão dela, simplesmente falou (bem bravo): SHOLTA! é muito bonitinho ver como você não é agressivo, mesmo quando está bravo.

sua festa foi para poucas pessoas, somente os mais chegados mesmo da família (20 pessoas), e preparamos tudo em casa: brigadeiros de chocolate belga, bolo gelado de coco, carne louca, bolo salgado de frango com requeijão, pipoca, frutas, queijos, refri, suco, cerveja. bem simples, parecido com as festas de quando eu e seu pai éramos crianças, tudo feito com carinho e em casa. a caixa do bolo foi sua avó vera quem deu, e nós decoramos com a ajuda do tio weno e mawá. a carne e o frango a patrícia que nos ajuda em casa fez. os brigadeiros o tio weno fez e a tia ziza, vovós e mawá enrolaram. o bolo eu mesma fiz, e embalamos pedaço a pedaço. a vovó vera montou e decorou o bolo salgado, e depois arrumamos a mesa de aniversário, com bexigas lindas que o weno fez.

a tia tina, flávio e jojô vieram no sábado ver você. no domingo estavam aqui: vovós, vovô ivan, tias ziza, paula e kelly, sheilinha e thiago, sandra, césar, weno e mawá, alexei e fer com a sophia, lea, julia, denize e teo, alê, laura (sua paixão!) e clara. todos muito felizes por estarem juntos e comemorando mais um ano seu. a festa foi linda, tranquila e muito feliz. sua carinha na hora do parabéns foi impagável — você sorria o tempo todo, olhando um por um, e no final pediu “de novo!”. tivemos óculos para brincar, e sua foto mais linda foi com o coração nos olhos, veja:

 
❤

foi um dia muito feliz. fiz pra você um caderninho com fotos impressas dos seus 24 meses, para que as pessoas deixassem recado, se quisessem. os recados são lindos, espero que você goste e guarde com carinho quando crescer e aprender a ler!

sua alimentação continua ótima, você come de tudo e com muito gosto, não dá trabalho algum. seu sono tem variado, mas no geral melhorou (principalmente porque quando você dá trabalho a gente dorme junto, e pelo menos consigo dormir :D). você agora tira uma soneca de 1-2h depois do almoço, e dorme entre 19:30h e 20:00h e vai até 6:30h, quando vai pra nossa cama e fica vendo vídeos no ipad até as 7:30h. com o início da escola, isso provavelmente vai mudar! vamos ver como ficará.

meu amor, parabéns pelos seus 2 anos. amo muito você, que tem me ensinado todo dia como é bonito acompanhar o crescimento de outro ser humano, e que também me faz lembrar do quanto é importante sorrir, brincar e ser feliz.

com todo amor do mundo, mamãe.

(fotos da sua festa de 2 anos, e fotos suas com 24 meses.)

conversando com crianças

escrevi um post bem completo sobre feedback em geral, mas achei importante escrever aqui especificamente sobre como dar feedback para crianças, pois creio que a forma como fazemos isso durante a primeira infância faz uma diferença enorme para o resto da vida. receber críticas faz parte do processo de aprendizado e crescimento, acho impossível educar alguém sem pontuar comportamentos inadequados. mas se nem nós, adultos, que já aprendemos a racionalizar o mundo, ficamos neutros à crítica, por mais que ela seja bem explicada e legítima, como as crianças lidam com isso?

[acho que é  importante mencionar neste ponto que sou contra punições físicas. fui uma criança que apanhou (de chinelo) e não tenho nenhum trauma (pelo menos que tenha aparecido até hoje, mesmo depois da terapia :D). confesso que os sermões da minha mãe me afetaram (e afetam) mais que as chineladas. mas sou contra, sim, porque acho covardia bater em quem não pode se defender, é bem simples. bater é um recurso que descarrega a raiva e frustração dos pais, que gera medo na criança (o comportamento se altera por medo de apanhar de novo) e que não se preocupa em entender de onde vem o problema. porque, afinal, se você vai se dar ao trabalho de entender o porquê do comportamento inadequado, bater na criança acaba sendo desnecessário. além disso, se apanhar resolvesse mesmo toda criança que apanha seria um amor.]

antes de mais nada, então, uma constatação que pra mim foi novidade: crianças não são boas com racionalização. isso não quer dizer que elas não pensam e não entendem o que se passa ao seu redor; quer apenas dizer que elas não dominam a técnica de compreender e mapear o mundo através das lentes da razão, pois isso é aprendido e dominado com o tempo e o uso. crianças são serem emocionais, simplesmente porque é desta forma que seu cérebro funciona nesta fase (mais direito, menos esquerdo). este livro que gosto muito (e me ajudou com o otto desde pouco antes de 1 ano) fala bastante sobre isso, ensinando técnicas para lidar com crianças de 1 a 4 anos de forma simples e sem grandes dramas e punições.

a maior parte do mundo dos adultos supervaloriza a racionalização. tudo é explicado, dissecado, provado e analisado. não que eu seja anti iluminista, mas creio que perdemos quando valorizamos demais o racional em detrimento do emocional, esquecemos que somos compostos de razão e emoção e valorizamos mais a primeira que a segunda. e as crianças, predominantemente emocionais na primeira infância, perdem mais ainda. sem perceber, muitos pais e tutores ensinam suas crianças que existem sentimentos “bons” e “maus”. que sentir raiva, medo, inveja, ciúme, cobiça é errado e deve ser evitado. nem digo escondido, porque esconder pressupõe aceitar a existência. somos ensinados a suprimir, temer e ter vergonha dos sentimentos “negativos”. mas como fazer isso? não sentir os sentimentos negativos seria como deixar de respirar! então aprendemos a negar e principalmente disfarçar sentimentos “inaceitáveis”, travestindo-os de outra coisa.

para ilustrar esse texto, vou usar uma história minha que acredito ser perfeita para demonstrar todo o assunto, e que me rendeu vários insights na terapia. eu tinha 10 anos, mais ou menos, era natal. nos meses anteriores, criei uma expectativa de ganhar de presente da minha avó materna um par de patins. eu amava patins, era início dos anos 80, calculem. sonhei muito com os tais patins, e na noite de natal finalmente eles chegaram. o problema é que quando abri o presente, me deparei com patins de plástico, bem vabagundos e obviamente diferentes dos que tinha idealizado. não sei dizer se falei alguma coisa, ou se fiz cara de decepção, mas certamente demonstrei meu desagrado. só me lembro bem claramente da minha mãe me chamando no canto, e me dando a maior bronca do mundo, pois minha decepção tinha chateado a minha avó, coitada, que era muito pobre e tinha se sacrificado pra comprar aqueles patins que eu tinha desprezado. lembro que chorei muito, e me senti a última das criaturas, uma sem coração e sem consideração, mimada.

esse é só um exemplo, tenho muitos outros parecidos da minha infância. quando criança, fui ensinada a obedecer sem questionar, fazer o que me mandavam e aceitar o que me dessem, sem reclamar. só quando me tornei adolescente é que meus pais me deram espaço para o questionamento e tomada de decisão (fiz minha primeira tatuagem com 15 anos, com aprovação de ambos!). logo que comecei a dominar a racionalização me convenci de que tinham razão de ser tão rígidos, que assim eu não me tornaria uma mulher mimada e sem noção, aprenderia o valor das coisas e a respeitar os outros. é verdade que aprendi a respeitar os outros, e não sou nem um pouco mimada, mas tem um pequeno detalhe — não aprendi a respeitar a mim mesma, expressar meus sentimentos nem a impor limites. e estes são atributos fundamentais para qualquer adulto ser minimamente feliz convivendo com outros.

e onde foi que minha mãe errou nessa história? vamos supor que eu tenha deixado claro (verbalmente ou não) para minha avó que estava decepcionada com o presente. o que ela devia ter feito?

em primeiro lugar, devia ao menos tentar colocar-se no meu lugar e tentar ver a situação através dos meus olhos de 10 anos (mas vejam que ela conseguiu se colocar no lugar da minha avó muito bem. tenho certeza que minha avó não foi reclamar com ela, mas ela teve empatia absoluta com o adulto na situação). aliás, arrisco dizer que ela deve ter projetado suas próprias frustrações de criança e adulta nessa situação, algo como “eu era muito mais pobre e não reclamava! nem ganhava presente de natal!”.

se tivesse se colocado no meu lugar, ela teria percebido que é absolutamente normal ficar chateado por ganhar um presente vagabundo. mesmo que não fosse vagabundo — sonhar com X e ganhar Y é motivo de frustração. não importa se a expectativa era real, imaginária, se eu devia ou não ter criado expectativa, é irrelevante. o sentimento de frustração é legítimo, e compreensível. sem julgamento de certo/errado, é simples entender.

essa é a primeira dica — não julgue sentimentos, reconheça o direito do outro a sentir o que estiver sentindo. sentimentos são o que são, nem bons nem ruins, nem certo nem errados. dê à criança o direito de sentir o que quer que ela esteja sentindo. não diga que a criança não deve ou “não tem porquê” sentir X. todas as pessoas têm direito de sentir o que sentem, ponto final.

e quanto ao fato de eu ter demonstrado que me chateei, chateando minha pobre avó? ela poderia ter me explicado sua percepção — que quando eu demonstrei tão claramente minha decepção, minha avó tinha se sentido mal por não ter agradado, e que ela também tinha se sentido mal por empatia. reconheço o potencial educacional de mostrar que minha reação de desprezo ou chateação com o presente também teve consequências, que se por um lado eu me chateei por não ganhar o que queria, por outro a minha avó estava decepcionada por não ter me agradado. seria uma forma de mostrar causa/consequência sem julgar quem está certo ou errado, só mostrando fatos.

a segunda dica é — mostre como o nosso comportamento afeta os demais ao redor, ou seja, quais são as consequências dos nossos atos. use a realidade (o exemplo) para demonstrar que quando sentimos e falamos/mostramos X, as pessoas como consequência também sentem e falam/demonstram Y. é assim que funcionam os relacionamentos, ação e reação. cada oportunidade destas é uma chance de mostrar para a criança como funcionam os relacionamentos. elas têm direito de sentir o que quiserem, e de se manifestarem, porém existem consequências, e precisamos lidar com elas. esse é o processo, super difícil, de amadurecimento.

minha mãe devia ter reconhecido meu direito de me chatear, sem me fazer sentir inadequada por não gostar do que ganhei, isso nem se discute. e poderia também ter me feito perceber que quando eu demonstrei minha chateação, isso causou uma frustração na minha avó (causa/efeito). poderia ter me dito que era uma opção minha disfarçar a frustração ou demonstrá-la, dependendo de como quisesse lidar com as consequências.

mas e se eu tivesse sido realmente grosseira  — tipo jogado o presente no chão ou dito que aquilo era uma “porcaria”? meu sentimento continuaria válido, a diferença é que neste caso meu comportamento não seria socialmente aceitável. a criança pode sentir o que quiser, mas precisa respeitar minimamente as regras da comunidade em que vive. destaco “comunidade” porque alguns comportamentos são aceitos em certos círculos e não são em outros. como pai ou educador, acho que devemos “equalizar” comportamento conforme a sociedade de forma mais ampla possível, para que a criança não sinta um choque quando sai do convívio familiar para um círculo mais amplo.

daí vem a terceira dica — diga exatamente que comportamento é esperado, e deixe claras as consequências caso não seja adequado. não adianta dizer “não faça assim” e não dizer o que espera que seja feito. dê o exemplo no dia a dia, e reforce no momento da conversa, mostre como se comportar de forma aceitável. fale sobre as vantagens de comportar-se desta forma, das desvantagens de outras formas. explique o que pode e vai acontecer caso insista em se comportar de forma inadequada. e, é claro…

… a quarta dica é — garanta que existam consequências (ou esclareça consequências que não foram percebidas). na minha história, seria tão simples quanto minha mãe chamar minha atenção para a chateação da minha avó com meu comportamento. se eu tivesse sido grosseira, ela poderia além de falar da chateação da minha avó, explicar que ser grosseiro não é uma opção, pedir que eu me desculpasse pela grosseria e aplicar algum tipo de castigo (doar os patins? não usá-los? ou qualquer outra coisa que me fizesse “sentir” a consequência).

mas não esqueça da dica mais importante, e mais crítica, quando se trata com crianças — não coloque em questão seu amor por elas em função de comportamentos inadequados. ninguém *é* o que *faz*. não é porque alguém erra em alguma situação que é errado, ponto final. as pessoas erram de forma circunstancial, às vezes por ignorância, às vezes de propósito, mas só os psicopatas não se importam. a grande maioria das pessoas erra por falta de orientação, educação e feedback. a maioria das pessoas não quer chatear as outras, causar conflitos. e as crianças erram porque estão aprendendo, porque seguem exemplos muitas vezes errados, porque não sabem controlar seus impulsos ou porque querem chamar a atenção. cabe aos educadores, em especial os pais, entender os motivos da criança e ensiná-la a se comportar de forma adequada.

**

são poucos pontos para praticar, mas é longe de ser simples, especialmente pelos seguintes fatores:

– como ter empatia com o sentimento do outro quando nunca tiveram empatia com os seus, ou quando você mesmo não tem empatia consigo mesmo?

– como separar claramente sentimento e comportamento como coisas independentes?

– como orientar sobre comportamento adequado caso você mesmo não seja o melhor dos exemplos?

– como “impor” consequências balanceadas, compatíveis com o comportamento inadequado?

– c0mo deixar claro para a criança que nós a amamos mesmo quando elas erram, que errar não é definitivo e que elas podem corrigir seu comportamento?

 

não sei se é claro pra vocês como é pra mim que para conseguir seguir estes passos minimamente precisamos:

– conhecer a nós mesmos muito bem

– livrar-nos de fantasmas e traumas do passado

– perdoar nossos próprios erros, e saber que erramos e erraremos de novo e que podemos acertar

– amar e aceitar a pessoa e criticar somente o comportamento

– conseguir nos colocar no lugar do outro

– dar bons exemplos, fazer o que diz — walk the talk.

 

pode ser difícil, sim, mas é perfeitamente possível, e muito gratificante porque funciona. não só com crianças mas com adultos também. e é possível também se recuperar de uma educação que não se preocupou com nenhuma dessas coisas — eu sou prova viva disso!

e para lidar com crianças na idade do otto (até 4 anos) em situação de crise de comportamento (chilique :D), adicionaria alguns complementos:

1) fale com a criança “de igual pra igual” — com palavras simples, muitas repetições das palavras-chave e com muitas expressões faciais. a melhor forma de se “conectar” com a criança é olhar no olho e demonstrar que você entendeu como ela se sente. quando ela perceber que você entendeu como ela está se sentindo (empatia), o chilique acaba. juro por deus.

2) explique de forma simples o que você quer que a criança não faça e o que você quer que ela faça. por exemplo: “otto, andar sozinho na rua não pode. na rua, só com a mão dada.”

3) dê opções, sempre. mesmo que elas pareçam bobas pra você, para a criança é importante sentir que decidiu. por exemplo: “otto, você pode dar a mão para andar na rua ou você vai no colo. o que você prefere?”. não quer dar a mão? não vai andar sozinho, ponto final.

e, é claro, bom senso: há situações em que não cabe conversar, discutir e dar opções. esse processo de feedback tem como objetivo educar a criança para aprender a se comportar em sociedade, é trabalho de formiguinha, de todo dia, não é uma ocasião ou outra de “faça o que eu digo” que vai traumatizar a criança.

no mais, gente… boa sorte pra todos nós 🙂

crianças e tecnologia

sei que tem quem ache que deixar crianças usarem gadgets é coisa ruim, de pais que não querem dar atenção pra criança e que crianças devem brincar com outras coisas. concordo com a preocupação, e discordo da demonização de devices (inclusive da TV).

acho que a grande questão da discussão é o quanto a atividade é completamente passiva ou ativa e principalmente o balanceamento entre tipos.

computador, TV, aparelho de som, gibi, iphone, ipad ou qualquer outro device podem ser educativos e estimulantes, tudo depende do que está rodando nele, a personalidade da criança e obviamente a participação dos pais no processo.

sentar no sofá e ver TV (ou ver vídeo no youtube, ou assistir clips no ipad…) é passivo; ouvir música também. mas é completamente passivo, não estimula nenhuma área do cérebro? claro que não, poxa. ver desenhos, ouvir música, ver e ouvir vídeos são estímulos, sim. são estímulos diferentes de resolver quebra-cabeça e interagir com o device, é claro. assim como brincar de quebra-cabeça é diferente de correr e jogar bola. estímulos diferentes, desenvolvimentos diferentes. e minha opinião é que há grandes benefícios em todo tipo de atividade, o importante é que os pais se dediquem a direcionar, garantir que seus filhos serão expostos ao máximo de possibilidades, aprendendo de tudo um pouco.

acho importante ter momentos de calma e introspecção, ouvindo música, por exemplo. ou o mergulho no mundo interior/fantasia de contar uma história, ler um livro, ver um filme. gostaria que meu filho também aprendesse o prazer e a importância de divertir-se com calma, por si próprio, seja sozinho ou acompanhado de algum estímulo.

claro que o desenvolvimento físico é importante também — correr, pular, subir/descer, explorar fisicamente o mundo é essencial para o desenvolvimento de qualquer ser humano. neste ponto, sou uma mãe privilegiada — vivemos numa cidade pequena, moro num condomínio com inúmeras possibilidades de lazer. podemos fazer coisas simples como correr na grama, brincar na areia, em brinquedos de parquinho, subir em árvores, comer frutas do pé, nadar na piscina, dar comida aos patinhos no lago, tomar banho de mangueira. jogamos bola, brincamos no quintal, observamos o pôr do sol, as árvores, as flores e os bichinhos, e meu filho é exposto a isso o dia todo (e ele adora).

fiquei pensando que o problema talvez seja que essa nossa realidade é diferente da realidade de tantas outras crianças que vivem em cidades grandes ou mais pobres (com menos opções de área de lazer legal e segura). é compreensível que levantem questões sobre crianças submetidas predominantemente às atividades, digamos, passivas.

aqui em casa, gastamos uma parte do tempo brincando com o otto de coisas como quebra-cabeça, livrinhos, carrinhos, cantando músicas e interagindo com os brinquedos e entre nós. ele não gosta ainda de TV, e só assiste 10min de desenho de manhã e à tarde, que é o tempo de tomar a mamadeira (sentamos com ele no sofá e vemos desenho e damos mamadeira), e ele parece gostar. mas acabou a mamadeira, corre pra fazer outra coisa e ignora a TV de novo.

ele gosta muito do iphone e ipad (são os devices que temos em casa. tenho um blackberry também, mas ele não liga pra ele, afinal não tem nada legal :D), e procuramos deixá-lo brincar somente quando não tem mais nada pra fazer ou queremos distraí-lo enquanto fazemos outra coisa. o ipad e iphone viraram nossa salvação no carro, quando precisamos esperar alguma coisa e ele está impaciente, mas em especial nas primeiras horas do dia. o otto acorda às 6:30h, então usamos 1h da manhã (até a babá dele chegar) pra cochilar um pouco enquanto ele brinca na nossa cama com apps de quebra-cabeça, vê histórias ou vídeos (e nos chama pra ajudar, de vez em quando).

bom, pra quem como nós acha que brincar com devices é legal, não estraga a criança e nem transforma os pais em negligentes 😀 segue a dica de um site que faz crítica de apps para crianças e as nossas dicas pessoais sobre apps (para iphone e ipad) que o otto ama (e a gente também), desde mais ou menos 6 meses, quando começou a brincar com os devices.

apps4kids: site especializado em apps para crianças, tem MUITA coisa, separada por idade inclusive.

the fantastic flying books (grátis): essa app (exclusiva para ipad) não é para a idade do otto, mas ele ADORA (e nós também). é uma história interativa, muito lindamente contada e desenhada, e tem algumas oportunidades de interação bem fofas. ele passa um tempão indo, voltando, explorando, é uma graça. e a história é linda.

toca boca (alguns grátis, outros não): é uma empresa de jogos que ganhou nosso coração, dica do antenadíssimo tio weno. eles têm vários jogos legais, nós baixamos o paint my wings, hair xmas, toca doctor (o nosso preferido) e toca monsters (o preferido do otto-ogro, de longe, já que trata de comida).

memory (grátis): adoramos esse jogo simples de memória, com 3 opções de desenhos e várias de complexidade. o otto ainda não entendeu 100% como joga, mas gosta de achar os desenhos iguais, tem musiquinha legal e tudo. acho que pode ser mais legal ainda pra crianças maiores.

talking tom: sucesso absoluto entre crianças (e adultos meio lesados como eu), o gato repete o que a gente fala e reage a alguns estímulos, alguns deles nada nobres como socar o pobrezinho até ele desmaiar. todos contando com a crueldade infantil para vender apps 😀 aí tem a namorada do tom, e esse vídeo hollywood que o otto AMA assistir mil vezes.

talking bacteria: mais uma app que eu adoro mas digo que é pro otto (embora ele também ame e morra de rir). essa são simplesmente bactérias que repetem o que a gente fala (bem engraçado), se reproduzem quando damos donuts, morrem quando usamos uma pílula e ficam LOUCAS quando fazemos cócegas ou damos uma droga. não é muito educativo mas, olha, é bem engraçado 🙂

drawing: essa app é simples e fácil de usar, você desenha com os dedos usando cores do lápis (com espessuras diferentes), e tem também “figurinhas” pra colar. o otto adora ficar riscando, colocando as figurinhas, apagando e começando tudo de novo. bem simples e boa, mas tem um banner em cima que às vezes distrai a criança (e irrita a adulta aqui).

bongos!: claro, por que não dar a uma criança uma app que faz BARULHO, não é? 🙂

nano keyboard: o bongô não é suficiente? use essa app de piano/órgão pra alegrar sua vida nas longas viagens de carro!

a galinha pintadinha, a onipresente: como pude esquecer justo essa, a mais amada pelo menino? no iphone tenho “a galinha de emergência” (a versão teaser da app completa do ipad) que tem só 2 vídeos (funciona quando não tem mais nada, mas ele reclama que não tem as músicas que ele gosta). no ipad você baixa uma jukebox das músicas/vídeos e compra um a um. atualmente são 3 dvds, com várias músicas do cancioneiro nacional infantil e outras inéditas deles. poderia escrever um post só sobre essa franquia — há quem ache ruim, mas eu ainda não entendi o porquê, francamente. as músicas são (na maior parte) aquelas que ouvíamos quando crianças, muito bem executadas e com vídeos lindos. os arranjos e execução são ótimos, as animações fofas e engraçadas, não consegui achar defeito. a única coisa que me incomodou foi a última atualização da app, que mudou completamente o look & feel (mas verdade seja dita — eu demorei mais pra me adaptar que o otto) e veio com 1 música grátis (“lava a mão”) que é na verdade propaganda de sabonete. dispensável. e não dá pra apagar/esconder as músicas que você não quer comprar. elas ficam todas lá, com indicação de preço (antes de baixar) ou o “play” (depois de compradas). acabei comprando quase tudo, porque o otto vê o desenhinho da música e quer ouvir. acho que seria legal com os pais ter a opção de esconder músicas que não queremos comprar.

vou dar mais uma olhada no ipad e ver se não esqueci nada (claro que tinha esquecido, a mais querida de todas, a última!) mas essas são as queridinhas lá de casa. e pra quem tem curiosidade, tenho iphone desde antes do otto nascer, e como sempre me viu usando obviamente teve curiosidade, e eu deixei ele explorar. sei que é um device caro, mas sempre usei proteção (tela + externa), ele nunca fez nenhum estrago. desde as primeiras tentativas, com poucos meses, entendeu perfeitamente como funcionava o sistema de toque com os dedos. não acho que meu filho seja um gênio porque domina esses devices rapidamente com poucos meses de idade, acho é que o iphone/ipad são realmente intuitivos, e o bebê não tem conceitos pré estabelecidos de como as coisas funcionam, então eles exploram sem restrição.

por enquanto estamos felizes com nossa relação (e a dele) com atividades físicas/mentais, passivas e ativas. somos pais que gostam de tecnologia, acho natural que ele também se interesse, até pelo exemplo. continuaremos a estimular o gosto dele pelas atividades físicas, pois isso é um problema que nós temos (somos sedentários) e não queremos que ele vá para o mesmo caminho, estamos tentando mudar nossos hábitos para também dar exemplo.

no mais, divirtam-se com suas crianças, não sejam muito radicais e deixem também suas dicas de apps legais 🙂

altos e baixos

o otto está muito, muito engraçado testando várias coisas no vocabulário recém-adquirido, entre elas o diminutivo. não sei se é porque usamos muito, involuntariamente, mas ele está com mania de tudo INHO. ottinho, soninho, denguinho, saladinha, JOTINHA (até as letras ele diminui)…

especialmente quando ele quer nos sensibilizar ou fazer gracinha, é tudo “inho”, mas ontem chegou no limite da cara de pau (e da graça) — ele fez alguma malcriação, acho que jogou a garrafa de água no chão e se recusou a pegar. fui lá e fiz ele pegar, ele esperneou, chorou, fez o maior drama e aí pediu o IPAD. aproveitei a deixa, avisei que não senhor, não ia ter ipad porque tinha sido mal educado, que na próxima vez não jogasse a garrafa e pegasse quando depois.

aí começou o berreiro, lágrimas e lágrimas, e depois de vários nãos ele tentou: IPADINHOOOOOO. não dei, mas tive que me esconder pra não morrer de rir 😀

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e tem o inverso — ele alterna entre INHOS e GANDÃO. ele adora quando a gente fala que alguma coisa é maior, grande, e repete com um tom bem dramático — GANDÃOOOOO (normalmente fazendo gesto de grandão com as mãos também).

essa semana, nos devaneios antes de dormir, já deitado e no escuro, ele começa: caminhão… gandãaaaaaooooo… enóooooooime!… trator!

e a gente vai resistindo à tentação de morder e apertar, de tanta fofura <3

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ele também tem explorado bastante o quente/frio, quente/gelado (ou GELADINHO), mas vive confundindo. o que ele nunca confunde é em cima e embaixo, que fala direitinho. ele já entendeu o que é pesado, ainda não vi falando que nada é “leve”, no entanto.

dentro e fora me parece que ainda confunde um pouco quando se trata de recipiente, mas dentro e fora de casa ele sabe muito bem o que é 🙂

diário do otto: 1 ano e 11 meses

otto,

nosso pirilampo, tatuzinho, gordinho-gostoso, belzebuzinho, lourinho, peste, spríto (de porco), meninão da mami. você está tão crescido, tão bonito, tão divertido que fica até difícil sair de manhã pra trabalhar!

você acorda todo dia (na minha cama. seu pai te resgata cedinho e leva pra cama, pra gente poder dormir mais um pouquinho), abre um sorrisão enorme pra mim e quer o “aipéd”. aí, sentadinho na cama, fica vendo vídeos e dançando quando escuta as musiquinhas, enquanto eu tento dormir mais um pouquinho… por mais que eu queira dormir, é uma delícia você puxando meus braços com suas mãozinhas gordas pra eu te abraçar enquanto você ouve música e vê os vídeos.

às 7:30h chega a maria, e você quer mamar e ver “o têm” (aquele desenho medonho do thomas e seus amigos). tomo banho enquanto você faz bagunça na cozinha com a “maía” e a “patícia”, e tomamos café da manhã juntos. enquanto a mamãe toma café com leite, pão com manteiga e 1/2 mamão você se acaba de comer “quejinho” (cottage, às colheradas), “ofinho” (ovos cozidos, você adora e pede sempre), pão, biscoito e às vezes uma fruta.

suas frases estão mais longas e mais engraçadas, e as palavras que antes até saíam direitinho agora saem uma maluquice, porque você bagunça tudo de propósito, só pra ver a gente rir. “pamápo!” você diz; “e o que é pamápo, otto?!” seu pai pergunta, e você gargalha, correndo pela casa e repetindo “pamápo! pamápo!”. ainda não descobrimos o que é.

seus verbos estão incrivelmente bons, apesar de muitas frases ainda serem ao estilo do mestre yoda — “quêjo, pedaço, otto, dá”. o que mais nos impressiona são os gerúndios, porque você usa muito certinho (“andá, sozinho”. colocamos você no chão, e você sai andando dizendo “andando!”).

uma mudança significativa que senti no decorrer do mês é que você me parece mais sensível às broncas, tem ficado muito mais chateado por ser contrariado e aparenta estar realmente sentido com coisas que parecem muito simples pra nós. por exemplo: um simples não para alguma coisa que você não pode pegar (um copo de vidro, sei lá) é um drama, e você chora, chora. as horas de trocar fralda (especialmente com a babá) têm sido um DRAMA, você não quer tirar a fralda de jeito nenhum. e o cachorro-que-ri, que foi um sucesso no seu aniversário e te fez gargalhar agora é motivo de choro desconsolado. o cachorro ri e se debate e você chora, chora, chora. (mas sabe lá porque você quer ver DE NOVO. e chorar DE NOVO).

fora esses momentos muito sentimentais (que têm acontecido às vezes no meio da noite pro desgosto do seu pai), você não tem demonstrado medo de nada diferente. nem de escuro (“ecurinho”, quando apagamos a luz pra dormir), bichos, nada. o barulho ainda incomoda você (rojão, bomba, bexiga estourando, carros/motos acelerando alto, etc.) mas neste caso até EU tenho vontade de chorar, me solidarizo.

sua alimentação continua uma maravilha, você come muito bem e de tudo, e mesmo quando recusa alguma coisa come o restante. quando pergunto o que você comer, num restaurante, você diz “shalada” (ou “fauófa” ou “batata fita”) e é fã número 1 de cebola crua em rodelas. precisamos servir em TODAS as refeições. seu bafo anda um horror 😀

as noites de sono têm variado. às vezes dorme muito bem, às vezes muito mal. vamos vivendo um dia de cada vez, sempre torcendo pro dia da “noite tranquila” chegar. há quem diga que tal coisa não existe, mas não custa sonhar!

nós achamos que você nunca se interessaria por bichinhos pra dormir, mas eis que você adotou o hugo, um monstrinho preto e lindo que trouxe pra você de uma viagem. além de ser muito fofo você abraçando ele, você pede pra gente buscar e pede pra gente abraçar ele… <3 “hugo. abacinho!”

meu amor, meu meninão grande, os dias têm sido mais divertidos, bonitos e interessantes do que jamais imaginei. ver você crescer, aprender e se tornar uma criaturinha grande está sendo uma enorme aventura e um prazer.

amo você, monstrinho. beijo da mami.

(suas fotos com 23 meses)