conversando com crianças

escrevi um post bem completo sobre feedback em geral, mas achei importante escrever aqui especificamente sobre como dar feedback para crianças, pois creio que a forma como fazemos isso durante a primeira infância faz uma diferença enorme para o resto da vida. receber críticas faz parte do processo de aprendizado e crescimento, acho impossível educar alguém sem pontuar comportamentos inadequados. mas se nem nós, adultos, que já aprendemos a racionalizar o mundo, ficamos neutros à crítica, por mais que ela seja bem explicada e legítima, como as crianças lidam com isso?

[acho que é  importante mencionar neste ponto que sou contra punições físicas. fui uma criança que apanhou (de chinelo) e não tenho nenhum trauma (pelo menos que tenha aparecido até hoje, mesmo depois da terapia :D). confesso que os sermões da minha mãe me afetaram (e afetam) mais que as chineladas. mas sou contra, sim, porque acho covardia bater em quem não pode se defender, é bem simples. bater é um recurso que descarrega a raiva e frustração dos pais, que gera medo na criança (o comportamento se altera por medo de apanhar de novo) e que não se preocupa em entender de onde vem o problema. porque, afinal, se você vai se dar ao trabalho de entender o porquê do comportamento inadequado, bater na criança acaba sendo desnecessário. além disso, se apanhar resolvesse mesmo toda criança que apanha seria um amor.]

antes de mais nada, então, uma constatação que pra mim foi novidade: crianças não são boas com racionalização. isso não quer dizer que elas não pensam e não entendem o que se passa ao seu redor; quer apenas dizer que elas não dominam a técnica de compreender e mapear o mundo através das lentes da razão, pois isso é aprendido e dominado com o tempo e o uso. crianças são serem emocionais, simplesmente porque é desta forma que seu cérebro funciona nesta fase (mais direito, menos esquerdo). este livro que gosto muito (e me ajudou com o otto desde pouco antes de 1 ano) fala bastante sobre isso, ensinando técnicas para lidar com crianças de 1 a 4 anos de forma simples e sem grandes dramas e punições.

a maior parte do mundo dos adultos supervaloriza a racionalização. tudo é explicado, dissecado, provado e analisado. não que eu seja anti iluminista, mas creio que perdemos quando valorizamos demais o racional em detrimento do emocional, esquecemos que somos compostos de razão e emoção e valorizamos mais a primeira que a segunda. e as crianças, predominantemente emocionais na primeira infância, perdem mais ainda. sem perceber, muitos pais e tutores ensinam suas crianças que existem sentimentos “bons” e “maus”. que sentir raiva, medo, inveja, ciúme, cobiça é errado e deve ser evitado. nem digo escondido, porque esconder pressupõe aceitar a existência. somos ensinados a suprimir, temer e ter vergonha dos sentimentos “negativos”. mas como fazer isso? não sentir os sentimentos negativos seria como deixar de respirar! então aprendemos a negar e principalmente disfarçar sentimentos “inaceitáveis”, travestindo-os de outra coisa.

para ilustrar esse texto, vou usar uma história minha que acredito ser perfeita para demonstrar todo o assunto, e que me rendeu vários insights na terapia. eu tinha 10 anos, mais ou menos, era natal. nos meses anteriores, criei uma expectativa de ganhar de presente da minha avó materna um par de patins. eu amava patins, era início dos anos 80, calculem. sonhei muito com os tais patins, e na noite de natal finalmente eles chegaram. o problema é que quando abri o presente, me deparei com patins de plástico, bem vabagundos e obviamente diferentes dos que tinha idealizado. não sei dizer se falei alguma coisa, ou se fiz cara de decepção, mas certamente demonstrei meu desagrado. só me lembro bem claramente da minha mãe me chamando no canto, e me dando a maior bronca do mundo, pois minha decepção tinha chateado a minha avó, coitada, que era muito pobre e tinha se sacrificado pra comprar aqueles patins que eu tinha desprezado. lembro que chorei muito, e me senti a última das criaturas, uma sem coração e sem consideração, mimada.

esse é só um exemplo, tenho muitos outros parecidos da minha infância. quando criança, fui ensinada a obedecer sem questionar, fazer o que me mandavam e aceitar o que me dessem, sem reclamar. só quando me tornei adolescente é que meus pais me deram espaço para o questionamento e tomada de decisão (fiz minha primeira tatuagem com 15 anos, com aprovação de ambos!). logo que comecei a dominar a racionalização me convenci de que tinham razão de ser tão rígidos, que assim eu não me tornaria uma mulher mimada e sem noção, aprenderia o valor das coisas e a respeitar os outros. é verdade que aprendi a respeitar os outros, e não sou nem um pouco mimada, mas tem um pequeno detalhe — não aprendi a respeitar a mim mesma, expressar meus sentimentos nem a impor limites. e estes são atributos fundamentais para qualquer adulto ser minimamente feliz convivendo com outros.

e onde foi que minha mãe errou nessa história? vamos supor que eu tenha deixado claro (verbalmente ou não) para minha avó que estava decepcionada com o presente. o que ela devia ter feito?

em primeiro lugar, devia ao menos tentar colocar-se no meu lugar e tentar ver a situação através dos meus olhos de 10 anos (mas vejam que ela conseguiu se colocar no lugar da minha avó muito bem. tenho certeza que minha avó não foi reclamar com ela, mas ela teve empatia absoluta com o adulto na situação). aliás, arrisco dizer que ela deve ter projetado suas próprias frustrações de criança e adulta nessa situação, algo como “eu era muito mais pobre e não reclamava! nem ganhava presente de natal!”.

se tivesse se colocado no meu lugar, ela teria percebido que é absolutamente normal ficar chateado por ganhar um presente vagabundo. mesmo que não fosse vagabundo — sonhar com X e ganhar Y é motivo de frustração. não importa se a expectativa era real, imaginária, se eu devia ou não ter criado expectativa, é irrelevante. o sentimento de frustração é legítimo, e compreensível. sem julgamento de certo/errado, é simples entender.

essa é a primeira dica — não julgue sentimentos, reconheça o direito do outro a sentir o que estiver sentindo. sentimentos são o que são, nem bons nem ruins, nem certo nem errados. dê à criança o direito de sentir o que quer que ela esteja sentindo. não diga que a criança não deve ou “não tem porquê” sentir X. todas as pessoas têm direito de sentir o que sentem, ponto final.

e quanto ao fato de eu ter demonstrado que me chateei, chateando minha pobre avó? ela poderia ter me explicado sua percepção — que quando eu demonstrei tão claramente minha decepção, minha avó tinha se sentido mal por não ter agradado, e que ela também tinha se sentido mal por empatia. reconheço o potencial educacional de mostrar que minha reação de desprezo ou chateação com o presente também teve consequências, que se por um lado eu me chateei por não ganhar o que queria, por outro a minha avó estava decepcionada por não ter me agradado. seria uma forma de mostrar causa/consequência sem julgar quem está certo ou errado, só mostrando fatos.

a segunda dica é — mostre como o nosso comportamento afeta os demais ao redor, ou seja, quais são as consequências dos nossos atos. use a realidade (o exemplo) para demonstrar que quando sentimos e falamos/mostramos X, as pessoas como consequência também sentem e falam/demonstram Y. é assim que funcionam os relacionamentos, ação e reação. cada oportunidade destas é uma chance de mostrar para a criança como funcionam os relacionamentos. elas têm direito de sentir o que quiserem, e de se manifestarem, porém existem consequências, e precisamos lidar com elas. esse é o processo, super difícil, de amadurecimento.

minha mãe devia ter reconhecido meu direito de me chatear, sem me fazer sentir inadequada por não gostar do que ganhei, isso nem se discute. e poderia também ter me feito perceber que quando eu demonstrei minha chateação, isso causou uma frustração na minha avó (causa/efeito). poderia ter me dito que era uma opção minha disfarçar a frustração ou demonstrá-la, dependendo de como quisesse lidar com as consequências.

mas e se eu tivesse sido realmente grosseira  — tipo jogado o presente no chão ou dito que aquilo era uma “porcaria”? meu sentimento continuaria válido, a diferença é que neste caso meu comportamento não seria socialmente aceitável. a criança pode sentir o que quiser, mas precisa respeitar minimamente as regras da comunidade em que vive. destaco “comunidade” porque alguns comportamentos são aceitos em certos círculos e não são em outros. como pai ou educador, acho que devemos “equalizar” comportamento conforme a sociedade de forma mais ampla possível, para que a criança não sinta um choque quando sai do convívio familiar para um círculo mais amplo.

daí vem a terceira dica — diga exatamente que comportamento é esperado, e deixe claras as consequências caso não seja adequado. não adianta dizer “não faça assim” e não dizer o que espera que seja feito. dê o exemplo no dia a dia, e reforce no momento da conversa, mostre como se comportar de forma aceitável. fale sobre as vantagens de comportar-se desta forma, das desvantagens de outras formas. explique o que pode e vai acontecer caso insista em se comportar de forma inadequada. e, é claro…

… a quarta dica é — garanta que existam consequências (ou esclareça consequências que não foram percebidas). na minha história, seria tão simples quanto minha mãe chamar minha atenção para a chateação da minha avó com meu comportamento. se eu tivesse sido grosseira, ela poderia além de falar da chateação da minha avó, explicar que ser grosseiro não é uma opção, pedir que eu me desculpasse pela grosseria e aplicar algum tipo de castigo (doar os patins? não usá-los? ou qualquer outra coisa que me fizesse “sentir” a consequência).

mas não esqueça da dica mais importante, e mais crítica, quando se trata com crianças — não coloque em questão seu amor por elas em função de comportamentos inadequados. ninguém *é* o que *faz*. não é porque alguém erra em alguma situação que é errado, ponto final. as pessoas erram de forma circunstancial, às vezes por ignorância, às vezes de propósito, mas só os psicopatas não se importam. a grande maioria das pessoas erra por falta de orientação, educação e feedback. a maioria das pessoas não quer chatear as outras, causar conflitos. e as crianças erram porque estão aprendendo, porque seguem exemplos muitas vezes errados, porque não sabem controlar seus impulsos ou porque querem chamar a atenção. cabe aos educadores, em especial os pais, entender os motivos da criança e ensiná-la a se comportar de forma adequada.

**

são poucos pontos para praticar, mas é longe de ser simples, especialmente pelos seguintes fatores:

– como ter empatia com o sentimento do outro quando nunca tiveram empatia com os seus, ou quando você mesmo não tem empatia consigo mesmo?

– como separar claramente sentimento e comportamento como coisas independentes?

– como orientar sobre comportamento adequado caso você mesmo não seja o melhor dos exemplos?

– como “impor” consequências balanceadas, compatíveis com o comportamento inadequado?

– c0mo deixar claro para a criança que nós a amamos mesmo quando elas erram, que errar não é definitivo e que elas podem corrigir seu comportamento?

 

não sei se é claro pra vocês como é pra mim que para conseguir seguir estes passos minimamente precisamos:

– conhecer a nós mesmos muito bem

– livrar-nos de fantasmas e traumas do passado

– perdoar nossos próprios erros, e saber que erramos e erraremos de novo e que podemos acertar

– amar e aceitar a pessoa e criticar somente o comportamento

– conseguir nos colocar no lugar do outro

– dar bons exemplos, fazer o que diz — walk the talk.

 

pode ser difícil, sim, mas é perfeitamente possível, e muito gratificante porque funciona. não só com crianças mas com adultos também. e é possível também se recuperar de uma educação que não se preocupou com nenhuma dessas coisas — eu sou prova viva disso!

e para lidar com crianças na idade do otto (até 4 anos) em situação de crise de comportamento (chilique :D), adicionaria alguns complementos:

1) fale com a criança “de igual pra igual” — com palavras simples, muitas repetições das palavras-chave e com muitas expressões faciais. a melhor forma de se “conectar” com a criança é olhar no olho e demonstrar que você entendeu como ela se sente. quando ela perceber que você entendeu como ela está se sentindo (empatia), o chilique acaba. juro por deus.

2) explique de forma simples o que você quer que a criança não faça e o que você quer que ela faça. por exemplo: “otto, andar sozinho na rua não pode. na rua, só com a mão dada.”

3) dê opções, sempre. mesmo que elas pareçam bobas pra você, para a criança é importante sentir que decidiu. por exemplo: “otto, você pode dar a mão para andar na rua ou você vai no colo. o que você prefere?”. não quer dar a mão? não vai andar sozinho, ponto final.

e, é claro, bom senso: há situações em que não cabe conversar, discutir e dar opções. esse processo de feedback tem como objetivo educar a criança para aprender a se comportar em sociedade, é trabalho de formiguinha, de todo dia, não é uma ocasião ou outra de “faça o que eu digo” que vai traumatizar a criança.

no mais, gente… boa sorte pra todos nós 🙂

5 thoughts on “conversando com crianças

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