contra fatos não há argumentos

a maria, que é babá do otto desde que ele nasceu e que cuida de nós desde que mudamos para vinhedo (quase 5 anos, já!), é muito carinhosa com ele, e com todo mundo. daquelas pessoas bem doces, que diz “eu te amo”, abraça e beija. uma linda!

pois ontem ela, carinhosa como sempre, virou pro otto e disse: “o otto mora no meu coração!”. ele não titubeou: “não, maria! o otto mora na rua araxá XXX*, na casinha dele!” 😀

(*) ele sabe o número certinho, só não coloquei por segurança. ele adora dizer pras pessoas onde mora, e no caminho de casa ele até dá instruções do caminho… “agora desce, agora vira, faz a CUIVA…” <3

o mito da maternidade — meus 2 cents

circula por aí essa entrevista concedida pela filósofa marcia tiburi a respeito do mito da maternidade, e o movimento pela libertação das mães (MLM).

eu gostei muito da entrevista, e da perspectiva dela. aqui no meu espaço pessoal, me permito julgar só um pouquinho, e com base somente na leitura dessa entrevista, um aspecto que me chamou a atenção: a pena da mãe (da geração anterior a ela) e também da filha (a ponto de pedir desculpas por tê-la trazido a este mundo). suponho que ela tenha pena de si mesma também, por extrapolação, e realmente não gosto desse posicionamento da mulher como vítima da sociedade, #mimimi. me parece até que existe um incômodo com a condição de mulher/mãe/filha. mas isso é assunto pra terapia (a dela :)).

e foi só isso que não gostei, de resto concordo muito com o posicionamento e a interpretação. gosto especialmente da clareza com que ela desconecta (e critica) o aspecto “natural” da maternidade do ato prático em si:

uma mulher até pode vir a gostar do filho depois do parto, mas não quer dizer que tenha gostado de pari-lo ou que tenha se encantado com sua condição de bebê. não podemos mais naturalizar isso. naturalizar é mistificar.

concordo tanto! já repeti isso com outras palavras aqui inúmeras vezes, e fico feliz em saber que outras mulheres também o percebem: maternidade não é sinônimo de instinto, amor incondicional e nem prazer em cuidar de bebês. até porque (me repito, sem parar) nossos filhos são bebês e crianças a menor parte de suas vidas. a maior parte das nossas vidas somos adultos, e continuamos a nos relacionar com nossos pais. não ser plena e feliz cuidando de bebês não quer dizer absolutamente nada sobre sua capacidade como mãe, ou seu amor, enfim.

adorei a insistência dela sobre ser mãe <> ter filhos! qualquer pessoa, independente do sexo ou da relação afetiva/genética, pode ser mãe, pode estar mãe em algum momento. pais, amigos, tios, professores podem ser mães. eu já tive mães outras em vários momentos da vida, já fui mãe pra minha mãe, inclusive.

e não posso deixar de mencionar a importância da questão do aborto e da opção de simplesmente não ter filhos (atenção — podemos continuar sendo mães sem ter filhos ;)). e do quão é importante permitir essa opção sem julgamento. assim como é essencial para que sejamos livres, como mulheres, podermos trazer à luz nossos incômodos e dificuldades com a maternidade.

mas como assim, é incômodo ser mãe? como podemos dizer que é chato, cansativo e irritante às vezes? que tipo de mãe somos nós, que não padecemos no paraíso, que não idolatramos nossa placenta e nem os rebentos maravilhosos, raios-de-luz que trouxemos ao mundo? como temos coragem de optar  pela maternidade e não nos dedicarmos completamente a ela, aos nossos bebês? se era pra reclamar, por que parimos?

é incrível como mulheres que se acham modernas e humanas repetem (consciente ou inconscientemente) essa mística, esse discurso reducionista e ralo de que “ser mãe é se dedicar”. e que se não for para se dedicar completamente ou se for pra reclamar, “melhor não sê-lo”.

lutamos pelo direito a abortar um feto, mas criticamos opções de maternidade diferentes da visão mais idealizada da santa-mãe-dedicada? liberdade então só vale para quem ainda não é mãe, é isso? resolveu parir… embale! tsc, tsc, tsc.

que possamos ser livres, com ou sem filhos, para exercer nossa maternidade da forma que melhor nos couber, dentro das oportunidades que forem apresentadas e da nossa possibilidade. com responsabilidade, claro, que é o que se espera de um ser humano decente, em relação a qualquer outro par. mas sem culpa, sem cartilha, e sem julgamento.

pratiquemos a diferença, sejamos diferentes. se quisermos mudar o mundo, devemos mudar através de ações, não é preciso dizer aos outros como viver. as opções de vida e comportamento são infinitas, muito mais diversas e únicas que a nossa capacidade de interpretação ou projeção.

o mundo, as pessoas e os comportamentos não precisam fazer sentido pra todo mundo o tempo todo. precisamos parar de tentar “fazer caber” o comportamento alheio no nosso sistema, ou mapa mental.

como meta pessoal, pratico (com extrema dificuldade e várias falhas) não julgar, não rotular, concentrando em melhorar a mim mesma somente (o que já é muito e bem difícil). ao resto do mundo, reflito e respondo, usando minha perspectiva, na esperança de oferecer outro ponto de vista e assim eventualmente ajudar alguém.

vida longa a qualquer iniciativa de libertação, seja do que for. o que menos precisamos é de mais uma âncora-de-expectativa sobre o que devemos ser.

família e princípios — essas coisas de antigamente

hoje no facebook me deparei com 2 artigos que motivaram textos distintos, mas que resolvi juntar por aqui, porque os assuntos são afins: de um lado, mais um programa de TV promovendo o consumismo infantil, para além de quaisquer limites do aceitável; de outro lado um artigo asqueroso de um jornal paranaense afirmando que crianças adotadas por homossexuais não fazem parte de uma família. família = mulher, homem, crianças.

(o título do artigo: a PERVERSÃO da adoção)

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sempre achei criança e o universo infantil um tanto enfadonho, enquanto adulta-e-sem-filhos. via crianças mal educadas e sem noção, e torcia o nariz pra elas. “criança no geral é chato, né?”. depois de ter meu filho e começar a conviver com crianças mais intensamente (a minha e as dos outros) percebi que meu incômodo fora mal direcionado a vida toda. crianças são incríveis (porém MUITO cansativas, isso é real), o problema são SEMPRE os adultos que as cercam, em especial os pais. os adultos ao redor transformam promessas de seres humanos normais em criaturas sem-noção-e-sem-discernimento.

vejam o exemplo do programa de TV: qual adulto empenhado em educar seu filho e transformá-lo num cidadão do mundo atual (redução de consumo, respeito pela diversidade, etc.) entraria nessa onda de “festas milionárias”? aliás, pra quê festas de criança tão consumistas e fora da realidade de 99% do mundo? o que as crianças aprendem, em eventos como esses? e eu sei, esse é o exagero do exagero, mas pensem nas festas “comuns” em buffets, totalmente pasteurizadas, deixando presente no baú da porta. as crianças nem recebem mais os presentes (e os abraços) dos convidados. o afeto deixou de ser foco FAZ TEMPO, virou coleta de presentes, comilança de frituras e uma zona de crianças sem limite, cuidadas por monitores que são pagos pra não estrangular nossos filhos sem noção.

e mesmo com tantos exemplos de “famílias” fazendo besteira atrás de besteira na educação dos seus filhos, procriando feito coelhos e colocando milhares de pessoas no mundo sem a menor preocupação de torná-las serem humanos decentes, o asno do artigo sobre adoção ainda defende a estrutura “familiar tradicional”. sem nenhum medo de errar afirmo que pais adotivos homossexuais e as tais comunidades hippies (ahn?!) serão melhores pais para os seus filhos que estes imbecis das festas milionárias, ou os tantos imbecis que simplesmente colocam crianças no mundo sem nenhum empenho em educá-las.

para se constituir família não é preciso ter filhos, pra começar, meu senhor. há famílias SEM filhos também. não é preciso 1 homem + 1 mulher + crianças. este senhor vive na idade das trevas, assim como seu coração seco e duro, apoiado pelo seu pobre cérebro limitado.

precisamos dar às crianças afeto, tempo, dedicação. dinheiros, coisas, e “famílias margarina” são dispensáveis, secundários e, no limite, irrelevantes.

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tá difícil ser gente decente nesse mundo, é muito difícil criar filhos ensinando valores diferentes destes que aparecem cada dia mais por aí. muita força nessa subida, viu.

obrigada, meu filho não precisa de 100 mil reais

num mundo onde existem coisas como essas, eu não devia me espantar com um BBB de mamães e bebês. mas me espanto, felizmente, em especial por estar num programa que há pouco tempo promoveu opções bem radicais de maternidade, completamente opostas à relação destas mães com seus bebês e as “dicas” de desmame (ESQUEÇAM as bobagens que este senhor falou, por favor).

sim, acho esse programa ruim para os bebês, que são expostos a um ambiente antinatural, com clima estressante e competitivo, enquanto suas mães passam por provas que certamente não as tornam mães melhores. mas pra mim o pior mesmo é o que o programa faz com as mães, que são induzidas pela promessa de que estão fazendo algo de bom para o futuro dos seus filhos! vejam o “mote” do programa: “Esta edição traz muitas novidades para as mães que sonham em proporcionar um grande futuro para os seus bebês.” (grifo meu)

100 mil reais vão proporcionar um grande futuro para os nossos bebês? sério?

antes de dizer (e digo) que aquelas mães estão lá porque querem, oras, que são gananciosas ou simplesmente sem noção, penso que não existe mãe que não queira “proporcionar um grande futuro para o seu bebê”. seja lá como queremos fazer isso, é isso mesmo que queremos. mais do que a mera vaidade ou falta de noção, esse programa joga com o desejo poderoso de toda mãe de ver seus filhos sendo melhores, bem-sucedidos. felizes? aí já não sei.

sei que é um programa com duração limitada, e de verdade não acho que fará MAL a nenhum dos bebês. mas não paro de pensar que essas mães perderam a noção, o norte, quando se deixaram encantar pela promessa do dinheiro ou da fama numa foto de propaganda de pomada.

essa história me leva a pensar no quanto estamos longe de entender o que é felicidade e sucesso, o que é criar um ser humano que possa ser pleno e feliz. é preciso ter dinheiro, fama, estudar em harvard, visitar a disney? sério?

desde que me tornei mãe penso demais nisso: o que quero para o meu filho no futuro? devo comprar imóveis, guardar dinheiro, investir em ouro ou ações? preciso de um fundo de investimento para a faculdade dele, o MBA? será que devo colocá-lo numa escola que o prepare para o GMAT, ITA, USP desde já? devo colocá-lo numa escola bilíngue aos 2 anos, para que ele não precise estudar inglês e fale como nativo sem dificuldade?

de verdade, é isso tudo que está na cabeça dessas mães. são 100 mil para que meu filho seja melhor que o seu, melhor que elas próprias, que seja… feliz?

quanto mais penso nisso, mais acho que não devo me concentrar em TER e PAGAR nada além do necessário. que o que meu filho precisa para ser feliz e bem-sucedido é do meu incentivo e exemplo constantes. ele precisa aprender (sem que a escola precise insistir em formato de apostila para lerdos) a aprender, continuamente. precisa que eu o estimule a fazer perguntas, ser curioso sempre, investigar. precisa aprender disciplina (e nenhuma escola vai ensinar isso melhor do que nós, os pais), para ser livre e poder se indisciplinar o quanto quiser e puder.

obrigada, hipoglós e tv globo, mas meu filho não precisa de 100 mil reais, porque ele tem a nós, ele tem nosso tempo, nossa dedicação, nosso interesse. ele vai ganhar os 100 mil reais que precisar, quando precisar. mesmo que nós fôssemos pobres ele ainda assim não precisaria desse dinheiro, como meus pais e nós 3 nunca precisamos. não seriam 100 mil que mudariam nossa história, pois não é dinheiro na conta que muda a dinâmica de uma família, que forma caráter, valores e motivações de uma criança. e sem isso tudo, 100 mil são simplesmente 100 mil moedas.

todo meu dinheiro vai continuar sendo dedicado a confortos úteis e inúteis, livros, músicas, comida e viagens, muitas viagens. e isso tudo combinado com meu tempo, minha dedicação e exemplo certamente formarão um cidadão com vontade de aprender, com repertório de vida, história e bagagem que nenhum dinheiro consegue comprar.

tenho pena das mamães do programa do hipoglós. espero que elas percebam a tempo que nenhuma promoção de marca alguma no mundo proporciona nada além de ilusão de consumo vazia.

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PS 1: hipoglós nunca entrou nesta casa, e depois dessa não entrará mesmo; TV globo já não faz parte da nossa vida há muitos anos, e cada novo “evento” confirma a sapiência da nossa decisão.

PS2: a melhor forma de regular o consumo e dar o exemplo para os nossos filhos é não consumir, ou consumir o mínimo necessário. cabe a cada um de nós mudar o mundo.

diário do otto: 2 anos e 3 meses

otto,

tem sido mais difícil pra mim escrever mês a mês, porque agora tudo se mistura e já não lembro mais direito exatamente o que pertence a este mês. você nos surpreende diariamente com tiradas engraçadas, frases cada vez mais complexas e ideias curiosas vindas 100% da sua cabecinha 😀

todo dia tenho coisinhas novas pra contar sobre você. desconfio que essa sua fase de criança deve ser uma das mais divertidas. essa semana você cismou que se fala OTTO-borogodó (e morre de rir quando repete isso). também conheceu um amigo da mamãe que se chama hugo, como seu monstrinho de pano preferido, e ficou muito espantado com o nome, e repetia com olhos arregalados “ele chama HUGO, mamãe!”.

e você fala tão direitinho que dá gosto. “abre a rede pra eu balançar, vovó?” e 30seg depois “abre pra mim, vovó!”. (mas o ÍBULON eu não consigo corrigir, porque é fofo demais <3).

na escola está tudo bem, você gosta muito de ir e pergunta das tias e dos amigos E AMIGAS (aparentemente você não gostou dessa história de gênero masculino ser neutro no coletivo), embora às vezes fique grudento na hora de eu ir embora. na maior parte das vezes você fica bem, e até fala “TRABALHA, mamãe!”, me mandando embora 🙂 e você foi mordido pela 1a (e 2a…) vez na escola, o que nos deixou muito chateados, mas passou.

uma coisa que nos deixa muito felizes é que você é um menino carinhoso, que gosta de beijar, abraçar e ficar juntinho. nós adoramos! e por mais que eu reclame de ter que fazer você dormir todo dia (1 hora, 1 hora e meia…) e dormir com você na cama com muita frequência, tenho certeza que vou sentir falta quando você ficar independente e dormir na sua caminha. é gostoso abraçar você ou mesmo me ajeitar quando você resolve dormir EM CIMA de mim. o contato físico é uma das coisas que mais tenho gostado dessa história toda de ser mãe.

no geral você é uma criança educada, tranquila, obediente e muito divertida. não é montagem minha nas fotos — você está sorrindo sempre, fazendo graça e conversando com a gente. uma delícia de menino, que nos faz muito felizes!

sua alimentação agora é praticamente igual à nossa, que no geral é mesmo muito saudável. comemos em casa durante a semana, comida toda preparada aqui mesmo. muitos legumes, verduras, frutas, carne vermelha e branca, queijos, ovos (muitos ovos!) e peixes. nos fins de semana saímos para almoçar geralmente no domingo, e você se diverte bastante. já aprendeu a pedir comida pro garçom e não se faz de rogado: “moço, qué papá! uma shalada e batata fita!”. juro, é isso que você sempre pede. de vez em quando pede também carninha  ou farofa.

o sono mudou — você dorme agora a noite toda, mas nem sempre na sua cama. cansamos do esquema de fazer você dormir na sua cama, fazemos dormir na nossa cama, levamos pra sua e quando você acorda vem dormir comigo. seu pai foi expulso pro quarto de hóspedes, coitado. esperamos que essa fase não dure muito, mas francamente aceitamos qualquer arranjo que nos deixe finalmente dormir depois de 2 anos insones…

uma coisa que nos chama bastante a atenção é como você desenvolveu bastante nesse último mês a percepção sobre o funcionamento das coisas. aprendeu a abrir e fechar torneira, a embalagem de pomada (e agora alcança o interruptor, SOCORRO). entende o funcionamento das torneiras de água quente e fria (e identifica pelas letras…), diferencia esquerda e direita, entre muitas outras coisas. dia desses você pegou o garfo e falou “mindinho, seu vizinho, pai de todos, fura-bolo… (pausa) ele não tem mata-piolho!” 🙂

essa semana você teve estomatite pela primeira vez, algumas aftas apareceram na boca e você reclamou que “a língua incomoda, mamãe!”. seu pediatra avisou que podia ser vírus, e hoje você empipocou… mas fora isso, sua saúde é de ferro! fora o nariz meio travado quando muda o tempo (herança dos seus pais alérgicos), tudo muito bem.

uma coisa linda que aconteceu esse mês é que você começou a pedir pra que eu conte histórias sobre as pessoas. começou pedindo “conta a história do tio weno e da tia mawá po otto dumí?” e eu contei, claro. conto do meu jeito, com foco nas coisas que você conhece e talvez lembre…

“era uma vez o tio weno e a tia mawá que viraram palhaços! eles chamam frederico e cremilda, e quando se conheceram se adoraram tanto tanto que começaram a namorar…”

e você faz perguntas, e repete partes da história, é uma graça. até que essa semana você pediu “mamãe, conta a história do papai, da mamãe e do otto?” e seu pai (e eu também, ok) ficou todo emocionado.

agora a mamãe conta a nossa história toda noite no escuro antes de dormir, pra que um dia você se pergunte de onde vêm essas lembranças de antes de nascer, e de tão pequeno… e vou te contar, já bem maior, que grande parte das nossas lembranças de infância são memórias re-construídas, por mamães tagarelas e inventivas como eu.

nossos dias têm sido deliciosos, cheios de conversas e surpresas, pequenas coisas boas acontecendo todos os dias. e muito cansativos também, não vou mentir. trabalhar o dia todo + educar e brincar com você é bastante coisa pra uma mamãe quarentona só.

aqui estão as muitas fotos que tenho de você com 2 anos e 3 meses. cada dia mais lindo, e ainda loirão! achamos que você vai ter o cabelo do seu tio kito, que é castanho claro e fica loiro quando cresce.

um beijo cheio de amor da sua “mamãe zel” (e do “papai fer” também :)).