e o papai?

li essa semana uma matéria falando sobre licença paternidade, que hoje é de apenas 5 dias, e do papel do pai na criação dos filhos. e me dei conta que basicamente nunca escrevi aqui sobre como lidamos com isso, eu e fer, os pais do otto. mas tem motivo: simplesmente não existe diferença entre eu-mãe e ele-pai na criação do otto, e vou explicar um pouco sobre isso.

pra começar, a decisão de ter um filho foi consenso entre nós, depois de 7 anos de casados (sem querer ter filhos, inclusive). eu brinco que optamos por engravidar como “experiência antropológica”, e no fundo é isso mesmo, não é brincadeira não. queríamos passar por esta experiência, aprender com ela. tivemos muitos medos, mas decidimos encarar. e pra quem tem os mesmos questionamentos, digo que ter filhos não é primordial para a vida e/ou felicidade de ninguém, mas é uma experiência única e incrível. como pular de paraquedas, por exemplo, coisa que jamais farei 😀

somente eu carreguei o otto na barriga, mas o fer esteve presente em todos os momentos, procurou informação junto comigo (pouca, não fomos do tipo que lê mil livros), conversamos sobre a escolha do nome, sobre como seria o parto, fizemos o pré-natal juntos mesmo. nunca senti que a gravidez foi um processo “meu”, apesar de toda parte fisiológica que só estando dentro da própria pele para acompanhar. ele foi realmente meu companheiro nesses 9 meses, e no parto-show-de-horror ele estava lá comigo, bem como naqueles 8 dias assustadores de UTI.

o fer é freela, e se planejou bem antes do nascimento para tirar sua licença-paternidade — ele ficou sem trabalhar por 6 meses após o nascimento do otto, junto comigo, full time em casa (acho que ele pegou um ou outro trabalho pequeno, em casa, se não me engano). e quando eu voltei a trabalhar (o otto estava com 6 meses e meio, e já comendo), ele ficou a maior parte do tempo em casa nos próximos meses também, só pegando projetos que não demandassem ficar o dia todo fora.

nos primeiros meses, quando o otto mamava de 2 em 2h (ou menos, já que eu dava o peito quando ele queria), 24/7, amamentar era a tarefa mais desgastante e difícil, e obviamente só eu podia dar o peito. mas o processo de amamentar não é só peito — inclui pegar o bebê, trocar fralda, frequentemente trocar a roupa, mamar, arrotar e (com sorte) dormir. pois eu só fazia a parte do peito, o fer sempre fez todo o resto. durante a noite, era ele que ficava na vigília do belzebu-menino-que-não-dormia, enquanto eu descansava entre mamadas.

algumas coisas o fer não gosta de fazer — dar comida, por exemplo, que faz uma meleca danada. é da personalidade dele, que não gosta de meleca e sujeira de comida, fica aflito. mas ainda assim ele dá, quando precisa. nosso acordo (e conversamos bastante sobre isso, não é “natural”) é de tentar dividir as tarefas de forma que cada um fique com a parte que goste mais ou que desgoste menos. e as coisas que ninguém gosta (trocar fralda, por exemplo) a gente alterna, pra não encher o saco de ninguém.

isso não quer dizer que não teve stress, em especial nos primeiros meses, quando a gente ainda não sabia como lidar com a pessoa nova da casa. brigamos, discutimos, mas chegamos a um acordo, e seguimos. e vai melhorando, depois dos primeiros meses, porque a gente aprende sobre a criança e sobre a nova rotina, tão diferente de antes-do-bebê. essa mudança é especialmente complicada pra quem estava casado há tanto tempo, tão sem rotina e sem compromisso. muda da água para o vinho! mas com maturidade e especialmente boa vontade das 2 partes, as coisas se ajeitam.

mas é importante notar nessa minha história um fator crítico: nunca adotamos a postura de que “papai está ajudando a cuidar da criança”. papai é responsável por esta criança tanto quanto a mamãe! tanto quanto, exatamente na mesma medida, nem mais e nem menos. é fato que a criança demanda mais da mãe, especialmente nos primeiros meses. a ponto do pai se sentir meio “inútil” — exemplo: no colo do pai a criança chora, vai pro colo da mãe e para imediatamente. existe uma ligação não verbal entre mãe e bebê que é real, não dá pra negar. mas isso não significa que a gente não deva deixar o bebê com o pai pra ir tomar banho, comer, dormir ou fazer a unha. mesmo que o bebê preferisse estar com a mãe. nós inclusive fizemos questão de deixar o otto com a babá, tia, avós o máximo possível  entre as mamadas, não só pra termos uma folga (tão importante!) mas também pra que ele acostumasse com outras pessoas e a gente deixasse de ser neurótico (se você não tem filhos ou os seus não ficaram na UTI ao nascer, vai ser difícil entender o quanto a gente fica neurótico e superprotetor).

papai não está “ajudando”, ele está fazendo o que precisa ser feito, quando precisa ser feito. o fato dele estar comigo em casa ajudou demais, e acho que todos os pais deviam ter a oportunidade de passar pelo menos os 6 primeiros meses dos seus filhos cuidando deles, caso assim desejem. se pudesse ser mais acho que seria melhor, porque o primeiro ano é muito intenso e tem questões de formação do bebê que vão acompanhá-lo pelos próximos anos, como os hábitos alimentares e de higiene, por exemplo. a menos que você tenha a sorte que eu tenho, de ter uma babá que é praticamente a minha mãe, vai ser complicado educar seu filho do seu jeito.

graças ao planejamento do fer nos primeiros meses, sua opção de estar mais próximo do otto (ele trabalha em casa sempre que pode, e quando trabalha fora costuma sair depois do almoço somente) tem funcionado muito bem, podemos dizer que somos um casal que educa e cuida do nosso filho de forma 100% compartilhada. entre a babá, escola, ele e eu, conseguimos cuidar do otto num esquema ótimo, cada um oferecendo o que tem de melhor para a educação e crescimento emocional e afetivo.

de manhã, o fer prepara o otto para ir à escola, faz o café da manhã e garante que o otto come enquanto eu tomo banho, me preparo e como também. eu levo ele pra escola, onde ele brinca e interage com outras crianças e os professores, e almoça (sozinho, com as outras crianças). o fer vai buscá-lo, e chegando em casa a maria dá banho, troca de roupa e faz dormir. no meio da tarde ela dá um lanche, leva ele pra passear no parque, andar de bicicleta, comer fruta das árvores, brincar com outras crianças e com os bichos. na volta, já dá o jantar às 17:30h, que é quando eu chego e aí é minha vez de brincar, conversar, às vezes saímos os 3 para andar de bicicleta, etc. quando ele tem fome eu dou banho, o fer coloca pijama, eu escovo os dentes, contamos histórias os 3 juntos, e ele dorme comigo (ultimamente temos dividido a hora de dormir também entre eu e fer, pra ele não acostumar demais a dormir só comigo). nos fins de semana eu fico com o otto no sábado de manhã pro fer poder dormir até mais tarde, no resto do dia variamos. no domingo, o fer fica com ele de manhã pra que eu possa dormir até mais tarde, e depois fazemos algo todos juntos. a hora da comida geralmente é minha (eu que preparo e dou), mas agora que o otto faz menos meleca o papai consegue ajudar sem ficar morrendo de desgosto 🙂

nossa rotina é simples, mas funciona bem exatamente porque não tem tarefa-da-mamãe e tarefa-do-papai. fazemos tudo juntos, tentamos dar uma folga um pro outro e temos ajuda (escola e babá). saímos juntos só os 2 de vez em quando (é raro, porque ainda estamos na fase que queremos fazer tudo com o otto :)), e procuramos conversar quando alguma coisa não parece legal, ou um de nós está se sentindo sobrecarregado. ajustes normais em relacionamentos de adultos. nem tudo são flores, mas encaramos os problemas como parte do processo, sempre lembrando um ao outro que estamos nisso juntos.

dito isso tudo, acho que não devia haver licença maternidade e nem licença paternidade, mas “licença família”. um período para que a família se adapte à nova realidade, e que os pais juntos pudessem decidir como usar esse tempo. ou, como existe em alguns países, a licença vale para um dos pais, eles decidem qual vai ficar em casa com o bebê (é natural que seja a mãe, por causa da amamentação, mas depois do primeiro ano talvez o casal queira mudar, e a mãe volta a trabalhar enquanto o pai fica com o bebê, sei lá).

e aproveito para agradecer ao fer por ter sido sempre um companheiro nessa jornada tão intensa, maluca e divertida. apesar de todas as dificuldades, estamos firmes no intento de estar juntos e criar esse menino tão legal que colocamos no mundo, mostrar pra ele que um mundo mais igual é possível — acho ele vai estranhar quando descobrir que há um mundo tão desigual lá fora, tomando como exemplo o universo dele…

nós como mulheres não devemos nos contentar com homens que “nos ajudam”. eles devem ser parte do processo todo, sempre. não é o gênero que deve definir o que / quanto fazer, mas o acordo entre os dois, a disponibilidade, a possibilidade de cada um. com respeito, com comprometimento.

**

fer, você é um homem incrível, que respeita as mulheres como iguais e vive essa igualdade de forma natural. em 10 anos jamais ouvi da sua boca um só comentário machista, e amo você ainda mais por isso. seu comportamento é sempre respeitoso, consistente, afetuoso. você mostra ao nosso filho que ser homem é também ser sensível, que isso não é atributo feminino. nosso filho pode chorar, vestir rosa, brincar com os sapatos na mamãe, sem nunca ser tolhido. tenho certeza que nosso filho será um homem feminista, do qual teremos sempre muito orgulho, graças ao nosso exemplo, graças à forma como vivemos dentro da nossa casa. não tenho nenhum medo de que meu filho se afaste de mim por ser homem e eu ser mulher. por mais que ele se identifique mais com você em alguns momentos por compartilhar o gênero, seu respeito e amor por mim e pelas mulheres ao nosso redor serão sempre a referência dele. obrigada por embarcar comigo nessa de forma tão entregue e dedicada. te amo!

o desfralde, essa merda :)

ah, a beleza do desenvolvimento humano! uma das coisas mais interessantes de se tornar pai/mãe/cuidador é aprender que somos resultado de anos de treino e aprendizado, que coisas tão corriqueiras e automáticas para adultos quanto fazer cocô e xixi na privada, usar papel higiênico e lavar as mãos foram aprendidos em algum momento. é meio óbvio que não nascemos sabendo essas coisas, mas como esquecemos o processo de aprendizado, é espantoso acompanhar cada pequeno passo pelos olhos de quem ensina. e perceber (não sem ganhar um pouco de humildade, com sorte) que um dia nós também não soubemos como fazer cocô e xixi na privada. kudos para meus pais, parentes e professores, que me ajudaram nesse aprendizado tão essencial e para o qual até este momento eu nunca tinha dado bola.

(o mesmo vale para o processo de aprendizado da linguagem, mas isso é assunto pra outro post)

em meados de janeiro (otto estava com 2 anos e 4 meses, 28 meses) iniciamos o processo de desfralde, por alguns motivos/sinais: ele começou a ficar resistente a colocar fralda; ele comunica bem o que quer/não quer, viabilizando o processo de aprendizado; ele se interessa pelo cocô e xixi, dar descarga, etc.; ele começou a procurar “privacidade” ao fazer xixi (e em especial o cocô). todos os lugares em que li sobre o assunto indicam que esses são bons sinais de que ele está pronto para iniciar o processo. mas…

… são 2 meses de tentativa, e o processo está lento. iniciamos tirando a fralda, contando pra ele que íamos começar a fazer xixi na privada (ou nas plantinhas, ou no ralo do chuveiro…), “que nem o papai” (que teve que voltar a adotar o xixi de pé, que ele não costuma fazer em casa, por pura conveniência — sentar é mais prático e não tem risco de sujar nada :D), e cocô também. desde muito pequenino acostumamos a dar tchau pro xixi e cocô (jogamos na privada, quando a consistência permite), então é um processo que ele já conhece.

bem, o xixi de pé ele amou, claro. mas só agora, depois de 2 meses, ele percebe em 50% das vezes que precisa fazer xixi e pede. os outros 50% ou somos nós que insistimos (e ele resiste, sempre) pra tentar fazer ou ele faz na calça mesmo. uma coisa que fazemos desde o começo (e é mais difícil do que parece) é não reagir mal quando ele faz xixi ou cocô na calça, no chão, enfim. procuramos lidar com naturalidade, explicar que tá tudo bem, que quem sabe na próxima vez ele lembra de pedir, etc. quando é xixi, deixo ele com a cueca/short molhado um tiquinho (pra perceber o molhado, o que aconteceu) e aí troco. o cocô não tem jeito, tem que ser imediato mesmo.

em relação ao xixi sentimos progresso, ele já segura por um bom tempo e algumas vezes pede pra fazer. o cocô, por outro lado, o progresso é zero — ele nunca pediu pra fazer e simplesmente não aceita sentar e “tentar”, nem no penico e nem na privada com o redutor. ele parece preferir fazer cocô em pé ou agachado, e sentar é um problemão. aí é isso: cocô sempre na calça, apesar de ser sempre nos mesmos horário e percebermos quando vai rolar e tentar convencê-lo a sentar e fazer na privada/penico.

não sabemos o que fazer quanto a isso, e não queremos que ele se chateie com o processo, então vamos deixando e limpando muita roupa, e o chão, quando escapa. consultando amigas, nos disseram que para o cocô o controle dos esfíncters realmente precisa estar mais desenvolvido, então nos resta esperar e continuar tentando. uma amiga mencionou tentar ver se ele topa fazer cocô agachado, no penico. nunca tentei, vou tentar essa semana. e também recomendaram deixar ele brincar de subir escada e andar de bicicleta/velocípede, que ajuda a fortalecer e desenvolver a musculatura da região. vamos tentar também, e ver o que acontece.

enquanto isso, nos deparamos com situações como a de ontem, em que ele estava tomando banho de banheira comigo e agachou. eu desconfiei, e perguntei mil vezes se ele não queria tentar fazer cocô na privada, porque “no banho não pode, o cocô não toma banho com a gente, e blá blá blá”, e ele se recusou. até que ele vira e me diz “o otto NÃO fez cocô!” e lá vem o COCOZÃO boiando ao nosso redor… 😀

aí imaginem a correria pra sair da banheira, lavar os 2 (sorte que o cocô dele é bem firme, o prejuízo foi mínimo), se livrar do cocô (parabéns, papai, o pescador de cocô!), lavar a banheira com água escaldante, etc. e no processo todo, ele acompanhando e achando o máximo observar o cocô dele lá, na banheira. quis dar tchau, ajudar a limpar e tudo o mais.

a maternidade não é super divertida? 🙂 imagino que lindo deve ser o processo de ensinar a criança a se limpar sozinha… looking forward to it (NOT)

**

e aí ouço as histórias de desfralde mais lindas do mundo, como um amigo cuja filha com 1 ano e meio (!) que pediu para tirar a fralda, por conta própria. e nunca mais usou, sem NENHUM incidente. inclusive à noite (ela acordava os pais pra fazer xixi no meio da noite, percebam o nível). e morro de inveja, né.

a propósito, todo mundo me disse que meninas desfraldam mais rápido que meninos, não sei se é lenda, mas no geral somos mais rápidas em tudo, não? 🙂

**

DICAS SÃO BEM-VINDAS. PLEASE.

criando um gourmet

o título é uma piada, é claro, porque eu jamais faria esforço para criar um gourmet. não por nada, é que acho uma bobagem sem fim chamar culinária de arte. cozinhar é viver. e meu interesse principal é mostrar ao meu filho (e a quem me acompanha nessa vida, sempre que possível)  que comer é legal, divertido e gostoso (além de necessário). e que não é preciso tantos aditivos e subterfúgios pra realçar alimentos, eles são ótimos quando puros (crus ou não).

tenho escrito bastante sobre alimentação do otto desde que ele nasceu. no seu primeiro aniversário fiz questão de fazer um bolo bem lindo e diferente eu mesma (nada contra quem compra bolo do filho, ok? mas pra mim isso é importante, e faço questão de preparar eu mesma como parte do processo de comemoração). no aniversário de 2 anos, fiz questão de fazer todas as comidas servidas na festa em casa, com a ajuda das avós, amigos, tios e tias.

o processo de elaboração da comida (começando pela decisão do cardápio, passando pela preparação e arrumação na mesa) é uma das coisas mais deliciosas das comemorações. há uma quantidade enorme de amor nessa preparação, escolha de ingredientes, em todos os passos. não é só comida que se mastiga e engole, é a camaradagem na cozinha, as brincadeiras durante a preparação, a mesa sendo arrumada, o resultado final, a conversa sobre o resultado.

e assim também é no dia a dia — comer é socializar, interagir. dar de comer é cuidar, e amar. a comida do otto sempre foi feita com cuidado, técnica e amor, seja por mim ou pela babá dele, que tem com a comida a mesma relação que nós da casa. talvez por isso ela esteja trabalhando tão bem conosco há 5 anos, sempre tão bem alinhada com nossos valores. ela e eu começamos o processo de alimentação do otto juntas, e ela (com 2 filhos e 1 neta) me ensinou muito também. preparei no papel a lista de alimentos dele quando começamos o processo, experimentei tudo que ele comia, mudamos as combinações conforme a reação dele à comida, e dia a dia apresentamos a ele o maravilhoso mundo dos alimentos. e como resultado, o otto ama comer e experimentar coisas novas!

o otto nunca comeu papinhas industrializadas. comprei uma vez, para testar “na rua”,  como backup (caso ele recusasse a comida feita em casa), mas nunca foi necessário. a verdade é que ele só comeu papinha por 2 meses (até o final dos 7 meses), pois logo que se acostumou com a papinha começamos a dar pedaços de legumes, frutas e carnes (aos 9 meses). e logo que percebemos que ele mastigava, começamos a separar os alimentos bem claramente no prato, e começou a comer arroz, feijão amassado, e tudo o mais. com 12 meses ele comia salada, prato principal e fruta de sobremesa, como um adulto. sal e temperos mais fortes só colocamos a partir dos 2 anos (apesar de sempre ter comido tudo do jeito que era servido quando estávamos na rua). outra coisa que não incentivamos foi tomar suco de fruta, sempre preferimos dar a fruta diretamente (e ele gosta mais). o único suco que damos é de laranja, feito na hora, pela manhã, já que ele não toma leite.

antes de 12 meses, o que fazíamos era levar a comida dele em potinhos, pra onde íamos. e quando possível (faço isso até hoje, aliás), ele almoça antes de sairmos, especialmente quando não temos controle sobre o cardápio. há poucas coisas realmente proibidas na alimentação dele — (*) refrigerante e álcool 😀 — então comer fora não é problema. como em casa ele come de forma muito regular e correta (salada + prato principal + fruta), não nos importamos que ele coma coisas piores nos fins de semana. a verdade é que depois dos 12 primeiros meses de “doutrina” dos alimentos (sem sal, sem tempero, tudo colorido e separadinho no prato, muita variedade) ele não tem medo de experimentar nada, e quer provar de tudo. gosta de variedade, não dá muita bola pra doces (come, mas sem muita fissura) e não se acostumou a tomar líquidos junto das refeições. seguimos a recomendação do pediatra dele de preferir sempre comer a fruta ao invés de tomar suco, e ele acostumou.

hoje em dia ele almoça e toma o lanche da manhã na escola — menu ovo-lacto-vegetariano e orgânico, já falo sobre isso — e toma café, lanche da tarde e janta em casa. sempre comida preparada por algum de nós (pai, mãe ou babá) ou pela cantina da escola, preferencialmente alimentos orgânicos (ovos e frango sempre orgânicos). faço bolo 1 vez por semana, quando o pai toma sorvete ele toma também, quando a mãe quer pipoca ele come também 🙂 e nos fins de semana, comemos o que decidimos na hora.

um dos fatores de decisão sobre a escola que ele frequentaria foi o cardápio de almoço e lanche. nos incomodou demais a quantidade de alimentos que nos recusamos a consumir que são servidos nestas escolas, entre eles: pãozinho “sevenboys”, margarina (!), suco de caixinha, frango e ovos não orgânicos. nada de fruta ou castanhas de lanche, porque “as crianças não comem”.

somos absolutamente contra restrição de proteína animal para crianças. diferente do que muita gente afirma, em especial para crianças, é recomendada a suplementação em caso de dietas vegetarianas. não faz sentido algum pra mim optar por suplementar artificialmente com vitaminas que podem ser obtidas diretamente dos alimentos. entendo a opção de um adulto em ser vegetariano, é válido e legítimo, mas não acho correto impor a mesma decisão (que nem é decisão, afinal) a uma criança. mas vegetarianismo é como religião — não dá pra discutir, porque passa por crença e motivação moral e ética. então falo somente por mim: se meu filho decidir ser vegetariano (ou judeu, enfim), é opção dele, quando tiver discernimento para decidir. privá-lo de proteína animal em sua fase de crescimento por uma convicção, sem ter 100% de certeza das implicações no seu crescimento e desenvolvimento? não mesmo.

**

me motivei a escrever este post porque muitas pessoas me parabenizam pelo ótimo apetite e disposição pra comer do otto. e eu acho estranho, porque no fundo sempre acho que esse amor pela comida e pela experiência de comer é inato, é dele. mas pensando racionalmente (e lendo muito do que se escreve por aí sobre hábitos alimentares de crianças), acho que não é só isso mesmo. repensei algumas das nossas práticas alimentares da casa, e acho que têm sim impacto no comportamento dele. e resolvi compartilhar, apesar de não haver comprovação nenhuma e eu não poder garantir que vai funcionar com todas as crianças. mas quem sabe né? tentar não custa.

1) seja a mudança que você quer ver no mundo. você, ou as pessoas que convivem com a criança, são chatos pra comer, não comem de tudo? esqueça. vocês são os exemplos, e não existe o “faça o que eu digo mas não faça o que eu faço”. a alimentação do outro é uma das coisas que é impossível controlar, mesmo quando o outro tem só 8 meses de idade.

2) ofereça o mesmo alimento repetidas vezes, em especial no começo do processo de alimentação. o pediatra do otto sugeriu que servíssemos a mesma fruta por 7 dias, mesmo que ele recusasse, e só então trocasse a fruta. pra que ele conhecesse a fruta, a cara, o cheiro, o gosto, a textura. as crianças recusam tudo que não for leite da mãe, no começo. resistir à mudança é parte da natureza humana, é preciso insistir para ensinar que coisas novas podem ser legais, depois que deixam de ser novas. aos poucos eles aprendem que coisas novas podem ser interessantes (mas continuam recusando no começo. continue oferecendo)

3) nunca insista à força. nunca. essa briga você vai perder. não é possível obrigar alguém a se alimentar de forma consistente. é preciso criar o interesse, e principalmente tornar a hora da refeição um momento agradável, feliz, gostoso. não quer comer? não coma. coma você, mostre prazer em comer. as crianças funcionam por imitação. aconteceu mil vezes do otto não querer alguma coisa, até outra pessoa experimentar — aí ele queria. e amava, e repetia.

4) sempre ofereça muita variedade. as crianças gostam de brincar com a comida, de se divertir enquanto comem. além disso, é importante ter a opção de recusar — se você colocar só 2 alimentos, e ela recusar 1 deles, sobrou só 1. se você oferecer 5 tipos de alimentos e ela recusar 2, ainda sobraram 3. é normal a criança se recusar a comer alguma coisa, faz parte inclusive do processo de auto-afirmação. deixe que a criança tenha a opção de escolher. faça porções pequenas, para não desperdiçar, e pronto (dependendo do caso eu guardo o que ele não quis, e sirvo de novo em outra refeição, e ele come!)

5) a propósito — acostume-se com o não. lide com o não de forma natural, como lida com o sim. a criança precisa sentir que o não/sim têm o mesmo peso, senão a recusa vira arma contra você!

6) não rotule o gosto da criança pela recusa. um “não” não significa que ela não gosta do alimento, mas que naquele momento ela não o quer. quando a gente rotula o gosto da criança rapidamente demais, as opções começam a ficar escassas, e pior, a criança não terá oportunidade de mudar de ideia, porque você não vai mais oferecer! ou pior: vai se convencer (por sua causa!) que ela realmente não gosta de X. policie-se, evite rotular, insista, tente de novo e surpreenda-se.

7) faça pratos bonitos. misture sabores e texturas. não cozinhe demais os legumes, assim que a criança começar a mastigar. mastigar é divertido, e faz parte do processo digestivo. não faça “melecas” misturadas e purês, separe os alimentos claramente no prato. ensine o nome dos alimentos, aproveite a refeição para ensinar sabores (azedo, amargo, doce, salgado, etc.), texturas, cores. não tenha medo de deixar a criança experimentar ardidos, azedos, amargos. elas podem gostar!

8) seu filho não é você. ele pode ter gostos diferentes dos seus, então não limite o gosto dele tomando como base o que você gosta/desgosta. não é porque você odeia melancia (meu caso) que não vai servir para a criança (otto ama). criança não gosta só de doce, não. não tenha medo de dar alimentos crus (sempre limpos e sob supervisão, claro), castanhas, coisas “duras”. ensine seu filho a comer essas coisas.

9) coma junto com seu filho. eles comem melhor quando a gente come, e se interessam pelo que nós colocamos no prato. o otto experimentou cebola crua porque viu no meu prato, quis, experimentou e amou. come todo dia, e muito, se deixar. não existem alimentos “de criança”, eles precisam experimentar de tudo.

10) ensine seu filho a reconhecer os alimentos “in natura”. mostre as frutas, legumes, verduras, temperos (se puder, no jardim ou na horta). mostre os bichos que ele come. mostre ovos, deixe ele quebrar ovos pra fazer bolo, colocar a mão na farinha, experimentar açúcar, sal, canela. comida não é um prato feito na mesa, é um processo. eles amam aprender sobre o processo, e ajudar na preparação. isso cria uma afinidade e interesse pela comida que não tem preço.

11) evite temperos em excesso nos alimentos (sal, alho, cebola, louro, enfim). temperos são coadjuvantes, somente. apreciar o sabor original dos alimentos é maravilhoso, e só é possível se você não mascarar com temperos. dê ao seu filho a chance de saber qual é o gosto do brócolis puro, sem sal nem azeite nem alho nem nada. quando puder mostrar a diferença entre cru e cozido, mostre. é um aprendizado delicioso (inclusive pra você! aproveite a oportunidade pra re-conhecer seu paladar :D)

(update em 25/março/2013)

12) desencane da sujeira. experimentar com as mãos, esfregar na mesa, no prato, no corpo inclusive, faz parte. comer é também um ato sensorial, que a gente afina com o tempo (curte a textura só na boca), mas pra eles é tudo novo. eles ainda não controlam totalmente o movimento fino, então deixe pegar com as mãos, explorar. dê comida num lugar que seja fácil de limpar, e simplesmente coloque as roupas (e o resto) pra lavar depois. mania de limpeza e organização não combinam com bebês 😉

13) não ache que a refeição vai acontecer em 15min. se estiver com horário pra terminar, comece MUITO antes. eles demoram muito mais tempo que a gente pra comer, normalmente, e isso independe da fome. a refeição não é tempo só de se alimentar, mas de explorar, aprender, conhecer, e se relacionar com quem está dando a refeição. se estiver dando muito trabalho ou estiver de saco cheio (enche o saco às vezes, tá?), peça pra outra pessoa ajudar, alternando com você. aliás…

14) mamãe, experimente deixar outras pessoas darem a comida, você pode ter uma surpresa. por conta da nossa ansiedade pra criança comer, ou pressa, ou asco da bagunça, a criança percebe que aquele momento ela está no controle, e usa-e-abusa. muitas das relações de cuidado são quedas de braço entre cuidador/criança, elas estão justamente na fase de aprender sobre controle nos relacionamentos. quebre o ciclo, mude a rotina, e observe como as coisas mudam.

eu teria muito mais pra escrever sobre isso, mas acho que tá bom pra agora. espero que seja útil pra alguém 🙂

**

(*) pensei melhor e a lista não é tão pequena. fazem parte dela: sucos adoçados, chocolate de forma geral (ele só come quando a gente come, e é raro), bolacha recheada (dependendo de nós é jamais, em casa não entra), doces “de criança” tipo pirulito, balas, chiclete, salgadinhos de saquinho (nunca são comprados por nós também) estão na lista de no-no. evitarei ativamente que ele coma enquanto for possível. atualmente ele nem sabe o que é bala, pirulito, por exemplo. bolacha ele come, se oferecer, porque de vez em quando compramos um cookies orgânicos, e ele sabe a “cara” do alimento. mas não gosta muito, pra ser sincera. já doritos ele amou (puxou à mãe).

diário do otto: 30 meses ou dois-anos-e-meio

otto,

acho que agora você é oficialmente um menino e não mais um bebê. acho que já faz mais tempo, mas ainda não consigo não chamar você de “bebê”, meu bebezão crescido, menino querido da mamãe!

nossa vida tem sido muito corrida, como sempre, mas felizmente temos mantido sua rotina, tão importante e tão útil. você está 100% adaptado na escola, gosta bastante de ir, começou a comer na escola todos os dias, come tudo e repete (segundo as cuidadoras, você é o mais comilão da turma). come sozinho e de tudo, sem frescura nenhuma, o que nos deixa muito felizes.

a cada dia aparece uma novidade nas suas independências e invencionices — sua personalidade se consolida, e parece que você se sente cada vez mais à vontade para expressar vontades, opiniões, quereres. procuramos sempre deixar espaço pra você seja você, se descubra e experimente. o mais difícil é balancear a liberdade e ensinar as regras básicas de convívio, pois parece que você quer quebrar todas elas 🙂 você tenta de tudo: gritar, jogar coisas, bater e dar chilique, espernear, enfim, todas aqueles coisas mais desagradáveis e irritantes que vemos crianças fazendo para conseguir o que querem. você tenta, e nós resistimos. nos posicionamos, explicamos e, em último caso, colocamos você “pra pensar”. essa coisa de “pensar” é recente, e ainda estamos experimentando.

quando identifico o “momento de pensar”, levo você pela mão (ou no colo, quando você não colabora), coloco você sentadinho no banquinho do seu quarto e digo que agora vamos parar pra pensar no que o otto fez. você chora, reclama, grita, se recusa “não vou pensar! não quero pensar!”, tenta sair, mas insistimos mil vezes se necessário, até que você sente, e possamos falar sobre o que aconteceu. o que tento fazer é mostrar pra você a situação: o que você fez, porque não consideramos aceitável, e procuro fazer com que você perceba que não gostamos, que não foi legal. e quando é caso de agredir, ou jogar coisas, ensinamos que se deve pedir desculpas. e você pensa, conversa com a gente e pede desculpas! <3 mas depois de entender que pedir desculpas “resolve” o problema, você sai pedindo desculpa por qualquer coisa 😀

mas vamos aos poucos ensinando você como funcionam os relacionamentos, como as outras pessoas se chateiam com suas ações (como bater nelas) e o que fazer quando as coisas dão errado. você aprende rápido, e tem se tornado um menino muito querido e educado na maior parte do tempo. não estando com fome e/ou com sono, você é geralmente um amor.

começamos em janeiro seu desfralde, e ele ainda está em progresso. você já pede pra fazer xixi várias vezes, e conseguimos levá-lo pra fazer xixi, mas ainda escapa muitas vezes quando você se distrai brincando e o cocô… não conseguimos ainda que você peça pra fazer ou mesmo que tente fazer sentadinho. estamos insistindo, com paciência, semana a semana. mas olha: é um processo bem chato! espero que acabe logo.

você continua cantando bastante, e cada semana melhora seu senso de tonalidade (você tenta chegar nas notas, arrisca nos graves/agudos). suas brincadeiras estão cada dia mais “de moleque”, pulando, fazendo cambalhota, jogando coisas, uma praga!

a hora da história, antes de dormir, é cada dia mais engraçada (e irritante, nos dias que você está muito agitado), você conta a história junto, inventa e interpreta. escovar os dentes também é super divertido, porque você adora quando cantamos a música dos dentes (fizemos uma adaptação da música do banho, e você adora), canta junto e escova os dentes “sozinho” (e faz direitinho, viu?).

o sono está ótimo, você dorme a noite inteira, mas… demora 1h pra dormir, e sempre na nossa cama, juntinho da mamãe ou do papai. como estamos muito felizes que você agora dorme a noite toda, estamos morrendo de medo de mudar, mas sabemos que precisamos começar a fazer você dormir (e ficar) na sua própria cama. durante o dia você ainda dorme pelo menos 1,5h, e na sua cama. por enquanto vamos aproveitando pra dormir abraçadinhos com você, que de manhã acorda com preguiça e quer ficar juntinho. é muito gostoso ficar com você de manhã, antes de levantar e começar o dia.

seu vocabulário e sua fala estão muito impressionantes, as pessoas comentam que você é muito “articulado” e fala bem. você é um menino introvertido, de forma geral, mas se expressa bem e não deixa de se manifestar quando está incomodado ou não quer alguma coisa, o que achamos ótimo. “não, eu não quero” ou “tou sastifeito” são frases bem frequentes 🙂

seu medo de cachorros que pulam/latem permanece, não importa o tamanho do cachorro. por mais que sejam bonzinhos e amigáveis, você não gosta, reclama, chora e quer colo. “o otto não gosta desse cachorro, o otto quer colo!”. esperamos que em algum momento você se sinta mais confortável brincando com eles, mesmo quando são mais toscões feito a nai (que é tosca mas é um doce, e nunca nem ameaçou machucar você).

no mais, estamos cada dia mais felizes e apaixonados por você, todos nós: papai e mamãe, maria, professoras, avós, tios e tias, amigos. você é uma criança muito cercada de amor, que leva uma vida deliciosa, cheia de atividades ao ar livre, que come bem, dorme bem (depois de 2 anos…), e tem ótimo humor. nossa vida tem sido muito boa, e a sua também.

temos fotos e vídeos de monte pra você ver e rir, espero que goste quando um dia vier ler esse diário e puder acompanhar seu próprio desenvolvimento, a fabricação deste serzinho incrível que você é.

um beijo cheio de amor da sua mamãe-caracacá (*).

(*) você acha o máximo as palavras masculinas e femininas, e me diz que “o otto é corococó e a mamãe é caracacá”. ou “o otto tem pipi, a mamãe tem pepéia!” <3 <3