o que NÃO é autismo

Excelente artigo sobre disgnósticos precipitados (e incorretos) de autismo, quando o que a criança apresenta é simplesmente comportamento tipicamente masculino e introvertido. Também esclarece um pouco sobre comportamento típico de crianças de 1-3 anos.

Muito interessante para que observar e respeitar características inatas de cada criança, sem necessidade de rótulo, porém lembrando que existem algumas inclinações, sim, e elas são perfeitamente naturais. Nem todos serão extrovertidos e verbais.

“The stereotype of boys as logical, inflexible, and businesslike in their communication habits is more than just a stereotype. A recent massive study out of the University of Florida involving fifty-four hundred children in the United States ages eight to sixteen indicates that twice as many boys as girls fit this thinking-type temperament. Conversely, twice as many girls as boys fit the feeling-type temperament— tactful, friendly, compassionate, and preferring emotion over logic.”

apanhado do facebook: setembro

[setembro] 4 de Setembro foi o dia em que o Otto veio pra casa, depois de longos 8 dias de UTI.

Quase como um segundo aniversário, o dia em que tivemos nosso filho em casa pela primeira vez.

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[setembro] Hoje na escola do Otto o lanche foi tamarindo, a fruta. Ele foi o único que comeu (e repetiu, e tá pedindo mais até agora).

MY BOY! 

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[setembro] Otto hoje viu eu e Fernando pegando chiclete no carro e pediu. Expliquei — “esse é pra gente grande, gatinho!”. E ele: “mas eu SOU grande, mamãe!”

(concordei que ele É grande, mas ainda não é gente grande, coisinha pequena da mamãe)

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[setembro] Hahahahhaha, Otto neste momento na varanda, indignado: “por que que está escurecendo?!”

😀

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[setembro] Otto tomando banho de banheira comigo, chama o pai pra ajudar numa questão:

Otto: “papai, eu quero jogar água nas pessoas; jogar água nas pessoas É LEGAL!”
Fernando: “E quem são ‘as pessoas’ nesse caso?”
Otto: “Essa pessoa aqui –” (e aponta pra mim. Que já deixei bem claro que NÃO quero que me jogue água)
Fernando: “Essa pessoa não quer que jogue água. Você gosta quando jogam água em você?”
Otto: “PARA, papai!”

E encerra a discussão.

Pra quem pensa, mesmo que remotamente, que crianças não entendem as coisas…

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[setembro] O dia nunca começa bem depois de deixar o menino chorando na escola porque não quer ficar.

Além do inconveniente da doença de 10 dias, tem a mudança de rotina, esse problema de dimensões continentais para uma criança de 3 anos.

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[setembro] ontem, no meio de uma DR com o otto, ele fala “EU VOU FUGIR!” e sai correndo pro quintal.

achei que demorava mais, sei lá, uns 3 ou 4 anos pra acontecer isso.

(e eu caí na gargalhada, claro, mãe-orangotanga que sou)

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[setembro] Olha, acreditando ou não em astrologia é divertidíssimo observar e comparar os arquétipos. O Otto é virgem com ascendente em virgem. E é completamente hipocondríaco, AMA um remedinho, está achando o máximo ter um curativão no braço.

Hoje o Fernando levou ele na pediatra pra ver o estrago, e ele enrolou ela pra não tirar o curativo externo (e mais chamativo). Quando finalmente ele cedeu, exigiu que colocasse o curativo de volta (foi pro outro braço), e agora ele é um menino contente, com 2 curativos.

(e a lua em Áries dele garante que sempre terá uns machucadinhos pra mostrar, pra desespero da mãe)

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[setembro] No sábado visitamos a Fernanda e Alexei, e a pequena deles, 1a10m, sentou do lado do Otto na mesa pra almoçar. O Otto deu um chilique por motivo X, e começou a chorar. Ela chegou perto dele, passou a mãozinha na cabeça dele e ofereceu COLO com os bracinhos! 

Viramos todos uma poça de baba e arco-íris.

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[setembro] os germes são nossos amigos 🙂 artigo em inglês.

nem príncipe nem plebeu

desde que o otto começou a falar, e se comunicar bem com a gente, procuramos sempre conversar, negociar, explicar tudo o que fazemos com e para ele, o também o que ele pode e não pode fazer. quando conversar não funciona, usamos o “castigo” — fazemos um “time out”, sentamos com ele no quarto dele num banquinho pra “pensar no que aconteceu” e falar sobre isso. ele não gosta (a menos que queira nos contrariar, aí ele QUER ir pensar), mas o resultado geralmente compensa, pois ele se acalma e falamos sobre o que não deu certo, não foi legal, etc. e ele geralmente sabe direitinho o porquê do castigo ou da bronca.

educar o otto tem me feito repensar uma série de coisas no meu próprio comportamento, porque me peguei repetindo frases que minha mãe dizia quando eu era criança, e que eu odiava. percebi também que eu dizia pra ele coisas que detestaria que dissessem pra mim! resolvi então fazer um exercício difícil, mas importante: me colocar no lugar dele quanto ao que digo e exijo. a ação, a frase, as palavras, o tom, tudo.

por exemplo: “otto, PARA de bater essa colher na mesa, AGORA!”

(frase dita com os devidos grifos, depois de minutos de batuque incansável que estavam me causando uma enxaqueca)

me imaginei na cozinha, batucando com meus talheres, alheia ao barulho (ou até curtindo, sei lá), e alguém muito maior que eu, mais forte, do qual eu dependo e a quem eu amo, falando essa frase assim, do nada. em tom agressivo, e (pelo menos pra mim), sem nenhum motivo. eu tenho absoluta certeza que ia ficar com medo, ou com raiva, ou ambos.

e ao me colocar no lugar dele, veio uma enorme pergunta que independe do medo, raiva, ou surpresa: por que eu deveria parar? só porque alguém grande e bravo (e que eu amo, a propósito) pediu ou mandou?

fiz também um outro exercício: se o otto não fosse meu filho, ou nem fosse uma criança. eu falaria do mesmo jeito, a mesma coisa? não, é claro que não. então por que com ele eu falo e faço assim?

porque por trás da relação adulto/criança e filhos/pais tem a sombra enorme da obediência. e obediência não é respeito, a obediência é baseada na hierarquia, no medo, ela é burra. ela pressupõe uma relação de poder, completamente desigual.

eu ODEIO obediência. eu não acredito nela, nunca acreditei, eu C&A* para hierarquias, e nomes, e títulos. não faz sentido algum eu continuar baseando minha relação com meu filho neste conceito estúpido.

concluí: não quero que meu filho me obedeça. nunca. prefiro mil vezes que ele desobedeça, que questione, que seja um mala-sem-alça, revoltado, chato de galocha. obediência é uma coisa triste.

e mais — tive que ter discussões importantes com o Fer, pai da criança e meu companheiro, a respeito disso. ainda não tenho certeza que ele entendeu meu ponto (tomara que esse texto ajude!), mas combinei com ele: jamais, nunca, dizer coisas como “você não OBEDECEU a mamãe, e por isso <X>” ou “você precisa obedecer a mamãe!”.

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mas às vezes a gente precisa que a criança obedeça, não? e aí? olha, eu prefiro adotar o verbo COLABORAR, e vou explicar o porquê, não é neurolinguística amadora.

nossa função é educar a criança, ensinar a ela as regras de convívio, a empatia, etc. (com sorte, essa é a função de todos os adultos que cruzarem o caminho dela). a coisa mais básica (e difícil, eu sei) que ele precisa aprender é que existe um limite, físico e social, entre ele e as outras pessoas todas. que se ele não olhar pra onde pisa, vai pisar no meu pé e aprender empiricamente que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo; que quando ele grita, o som chega até meus ouvidos e me incomoda; que se ele deixar um brinquedo no chão, atrapalha a passagem das pessoas. enfim, vocês entenderam. e como fazer com que ele entenda isso, e aprenda a respeitar os limites alheios?

com uma paciência do tamanho do mundo, e parando pra questionar certas coisas, com franqueza.

me perguntei: por que eu respeito os limites alheios? por medo, covardia, porque não quero confrontar. porque não quero chatear a outra pessoa. por preguiça de me impor. porque quero agradar.

e como tomamos essa decisão, de respeitar, ou de colaborar? como aprendemos isso? errando e acertando. o que significa, na prática, que lidando com as consequências do que fazemos aos outros, aprendemos com o erro/acerto, e lembramos do que queremos repetir ou evitar, criando um padrão de comportamento.

consequência é a palavra-chave. as crianças aprendem a respeitar por medo, sim, aprendem que se forem obedientes, não serão punidas. mas eu não quero criar uma criança que me respeita por medo, poxa. eu quero que ele seja rebelde 🙂 um rebelde respeitoso! e tenho certeza que isso é possível, se eu conseguir mostrar claramente as consequências do que ele faz, e se eu mostrar pra ele que eu o respeito, e que quero o mesmo tratamento de volta. é uma troca, e não uma obrigação. o respeito e a colaboração têm relação com o interesse mútuo e (com sorte), com amor.

então, ao invés de dar um grito de “não pisa no meu pé!” quando ele pisa, eu tenho explicar que eu também sinto dor (será que ele sabe? sempre pressuponho que não. e ensino), que quando ele pisa no meu pé, dói, e eu não gosto. ele puxou meu cabelo outro dia, e pedi que parasse, expliquei que doía, etc. ele continuou. eu tentei diferente — mostrei que nós 2 temos cabelos. puxei o dele, de leve, mostrando que podia doer. avisei que para cada puxão no meu cabelo, eu daria um igual no cabelo dele. e assim foi, até que doeu, ele chorou, e parou de puxar meu cabelo. e agora, quando ele puxa sem querer e eu aviso, ele para imediatamente.

o exemplo do cabelo é mais fácil de demonstrar ação/consequência. algumas coisas são mais difíceis, por exemplo: ele começou há alguns meses a ignorar perguntas. ele ouve, mas não responde. estamos ensinando que ele pode dizer que não quer conversar, é direito dele, mas não pode não responder, simplesmente. por quê? porque vivemos em grupo. é uma regra razoável numa comunidade — você pode não querer conversar, mas não pode não responder à pergunta “você vai querer jantar?” porque isso impacta a comunidade. usar a tática de fazer o mesmo com ele não funcionou muito bem por enquanto (ignorar perguntas e conversas), embora eu tenha tentado fazer isso às vezes para que ele sinta qual é o problema.

procuro sempre mostrar pra ele que precisa parar de fazer certas coisas (espirrar água em mim no banho, por exemplo), porque eu não gosto, e não quero. também acho essencial ensinar pra ele que todos temos direito a não querer que invadam nosso espaço físico, que nos toquem, machuquem, incomodem. que precisamos ouvir o outro, prestar atenção ao que estão pedindo. (e sempre que possível, respeitamos a vontade dele. acho que isso ajuda muito neste processo)

em cada pequeno exemplo destes, o que estou ensinando é como colaborar conosco pra que nossa vida juntos seja mais legal, mais tranquila, e até possível às vezes. quero que fique claro que ele é MAIS UM na nossa comunidade, e não o centro dela. ele precisa colaborar conosco, com as coisas que nós também precisamos ou queremos fazer, como por exemplo dormir um pouco mais no fim de semana. eu quero dormir, ele quer ver desenho — ele fica com o ipad, mas às vezes quer que eu fique junto. e eu explico: até as 8h a mamãe vai dormir, e você pode ver o seu desenho. depois brincamos juntos, mas agora, nesta 1h, eu quero fazer outra coisa.

a boa notícia é que cada vez mais isso tem funcionado!

e assim vamos, ensinando as menores coisas, aquelas todas que a gente fazia no automático. e quer saber? é bom. porque a gente aprende muito quando ensina, e aprende inclusive a mudar a si mesmo em coisas que estavam enraizadas e cheias de musgo. crianças obrigam a gente a fazer uma faxina na mente e na alma.

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quando preciso que ele faça alguma coisa, sempre explico o porquê. e quando o que precisa ser feito não tem negociação, no entanto, faz-se à força. e explico sempre: “você podia ter colaborado, a gente não precisava brigar. mas isso PRECISA ser feito, então vamos lá”. trocar fralda de cocô que já passou do prazo, ir dormir, colocar cinto de segurança, sentar direito na cadeira pra não cair, essas coisas e muitas outras. comer não é uma delas, no entanto. comer, só quando se tem fome (mas os horários da casa são respeitados, nada de refeição fora de hora — regras da comunidade :))

não gosto de falar até a orelha cair. explico 1, 2 e no máximo 3 vezes. sei que crianças não absorvem tudo de uma vez, assim, pá-pum, ok. mas se não colaborou depois do papo, vai à força mesmo, paciência. de novo — consequências. ele sempre tem a opção de nos ajudar, de perguntar, de fazer JUNTO. se não colabora, a comunidade decide 🙂

porque é isso — não quero obediência, deus me livre de criar um menino vaquinha de presépio, mas ele também não é o príncipe herdeiro, não senhores. ele é parte da nossa comunidade, essa pequenininha da nossa casa, e da comunidade maior da família, amigos e escola, e cada vez o círculo dele vai se expandir mais. a cada círculo, ele vai ter que aprender como lidar com limites diferentes, demandas diferentes, e muito menos paciência que a nossa. não farei bem algum a ele sendo condescendente, então procuro ter empatia porém sem exagero.

crianças são tiranas, todas elas. as pessoas falam “ai, meu filho tem personalidade forte, sabe?” como desculpa para falta de educação. minha senhora, todas as crianças têm personalidade forte, é parte do desenvolvimento neural do ser humano, não existe criança bovina. se ela for bovina, algo está errado. cabe a nós, como educadores, ensinar às crianças que há outras pessoas — com quereres e gostares diversos — no mundo, e que elas são parte do mundo, iguaizinhas às demais pessoas.

eu que não vou criar um ser humano mala geração Y!

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sim, o progresso é lento, e às vezes enche o saco. mas vale a pena, quando a gente vê aquele ser tão pequeno sendo razoável, estando atento às pessoas ao seu redor, e já negociando como fazer o que ele quer através e junto dos outros. integrado à comunidade, pouco a pouco, e não um reizinho cheio de vontades ou uma criança pequena que obedece por puro medo.

pra quem pergunta das coisas legais de ter um filho, essa é uma delas — ver um ser humano decente sendo criado, do zero. fabricado, desde as células até o comportamento e flexão verbal. é absolutamente mágico e incrível.

(e cansa pra caramba)

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(*) C&A = cago e ando. ou cagando e andando.

diário do otto: 3 anos! \o/

otto,

você fez 3 anos neste lindo mês de agosto, e parece que foi ontem; e também parece toda uma vida!

aliás, como era a vida antes da sua chegada? preciso me esforçar pra lembrar, é como se tivesse sido com outra pessoa. o passado é cheio de coisas diferentes, que eu adorava fazer, mas não trocaria minha vida atual pela anterior. você vai aprender que sua mamãe não se apega ao que passou, gosta muito mais de viver o dia de hoje. cada dia é um dia, aproveitando cada pequena felicidade e deixando também que as pequenas tristezas e cansaços tenham seu lugar. espero conseguir lhe ensinar um pouco sobre viver o presente — não remoer o passado, não criar ansiedade pelo futuro — e ser flexível.

fui ler o diário do seu 1 ano — você tinha começado a andar e não falava nada além de vogais, ainda um bebezão. aos 2 anos, já falava muito bem mas ainda podíamos ver um pouco de bebê. com 3 anos já temos um menino em casa, sem carinha e nem comportamento de bebê. sua fala agora é praticamente perfeita, como de um adulto. é raro ver você cometendo erros de conjugação ou mesmo concordância (no máximo com os verbos irregulares que não conhece bem), não há quem não comente sobre como sua fala é certinha. seu interesse pelos números e letras diminuiu (e continuamos não forçando nada, deixando que você explore o que mais lhe interessa), mas você conta bem até 40 ou 50. o mais curioso é que perceber seu entendimento da lógica da contagem (sequência e quantidade), brincando às vezes de aumentar e diminuir.

esses dias você comia torradinhas no prato (tinha 9 ou 10), e ia fazendo uma contagem regressiva a cada uma que comia. chegando à última, perguntei “e aí? quanto sobrou?” e você, filosoficamente respondeu “o vazio” 🙂 e então ensinamos sobre o zero, claro!

sua interação com outras crianças ainda é bem limitada, você não vemos demonstra interesse especial por nenhum amigo da escola. percebo mais interesse seu com os filhos dos nossos amigos, e cada vez mais se interessando por crianças mais próximas da sua idade (diferente de antes, que só gostava das crianças mais velhas). me parece que você é uma pessoa reservada, diferente da sua mamãe, que sempre foi muito extrovertida. o que faz da experiência de ensinar e conviver com você algo ainda mais interessante pra mim.

suas professoras sempre se referem a você com muito espanto — “ele é um menino muito diferente! é sério, analítico, concentrado e observador. um menino muito inteligente, que pensa antes de falar, que faz perguntas interessantes e relevantes”. é um orgulho muito grande pra nós, seus pais, saber não só que você demonstra inteligência, mas principalmente que está confortável sendo quem é, do jeito que é, em meio a tantas crianças tão diferentes. sua tranquilidade e confiança em si mesmo são os sinais mais claros pra nós que estamos fazendo um bom trabalho como pais. ser inteligente é muito legal, claro, mas ser um menino bom e feliz é muito mais importante.

a mudança mais significativa no seu desenvolvimento, nesta fase, é seu interesse e habilidade em contar histórias. você quer ver e ouvir histórias o tempo todo, repetidamente, e eu me divirto muito (além disso, sem modéstia, sou muito boa contando histórias!). você vê, ouve e conta e reconta as mesmas histórias, mas nem sempre da mesma forma. também inventa situações, caminhos, nomes (e idiomas, aparentemente), e conta histórias com perfeição, nos mínimos detalhes. e canta as músicas também, sempre muito perfeitamente (inclusive corrigindo a si mesmo e começando de novo quando erra…).

há alguns dias sua professora nos contou que toda sua turma parou para ouvir você contar a história do curupira. e que você contou a história toda direitinho, e eles ouviram até o fim! quão fofo é uma turma de crianças menores de 4 anos contando e ouvindo história juntas?

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Gromit & Wallace \o/

sua festa de 3 anos foi a mais legal de todas, só com as pessoas realmente próximas de você, que convivem bastante. o papai e eu preparamos uma surpresa — fizemos esculturas do gromit & wallace, que você adora, para colocar na mesa. e a tia paula e a vovó malu fizeram a ovelhinha shawn e os saquinhos de lembrança. não consigo descrever sua carinha de feliz ao ver os personagens que adora na mesa de aniversário, foi a coisa mais linda. mentira — a coisa mais linda foi seu rosto e sua felicidade na hora do parabéns, olhando pra cada pessoa ao redor da mesa cantando pra você. este ano, pela primeira vez, acho que entendeu que a festa era sua. foi lindo e emocionante <3

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bom, quanto à sua rotina, você continua dormindo com a mamãe ou o papai, e não sabemos quando isso vai mudar. estamos esperando um sinal divino 😀 mas temos incentivado você a tentar dormir na sua cama, sozinho, e durante o dia isso já acontece com frequência. sua alimentação continua a mesma — você come de tudo, embora esteja mais seletivo (como oferecemos muita variedade, isso não é um problema), e não tem problemas em experimentar coisas novas. uma coisa que agora você adora é chocolate, que damos de vez em quando (está se transformando num chocólatra, como seu pai :))

a fralda, por enquanto, desistimos de tirar. você já sabe expressar sua vontade, e não quer fazer xixi ou cocô na privada (mas não quer fralda também. tem sido uma briga de vez em quando). decidimos então manter conversas sobre isso, tentando ver quando você vai se interessar pelo assunto, e aí vamos fazer a transição.

no mais, fora os seus chiliques de 3 anos (tudo do contra, tudo é não, tudo é do seu jeito), os dias têm sido bons, as histórias têm sido lindas e divertidas, e mesmo seus pitis chegam a ser engraçados. uns dias são melhores que outros, mas no geral a experiência é incrível e muito bonita. você sempre foi e continua sendo um menino inteligente, tranquilo, de humor excelente, cheio de empatia e muito articulado. como não amar e não ter orgulho?

feliz 3 anos, meu amor. que venham mais 300 anos! um beijo enorme da sua mamãe.

PS: veja aqui as fotos dos seus 3 anos.

as coisas tão mais lindas

“E as coisas lindas são mais lindas
Quando você está
Hoje você está
Onde você está
As coisas são mais lindas
Por que você está
Onde você está
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas”

a empatia é uma das qualidades, ou atributos, que considero verdadeiramente importantes. entendo que boa parte do meu papel como mãe é ensinar ao meu filho que ele é parte de um todo, que é essencial observar e respeitar os que o cercam. mas eu quero mais — que ele seja capaz de enxergar o outro de coração aberto, e por mais que não se identifique ou não entenda, que aceite e respeite.

difícil, porque afinal eu mesma não cheguei a esse ponto, seja por que motivo for. (mas creio que é possível ensinar algo que não se sabe. até por não saber, e saber porquê não sabe, talvez seja viável)

diz a internet que empatia é a capacidade de reconhecer emoções sendo experimentadas por outro ser senciente, real ou ficcional. sentir empatia não implica sentir compaixão ou simpatia, mas tão-somente reconhecer, perceber. dar direito ao outro de sentir.

(a mim esse direito foi negado, tantas e tantas vezes enquanto criança! cresci sem saber que podia sentir, independente da anuência alheia)

aprendi na prática, observando o otto: para sentir empatia legítima, é preciso ser respeitado primeiro. e é com orgulho que digo (e confirmo, a cada dia) que ele é muito respeitado, e suponho que inclusive por isso esteja se tornando uma criança observadora, atenta e cheia a de empatia.

contar histórias, ou ver filmes, é uma excelente oportunidade de observar a reação da criança a respeito de relacionamentos e sentimentos. nestas ocasiões é que comecei a perceber o quanto o otto presta atenção aos relacionamentos e ao “humor” dos personagens.

“olha, mamãe, o cascão está bravo”. ou “o curupira ficou feliz, né?”. ele observa as expressões faciais, os sorrisos ou cenhos franzidos, e interpreta, decodifica. são sutilezas das expressões, que nunca foram observadas ou ensinadas ativamente por nós (não ensinamos “as expressões”, como alguns métodos sugerem. com cartões. deus me livre, lembrei de parenthood).

ele viu as irmãs brigando no filme lilo & stitch, e ficou aos prantos. “por que elas brigaram, mamãe?”; essa semana, vendo um vídeo sobre o saci, chorou quando capturaram o saci na garrafa. “eles vão soltar ele, mamãe?”. ele entende o sofrimento do outro, a tristeza, o medo. é tão bonito!

é impossível não se emocionar com a beleza de um ser humano tão, tão pequeno ainda, que não sabe nada do mal, das dificuldades, que vive praticamente numa redoma de carinho e cuidado, perceber tão claramente o sofrimento do outro e sentir empatia.

ele sente porque é, ainda que tão pequeno e protegido, um humano. nele, só um dos tantos espécimens vivos neste momento no planeta, está representado também o todo, aquilo que faz de nós o que somos, como espécie. a empatia nos faz ter mais chances de sobreviver, como grupo, no longuíssimo prazo. e ele carrega isso consigo.

mais que o primeiro choro, o primeiro passo ou a primeira palavra, a demonstração de empatia do meu filho me faz chorar de emoção e receber com felicidade mais um ser humano no mundo.

bem-vindo, meu filho, você faz parte da espécie mais bem-sucedida de toda a evolução; você é um humano!

<3

 

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mas sim, sei que as bene gesserits discordariam de mim, já que o teste para descobrir que ali naquele ser habita de fato um ser humano, é feito com o gom jabbar 😉 e é um teste bastante interessante, a ser discutido em outra ocasião.