jardim da infância, ano 1

já faz 1 ano que o otto começou na escola, nem acredito. pra nós ainda é tudo novidade, e nem sempre ir e ficar lá são tranquilos, mas tenho certeza que essa atividade é importante pra ele.

hoje fomos à reunião periódica com a professora da turma, e foi muito legal aprender um pouco como sobre ele se comporta quando não estamos junto. algumas coisas são exatamente iguais — a tendência de observar muito antes de tentar qualquer atividade, preferência por brincadeiras com poucas crianças e sem muito barulho, a tranquilidade e educação ao falar com as pessoas e explicar o que quer e não quer, todo o jeitão analítico bem caraterístico dele.

mas nos surpreendemos com coisas que ele só faz na escola, como por exemplo perguntar se pode levantar da mesa, se pode começar a comer, se pode pegar coisas que não são dele (nunca fez isso em casa, quem me dera!). soubemos que ele gosta de contar histórias para os amiguinhos, mas que conta com suspense, entonação, do início até o fim, perfeitamente, ao ponto de causar espanto. e que uma das brincadeiras que ele mais gosta é cuidar das bonecas e dos amigos menores, com a maior atenção. nunca imaginamos!

a professora fez piada chamando ele de “pequeno imperador”, dizendo que ele sabe muito bem o que quer e o que não quer, e expressa isso verbalmente sem o menor problema. e que DIRIGE os outros, inclusive os adultos, pra fazer as coisas do jeito dele. a minha irmã diz que o menino já nasceu gerente, e ela tem toda razão 🙂

mas a coisa que mais gostamos de ouvir é que ele brinca e se diverte com as demais crianças em atividades conjuntas, diferente do que achávamos (ele nos parece sempre muito isolado quando encontramos com outras crianças). só que não é qualquer criança — ele gosta de algumas (sempre as mais calmas), e simplesmente sai da brincadeira quando começa a virar muvuca.

e, claro, o apetite incansável e disposição para experimentar comidas e bebidas novas é sempre assunto. disseram que atualmente o problema das crianças no almoço é a famigerada beterraba, que todos querem trocar por outra coisa. menos o otto, claro, que além de comer tudo ainda faz questão de afirmar na mesa “eu ADORO beterraba!”

<3

diário do otto: 3 anos e 1 mês + 3 anos e 2 meses

otto,

este foi mais um daqueles meses que viraram 2, seja pela correria do dia a dia ou porque as grandes mudanças já não acontecem mais tão rápido.

a grande mudança que percebo (e também percebe quem vê só fotos) é física — você não se parece mais com um bebê e sim com um menino grande. seu corpinho agora é comprido, mais magro, o rostinho está perdendo aquela gordura dos bebês e a fofura. agora podemos ver um pouco do rapazinho que você vai se tornar em alguns anos. seu cabelinho continua bem claro, mas já não mais loirão como antes (apesar de clarear muito conforme o cabelo pega sol; quanto mais comprido, mais claro), suas perninhas e braço perderam as dobrinhas. e você também já não se comporta como bebê na maior parte do tempo (seu vocabulário e forma de se expressar verbalmente nunca foram de bebê, desde que começou a falar frases, o que é muito interessante).

dizem que a fase que começa aos 2 anos e vai até mais ou menos 5 anos é a “adolescência do bebê”, e a descrição é bem correta. seu temperamento não está nada fácil — discorda de tudo que propomos, nunca quer colaborar com a gente imediatamente (a não ser que seja ideia sua, ou que a gente convença você de que assim é :)), começou a não querer comer algumas coisas (nunca uma coisa só, varia conforme seu humor), briga pra fazer tudo. percebo que é uma queda de braço, a cada decisão a ser tomada. você simplesmente discorda por discordar, pra mostrar que tem vontade, e é um indivíduo independente de nós. acho saudável, e às vezes até engraçado, apesar de ser tão cansativo ter que negociar tudo como se fosse um caso de sequestro 🙂

a rotina da escola tem sido umas das mais difíceis — você agora não acorda espontaneamente antes de 7h, normalmente (a menos que seja domingo, claro, aí você acorda às 6h), e obrigar você a levantar, trocar de roupa, tomar café, sair, e entrar e ficar na escola tem sido um martírio. tudo acontece à base do choro e ranger de dentes. a mistura de sono/preguiça e ser-do-contra é explosiva, e tem nos estressado a todos. estamos tentando ter paciência nesta fase, porque sabemos que passa, como tudo, mas olha meu amor: tá dose.

o desfralde foi um completo fracasso, e voltamos atrás. mas como começou a esquentar de novo, decidimos comprar uma privadinha pra você, bem bonitinha e que tem até música (a esperança que você se interesse pelo processo e pelo menos TENTE). você achou a privada o máximo, mas quando conversamos sobre o assunto afirmou bem categoricamente: “não quero fazer cocô nem xixi na privada, quero usar a fralda”. não tivemos argumento, vamos precisar pensar um pouco melhor sobre como convencer você. não sei se estamos fazendo certo, mas achamos que você entende perfeitamente o que estamos propondo, e que na hora que estiver pronto você vai iniciar a mudança sozinho. (além do mais, não conheço nenhum ser humano adulto normal que não usa a privada, então tenho fé que há de acontecer em breve)

sua capacidade verbal, argumentação e raciocínio às vezes nos espantam (e não esqueça que eu e seu pai não sabemos muito sobre crianças, você é nossa única referência). você entende ideias muito complexas, coisas abstratas, e fala sobre elas com naturalidade. outro dia, lendo uma história, falou sobre um personagem “olha, ele desenhou ele mesmo!”, e achamos uma graça essa clareza sobre o que é o outro e a representação dele em imagem. você tem completo domínio de esquerdo/direito, e já nos explica caminhos quando andamos de carro em rotas conhecidas, antecipando os próximos passos “vira à esquerda, depois à direita e depois à direta de novo”. melhor que muita gente grande que a gente conhece!

seus desenhos estão melhorando muito também, já se vê algum traço com personalidade, que se repete. e para nosso espanto, você sempre que consegue pinta os desenhos todos dentro do contorno, com o maior cuidado e concentração. mesmo sem nunca termos dito que é “assim que faz” (e temos esse cuidado, seguindo as mesmas diretrizes da sua escola, que é favorável à interpretação livre). você é um menino concentrado, sério, observador, muito analítico. e fazemos de tudo pra que você desenvolva também outros aspectos de personalidade menos presentes naturalmente em você, como a ousadia, as atividades físicas mais intensas.

Desenhando a mamãe! <3

você continua sendo um menino muito carinhoso e sorridente, em especial conosco em casa, mas é mais contido com pessoas na rua e com quem não vê com frequência. procuramos respeitar sua personalidade, mas sempre ensinando que é importante dizer oi, tchau, obrigado. sua socialização com outras crianças é muito tímida ainda, você só interage com tranquilidade e felicidade com as crianças que já conhece, independente da idade. e isso tudo é muito diferente pra mim, meu querido, pois sou e sempre foi uma pessoa extrovertida, seu jeito é muito diferente do meu. mais uma coisa pra mamãe aprender com você — como é o mundo das pessoas introvertidas. e é sempre bom e rico aprender com você, ver o mundo com os seus olhinhos. eu me esforço bastante!

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essa noite você teve febre (passou o dia um pouco diferente, sem querer comer e com sono. foi dormir cedo, e aí — febrão), e nas altas horas você estava acordado, abraçado comigo (ainda dormimos juntos), e suas mãozinhas não paravam de mexer, passando no meu ombro, nas minhas mãos, no braço, mexendo na minha orelha. você costuma fazer isso quando não quer dormir — está quase dormindo e aí começa a mexer pernas e braços, pra “se acordar”.

pedi que você parasse, falei algo como “sossega, bebê, para com as mãozinhas, você precisa descansar!” e você respondeu com uma vozinha bem tranquila pra mim “mas eu só quero fazer carinho em você, mamãe”. e eu derreti feito um picolé na praia, abracei você bem forte, beijei bastante e deixei você fazer seu carinho, até dormir.

e pensei, não pela última vez, que por mais que critiquem pais e mães que permitem que seus filhos durmam na cama do casal, tenho certeza que estou fazendo a coisa certa. não só porque você ainda é muito pequeno (é natural que se sinta só dormindo sozinho no seu quarto) e queira se sentir protegido enquanto dorme, mas também porque esse carinho, essa proximidade física entre filhos/pais é única, e se perde conforme os anos passam. em muito breve você será um menino grande que vai querer experimentar todas as sensações físicas da vida, com outras pessoas. o meu tempo de abraçar seu corpinho, sentir seu cheiro, acariciar seus cabelos e ganhar muitos beijos e abraços vai passar. o carinho não acaba, é claro, desde que mantenhamos a prática de demonstrar nosso afeto fisicamente também, mas as noites dormindo abraçados acabam, e um desses dias vai ser pra sempre, quando você achar que é “crescido demais” pra isso. entendo, ficarei feliz quando esse dia da sua independência física chegar, mas tenho certeza que terei saudade. mas ao mesmo tempo, ficarei feliz porque uma das muitas coisas que pude ensinar a você é que proteger e ser protegido é bom, que demonstrar carinho fisicamente é bom, que é bom ser amado.

enquanto você não decidir que é hora de ter seu próprio espaço pra dormir, aproveitarei pra amar estes momentos de carinho tão único, que só conheci com a maternidade. nada se compara ao abraço e carinho de um filho. aquece o corpo, o coração e forma lembranças capazes de iluminar o dia mais triste.

<3

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nossos dias têm sido puxados graças às quedas de braço, mas muito divertidos também. você está apaixonado por alguns desenhos (cocoricó e wallace& gromit, juro que vi e alguns desenhos do mickey do youtube) e filmes (wall-e, lilo & stitch, detona ralph e ratatouille). vê mil vezes, e quer ver tudo de novo 🙂

temos muito orgulho do menino feliz e divertido que você é, é um prazer ver você crescer e se tornar uma pessoinha incrível!

beijo enorme da mamãe.

PS: fotos dos seus 37 e 38 meses.

como educar para o NÃO consumo

essa é a pergunta de um milhão de dólares, e para a qual (desculpem) não tenho a resposta. mas tenho minhas reflexões e algumas práticas/fé para compartilhar.

eu consumo muito mais do que devo (ou posso, às vezes) e preciso. acumulo roupas, sapatos, bugigangas, móveis e enfeites, jogos, músicas, filmes, livros. não me engano com o discurso de que algumas coisas são “acervo”. são bens de consumo, são supérfluos, não preciso de 90% do que possuo. mas gosto de consumir, de ter, acumular.

(e não sou, nem de longe, a pessoa mais consumista e apegada que conheço!)

cada vez que faço faxinas na casa me dou conta do quanto eu compro. cada vez que junto o lixo reciclável me assusto com o volume de embalagens que estou descartando. pra que tanta coisa, pra que tanta embalagem?

e sendo assim, consumista, como criar meu filho para ser menos consumista e deixar de querer TER tudo, comprar coisas? é possível na nossa sociedade criar um ser humano que não seja consumista, que seja minimamente blindado contra a propaganda, o apelo de comprar?

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para entender melhor a questão do consumismo e iniciativas de proibir ou pelo menos controlar melhor as propagandas dirigidas para o público infantil, conheçam o movimento infância livre de consumismo.

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acompanho este movimento desde seu nascimento, acho propaganda dirigida a crianças uma coisa execrável, mas sempre fui contrária à intervenção do estado nesta questão. minha lógica é a seguinte: propaganda precisa de veículo, e quem dá acesso a ele são os pais/responsáveis. eliminando o veículo, acaba a influência, certo?

mais ou menos (e por isso cada vez mais acho que seria sim benéfico o estado controlar este tipo de ação de marketing), porque quando a criança é muito pequena é simples “blindá-la”, basta evitar canais de TV e locais de consumo de produtos infantis (parques de diversão, shopping, etc.). conforme a criança cresce e começa a conviver com o restante do mundo fora da sua própria casa, o bombardeio é constante e muito forte. outdoor, folheto, gibi, amiguinhos, familiares, novamente a TV, etc etc etc. quando paramos para prestar atenção a esse assunto, percebemos que somos regidos pelo consumo, o tempo todo. tudo ao nosso redor grita COMPRE COMPRE COMPRE.

nós já estamos embebidos nessa realidade, amortecidos, não percebemos mais (e compramos, compramos, compramos). quando chega um novo humano no mundo e começamos a prestar atenção a esse assunto, é assustador. e avassalador também, é quase impossível evitar a imersão nessa cultura. afinal, precisamos comprar para viver.

precisamos mesmo? é essa pergunta que me faço, e sem entrar em nenhuma onda hippie, que não é meu estilo. não tenho intenção de viver sem dinheiro ou sem comprar. mas venho pouco a pouco (últimos 15 anos) tentando reduzir meu nível de consumo. considerando que meu salário aumentou consideravelmente nestes 15 anos e que continuo gastando praticamente tudo que ganho, fica claro que minha tentativa não é exatamente um sucesso. mas analisando meus gastos, vejo que consumo muito em comida, habitação e… viagens. ou seja — como bem, moro bem e viajo muito, e é aí que vai a maior parte do meu dinheiro (consegui guardar também, pra morar ainda melhor!). já não gasto mais tanto dinheiro em roupas e artigos de luxo pra uso pessoal; mas ainda gasto bastante com transporte (2 bons carros, que nos levam da nossa boa casa pros bons lugares que gostamos de ir) e muito com eletrodomésticos, por exemplo, que poderia reduzir. pouco a pouco, vamos analisando e cortando aqui e ali, focando no que é importante pra nós.

continuo consumindo muito, sim. mas cada vez mais no que é essencial pra mim, pra nós da família. menos “coisas”, e mais vivência (boas refeições, espaço em que convivemos, viagens juntos). chegaremos lá, tenho fé.

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ainda precisamos comprar, sim. não plantamos nossa comida (mas uma parte dela já começamos a plantar), mas preparamos nossas refeições; não construímos nossas coisas, mas procuramos comprar diretamente de quem constrói ou produz; contratamos serviços que não queremos fazer; viajamos de avião, mas também procuramos viajar de carro, dentro do nosso país; os carros ainda são indispensáveis, diante da escolha de moradia que fizemos, mas quem sabe um dia podemos andar a pé, de bicicleta, ou mesmo de moto? uma opção para o futuro.

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com o otto, tomamos algumas medidas que por enquanto têm funcionado bem. conforme ele vai crescendo, o desafio é maior, mas somos criativos e tenho certeza que encontraremos alternativas educativas e saudáveis para lidar com a situação. ele tem 3 anos, e não precisa ainda de “educação para o consumo”. falarei da minha opinião sobre mesada e coisa parecida no próximo bloco.

– não levamos o menino para fazer compras de nenhum tipo, a não ser que seja inevitável. comprar não é “programa”. saímos para comprar somente o que precisamos, e deixamos a criança em casa (ou vamos juntos quando a babá está em casa, ou 1 vai e o outro cuida dele)

– não costumamos falar sobre comprar/ter coisas. procuramos sempre falar sobre usar as coisas, trazer as coisas, emprestar as coisas. por exemplo: “otto, a mamãe TROUXE um presente” (e não COMPROU um presente). pode parecer besteira, mas acho que essa abordagem tira o peso/fetiche da compra

– não falamos sobre dinheiro nem sobre caro/barato com ele ainda, não damos “valor” para nada. e como ele não nos presencia comprando quase nunca, não faz a correlação coisa-dinheiro. se ele vê alguma coisa e quer, e eu considero caro, simplesmente falo que não vamos levar aquilo naquela hora, que aquele item é da loja e fica por lá

não usamos coisas (trazidas ou compradas :)) como prêmio, é simplesmente uma surpresa, um agrado

– não comemoramos dia de mãe, pai nem criança. não damos importância a presentes no aniversário ou natal, procuramos dar mais ênfase ao evento que aos presentes (a festa, a visita dos amigos e família, a comemoração em si). ou seja — no aniversário, sempre falamos da alegria que é receber a visita de fulano, que veio especialmente para o aniversário, e não que o fulano deu o presente X

– fazemos questão que quaisquer presentes pra ele sejam recebidos diretamente por ele, das mãos de quem deu, e pedimos que ele agradeça. consideramos extremamente importante que ele perceba que a pessoa é mais importante que o presente (ou que o presente é importante porque ALGUÉM pensou nele). somos completamente contra o sistema de colocar os presentes num montão, que ele vai abrir depois. até hoje, todos os convidados são recebidos por nós e por ele, e o presente é dado pra ele diretamente

– ele simplesmente não vê TV. só assiste programas no IPad (youtube ou outros), DVDs, NetFlix, tudo sem pausa ou propaganda. ponto final.

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conforme o menino for crescendo, vamos explicar que as coisas custam dinheiro, e algumas coisas custam mais ou menos. vamos tentar usar a quantidade de unidades de medida de $$ para explicar, mas sempre procurando ensinar sobre querer ou não querer trocar o $$ pelas coisas, e se realmente precisamos daquilo ou se é mero desejo.

acho muito importante ensinar que as coisas têm valor monetário, que trocamos dinheiro por coisas, e em especial que o dinheiro é algo que se ganha. muito me incomoda a ideia de mesada por ser um dinheiro dado, e não ganho. ora, se a ideia é ensinar como funciona o mundo, por que alguém simplesmente dá dinheiro a outro, sem trocar por nada?

também me desagrada dar mesada ou dinheiro à criança em troca de tarefas que ela devia fazer simplesmente por ser parte da família/comunidade. não acho certo dar dinheiro em troca de arrumar a cama, ou ajudar na limpeza e organização da casa. isso faz parte das atividades comunitárias. faz mais sentido pra mim ganhar uns trocados por lavar o carro, cuidar do jardim (coisas que normalmente nós aqui pagamos para outros fazerem). ainda não sei como vamos lidar com essa questão. tanto eu quanto o fer fomos crianças sem mesada, nossos pais davam dinheiro para coisas que precisávamos ou queríamos, sob demanda específica, não tínhamos dinheiro “nosso”, pra gastar ou guardar.

entendo a lógica de dar mesada para ensinar a “administrar o dinheiro”, essa é uma habilidade útil na vida. mas acho que ensinar a consumir minimamente e (por exemplo) convidar a ajudar a administrar as despesas da casa  em conjunto podem ser formas alternativas de ensinar (por que não? eu faço tudo numa planilha excel, e posso perfeitamente convidar o otto mais velho a me ajudar, analisar junto. quem sabe até ele aprende a usar planilha cedo? :D)

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como disse no começo — não tenho respostas definitivas, tenho crenças e ideias. os itens que coloquei ali no meio a gente já pratica, e o otto não simplesmente não pede pra comprar coisas, nunca. ele pede coisas — “mamãe, você me trouxe um presente?” ou “papai, eu queria um chocolate!”. mesmo quando vamos aos lugares que têm coisas à venda, ele não pede pra comprar, ele simplesmente “quer”. e aí, ou levamos ou dizemos que aquele ali não vamos levar agora, quem sabe outro dia.

ele não associa natal, aniversário e nenhuma data com o fato de ganhar presentes ou coisas, por enquanto. por outro lado, procuramos valorizar bastante as festas, as pessoas e as viagens. no aniversário dele e nas festas em geral, costumo preparar tudo em casa, e “fazer” presentes pra ele (cartão, álbum, etc.). também peço que as pessoas não tragam presentes comprados, que façam algo pra ele ou mesmo reciclem coisas das suas crianças. quase ninguém faz isso, mas quando fazem é sempre lindo (e já percebi que ele próprio valoriza muito presentes personalizados).

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mas dizia que mudei de ideia em relação ao controle de propagandas, porque a concorrência é mesmo desleal. e as pessoas que não estão tão engajadas quanto nós nessa cruzada contra o consumismo? e os que precisam da TV como babá pra ter 1h de sossego e cuidar da casa, da vida? e as mães e pais solteiras/os, que precisam levar seus filhos onde vão porque não têm com quem deixar? e quando ele ficar na casa de amigos, ou não estiver numa escola tipo waldorf como o otto?

precisamos de toda a ajuda que tivermos. é sim nossa obrigação como educadores ensinar nossos filhos a ser menos consumistas, e acho que todos os esforços devem ser feitos. mas se não tivemos alguma ajuda, a tarefa fica hercúlea e muito estressante para os pais.

então, continuarei investindo nestas pequenas ações cotidianas e também apoiarei ações maiores para ajudar o mundo a ser menos consumista. no que depender de mim, o otto será muito menos consumista do que eu fui/sou.

apanhado do facebook: outubro

Vi Lilo & Stitch mil vezes antes do Otto nascer e agora que ele também é fã estou vendo mais mil vezes. E não enjôo. Morro de rir na cena da troca da bomba entre o Stitch e o cientista; choro quando Stitch vai se despedir <3

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e agora tudo que a gente pede pro otto fazer e ele não quer (quase tudo, diga-se), ele responde “não! eu vou FUGIR!” e sai correndo.

fico dividida entre rir muito e chinelar o menino. #bodegaiato

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me incomodei com a tal tabela de mesada compartilhada esses dias no facebook (tem foto no artigo), e deixei passar. nunca tive mesada e não pretendo dar mesada ao Otto. gostei muito do texto, concordo 100%.

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excelente texto (em inglês) sobre obediência, tema que abordei esses dias no blog. concordo muito.

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como é maluco o cérebro das crianças — estou em casa, numa conf call com meus colegas nos USA a tarde toda (em inglês). o Otto está por aqui, andando e prestando atenção ao que estou fazendo, quietinho. há poucos minutos ele foi na pilha de livros e trouxe um livro que “fala” os números em inglês, quando aperta no lugar certo, e está aqui brincando do meu lado  incrível né?

detalhe: ele não faz aula de inglês, nem escola bilíngue, nem ensinamos em casa. o livro foi presente da Léa. ainda não estou convencida dos benefícios ou impactos de ensinar outros idiomas tão pequeno, por enquanto ele só é exposto a outros idiomas como parte da vida social (ou indiretamente graças à minha profissão).

livro sobre o assunto que me indicaram:  “Raising a Bilingual Child”, Barbara Zurer Pearlson

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Ser mãe de moleque que vive no mato é dar banho, enxugar e CATAR CARRAPATO. <o>

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como bem diz o Felipe, é preciso educar nossos filhos sobre os riscos e consequências de vazamento de informação privada na internet. Lamento que ela não tenha sido orientada, ou não tenha percebido o que poderia acontecer.

Já sobre a reação ao vídeo, convido você a pensar qual seria se fosse um homem. Se ele seria xingado, julgado, humilhado.

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74% das meninas acham que têm menos poder que meninos. Sabe quem pode mudar isso? Você, eu. Mudando a forma como tratamos as meninas e os meninos. Pra que em 20, 40 anos as coisas sejam diferentes.

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casas perfeitas, pessoas perfeitas, zero bagunça e nenhum sinal da existência de crianças. pra quê?

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Ontem o Otto parecia belzebu encarnado pela manhã (duvida? Pergunta proAlexandre ou Fernando, que presenciaram). Levantou, foi vestido e deixado na escola à força, berrando.

Hoje acordou, comeu, vestiu e ficou na escola todo feliz.

Alguém explica?

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Sou partidária da rotina rígida para crianças: horário certo pra acordar, comer, dormir. Temos feito assim nestes 3 anos, e acho que ajuda muito. Mas quando a gente abre exceções (e abrimos, porque afinal os desvios são parte do caminho também :D) se lembra porque as regras são tão úteis.

Otto foi o capeta encarnado na sexta e sábado pra dormir. Nível disque-homem-do-saco-litoral-norte. E passou a noite acordando, sonhando (brigando no sonho, reclamando e discutindo), chorando. Acordou ontem e hoje até com olheiras de tanto drama a noite toda.

(Nem conto do estado dos pais, zumbis)

Chegando em casa, mesmo
1h deslocado na rotina, jantou direitinho, tomou banho, escovou os dentes, colocou pijama, deitou e pronto. Sem drama.

Santa rotina, EU TE AMO.

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Mostrei essa foto do perfil pro Otto e perguntei quem era. Ele olhou bem e disse: “VOCÊ!” 

Ou seja, tô igual \o/

As 3 graças

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Pra quando o Otto quiser saber sobre a morte, é simples: we are made of stardust.

Nem céu, nem alma, nem nada disso. Simplesmente nossa matéria volta ao universo, de onde veio.

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(texto do papai)

Otto, 3 anos: “Eu tava tomando banho, tranquilo, quando de repente aconteceu uma coisa muito estranha: acabou a água quente! Não deu tempo de ficar limpinho” (17x)

1. Deu tempo.
2. Com essa pontuação.

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Reunião de pais Waldorf na casa de um deles, num condomínio aqui na cidade. Crianças tocam a campainha para pedir doce. Pai Waldorf leva UVA PASSA pras crianças. Crianças ficam tão surpresas que vão embora sem travessuras (e não pegam as uvas, claro).

😀

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hoje fomos à reunião periódica com a professora da turma do otto, e foi muito legal aprender um pouco como sobre ele se comporta quando não estamos junto. algumas coisas são exatamente iguais — a tendência de observar muito antes de tentar qualquer atividade, preferência por brincadeiras com poucas crianças e sem muito barulho, a tranquilidade e educação ao falar com as pessoas e explicar o que quer e não quer, todo o jeitão analítico bem caraterístico dele.

mas nos surpreendemos com coisas que ele só faz na escola, como por exemplo perguntar se pode levantar da mesa, se pode começar a comer, se pode pegar coisas que não são dele (nunca fez isso em casa, quem me dera!). soubemos que ele gosta de contar histórias para os amiguinhos, mas que conta com suspense, entonação, do início até o fim, perfeitamente, ao ponto de causar espanto. e que uma das brincadeiras que ele mais gosta é cuidar das bonecas e dos amigos menores, com a maior atenção. nunca imaginamos!

a professora fez piada chamando ele de “pequeno imperador”, dizendo que ele sabe muito bem o que quer e o que não quer, e expressa isso verbalmente sem o menor problema. e que DIRIGE os outros, inclusive os adultos, pra fazer as coisas do jeito dele. reconheceu, Keké?

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Otto hoje cedíssimo, logo que amanheceu, ainda dormindo comigo na cama: “de onde vem essa música?”

Eram os pássaros, acordando junto com o sol <3

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Otto está apaixonado pela história “o dente de leite de Ganesha”, presente do Weno e Mawá. Aí tem uma parte que tem os desenhos que ele faz com a presa quebrada, e quando ele viu o ratinho amigo do Ganesha e o desenho do rato (bem estilizado, bem hindu), explicou: “olha, é ele desenhando ele mesmo!”

Achei tão legal ele entender a diferença entre o personagem e o desenho do personagem, e o “self”! É tão bonito ver um ser humano aos poucos construindo suas bases, conceitos simples e ao mesmo tempo tão difíceis de explicar.

Fabricar humanos é louco.

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Desenterrei um baralho que compramos em Creta, e cada carta tem um personagem da mitologia grega. Mas ele foi escolhido pra brincadeira porque é de papel, e mais fácil de fazer castelos. Aliás, como é difícil fazer castelos de cartas, gente! <o>

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A gente não tem pedido prato separado pro Otto, porque: sempre sobra; é caro pra caramba; pratos infantis são ridículos. Aí pedimos entrada e prato pros adultos e dividimos com ele. Mas aí acontece dessas (ele rouba nossa comida).

 

o maior de todos os medos

fui pesquisar no blog se já tinha falado de medo antes, pra não me repetir demais, e descobri que a palavra apareceu bastante. não me espantei, porque uma das coisas que descobri é que depois de ser mãe/pai o medo toma uma proporção completamente diferente e muito maior.

o medo é definido como uma emoção causada pela percepção de perigo ou ameaça, um mecanismo de sobrevivência básico. a menos que você venha com defeito de fábrica, sente medo, a emoção não devia ser novidade pra ninguém. mas eu não sabia o quanto o medo podia ser tão maior, e apavorante, quando se trata dos nossos filhos.

o medo de perder um filho é mais forte que o medo de perder a própria vida. sério: a ideia de morrer é muito melhor que a de perder um filho. se houvesse escolha, estou certa que os pais escolheriam morrer no lugar dos seus filhos.

eu não sentia esse medo antes do otto sair da barriga, quando ele ainda era feto. mas depois que ele nasceu, e vi seu rosto, pele, cabelos bagunçados, ouvi sua voz e senti seu cheiro, um “clic” aconteceu. e não é amor (pra mim, o amor veio gradualmente), é algo como uma pré-programação, é não-racional. no momento em que aquele ser existe e respira, ele é sua responsabilidade, e você moverá montanhas pra que ele sobreviva. está no nosso código genético, na programação do nosso cérebro, e você agirá de forma tal que a prioridade número 1 da sua vida será aquele bebê. mesmo com toda ajuda do mundo, é você o responsável. aquele bebê precisa sobreviver.

a seleção natural é um poderoso instrumento de formação de seres perfeitamente adaptados para garantir que seus descendentes sobrevivam, através do imperativo genético.

antes mesmo de engravidar, quando estava tentando, eu tinha pesadelos recorrentes de que carregava nos braços uma criança imunda, magrinha e chorando, porque eu não conseguia cuidar dela e nem alimentá-la. eu andava desesperada pelas ruas, pedindo ajuda com a criança nos braços, em vão.

e antes de sequer querer engravidar, tive um sonho apavorante que levei pra terapia: eu acordava no meu quarto, na penumbra, e no canto havia uma criança (4, 5 anos) parada, quieta no cantinho, olhando pra mim. não havia nada de mau, feio, sinistro na criança, tipo demian (mas era um menino :)). era só inusitado (no meu quarto, escondida, à noite), mas eu sequer chegava a questionar o motivo — sentia um medo visceral, uma vontade de sair correndo, horrível. e ao elaborar mais a imagem, sobre a criança, veio à tona meu enorme medo de ser mãe, de ser responsável por alguém, de sentir medo pela segurança e saúde de outra pessoa que não fosse eu mesma.

o contexto de nascimento do otto foi muito especial, e apavorante. bem normal que eu tivesse medo dele morrer, ou ter alguma sequela. mas quando ele voltou pra casa, o tempo passou e ficou claro que não havia nenhum problema grave (segundo o pai, só ficaremos 100% tranquilo quando o menino fizer MBA, hahahhaaha!), o medo deveria passar. mas não passou — eu conferia se ele respirava; qualquer suspiro me fazia sentir ansiedade; quando ele chorava eu chorava junto. tinha vontade de fazer ele voltar pra barriga (no meu controle, claro, dentro do MEU corpo), pra proteger, cuidar, preservar.

o tempo passou e descobri que o medo na verdade não passa. o que acontece é que a gente acostuma com ele, e outras coisas práticas e mais urgentes se sobrepõem a ele, ficam mais evidentes. o medo fica em background, é incorporado como parte do dia a dia.

ouvi uma vez uma história muito interessante sobre percepção da realidade, através dos sentidos: alguém que nunca enxergou na vida, se de repente tivesse a capacidade de visão restaurada de uma só vez, enlouqueceria. a quantidade de informação que recebemos é imensa, e só conseguimos lidar com o fluxo de informação porque desenvolvemos a capacidade de filtro, pouco a pouco, desde recém-nascidos. os bebês escutam, vêem e sentem de forma diferente, o sistema neural aprende a captar e decodificar os sinais externos pouco a pouco, é um mecanismo de absorção gradativa, até pra não dar tilt no cérebro. aos poucos, aprendemos a focar no que é importante (ou nos interessa) e “desfocamos” tudo que é segundo, terceiro plano. as coisas continuam existindo, mas com menor importância e impacto, pra que a gente consiga sobreviver num mundo com infinitos estímulos.

já li também que pessoas que têm algum tipo de disfunção de percepção/decodificação e filtro sofrem muito (alguns autistas, por exemplo), e os bebês que mais choram e precisam de colo/conforto nos primeiros meses são justamente os que têm dificuldade de lidar com o excesso de estímulo. ou seja — seus filtros não são formados ainda e eles são sensíveis em excesso.

mas voltando ao assunto: creio que o mesmo se aplica ao medo. ele continua lá, enorme e sempre presente, mas em segundo plano, porque afinal a vida chama e as coisas práticas precisam ser feitas.

no último fim de semana o otto se machucou — andava no nosso terreno, onde construiremos nossa casa, e caiu. eu e o pai estávamos atentos, prestando atenção a onde ele ia, etc., mas não olhamos com tanta atenção assim, assumindo que no chão havia o que há nos chãos: terra, pedras, gramas, insetos. pois que no pedaço de chão que ele caiu, escondidos entre as gramas e as terras e pedras, havia pedaços de ferro de fundação cortados. com pontas. de 10cm. enferrujados, afiados. e ele caiu por cima de 2 destes ferros, quando tropeçou (havia mais). aquele corpinho frágil, fofinho, delicado de criança de 3 anos caiu em cima de ferros afiados e enferrujados. e tudo o que aconteceu foram 2 arranhões — um pequeno, na barriga (a roupa segurou) e o outro enorme, no bracinho descoberto. rasgou a pele, num machucado bem feio mas que aparentemente não doeu e que pouco sangrou. ele foi bem corajoso, não reclamou do machucado (mas reclamou da assepsia no posto de saúde, e muito).

a coragem dele, tão pequenininho, foi o que me sustentou e impediu de chorar, não quando vi o machucado (apesar de ter morrido de pena), mas quando vi os ferros no chão, e pensei nas 1001 possibilidades de terror daquela queda. ferros no peito, na cabeça, no olho, no rosto, no pulmão, e etc. etc. etc. e o medo me invadiu como uma cachoeira, voltando de enxurrada ao primeiro plano. pra me lembrar que não, ele não sumiu, ele está sempre lá, me espreitando, e que vai me pegar cada vez que uma situação de risco normal se transforma em desastre potencial ou real.

abracei aquele corpinho frágil, morrendo de medo e culpa (COMO eu não vi os ferros? como eu deixei meu bebê, minha prole, meu descendente, se arriscar?), e um pouco morta por dentro. fiquei com medo de novo por 1 ou 2 dias, e depois ele voltou ao segundo plano. até a próxima.

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(o assunto abaixo não é diretamente relacionado ao medo, mas acabou aparecendo enquanto escrevia esse texto, resolvi deixar aí)

algumas pessoas comparam o amor/preocupação com filhos e com animais de estimação. tenho ambos, e tive animais antes de sequer pensar em ter filhos, e entendo a comparação. mesmo depois de ter filhos, não me ofendo com a comparação, pois entendo que as pessoas sem filhos querem de alguma forma mostrar que sentem empatia pela sua situação, o trabalho que dá, etc. não é a mesma coisa, isso é fato, mas a correlação ajuda a achar coisas em comum a 2 universos paralelos.

(e ainda acho que ter ferrets dá mais trabalho que ter filhos, em alguns aspectos :))

digo que são paralelos porque, de fato, não dá pra comparar o amor, preocupação (e o medo) que se sente em relação a um filho com aquele que se sente em relação a um animal de estimação. perder um animal é triste, perdi nada menos que 10 nos últimos 12 anos. mas nada, nada sequer se parece com o medo de perder seu filho, é basicamente o fim do mundo e da vida.

se você tem filhos, eu não preciso explicar isso; se você não tem, não adianta explicar.