mudar é preciso

e não temos (muito) medo de mudar. então lá vem outra…

mas antes, um pouco de contexto: pra quem me acompanha desde o começo, sabe que a escolha da escola do Otto foi um processo — a gente pesquisou, pensou, avaliou, e acabamos decidindo pela pedagogia Waldorf. os principais motivos foram (1) alimentação orgânica / natural (não servem nada industrializado nem com açúcar, os lanches são todos fruta, castanha ou cereal); (2) contato com a natureza (quintal grande, atividades direto na terra e com plantas); (3) acolhimento da criança sem o ambiente “escolar”, o grande foco é no brincar — não existe AULA, mas atividades lúdicas direcionadas, procurando imitar o ambiente familiar com a professora fazendo as vezes de “mãe” arquetípica.

nos encantamos tanto com a pedagogia que nos dispusemos, junto com outras 7 famílias, a criar uma associação Waldorf para nossas crianças, gerenciada por nós, o Espaço Livre EcoAra. a gestão associativa, com total participação dos pais e professores, é a base da pedagogia, e é uma experiência muito profunda. participar de forma ativa da criação e gestão do espaço no qual nossos filhos vivenciam os primeiros anos escolares é transformador. desde a valorização do trabalho que exige a criação e manutenção de uma escola até o senso de pertencimento e envolvimento, toda a vivência nos torna pessoas mais atentas, melhores, mais dedicadas. além disso tudo, ainda é possível conhecer pessoas do bem — mesmo com os inúmeros conflitos que são inevitáveis ao convívio em grupo, a gente percebe que ninguém erra por maldade, mas porque fazer coisas em grupo é complexo, e o ser humano é difícil.

foram 2 anos muito importantes pra nós, e estou certa que foram também pro Otto. sempre achamos que a pedagogia Waldorf seria muito boa pra ele até os 6 ou 7 anos, quando ainda não iniciam as atividades de alfabetização.

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ainda assim decidimos abandonar a pedagogia Waldorf para o Otto antes de completados os 7 anos. continuamos voluntários da associação, do Espaço EcoAra, e faremos tudo que for possível para que eles se mantenham e continuem esse projeto tão bonito.

o nosso motivo é basicamente um: quanto mais tivemos contato com a antroposofia, menos gostamos dela. fiz várias tentativas de ler textos, “artigos” e também alguns livros, e a cada tentativa minha frustração e incômodo se intensificavam. esta filosofia se diz científica, e tem um discurso pseudo científico que chega a enganar quem quer ser enganado, mas para quem realmente gosta de ciência e entende o método científico, não dá. eles acreditam em karma, alma, reencarnação, além de jesus como filho de deus, santos, anjos e mais uma lista enorme de coisas absolutamente fictícias (desculpa, pessoal crente. é ficção, até que seja provado). é uma mistura sem fim de dogmas e crenças, porém muito disfarçados de ciência, o que me incomodou ainda mais.

steiner é arcaico. pode ter sido uma figura importante e brilhante no seu tempo, mas ficou ultrapassado em vários sentidos, e não vejo na filosofia uma abertura à diversidade real, ao debate, o incentivo ao pensamento científico. as diretrizes da pedagogia, por exemplo, são extremamente rígidas e o espaço para o debate não existe. os princípios da pedagogia Waldorf têm 1 século e jamais foram revistos, atualizados, modernizados à luz de tantas vertentes pedagógicas novas — como pode? Steiner podia ser um homem inteligente, mas a humanidade continuou a evoluir, e a pedagogia está parada no tempo, cristalizada, obedecendo aos princípios que ele postulou.

não nos sentimos incluídos, nossas dúvidas (colocadas para várias pessoas “seguidoras” da antroposofia) jamais foram acolhidas, muito pelo contrário — nos sentimos mal por questionar, e isso nunca é bom para pessoas como nós, que acreditam que perguntas e questionamentos são a base da evolução, da ciência, do desenvolvimento. como submeter nosso filho a uma pedagogia que se baseia em princípios que sabemos ser fictícios? qual será o espaço que ele terá, depois dos 7 primeiros anos de brincar, para questionar e discordar?

tenho certeza que alguém do meio antroposófico vai dizer que nossa experiência não representa o todo, que a antroposofia é baseada na liberdade do indivíduo, mas não se engane: não é. o indivíduo que refuta a existência de deus e do espírito não tem espaço na antroposofia. concluímos, com certo pesar, que a antroposofia, a pedagogia Waldorf e todos os que de alguma forma entraram em conflito conosco a esse respeito não estavam errados — eles estão alinhados entre si, e coerentes. nós é que precisávamos mudar (ou aceitamos, ou saímos), e a decisão foi tomada. talvez existam educadores brilhantes o suficiente na pedagogia Waldorf que tenham condições de lidar com a diversidade de pensamento, e a clareza de admitir que a antroposofia é mais uma vertente espiritual, sem impor isso a seus alunos de forma indireta e subliminar (o que pra mim é pior do que uma escola declaradamente católica, por exemplo, ou judia). mas não vou confiar a educação científica* do meu filho a professores que (frequentemente) são parte da ficção espiritual de forma tão engajada.

(*) uma pausa para esse assunto: não temos nada contra crenças individuais (tudo contra religião. mas esse é assunto pra outro post) e fé seja no que for. mas estamos convictos que fé e crença devem ser ensinadas SOMENTE dentro do contexto familiar. à escola cabe o ensino das normas, do convívio, dos princípios da vida em sociedade, da ciência. não quero nenhum professor repassando ao meu filho suas crenças em seres imaginários, em especial quando isso é feito de forma indireta e muito frequentemente inconsciente.

mas voltando: depois da exposição às crenças antroposóficas / Waldorf, não ficamos felizes com as possibilidades do ensino neste método a partir dos 7 anos. até os 6 anos seria tudo ótimo, pois eles basicamente brincam e interagem entre si através das atividades dirigidas de artes, música, brincadeiras. poderíamos deixá-lo na Waldorf até os 6 anos pelo menos, mas aí entra uma característica do Otto: ele é um menino introvertido, que demora muito a se familiarizar com as pessoas e ambientes. após 4 anos na Waldorf com a mesma turma, ele seria transicionado para uma escola comum, no sistema de ensino tradicional (o que por si já seria um choque) e além de tudo começando a alfabetização, que é também uma mudança importante.

para evitar um choque tão abrupto, decidimos mudá-lo de escola neste ano, e deixá-lo se adaptar ainda no jardim, antes de iniciar a alfabetização.

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bom, não foi fácil a decisão. o sistema tradicional de ensino exige da criança uma maturidade que ela nem sempre tem, e isso é doído. o otto por exemplo tem interesse pelas letras e números, formas geométricas, já sabia desde 2 anos, então essa parte não nos preocupa. mas ele não é uma criança independente e extrovertida — não se veste sozinho, nem escova os dentes (direito, né. de qualquer jeito ele faz), lava as mãos, cuida das próprias coisas. muito dessa dependência é culpa nossa, claro, porque temos preguiça de deixar ele fazer (demora; tem que refazer) e fazemos por ele. agora ele está sendo pressionado a ter uma independência que não tem ainda, e confesso que tem sido difícil pra mim (talvez mais que pra ele).

ele agora vai para uma escola de curriculum internacional, em inglês, das 7:20 às 15:15h. almoça e toma lanche na escola, convive com crianças de várias nacionalidades, tudo em inglês e português. há alguns meses ele começou a se interessar muito pelo inglês por causa do desenho dora aventureira, então quando decidimos por esta escola ele ficou super feliz.

ele começou há 1 semana, e não precisamos buscá-lo mais cedo nenhum dia (ou seja, ficou sem chorar e sem reclamar muito), está comendo bem e quando perguntamos sobre a escola ele diz que está gostando. tem chegado feliz, dorme bem, está no geral ótimo, o que nos surpreendeu muito, pra ser sincera. achamos que a mudança seria sentida, que choraria, reclamaria, e ele está lidando muito melhor do que nós 🙂

fizemos nossa 1a reunião com as professoras no final da 1a semana, e elas disseram que ele está bem, não estranhou, mas notaram a falta de independência dele comparado às outras crianças. a culpa é toda nossa, e agora precisamos ajudá-lo a ser mais independente para se adaptar melhor. aparentemente ser tudo em inglês não incomodou ele de forma alguma — não reclamou, e uma das professoras comentou que ele “fala inglês” (rimos muito; ele se vira bem, aparentemente). vamos ver como segue. na 1a segunda-feira depois da 1a semana de aula ele chorou quando percebeu que ia pra escola — queria ficar mais em casa (eu também. nós todos também. como dar essa notícia pra ele?)

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assim como foi no começo, quando ele foi à escola pela 1a vez, percebo o quanto a tarefa de fabricar humanos é difícil e muitas vezes dolorida — todas as feridas, esquecidas há tanto tempo, abrem e voltam com força total. nestes dias de ansiedade e apreensão por ele, sinto falta da minha mãe. revivo memórias construídas (sempre amei a escola, mas como será que era levantar de manhã e sair de casa? nunca foi fácil na vida adulta, deve ter sido difícil quanto pequena também), tento ser pra ele uma mãe tão presente e carinhosa nessa hora da partida do ninho quanto minha mãe o foi (ser acordada pela minha mãe e tomar café da manhã é das lembranças mais lindas que tenho da infância). eu o acordo com todo carinho, visto sua roupa (ainda não consigo deixá-lo vestir, porque teria que acordar MUITO mais cedo), sento para tomar café da manhã junto. na volta, pergunto da escola, e tento mostrar que é um lugar (e uma experiência) super legal. ele nunca fala muito, mas diz que gosta, e eu tento acreditar.

anseio pelo dia em que ele faça amigos, e se interesse também pelo mundo dos outros, não somente o nosso, da nossa casa e nossa família. quero que ele navegue, tenha coragem, e sinta felicidade também em partir, não só em retornar.

enquanto isso, meu coração de mãe cabe num dedal.

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