Dia das mães

Vi uma amiga falando sobre ser mãe / amor, e a opção de não ser mãe, lembrei que o dia das mães tá chegando (é isso né? Já tou meio perdida) e não quero entrar mais na treta de quem é mãe quem não é, porque percebi que uma das questões fundamentais da maternidade parece ficar escondida nessas tretas. E é dessa questão que quero falar.

Ser mãe é FUNÇÃO, e é muito menos sobre amor e mais sobre cuidado e dependência / responsabilidade em formar outros humanos. Amar é um sentimento, é subjetivo e impossível de discutir. Cuidado e dedicação para formar alguém são coisas concretas, e é nessa esfera que a coisa fica complexa quando se trata de maternidade: pra quem nunca cuidou de um bebê humano até que ele tenha independência suficiente pra sobreviver sozinho fora de casa, é impossível explicar o que isso significa. E não faz diferença se você pariu o bebê, se ele chegou na sua casa com 3 anos ou 11 anos — o cuidado 24/7 que um humano não-adulto requer é absurdamente diferente do cuidado que qualquer animal de estimação da sua escolha requer; é muito diferente também do cuidado que um humano adulto requer (e não estou dizendo que cuidar de animais de estimação nem adultos é fácil. Só é completamente diferente). A diferença fundamental é que uma mãe não faz só atividade de cuidado para sobrevivência, ela forma outro humano, ela transfere pra ele uma quantidade absurda de conhecimento.

Criar humanos para te tornarem adultos é uma tarefa exaustiva, física e emocionalmente, e muitas vezes com pouco retorno afetivo, o que requer que a mãe encontre energia e força e autoestima sabe lá de onde pra seguir. A natureza é muito inteligente, por motivos de evolução, e os nossos filhos nos fazem sentir um amor sem explicação, irracional, mesmo diante das situações em que qualquer pessoa sã sairia correndo ou ligaria pro homem do saco pra buscar a criatura.

Não dá pra sair pra dar um rolê na esquina, deixar água e comida pro bebê enquanto você espairece. Não dá pra pedir pro vizinho ir lá uns minutos por dia dar de comer / beber e brincar com o bebê quando você viaja. Aliás, não dá pra colocar comida no potinho, né. Não dá pra fechar a porta quando a criança quer atenção, não dá pra deixar pra lá as 3 refeições por dia, nem a troca de fralda a cada 2 ou 3h, nem os chamados durante a madrugada, nem as reuniões de escola, as perguntas intermináveis, os ensinamentos mais básicos que você jamais sonhou que precisavam de tanta insistência.

Você já pensou em como uma pessoa aprende se limpar depois de ir ao banheiro? Ou os passos que precisamos seguir no banho pro corpo ficar limpo? Ou como segurar um garfo, como subir uma escada, como sentar, como passar fio dental, como abrir e fechar portas e gavetas sem se machucar? E como funcionam as relações, os protocolos (verbais e não verbais) de comunicação, já pensou?

Imagine que absolutamente TUDO que você sabe, alguém te ensinou, nem que seja fazendo pra você repetir depois, observando de você conseguiu sem se machucar ou machucar os outros.

Diferente dos demais animais, nós não carregamos geneticamente tudo que precisamos saber para sobreviver no nosso meio. Precisamos de alguém — a mãe, no caso, já que a tribo toda que ajudava nisso se esvaziou! — que nos ensine a ser humanos.

Ser mãe é ensinar mini humanos a ser humanos, sobreviver e ajudar a sociedade. Não é só amar, alimentar, cuidar. É FORMAR. Humanos são formados, eles não nascem prontos. Ouvi dizer que há um ditado africano que diz que “é preciso uma vila toda para criar uma criança”, e não é de trocar fralda e dar de comer que isso se trata; é sobre tudo que é preciso ensinar um humano além do básico para a sobrevivência.

Se a tribo existisse e fosse parte da formação dos mini humanos, a mãe humana não seria tão sobrecarregada e nem tão romantizada. A mãe é obviamente importante pra qualquer criatura, mas no caso dos humanos a tribo é ainda mais importante (e preserva a saúde física e mental da mãe). Sem a tribo, a mãe é uma infeliz sobrecarregada que não tem nem como encontrar a felicidade do amor materno, porque ninguém consegue ser feliz com tanta cobrança e tarefas impossíveis.

Mães que têm pais, amigos e família que compartilham a tarefa de criar novos humanos são cada vez menos frequentes. A maioria delas cria seus filhos sozinha, sem companheiro e sem tribo. E ainda tem que fingir que tudo está bem, porque afinal “quem pariu Mateus que o embale” e “nossa, como pode reclamar dos filhos, o maior amor, amor incondicional?!”.

A sociedade é cruel, e é hipócrita. Não à toa inventaram a horrorosa frase “ser mãe é padecer no paraíso”. Não tem paraíso nenhum, e mães padecem porque são sozinhas e invisíveis.

Então quando vejo alguém comparando mães de humanos com “mães” de outros animais, de plantas (!), sei lá, de levain (deve existir; é um ser vivo que precisa de cuidados, afinal), me dá cansaço e tristeza, porque esse tipo de comparação só reforça a ignorância sobre o que significa criar outro humano, e sobre a carga pesada que as mães carregam na sociedade.

Nesse dia das mães, aproveite pra agradecer sua mãe por tudo que ela fez e faz, caso ela tenha tido resistência pra sobreviver à tarefa sem grandes problemas; pergunte pra suas amigas como é essa tarefa de ser mãe, como elas se sentem.

E se você é mãe, não preciso nem dizer nada, você sabe. Obrigada por (tentar) ajudar a colocar mais humanos decentes nesse mundo tão cheio de problemas. Que esses novos humanos sejam melhores que nós.

X-factor

Estamos assistindo X-Men com o Otto, ~na ordem em que foram lançados os filmes~ porque a criança é metódica, e é ao mesmo tempo uma dor e um prazer assistir com ele, observando as perguntas e em quais partes ele sente mais.

Acabamos de ver “First Class”, e vimos antes “The last stand”, que foi o mais sofrido. É inconcebível pra ele tirar os poderes dos mutantes, e não só porque eles ficariam sem poder, mas porque ele não entende como podem querer tirar de alguém aquilo que torna a pessoa o que ela é. Ele imediatamente entendeu o ponto do Magneto (não precisam de cura alguma) mas ao mesmo tempo acha que ele não precisa matar todo mundo. “Eles podem usar a cura só em quem é um perigo pra si e pros outros”, como a Rogue ou a Jean Gray versão Dark Phoenix.

Ele chorou quando a Mystique foi “curada”, e também quando Magneto perdeu os poderes. É como se eles não fossem mais eles mesmos, e tivessem morrido (e a gente não morre mesmo um tanto quando deixa de ser a gente mesmo pra se adequar?).

Temos visto tudo em inglês com legenda (não tem dublagem nem legenda em português aqui), e ele pergunta muita coisa de vocabulário, expressões. Hoje ele quis saber o que é “accept yourself”, e explicamos. Ele pareceu confuso — como alguém pode não aceitar a si mesmo? Perguntei se ele gostava de quem ele era, e se mudaria. Ele muito prontamente disse um NÃO bem firme. Ele gosta de ser quem é.

É bonito — e espantoso, pra mim — ver uma criança tão segura, tão confortável sendo quem é. Porque não se trata só desse momento vendo o filme, ele realmente tem uma autoconfiança excelente. Tem medo de errar, mas não é pelo que outros vão pensar, não é pra agradar. É a régua dele mesmo que é dura demais.

(Pobre dele. Perfeccionismo causa tanto sofrimento!)

Mas voltando — que série bonita, a dos X-Men, pra pensar sobre preconceito, sobre se adaptar para caber. Gosto demais da postura do Magneto (embora os métodos sejam… questionáveis, como diz o Fernando). Ele não quer se adaptar, é pouco pra ele. Ele quer dominar, ocupar o espaço, liderar e ser plenamente a maravilha que é.

Tá errado?

É louco ter que explicar pro Otto que vários mutantes ali fazem o que fazem pra tentar agradar os outros, pra se “camuflar”. Ele não entende a necessidade, porque pelo menos até o momento não se viu nesse dilema: do que vou abrir mão pra ser amado? Que manobra preciso fazer pra ser aceito?

Sinto ao mesmo tempo um orgulho e felicidade pela sua auto-estima tão forte e uma ternura e medo enormes, porque alguém vai machucar essa fortaleza, em breve, é inevitável. E vai doer em mim também.

Entendo agora quem quer os filhos pequenos pra sempre. O mundo é vasto, e complexo. A noite é longa e cheia de horror.