amamentação: a primeira vez

já contei a história toda do parto e primeiros dias do otto, então vocês imaginam que minha estréia na amamentação não foi nada glamurosa… nas primeiras 72h ele ficou no soro, e só começou a receber meu leite (primeiro via tubo e depois na chuquinha) no quarto dia de vida. só no sexto dia ofereci o peito pra ele! eu não tinha leite antes dele nascer e logo na seqüência também não apareceu nada. suponho que se tivesse tido um parto natural (ou algo próximo disso), talvez o leite tivesse aparecido com mais facilidade, mas…

bem, não havendo ajuda da natureza, basta persistência. como não pude amamentar o otto até seu sexto dia de vida, comecei a ordenhar pra estimular o leite, com a orientação das enfermeiras. aliás, o hospital onde o otto nasceu (madre teodora, em campinas) tem enfermeiras e auxiliares de enfermagem maravilhosas. todas competentes e carinhosas, atenciosas, uns amores. fui orientada desde o primeiro dia, mesmo sem o bebê, e elas vinham com freqüência me ajudar e mostrar como ordenhar.

o leite não sai de primeira, pelo menos na ordenha (talvez com o bebê mamando o leite saia logo, não sei!), e tive que insistir, mantendo a rotina de ordenha de 3 em 3 horas, até que começaram a sair gotinhas de colostro. aos poucos o peito encheu, ficou com nódulos pesados e doloridos, e bastava massagear e ordenhar para sair o líquido. eu tive muita dificuldade na ordenha, pois tenho o peito bem grande e as mãos pequenas. tinha que apertar várias partes diferentes do peito para que o leite saísse direito, ficava com as mãos doendo (e o peito também). com a máquina era mais fácil, eu conseguia tirar até 40ml de colostro (que é um MONTE), ainda sem poder oferecer ao otto.

no quarto dia, comecei a ordenhar a cada 3 horas na sala de ordenha da UTI, para que o otto recebesse o leite e observassem a reação (como ele digeria o leite). na UTI, só havia ordenha manual, numa sala minúscula e muito quente. foram muitas horas de calor, cansaço, ansiedade e dor pra tirar um tico de leite. nem sempre eu tive leite suficiente pra ele, e as enfermeiras complementaram com NAN ou coisa parecida. mas a maior parte das vezes, deu certo. ele aceitou o leite muito bem, eu continuava com leite saindo aos pouquinhos, e segui firme.

no sexto dia de vida dele é que fui amamentar de verdade (e foi quando peguei meu filho no colo pela primeira vez). as enfermeiras me mostraram como pegar no colo e “ajeitar”  no peito (lembrem que eu sou pequena e meu peito é enorme… e eu nunca tinha pego um recém-nascido na vida!), sempre usando um braço pra segurar o bebê e o outro fica livre. colocamos o otto no peito direito, e ele sugou imediatamente direitinho. pelo que as enfermeiras me disseram, o bico do meu peito facilita o processo, pois é bem projetado e longo (o bebê consegue “pegar” na boca direitinho, encaixa bem). o otto pegou sem dificuldade nenhuma, e mamou tranquilamente. em 2 minutos ele reclamou e trocamos de  peito – ele gostou mais do esquerdo, e mamou por 15 minutos numa boa.

aprendi que o bebê faz pausas para respirar enquanto mama e que os 3 quilos deles são MUITO pra braços não acostumados… o fer ficou do meu lado enquanto ele mamava, apoiando meu braço que ficou cansado depois de 5 minutos. aos poucos a gente acostuma com o peso, mas nos primeiros dias meus braços doíam muito.

meus bicos não ficaram doloridos nem machucados nenhuma vez. não sei se foi porque fiz a rotina de passar a bucha no banho por 9 meses ou simplesmente porque dei sorte do encaixe boca/bico ter sido perfeito.

mantive a rotina de amamentar na UTI a cada 3 horas (com algumas falhas na madrugada, pois o hospital era muito longe de casa. nessas falhas ele recebeu suplemento na chuquinha) até a manhã do oitavo dia, quando ele teve alta. como ele mamou direitinho, fez cocô e xixi e estava ótimo, não havia mais motivo para ficar em observação e fomos embora.

dizem que melhora, e é verdade. mas também é mentira :)

bom, chegamos aos tais 6 meses, o grande marco dessa fase da vida do bebê. a verdade é que melhora sim, por vários motivos, mas outras coisas pioram também (e já estou percebendo que continua assim, forever and ever).

o que melhora nesta fase: você conhece melhor o bebê, e já não é tão difícil saber o que ele quer (comer, dormir, trocar fralda, brincar, etc.); o bebê interage bem nessa fase, sorri e brinca, o que facilita ter prazer em estar com ele sem tanta tensão e preocupação; a freqüência de mamar provavelmente já diminuiu (a cada 4h) e já não é mais tão cansativo, a gente dorme um pouco mais.

o que piora (ou fica mais difícil): o bebê demanda mais atenção, não basta estar ali, tem que participar 🙂 além disso, se seu bebê for como o meu, os dentes vão começar a aparecer e esse é um processo horroroso. dói, o bebê sofre e não há muito que se possa fazer. caso seu bebê durma bem, é possível que pare de dormir bem e acorde muito à noite. o otto sempre dormiu à noite (acordando para mamar), e continua não acordando completamente, mas chora durante a madrugada com muito mais freqüência agora com os dentinhos. fica claro que ele está sofrendo e não há muito o que fazer.

a questão do sono é a que mais nos preocupa no momento. o otto sempre teve muito sono a partir de 19h, e costuma dormir às 20h. mas ele nunca dormiu uma noite inteira sem interrupção. no início nós o acordávamos pra mamar a cada 4h (até o segundo mês), depois ele mesmo acordava 1 ou 2 vezes por noite para mamar. até pouco tempo atrás essa era a rotina, e agora ele começou a acordar a cada 2 horas, muito incomodado. como coincidiu com os dentes, acreditamos que seja isso.

nosso pediatra é da linha “deixa chorar” (pra dormir) e “não amamente durante a madrugada a partir dos 6 meses”. nós nunca deixamos o otto chorar (e não vamos deixar tão cedo), simplesmente porque não acreditamos que fará bem a ele ou a nós, e eu tentei não dar o peito das 23 às 5, mas com o incômodo do dentinho desisti dessa idéia. vou dar o peito a cada 4h durante a madrugada se ele quiser. até porque ele vai parar de mamar no meu peito 2x por dia (vou voltar ao trabalho), e pode estar simplesmente sentindo falta do contato. amamentá-lo na madrugada não me incomoda tanto, tenho muita facilidade pra dormir.

o problema é quando o fer não estiver disponível pra cuidar dele durante a madrugada, acordando a cada duas horas… aí eu vou ter que cuidar dele, amamentar e trabalhar o dia todo no dia seguinte. antevejo dias de zumbi. mas procuro ter esperança que vai passar logo, e vou sobreviver sem grandes dramas.

morro de inveja de pessoas cujos filhos dormem a noite toda desde pequenininhos, afe.

bom, tendo alguma dica pra essa fase dentinhos e problemas de sono, deixem comentário por favor. qualquer ajuda é bem-vinda. achamos alguns links que podem ser úteis, se você chegou aqui procurando ajuda (e encontrou uma mãe perdida :D): kellymom (melhor site sobre amamentação e outras coisas que já vi, mas é em inglês), discussão sobre sono no multiply, relato de uma mãe sobre padrão do sono do seu filho, dentição no orkut, artifo sobre dentição e relato de como os dentes afetaram o sono dos filhos.

amamentação: o início

confesso que amamentar ou não nunca foi uma dúvida durante a gravidez ou até antes, quando tinha decidido engravidar. não porque eu tivesse um desejo de amamentar ou coisa parecida, mas simplesmente porque acho a coisa certa a fazer. o ministério da saúde recomenda, e (honrando minha crença evolucionista) foi assim que fomos desenhados pra funcionar, afinal. os filhotes mamam no peito da mãe, oras.

o assunto nunca pareceu complicado ou controverso tampouco, seja porque não freqüentei grupos de discussão e afins (já tou vacinada, graças aos muitos anos de janela de internet) ou porque tenho amigas que amamentaram e compartilharam suas histórias comigo no passado. tudo muito natural, mesmo quando enfrentaram dificuldades.

a geração da minha mãe, por outro lado (mãe, tias, etc. – década de 70), não “conseguiu” amamentar. havia algum tipo de mito, aparentemente, de que o leite materno era “fraco”, e havia uma tendência de dar outros alimentos para os bebês. fora as gravidezes seqüenciadas…  (minha mãe engravidou da minha irmã quando eu estava com 4 meses). ainda assim, nunca ouvi de nenhuma delas que amamentar era ruim, doloroso ou difícil.

quando engravidei, portanto, amamentar não foi uma dúvida. e recebi uma única dica (de mais de uma fonte, inclusive de uma médica), que segui: esfregar o bico dos peitos com bucha vegetal todos os dias, no banho. teoricamente, essa prática ajuda a tornar a pele do bico mais resistente, evitando rachaduras depois.

não sei se é verdade ou não ou se funciona pra todas, mas eu nunca tive nenhuma dor para amamentar, nada nem próximo de uma rachadura. na dúvida, eu recomendaria a técnica da bucha!

2 coisas:

uma: se você acha que estou exagerando quando fico P da vida com as xiitas, vai lá ler os comentários no último post. uma das coitadas fez cesárea (mesmo caso que o meu) e teve que ouvir das odara-xiitas que “não teve parto”, boa sorte com o próximo. tá?

outra: volto a trabalhar em 2 semanas, e estou conseguindo ordenhar! ufa! (tiro +ou- 100ml por vez, mais que suficiente pro otto). a máquina-do-poder da medela foi alugada no cantinho da mamãe e funciona maravilhosamente bem. resumo melhor depois.

aproveitando o ensejo…

uma mãe odara anônima resolveu deixar comentários no post anterior porque se sentiu ofendida pelas minhas opiniões. segundo ela, eu (1) estou generalizando, (2) estou incomodada com o fato de haver mulheres que adoram viver para seus filhos, (3) estou dizendo que minhas verdades são únicas e (4) estou me contradizendo no assunto “babá” por exemplo.

não publiquei o comment porque não gosto de bater palma pra louco dançar. aprendi depois de 10 anos de blog que os anônimos gostam de criar caso, mas não querem se comprometer com nada, ficam escondidinhos no anonimato só jogando lenha na fogueira e saem de cena intactos quando convém. não curto, acho covarde e deixo pra lá.

mas gostei da provocação dela, especialmente porque é fácil de provar que ela está errada 🙂 está errada porque me lê com má vontade e se entrega ao rancor. eu chutaria que isso se dá porque toquei em algum ponto dolorido dela, sem saber. não fosse assim, ela não se daria ao trabalho de vir aqui deixar 2 comments enormes… alguma coisa pegou. aprendi uma coisa nos meus anos de terapia, que vou compartilhar por pura generosidade: quando algo que alguém diz/escreve (e não é direcionado pessoalmente a você e não ofende uma raça, gênero, etc.) ofende e magoa você como se fosse pessoal, faça uma auto-análise. algo no que foi dito está ressoando algum problema SEU escondido. o autor não tinha intenção de magoar você, já que ele sequer o conhece, perceba.

convenhamos, a pessoa vestiu uma carapuça ENORME. e veio aqui tentar diminuir a importância da minha opinião e vivência pra se sentir melhor. já vi esse filme, e não caio mais. sigamos.

não vejo generalização nenhuma aqui nesse blog quando falo das MINHAS experiências. e por favor, não vamos cometer erros primários de interpretação de texto, tais como achar que “você vai sentir arrependimento por X ou Y” é uma generalização. isso é recurso de narrativa, ok? não vou nem explicar, isso é básico.

eu não me incomodo em absoluto com mulheres odara (embora ache esquisito). eu me incomodo muitíssimo com o discurso xiita e ditador destas mulheres espalhado pela web, que massacra as demais mulheres, acusando-as de serem mães piores e prejudicarem seus filhos por não corresponderem ao ideal de perfeição. isso está claríssimo em todos os meus textos, só não entende quem está de má vontade mesmo.

acho que sobre verdades únicas nem preciso comentar. se tem alguém no mundo dos blogs pessoais que já acertou e errou (mais que acertou), mudou de idéia e admitiu ter mudado de idéia sou eu. nunca tive medo disso, ainda não tenho, e nunca digo que há verdade única. esse discurso é típico de quem está na defensiva e sem argumento. vou pular.

e aí tem a acusação de eu ser contra babá e agora achar certo e defender. tenho excelente memória, e pra quem não tem meu post sobre o assunto está aqui. eu sei no que acredito, sou uma mulher muito inteligente e não há contradição nenhuma no meu discurso antes e depois de parir. não que fosse um problema haver contradição, isso não invalidaria minha opinião anterior e nem a atual (de novo, recurso pobre pra diminuir a opinião do outro…). continuo sendo contra as babás de uniforminho, que acompanham bebês com os pais em lugares públicos e dormem no emprego. nada mudou. a nossa babá é como uma creche de luxo, porque podemos pagar, oras. ela trabalha de segunda a sexta das 7:30h às 17:30h (horário em que estou fora trabalhando), é registrada, ganha um ótimo salário e é muito bem tratada, como profissional que é. e quando necessário eu contrato folguista de fim de semana, para poder fazer outras atividades, já que não conto com família disponível pra me ajudar com o bebê quando quero por exemplo cortar o cabelo e meu marido está ocupado.

(me ocorreu que talvez as mães-odara não cortem cabelos, não se depilem, por isso não precisam de ajuda extra quando querem se cuidar 😉 ou são das mães sem noção que deixam seus filhos chatos soltos e incomodando as pessoas em salões, que deus nos livre!)

bom, odara, viu como eu fico feliz em responder? não tenho nada a temer, estou tranquila com minha opinião e a forma como a expresso. estou aqui, exposta, colocando às claras várias opiniões e sentimentos que muitas mulheres têm medo de admitir (tipo querer devolver o bebê pra fábrica) graças às supostas “mães perfeitas” que fazem tudo parecer tão fácil e simples e gostoso. continuarei firme e forte aqui, baby. as mães e mulheres que ficam aliviadas em ler opiniões aqui são motivo suficiente pra que eu continue, e não me deixe abater por provocações como a sua.

porque faço questão de comentar

estou trocando emails com a bianca balassiano do possoamamentar.com.br, e ela tem dado ótimas dicas sobre como ordenhar quando voltar ao trabalho. dicas práticas, que venho experimentando, e agradeço a ela pela boa vontade, educação e disposição em ajudar alguém que não só não conhece como também é em muitos aspectos avessa às suas crenças. recomendo procurá-la quando precisarem de apoio individualizado na amamentação.

começo com essa breve introdução porque respeito a bianca, e agradeço sua gentileza, mas também discordo de algumas coisas que ela gosta e divulga, esse texto aqui por exemplo e tudo que ele implica.

considero esse texto um total desserviço às mulheres que se tornam mães e desejam amamentar, e vou usar trechos para explicar meus motivos (grifos meus):

Para dar de mamar deveríamos passar quase o tempo todo nuas, sem largar a nossa criança, imersas num tempo fora do tempo, sem intelecto nem elaboração de pensamentos, sem necessidade de defender-se de nada nem de ninguém, senão somente sumidas num espaço imaginário e invisível para os demais.

(…)

Isto é possível se se compreende que a psicologia feminina inclui este profundo afinco à mãe-terra, que o ser uma com a natureza é intrínseco ao ser essencial da mulher, e que se este aspecto não se põe de manifesto, a lactância simplesmente não flui.

faço antes um comentário breve mas importante: dou muito valor ao instinto, pois creio que são parte da nossa herança genética e nos direcionam para o caminho correto. entendo portanto que seja incentivado que cada mulher encontre seus instintos maternos, eventualmente escondidos pelo verniz da modernidade. isso é especialmente precioso para mulheres que, como eu, são excessivamente racionais. entrar em contato com seus instintos, seu eu-interior e tal é salutar e importante. mas, quero frisar com negrito, isso é assunto individual para ser tratado em terapia!

textos genéricos, apelativos e “definitivos” como esse são um banho de água fria em qualquer mulher que tenha dúvidas sobre sua capacidade de ser mãe e/ou amamentar. bem, vamos aos grifos.

passar quase todo tempo nuas é obviamente inviável, a menos que você seja naturista. e tem o inverno. e a convivência com outras pessoas, já que vivemos num mundo no qual não é natural andar pelado, por mais que seja gostoso. então já partimos da impossibilidade, o que me leva a perguntar qual é o benefício de escrever essa frase… vamos fazer então uma interpretação figurada, e torcer para que as demais coitadas que lêem esse texto tenham essa capacidade e não levem as coisas tão a sério. ela quer dizer que contato pele-a-pele com seu bebê é importante, talvez? genial, tenho certeza que é importante. por que então não dizer exatamente isso, já que estamos falando com mulheres procurando apoio para serem melhores mães? por que não falar sobre coisas possíveis, tais como massagem no bebê, banho conjunto, olho no olho, carícias durante o amamentar, etc.? não, vamos falar de coisas impossíveis, pra que a leitora não se identifique e se sinta inadequada.

imersas num tempo fora do tempo, sumidas num espaço invisível para os demais talvez se trate de desligar das outras coisas, cuidar somente do seu bebê e esquecer de todo o resto do mundo. é, talvez isso faça sentido nos primeiros dias depois que seu bebê nasceu, porque o tsunami de hormônios mais todas as novidades (sentimentos, pensamentos, rotina, etc.) mais a privação de sono realmente deixam a gente num outro universo, paralelo. fato é que passado esse choque inicial, a vida continua acontecendo ao seu redor. a roupa não se lava sozinha, as contas não se pagam, a comida não se apronta e você continua sendo parte de um sistema. o mundo não fica restrito a você e ao seu bebê. e não conta pra ninguém, mas você vai MORRER de saudade da sua vida anterior. você vai se arrepender de ter decidido ter um bebê, vai achar que não vai dar certo, que você não é capaz e que sua vida piorou pra sempre. e logo no mesmo segundo vai MORRER de culpa por pensar tudo isso, porque afinal você já ama aquela criatura mais que tudo na vida, e desejou muito ser mãe, quis e quer fazer o melhor por ela. por mais que as mães-odara tenham dito pra você que sua vida vai mudar pra melhor pra sempre, e que você será uma mamífera-empoderada, você vai se sentir mesmo é uma merda, e pior: sequer vai ter coragem de admitir. porque alguém fez a gentileza de escrever um texto deste tipo, dizendo que o certo é ficar nua, imersa num outro espaço-tempo, se dedicando à sua cria. e ai de você se sentir diferente. não é uma mãe perfeita, claro, e vai se sentir uma mãe de merda.

ser uma com a natureza é a melhor. por mais que eu creia (e creio) que precisamos sim nos conectar mais com nosso lado animal e natural, pois é benéfico em todos os aspectos da nossa vida (alimentação, comportamento, atividades fisiológicas, etc.), “ser um com a natureza” não quer dizer absolutamente nada. na-da. não consigo crer que exista uma pessoa com o racional e emocional em dia que possa dizer que é “um com a natureza”. primeiro porque não vivemos na natureza. eu não conheço uma única pessoa que viva na natureza, que só come o que planta/caça/colhe, que viva em meio à natureza de fato. só isso já é suficiente pra não permitir nenhum de nós ser “um com a natureza”. quando a autora diz que isso é intrínseco ao ser essencial da mulher, danou-se. porque se é intrínseco e você sequer entende o que isso significa e não sente isso, já se lascou toda sua capacidade de ser mãe, mulher, de amamentar. e a autora, ditatorialmente, ainda complementa dizendo que se esse não for seu caso (“ser uma com a natureza, como é intrínseco da essência feminina”), a lactância não flui. sério, gente? quem precisa ler isso? (eu já digo quem precisa ler isso, a pergunta foi retórica)

cara amiga autora, caras mães-odara que gostam muito desse texto, vou dar meu depoimento. eu não sou “uma com a natureza”; não passo o tempo todo nua e nem passei desde que meu filho nasceu; não fiquei num tempo-espaço diferente. inclusive assisti muito friends e tuitei enquanto amamentava meu filho a cada 2 horas. pois meu filho mamou lindamente até agora (está completando 6 meses), em livre demanda, e meu leite sempre fluiu firme e forte desde o dia em que ele mamou. e ele mamou de primeira, sem esforço. e foi na UTI, não numa caverna com sua mãe pelada e bem louca da cabeça, viu?

caras amigas leitoras que se sentem inadequadas com esse texto e essas idéias, eu explico como foi possível amamentar meu bebê sem ser essa mãe-gaia-telúrica perfeita: muita água, alimentação adequada, descanso (conforme possível), fé na fisiologia humana e força de vontade. o negrito na força de vontade, amiga, não é à toa. todas nós viemos prontas de fábrica pra amamentar, basta ter estímulo físico e psicológico. eu comecei a produzir leite DEPOIS que meu filho nascer e ANTES dele mamar. meu corpo estava lotado de prolactina, como é normal para as grávidas recém-paridas, prontinho pra produzir leite. eu ordenhei, e o leite começou a aparecer. aos pouquinhos, gotinhas, e foi aumentando conforme eu insisti. ou seja: fisiologia pronta + força de vontade = sucesso. não é fácil, e às vezes dói (seja ordenhar, seja o bebê mamar), mas dá certo. insista, beba água, SAIBA que você é perfeita e está pronta, pois a natureza fez você assim. não é necessário ser uma com a natureza, nem ficar pelada ou trancada numa caverna. a “lactância” vai “fluir”, sim. e se não fluir? é porque alguma dessas coisas deu errado – às vezes as coisas dão errado, porra! – e também não será o fim do mundo. seu filho vai viver, e você pode ser sim uma boa mãe a despeito (ha) desse episódio.

se você ainda não entendeu meu incômodo com esses textos depois disso tudo, eu resumo: eles fazem a maioria das mulheres se sentirem inadequadas porque não se identificam com a imagem de mãe-telúrica pintada como ideal. ao sentir-se inadequada, a mulher se enche de medos e dúvidas, e esses sentimentos são um veneno para quem precisa de segurança e estímulo para cuidar do seu filho e amamentar. desserviço absoluto.

bem, agora eu respondo minha própria pergunta: quem precisa ler isso? quem se identifica com essa imagem e quer se auto-afirmar. as mulheres que por algum motivo encarnam a mãe-gaia quando engravidam e dão seus filhos à luz gostam de se ver como provedoras absolutas, necessárias, mágicas e especiais. por mais que remetam à natureza, elas não se vêem como meros animais com tetas, não senhores. elas se vêem como deusas superpoderosas, sobrenaturais. a maternidade dá a elas uma dimensão que antes não existia, dá SENTIDO às suas vidas e as definem. antes de serem mães elas eram meras mortais; depois do parto, se tornam algo especial, fora do alcance dos que não passaram por essa experiência, são mamíferas (todos somos, os homens inclusos, dã), gaia. em bom português, elas piram na batatinha.

volto ao título: faço questão de comentar sobre isso, porque estou muito bem resolvida com meu papel como mãe e ser humano, com todas as minhas falhas. ser mãe, ou dar a teta pro meu filho, não define quem eu sou nem me torna melhor ou pior que ninguém. até porque já passei pela experiência e vi que sou capaz (a despeito de não ser “uma com a natureza” e tal), isso já não me afeta. mas e as muitas mulheres que vão passar ou estão passando por isso? espero que encontrem esse post e suspirem aliviadas. que digam “graças a GAIA tem mais gente nesse mundo que não pira na batatinha quando vira mãe”.

amigas mães-não-telúricas, esse post é pra vocês: vocês não estão sós! se precisarem de um conselho ou uma história que não passe por soluções mágicas e elfos na floresta, deixa um recado que se eu não souber, consulto as minhas amigas mães de verdade.

sobre tudo OU o post mais longo ever!

estou usando o calendário (papel) no quarto do otto pra registrar algumas coisas, mas acho que vale também registrar aqui. como pretendo organizar as informações a respeito de amamentação exclusiva e transição para outros alimentos, esse post pode ser reaproveitado.

desde que engravidei decidi que amamentaria o bebê por quanto tempo fosse possível, com ênfase nos 6 primeiros meses. inicialmente pensei em amamentar exclusivamente até o sexto mês, mas conversando com o pediatra decidimos começar o processo de oferecer outros alimentos a partir do quinto mês, para que eu ficasse mais tranquila quando voltasse a trabalhar (o otto vai estar com 6 meses e meio).

lendo sobre amamentação na internet parece que iniciar alimentação para o bebê antes do sexto mês é uma heresia. escolhi o pediatra do otto a dedo, ele é chefe da pediatria da UNICAMP, universidade que admiro muito. é um médico de meia-idade, com enorme experiência nesta área. as consultas são longas, e ele explica absolutamente tudo que queremos saber com riqueza de detalhes para não-leigos. ele nos trata como iguais e não como “pai e mãe”, respeitando nossa inteligência. em suma: confio no profissional que escolhi para nos aconselhar, e estou satisfeita com as explicações para as decisões tomadas. e posso estar errada, mas tenho a impressão que os sites de amamentação que vejo por aí pecam pelo excesso (entendo a radicalização pra mudar um quadro desfavorável, mas não vou entrar nessa), propõem uma abordagem que transforma a mãe em uma teta ambulante, que precisa estar 100% engajada e à disposição do bebê.

sim, eu acho que quem decide ter um filho precisa se engajar e estar à disposição dele o máximo possível. ênfase no POSSÍVEL, por favor. porque amamentar e cuidar do bebê precisam ser atividades com as quais a mãe tem algum prazer e recompensa, nenhum bebê se beneficia de uma mãe estressada, chateada ou arrependida de ter parido. e não me venham com papo moralista de “pariu agora aguenta”, guardem esse discurso pros seus pastores e equivalentes.

me parece (pelos inúmeros blogs e sites por aí) que existe algo como um “movimento de mães-odara” que se pauta numa “volta às origens” (se dedicar exclusivamente ao bebê, fazer tudo da forma mais “natural”). fala-se sobre amamentar por 2 anos, ou mais, adiar a inserção da alimentação para o bebê, etc. apesar de todas as boas intenções, vejo alguns pontos problemáticos (que vou detalhar) quando me deparo com esses discursos: elas falam como se tudo fosse fácil, intuitivo e lindo. e se você não consegue ou não quer “fazer sacrifícios” para atender seu filho, é uma mãe de merda. existem as mães de merda, sim, mas há todo um gradiente de mães humanas e possíveis entre as mães doriana e as mãe de merda!

vamos aos problemas que eu identifico:

cenário 1 – supondo que você seja uma das que tem emprego formal, sua licença foi recentemente estendida para 6 meses. se você conseguir trabalhar até o dia de ter seu bebê, voltará a trabalhar quando ele completar 6 meses. é possível mantê-lo mamando no peito este tempo, mas [problema 1] você não conseguirá acompanhar a transição para os alimentos, pois precisa voltar a trabalhar. e enquanto alguém [problema 2] faz a transição para alimentos sólidos, você precisa [problema 3] ordenhar leite para o seu bebê (falo disso daqui a pouco).

cenário 2 – você não tem emprego formal, não tem licença maternidade e vai ficar sem trabalhar pelo tempo que for possível para continuar sobrevivendo. supondo que seja possível ficar sem trabalhar e sem receber por 6 meses, enfrentará os mesmos problemas do cenário 1, e se não puder parar de trabalhar de jeito nenhum, terá que ordenhar leite para o seu filho loucamente, já que é a única alimentação dele.

cenário 3 – você consegue trabalhar meio-período ou em casa, e portanto consegue continuar suas atividades sem precisar ordenhar, deixar seus filhos com outras pessoas e delegar a transição. neste caso, precisará administrar seu tempo [problema 4] para adicionar à sua agenda todas as novas atividades que a maternidade traz consigo e ainda viver!

cenário 4 – você não precisa trabalhar ou se parar de trabalhar continua vivendo porém com menos “luxos”. pode amamentar seu filho quantos meses forem necessários e fazer a transição para alimentos sólidos com acompanhamento de perto. lucky you! caso você tenha condições de ter funcionários, sequer enfrentará o problema 4.

não vou comentar o problema 4, pois não é meu caso por enquanto. vamos aos demais:

problema 1: podem me chamar de controladora, mas faço questão absoluta de acompanhar de muito perto a iniciação do meu filho aos alimentos, observando sua reação, as mudanças que causam no corpinho e comportamento dele e principalmente a preparação e rotina. quando eu voltar a trabalhar (sou a mãe do cenário 1), a babá é quem vai alimentá-lo (com a supervisão ocasional do pai, que trabalha em casa), portanto quero garantir que ela faça como eu faria.

queria ver com meus próprios olhos essa transição, esse foi um dos motivos de antecipá-la para os 5 meses: quando ele estiver com 6 meses e meio e eu voltar ao trabalho, a transição está praticamente completa e eu já saberei como ele se comporta, o que gosta, como aceitou os alimentos e como está a digestão. ficarei mais tranquila e consequentemente serei uma mãe melhor pra ele.

o outro fator para o início da alimentação foi uma dica do pediatra: o otto aumentou a frequência de mamadas à noite a partir do quarto mês (3 em 3, ao invés de 4 ou 5 horas de intervalo enquanto dormia). o menino cresceu mais do que engordou, e parece que alguns bebês realmente precisam mamar mais para manter o ritmo do seu crescimento. a sugestão dele foi oferecer suco e fruta, pois se ele estivesse mesmo precisando de mais alimento, aceitaria bem e “aliviaria” essa maior frequência durante a noite. pois foi exatamente o que aconteceu: ele aceitou muito bem o suco e as frutas, e voltou a aumentar o intervalo de mamadas à noite. além disso, ele continua mamando de 3 em 3 horas de dia, o alimento novo é suplementar. não sei quando exatamente vamos começar a substituir, mas por enquanto ele toma suco E come E mama o dia todo e à noite.

e tem outra coisa: acho que se o alimento for ofertado e o bebê aceitar, é porque está pronto. o desenvolvimento dos bebês não é idêntico para todos eles, e 6 meses é somente uma data. não há nenhum marco de desenvolvimento humano que seja tão preciso. a data de aniversário é só uma data! não creio nessas “datas místicas”, prefiro experimentar e ver como o MEU bebê reage aos estímulos.

problema 2: “alguém”, ou “algum lugar”, é a grande questão que tira o sono das mães que precisam trabalhar. eu tenho uma sorte enorme, pois a maria que cuidava de nós e da casa também foi babá por muitos anos, cuidou de crianças a vida toda e AMA ser babá. ela nos ensina sobre como cuidar do otto, e estou 100% tranquila com ela assumindo os cuidados dele. mas e quem tem pouco dinheiro para pagar e não tem ninguém de confiança, faz como? antigamente as mulheres eram essencialmente donas de casa, as poucas que trabalhavam contavam com parentes e vizinhas que assumiam o cuidado das crianças. agora temos creches (péssimas, ouvi dizer) que cuidam das crianças “em lote” e babás que custam muito dinheiro.

financeiramente, no meu caso, compensa ter babá. o que ela ganha é muitíssimo menos do que eu ganho trabalhando fora, portanto a equação é positiva pra mim. além disso, prefiro trabalhar a cuidar da casa e de criança.

(pausa para as mães-odara se juntarem pra jogar um feitiço wicca pela blasfêmia)

e brincadeiras à parte, creio que é importante para toda criança conviver com outras pessoas que não somente os pais. especialmente quando se trata de filho único, os pais podem ser excessivamente protetores ou criar expectativas irreais. tou cansada de ver crianças totalmente dependentes dos pais, com dificuldade de socialização e com alto grau de ansiedade pra corresponder às expectativas dos pais (ou seja: com medo de errar e arriscar). gosto de ver meu filho brincando com a babá, o jardineiro, a faxineira e se divertindo um monte. espero que ele continue convivendo com pessoas diferentes de nós, que não esperam tanto dele e portanto vão cobrá-lo muito menos.

voltando ao problema: e as mães que trabalham e não têm esse suporte todo que eu tenho? precisam se adaptar e abandonar o medo e a culpa. seus filhos e elas mesmas terão outros obstáculos pra superar, mas a verdade é que no fim as coisas se ajeitam. o ser humano é muito adaptável e – na minha opinião – se beneficia de situações que requerem flexibilidade. aprendemos mais e mais rápido quando há barreiras a superar. não há porque se sentir culpada por não poder estar o tempo todo com seu filho, sua onipresença não é essencial para que ele seja feliz e cresça saudável.

é, mãe-odara, no fundo eu tou dizendo que seu filho superprotegido e que só ouve mozart e palavra cantada pode sim acabar se tornando um mala anti-social, enquanto o filho da sua empregada é feliz e sociável, apesar dos pesares. é claro que seu filho terá mais chances, porque é mais rico e mais bem-relacionado, mas talvez não seja tão feliz…

o que me leva a tópico que pretendo detalhar em outro post: é mais importante ser bem-sucedido ou ser feliz? (supondo que algumas opções inviabilizam os 2 ao mesmo tempo)

problema 3 – a ordenha. o processo é chato, um pouco doloroso e cansativo. só muita vontade de alimentar seu filho com seu leite motiva uma mãe a fazer isso, acreditem. não é preguiça nem má vontade, caso isso tenha passado pela cabeça de vocês. é dureza.

suponha então que você esteja muito disposta a manter seu bebê mamando do seu leite, e vai voltar a trabalhar. percebam os problemas logísticos e qual é o tamanho da vontade que uma mãe tem que ter pra conseguir o feito:

– é preciso ordenhar pelo menos 2 vezes por dia no trabalho, para manter o fluxo do leite e conseguir volume. isso significa pausas de pelo menos 30min. e reze para seu empregador liberar você, pois as pausas de amamentação previstas por lei valem somente até o sexto mês do bebê;

– é preciso armazenar o leite ordenhado em vidros estéreis, na geladeira, até a hora de voltar pra casa. e para transportar de volta, é preciso bolsa térmica. pense em esterilizar os vidros diariamente e armazená-los sabe deus onde na sua empresa;

– é preciso privacidade para a ordenha, ou seja, sala fechada. todos os dias, 2 vezes por dia;

– é preciso uma máquina elétrica de ordenhar, ou você pode subir para 2 pausas de 1h por dia;

é claro que você pode ordenhar e jogar o leite fora, mas só funciona se seu filho não mamar mais durante o dia… ainda assim, precisa das pausas, da privacidade, etc.

agora faça assim: encaixe mais essa função no seu dia, e pense se os ambientes de trabalho facilitam o procedimento. pense com calma, e pense de novo na próxima vez que criticar as mães que não querem ou não conseguem manter essa rotina para os seus filhos.

resumindo…

tem que ter muito boa vontade. e mesmo com boa vontade, precisa também de condições favoráveis e muita, muita ajuda. e nada disso adianta se a mãe em questão está estressada, infeliz, culpada e se martirizando porque não é perfeita. e adianta menos ainda se a mãe não tem condições de se alimentar direito ou dormir porque não tem dinheiro e nem tempo.

cada vez mais creio que mães felizes, realizadas (pessoal e profissionalmente) e tranquilas são as melhores mães que existem. amamentar até os 7 anos no peito e estar presente 100% do tempo na vida do seu filho não fazem de você uma mãe melhor necessariamente e nem tornam seu filho necessariamente uma criança feliz. o vínculo com seu filho não se dá no parto, nem na amamentação, mas no dia a dia, no decorrer dos anos. é preciso parar com essa história da carochinha que “amor de mãe é imediato e incondicional”, que surge como num passe de mágica quando o bebê passa pelo canal vaginal ou quando mama no seu peito. isso é um desserviço à saúde mental da mulher. já existem hordas de mulheres deprimidas porque não conseguem corresponder a esse ideal de mãe perfeita. esse tipo de discurso é tão nocivo quanto as capas de revista com mulheres perfeitas. não basta ter que ser a mulher perfeita, agora tem a patrulha da mãe perfeita. chega!

e se você tem dúvidas sobre isso ser balela de mãe-odara doida que precisa ir pra terapia, voltemos às origens da nossa espécie: humanos são gregários, vivem em grupo sempre. as crianças não ficam grudadas em suas mães o tempo todo, elas passam de colo em colo, com outras crianças maiores ajudando a cuidar inclusive. logo que conseguem colocar coisas na boca já começam a ser alimentadas, e o leite do peito é dado sempre que possível pois é mais prático. nenhuma mãe humana, na sua essência, amamenta porque “é lindo e é bom para o bebê e cria vínculo”. amamenta porque é PRÁTICO (e por isso é bom, e perfeito. a natureza é sábia). tão logo a crianças começam a andar e pegar coisas, começam também a ter funções PRÁTICAS. crianças sempre foram mão de obra, essa coisa de “proteger a criança” é coisa muito, muito recente. crianças humanas não ficavam sendo paparicadas por adultos e nem “se dedicando a atividades lúdicas”. elas aprendiam enquanto brincavam, ajudando os adultos. todos os animais são assim, aliás. e os papais não ficavam trocando fraldas, iam caçar; as mamães iam colher comida, cuidar das coisas, revezando a função de cuidar das crianças. até porque se não fosse assim, todo mundo morria de fome, percebe?

OU SEJA: essa romantização toda do parto, da amamentação e da criança é recentíssima e na minha opinião uma PUTA viagem errada. tem gente que precisa arranjar um tanque de roupa pra lavar, um quintal pra varrer, sabe, se ocupar. façamos as coisas da forma mais natural, sim, até porque é comprovadamente bom, pela evolução. o que não dá é essa viagem errada, não senhores.

cada vez mais estou convencida que esse hype todo sobre parto natural e amamentação xiita (à revelia das condições existentes) tem a ver única e exclusivamente com a necessidade de algumas mulheres de encontrarem seu lugar no mundo. várias delas só se definem como “mães” e “mamíferas”, e se apegam a isso com unhas e dentes. a falta de outras realizações relevantes (na cabeça delas, claro. o resto do mundo doesn’t give a flying crap a respeito) faz com que elas fiquem cegas e radicais. como faz? vai pra terapia. pára com essa maluquice de tentar provar que existe algo como a maternidade perfeita.

da minha parte, me esforçarei pra fazer o melhor e o possível, sem me violentar ou sacrificar. tenho certeza que serei uma mãe melhor se for feliz e não me sentir cansadíssima e/ou culpada. tudo o que eu mais quero é que meu filho seja INDEPENDENTE de mim, e não o inverso. portanto, farei o que estiver ao meu alcance pra que o otto tenha condições de ser independente, e quando ele estiver pronto, assim será.

de como entendo quem desiste de amamentar

estou aqui no mês 3, semana 4 do otto, amamentando exclusivamente, e quanto mais passa o tempo mais entendo quem desiste de amamentar.

e que não venham as radicais de plantão levantar bandeira, porque amamentar exige muito fisica e emocionalmente, e só cada uma sabe de si, do quanto consegue suportar. há sim as que têm preguiça e não se esforçam, eu sei, mas até ser preguiçosa é direito da indivídua. é a mesma coisa que optar por fazer cesárea por conveniência: eu discordo, mas é direito da mulher, sim.

pra mim tem sido assim: não tive dificuldade de amamentar, o leite apareceu conforme ordenhei e o otto começou a mamar, e não dói absolutamente nada. o otto mamou de 2 em 2 horas no primeiro mês e começou a espaçar para 3 em 3 no segundo mês. ele sempre quis dormir mais à noite, fazendo intervalos de 4, 5 ou até 6 horas entre as mamadas noturnas.

apesar de toda essa “facilidade”, amamentar ainda é cansativo e exije presença e dedicação constantes. não posso fazer nada que tome mais de 2 horas seguidas, porque digamos que ele mame por 30 minutos, até arrotar, mais uns 15, até começar a fazer alguma coisa mais 15. passada 1 hora, daqui a 2 horas ele quer mamar de novo. mesma coisa com o sono: no máximo 2 horas de descanso por vez.

aí você pensa que precisa se alimentar, tomar banho e se cuidar minimamente nestes intervalos e bye-bye algumas preciosas horas de descanso. aí você tem outras coisas também pra fazer, porque elas não desaparecem magicamente: pagar contas, fazer supermercado, administrar a casa e os funcionários, caso você seja privilegiada como eu e TENHA funcionários. do contrário, você ainda tem coisas pra limpar e arrumar, e deus tenha piedade de você, porque eu não sei como seria se eu não pudesse pagar uma babá e uma ajudante para a casa. pagar as contas, manter o controle financeiro em dia, manter a casa abastecida e os funcionários trabalhando direito toma mais um pouco daquelas 2 horas espalhadas no decorrer do dia. vá somando.

a privação de sono é um fato, todas sabemos disso quando resolvemos engravidar. mas só passando por isso você se dá conta de como isso afeta você. e não é a mesma coisa dormir 4h seguidas e dormir 2h + 2h, senhores e senhoras. você não entra em sono profundo em 2h, o sono não descansa do mesmo jeito. você fica cansada, irritada, frustrada e um pouco deprimida mesmo.

para as que ainda não desistiram, aderiram à mamadeira e voltaram a trabalhar, some a esse quadro o fato de você simplesmente não ter mais vida. você não faz mais nada que não seja dar o peito, fazer a higiene sua ou do bebê e cuidar de assuntos da casa. o casamento fica aquela merda, porque tudo gira em torno do bebê e você mal tem disposição pra ver TV. seu marido vai te achar uma baranga chata, porque você vive desgrenhada e só fala do cocô do bebê, não tem disposição pra absolutamente mais nada.

mas tem mais: a culpa e o medo. a culpa por não conseguir fazer mais nada, por estar tão cansada que não consegue nem pensar em voltar a ser aquela mulher legal e descolada de sempre, por pensar que foi uma idéia de jerico ter engravidado, por desejar que o bebê durma mais peloamordedeus, por ter inveja do seu marido que pode ficar fora de casa quantas horas quiser e tudo bem. o medo do leite desaparecer, de o bebê estar com gases porque você comeu alguma coisa diferente, de não conseguir fazer o bebê engordar com seu leite apesar de todo sacrifício que você está fazendo.

porque sim, eu sei que amamentar exclusivamente é a melhor coisa pro bebê, de longe. que ele precisa receber através do leite não só o alimento, mas também a imunidade pra ajudá-lo a ficar saudável e crescer direito.

aí pense na alternativa: a mamadeira pode ser dada por qualquer um e faz o bebê se sentir satisfeito por mais horas. ou seja: você já não se sente física e exclusivamente responsável pela sobrevivência do bebê e ainda ganha horas para VIVER. gente, fala a verdade, a tentação é grande demais!

atualmente estou assim: preocupada porque vira e mexe o otto volta a mamar de 2 em 2 horas, fico encanada que meu leite não é suficiente, ou que ele está com algum problema. ele ganhou peso no último mês, mas a taxa de ganho caiu pela metade em relação ao mês anterior, apesar de estar dentro da normalidade.

sigo administrando meus intervalos de 2h (que eventualmente são reduzidos a 1h) pra cuidar dele, da casa, de mim, das finanças. e tentando não surtar com a culpa e o medo. e sonhando com o sexto mês, quando ele vai começar a comer e não mais depender exclusivamente de mim.

mas quando chegar o sexto mês, também será hora de voltar a trabalhar, e suponho que o cansaço e a culpa vão aumentar. olha, é preciso muito, muito amor mesmo. e um lembrete diário de que sim, ISSO TUDO FOI ESCOLHA MINHA. ai ai.

PS1: ainda assim, apesar de tudo, não abriria mão de amamentá-lo. acho que os benefícios são tão grandes que compensam meu sacrifício, que afinal é só por um tempo.

PS2: se seu bebê é tranquilo, dorme montes de horas seguidas e você não sente culpa nem medo, agradeça ao santo de sua preferência todos os dias 😀

dona das divinas tetas

com a história do otto ficar na UTI, ele não recebeu nenhum tipo de alimento nas primeiras 72 horas de vida. por causa da anóxia de cordão, os médicos precisavam acompanhar os efeitos nos órgãos dele, e entre os problemas que podem acontecer como consequência é algum dano nos intestinos e outros órgãos menos prioritários. mantiveram o menino então em jejum por 72h e no 4o dia começaram a dar leite via tubo, diretamente no estômago, pra ver como o sistema digestivo reagia.

sabendo que precisaria dar meu leite pra ele a qualquer momento, comecei a ordenhar no dia seguinte ao parto, manualmente de início e depois com a bombinha elétrica. o peito estava muito pesado e cheio, mas ainda assim foi difícil começar a sair alguma coisa. fiquei com medo de não sair nada, mas insisti de hora em hora, até começar a sair gotas de um leite bem amarelado e denso, o colostro. quanto mais eu tirava, mais saía, pra meu alívio!

no 4o dia de vida dele, pediram que eu começasse a ordenhar na UTI, em potinhos, pra poder iniciar a alimentação ainda via tubo. só que nesta UTI só permitem ordenha manual, na salinha de ordenha (minúscula e quente), e o processo foi um martírio. meu peito é enorme, e minhas mãos são minúsculas. a ordenha é dolorosa, cansativa e muito frustrante, porque o colostro sai em pouca quantidade (20-40ml). felizmente ele começou recebendo pouco (7ml a cada 3h), mas essa quantidade dobrou em menos de 24h e continou dobrando. fiquei sofrendo a cada 3h por 3 dias, até que no 6o dia, depois de receber o leite super bem, comecei a dar o peito ainda na UTI.

fiquei morrendo de medo de não conseguir amamentar, de não ter leite, de doer, sei lá. ouvi tanta história de dificuldade para amamentar… e a verdade é que foi simples como nunca imaginei que fosse. ele veio pro meu peito direito primeiro, pegou bem mas largou rápido. mudei pro peito esquerdo e ele mamou 15min sem a menor dificuldade. pelo que a enfermeira falou, tenho sorte porque meu mamilo é grande e comprido, então é muito fácil pro bebê pegar e mamar (e ele suga muito bem e muito forte). não senti (e ainda não sinto) dor nenhuma, o peito tem muito leite e ele mama sem nenhuma dificuldade.

tentei manter a frequência da UTI (3 em 3h), mas aqui em casa ele às vezes quer mamar antes, a cada 2h, e eu dou. à noite o intervalo se estende para 4h com sorte, mas é mais raro. no primeiro mês, ele ganhou em média 26g por dia (o normal é de 20 a 30g/dia), isso considerando a perda de peso da primeira semana! depois de sair da UTI, ele ganhou em média 31g por dia. ou seja – está mamando bem e aproveitando o leite 🙂

eu costumava dar 15min (pelo menos) de cada peito pra ele a cada mamada, mas o pediatra pediu que eu desse somente 1 peito de cada vez, por causa do tamanho do peitão. eu não sabia, mas o leite tem 2 fases quando o bebê mama. nos primeiros minutos de mamada, vem o que se chama de leite anterior, que é mais aguado e cheio de lactose, e só depois vem o leite posterior, mais rico em gordura. portanto assim fizemos: ele mama de 20 a 40min em cada peito, um de cada vez.

outra coisa que precisei ajustar: interrompo a mamada a cada 10min para arrotar, porque ele estava com gases, o pobrezinho sofria muito. melhorou MUITO depois que fiz isso. agora ele só reclama de sair do peito depois de 10min e é chato na hora, mas o benefício compensa.

então é isso – amamentar pra nós foi moleza. pretendo continuar amamentando exclusivamente até o 6o mês e como complemento até quando ele quiser (ou até 1 ano e 2 meses, quando o sistema imunológico dele estará 100% formado).

essa história pelo menos foi bem-sucedida e fácil, ufa 🙂