entrevista sobre ser mãe

uma amiga me indicou para ser entrevistada sobre a experiência de ser mãe, e como não sei se a entrevista vai mesmo ser publicada (sou uma entre várias entrevistadas), fica aqui para registro e caso alguém queira saber 🙂

(se sair alguma parte dela na revista eu coloco o link aqui depois)

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Você escreveu no seu blog algumas vezes que não tinha o sonho de ser mãe, mas ama a experiência, hoje, de ver o filho crescer e descobrir coisas. Como é essa descoberta? Como foi essa mudança?

Nunca tive sonho de engravidar e ser mãe, não fazia parte das minhas metas, desejos. Mas aos 36 anos mais ou menos (meu marido, 34) começamos a conversar sobre o assunto e achamos que apesar de nenhum de nós ter esse desejo apaixonado a experiência devia ser muito interessante. Brincamos que foi uma “experiência antropológica”, e é mais ou menos isso mesmo. Não fomos do tipo que celebra a gravidez e a nova vida, aquela coisa de cinema. Sempre fomos bem pragmáticos e encaramos a experiência como uma jornada, uma novidade, sabendo que muda tudo na vida e é um outro caminho. Depois do nascimento do Otto as descobertas foram diárias, às vezes muito incríveis de tão legal e às vezes muito chatas e desagradáveis. Como não romantizamos a experiência, acho que pudemos viver tudo — a parte linda e a parte muito chata de ser pai e mãe.

Como foi sua gestação? Nessa fase, quais foram as “surpresas”, coisas que você não esperava e acabou tendo de se adaptar?

A gestação foi tranquila, engravidamos poucos meses depois de decidir que íamos ter filhos. Não posso reclamar de quase nada da gravidez em si, porque tive poucos incômodos (azia o período todo, enjoo no começo, e o final é inevitavelmente difícil fisicamente, pelo volume). Só uma lembrança de incômodo é bem forte: fiquei com nojo de alho, então comer fora era difícil e chegar perto de gente que tinha comido alho acabava com meu dia! Felizmente passou. Fora isso foi vida completamente normal, trabalhando e fazendo tudo que sempre fiz.

O mundo da maternidade tem várias “regras”, que já viraram às vezes até piada. No seu blog, por exemplo, você sempre fala de #paidecesarea. Como você vê essa história da escolha do parto? Como lidou com isso?

Eu já tinha lido e acompanhado muito sobre parto humanizado bem antes da ideia de ter filhos, e na minha família quase todas as mulheres fizeram parto normal de vários filhos (apesar de não serem nada humanizados, ao contrário). Pra mim era claro que queria um parto humanizado sem intervenção desnecessária (no meu corpo ou no corpo do bebê), de preferência, como é a recomendação da OMS. Tendo engravidado com 37 anos, minha gravidez automaticamente era considerada de risco, o que complicava a opção de parto em casas de parto (muito recomendada por várias pessoas) e eu não queria fazer parto em casa também. Fiz acompanhamento inicial na casa Moara (muito boa, recomendo), mas eles não atendem no interior, onde moro. Achei então uma obstetra na região alinhada com meu plano de parto (uma dificuldade enorme, a propósito), visitei hospital, falei com pediatra chefe, fizemos um plano completo de parto. Ou seja — nos engajamos muito no processo todo, sabendo das dificuldades de evitar intervenção. Mas no final das contas, acabei fazendo uma cesárea emergencial, pois no processo de trabalho de parto houve uma complicação grave. O Otto nasceu de 41 semanas e 5 dias e ficou 8 dias na UTI em observação, graças ao parto complicado, mas eu fiquei muito bem e ele também. Saiu tudo diferente do que eu planejei, mas estou certa que o processo que adotamos foi o melhor possível, e isso é que é importante: ser protagonista da gestação, do parto, e ser acolhida pelos profissionais que estão dando o apoio (ao contrário de ser coagida, por medo).

Depois do nascimento do Otto, como ficou sua rotina? Havia algo que você imaginava e que foi totalmente diferente?

A rotina mudou completamente, a vida virou outra. Fiquei de licença por 7 meses, então tive muito tempo de tentar me adaptar (e não adiantou nada, porque quando estava entendendo o que estava acontecendo, mudei a rotina!). Eu não tinha ideia de como seria, só sabia que seria diferente e cansativo. O Otto mamava muito (amamentei em livre demanda), mais ou menos de 2 em 2h, e demorava 40min para mamar, o que torna o processo muito desgastante fisicamente. O Fernando (meu marido) foi um suporte essencial, pois ele fazia tudo que não fosse dar de mamar, e nossa funcionária e nossa família ajudaram muito também. Sem ajuda é uma tarefa impossível. Jamais esquecerei o ditado africano que diz “é preciso uma aldeia para criar uma criança”, porque é 100% verdade. Ajuda é fundamental — mas precisa ser ajuda de verdade, e não palpite e julgamento. É preciso de espaço e tranquilidade para errar e acertar, e conhecer aquele ser humano que acaba de chegar e muda toda a dinâmica da família, da casa, do relacionamento. Eu não tinha ideia de que ficaria sem dormir (ou dormindo picadinho) por tanto tempo, pra ser honesta. As pessoas nunca dizem a verdade pra gente, e repetem que “o amor incondicional compensa tudo”. Não me senti assim, e apesar de toda a alegria que traz a chegada de um filho, há também o medo e o cansaço, que são muito grandes.

Como foi lidar com questões cheias de expectativas, como rotina de sono e amamentação?

A amamentação foi muito tranquila, desde que o Otto começou a mamar (ainda na UTI). O início, quando ele estava com soro ou recebendo meu leite por caninho, e eu tinha que ordenhar, foi MUITO difícil, assim com letras maiúsculas mesmo. O processo de ordenha é muito mais difícil que amamentar, mas felizmente eu tive um apoio maravilhoso das enfermeiras no hospital, foi essencial para o processo e para a minha sanidade mental. Estar com filho na UTI, recém-parida (com dor, por causa da cesárea) e ainda ter dor e dificuldade para ordenhar é um horror. Mas quando ele veio para o peito (5 dias depois do parto, somente) foi muito tranquilo, ele mamou bem e de forma simples, e foi assim até parar de mamar por conta própria aos 9 meses. Então fora a dor na lombar (tenho uma hérnia) que voltou nos meses da amamentação e o cansaço da frequência, amamentar foi tranquilo. Já o sono foi infernal, eu sempre adorei dormir muito, e me senti um zumbi por vários meses. Fiquei sem dormir uma noite completa (6h seguidas) até perto do menino completar 2 anos, quando decidimos (tarde demais, na minha opinião) fazer cama compartilhada. Depois que ele veio dormir na nossa cama, nossa vida mudou: melhorou MUITO, pois já não acordávamos mais durante a madrugada para fazê-lo voltar a dormir. Deixá-lo chorando sozinho nunca foi uma opção pra nós, então o processo todo foi muito desgastante. Se tivesse nos ocorrido que dormir junto seria tão simples, teria mantido assim ao invés de colocá-lo no berço no seu quarto aos 5 meses, como fizemos.

Você conta também da expectativa de o filho ser parecido com você, e que, diferentemente, ele é introvertido. Como você lida com isso?

Isso é uma das coisas mais difíceis e mais bonitas da maternidade, na minha opinião. O Otto é completamente diferente de mim, em personalidade, e mais parecido com o pai. Mas o pai é adulto, e já aprendeu a “navegar” no mundo dos extrovertidos. Pra mim é um mundo novo, complexo, misterioso, e com o qual não me sinto 100% à vontade, sempre fica a paranoia de que o menino “tem problema” porque não é extrovertido e super sociável. Por mais que a pediatra afirme que ele é ótimo, e várias pessoas confirmem que isso é só personalidade, eu não consigo entender, então fico tensa. Mas está melhorando, conforme eu leio, converso com amigos introvertidos e (o mais importante) presto atenção aos meus preconceitos. É isso que tenho feito: me educado, e aprendido a conviver com a diferença (o que me faz muito bem na vida de forma geral, não só como mãe). Mas nunca tive grandes expectativas concretas sobre meu filho, até porque nem pensava em tê-lo. Sou muito flexível e gosto de improvisar, seja pra mim mesma ou pra família, então não fico fazendo planos ou pensando no que ele vai fazer, o que vai estudar, essas coisas. Eu quero mesmo é que ele seja saudável, feliz, seguro, e isso ele já é desde muito pequeno. Apesar de introvertido, ele é muito assertivo, objetivo, se expressa bem, sabe o que quer, sabe dizer não (coisa que eu aprendi aos 30!). Não podia querer nada além disso.

Hoje, com ele maior, como é a rotina de vocês? Como os cuidados com ele se encaixam em seu dia a dia (viagens, trabalho etc.)?

Minha rotina é bem estruturada, mas não é exatamente rígida (ou seja, a gente adapta quando precisa). Eu trabalho fora o dia todo, sou gerente de TI de uma multinacional para a América do Sul, o trabalho me exige muito. Mas já na gravidez decidi que seria mais regrada com minha dedicação ao trabalho, e procuro fazer poucas horas adicionais, sempre dou muito foco em ser produtiva ao máximo no horário de trabalho, e desligar quando vou pra casa — é assim que tenho feito, e funciona muito bem. Nossa família foi organizada de um jeito muito moderno, e diferente da maioria que conheço — eu trabalho das “8 às 17h” e meu marido é freelancer, desde antes do Otto nascer. Então é ele que cuida de coisas da casa, supermercado, que leva e traz o Otto para a escola, que resolve todas essas coisas do dia a dia, que cuida dele quando eu viajo a trabalho (raro, mas acontece). Temos ajuda de uma super funcionária (segunda a sexta), que cuida da casa e ajuda com o Otto quando o pai não está. Eu chego à noite e só brinco e cuido do Otto, junto com ele. No fim de semana, passeamos, fazemos coisas juntos, nada muito planejado — fazemos o que temos vontade. Não gosto de criar “calendário” para a criança, já basta a nossa vida de adulto cheia de compromissos. Então, temos nossa rotina do dia a dia bem fixa (horário de escola, almoço, lanche, jantar, dormir), mas estamos sempre dispostos a improvisar e nos fins de semana fazemos o que der vontade. Quanto às viagens, é uma das atividades que mais amamos, desde que casamos, e o Otto foi incluso nessa rotina a partir de 1 ano. Viajamos todos os anos, para diversos lugares diferentes, outros países ou aqui mesmo, sem muito planejamento, improvisando no caminho. A experiência é diferente com uma criança (quanto menor, mais difícil), mas é também muito bonita — ver o mundo através dos olhos da criança (além dos seus) é mágico, e muito interessante. Dá trabalho? Dá, mas vale a pena.

Uma coisa que vale para todas as perguntas que você me fez, vale em especial aqui: para ser feliz na experiência de ser mãe e pai é preciso parar de perseguir a perfeição, o “certo”, e ver alegria e beleza na surpresa, na diferença e até na dificuldade (mesmo que seja olhando depois). Criar uma criança é reviver nossa própria história, e muitas vezes fazer as pazes com o passado. Caso você insista em condenar o passado, e for muito perfeccionista, o sofrimento é inevitável. Eu escolhi ser feliz 🙂

filho virginiano com ascendente em virgem, mãe pisciana com lua em sagitário

acho astrologia super divertido, do mesmo jeito que gosto de tarô: não como futurologia, mas como forma de autoconhecimento e análise através de arquétipos e mitos. o legal é ver o mapa todo, o signo solar isolado não faz muito sentido, como sempre diz o Acuio.

aprendi, quando me tornei mãe, que a nossa lua no mapa é uma representação da mãe que somos, e a minha é sagitário. sempre adorei minha lua, que representa meu lado bem-humorado e otimista até nas tormentas mais horrorosas. jamais me abato (ou me abato somente temporariamente, dura pouquíssimo o desânimo), e vejo a vida com muito humor. como mãe, sou mesmo muito palhaça, brincalhona, não levo as birras muito a sério, sou geralmente bem flexível.

(mas não queira nunca me ver brava)

contei essa história toda porque sou mãe-palhaça de uma criança que — coincidência ou não — nasceu virginiana, com ascendente em… virgem. pra quem não sabe, virgem é pureza, método, análise (mas é também amor pela natureza e apego físico, tão bonito!). virgem é um pouco literal. o otto, talvez pela idade, é MUITO literal. muito analítico e, bem, nem sempre muito bem-humorado 

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hoje eu ri sozinha de um (de muitos) típico confronto da mãe-palhaça com a criança-analítica, e registro pra um dia contar pra ele e rir (sozinha, claro, já que ele não vai achar nenhuma graça):

Otto: “mamãe, vou fazer uma comida pra você com essa panela e essa pá. você sabia que a minha pá tem olhos?”

(a panela é um potinho de plástico, e a tal “pá” é um negócio cheio de buracos, uns 10, usada pra fazer múltiplas bolhas de sabão. parece mesmo uma pá, mas com buracos)

Eu: “ah é? e quantos olhos ela tem?”

Otto: (ar de “que pergunta óbvia”) “dois, mamãe…”

Eu: “ah, igual a gente… mas sabe quantos olhos tem uma ARANHA, Otto?”

Otto: (em tom de reprimenda) “mamãe, NÃO TEM aranha NA COZINHA, viu?”

Eu: (mimimi)

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Vai ver é isso que me cabe, de fato: levar um pouco de surrealismo pra vida desse menino tão sério e que sabe tudo. Aiai.

da páscoa e outras tradições familiares

Antes de ser mãe eu não percebia tão bem as pequenas nuances da criação da memória, e das lembranças afetivas. Não me dava conta da maravilha do ritual da preparação das refeições em família — porque no dia a dia era mecânico, prático, mas nas festividades, estar junto fazendo algo em comum era a essência da comemoração. O resultado (a comida, comer) era só mais uma coisa. O sabor daquelas refeições era maravilhoso porque o processo todo de preparação alimentava o coração. O estômago e a boca só acompanham e reverberam o amor e a felicidade de estar junto, mãos com mãos, fazendo um pouco da nossa história conjunta.

Faço absoluta questão de construir para o Otto essas memórias conjuntas. O preparo de um peixe, a poda das plantas, a canção cantada em coro. Porque nada do que eu deixar pra ele vai ser mais importante ou duradouro que as memórias profundas, aquelas que assaltam a gente no domingo de manhã ao provar um pedaço de chocolate.

Te amo Mami VeraKellyKitoArina. Mandem um beijo pro meu Papi aí. Manhãs de Páscoa me lembram vocês.

happiness only real when shared.

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Esse ano, ao invés de patinhas, resolvi fazer charada  Como foi a 1a vez que o Otto teve contato, tivemos que dar dicas de como funciona. Quando ele entendeu, adorou, e correu pro castelo pra achar a cesta de ovos 

(E esse ano ele adorou a cenoura mas quis comer o chocolate! Hahahhahaha)

a experiência antropológica mais completa

A Maria, nossa mais que querida funcionária que é mãe-avó-amiga-babá-etc. agora está com um problema pra sair com o Otto e passear no condomínio: ele só quer andar pelado. No meio do passeio ele decreta “tou com calor, vou tirar a roupa!”

Com muito custo ela convence o menino a pelo menos vestir uma cuequinha (ele cedeu sob protestos, parece), e ele anda de cueca pelo condomínio.

Pra além da graça toda da situação, e o fato dela agora chamar o menino de “curumim” , fiquei pensando no quanto a nudez é tabu. Ele e nós andamos sem roupa na casa com frequência. Eu inclusive ando sem roupa até quando temos visitas (evito quando tem homens, por pura convenção social), não tenho vergonha nenhuma.

Quando adultos, respeitamos as convenções sociais sem nem prestar atenção. Quando criamos uma criança, nós confrontamos com algumas regras que, pensando bem, não fazem sentido algum.

Pra que usar tanta roupa no verão? Por que não podemos andar pelados quando a roupa não serve para proteger? Por que tanto incômodo sobre o que vão pensar sobre nossos corpos?

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E percebo, encantada, que minha maior expectativa em relação a ser mãe se cumpriu: é a melhor experiência antropológica que pode haver.

sobre sua mãe

Achei linda essa carta da moça para sua mãe que já se foi, por vários motivos, mas achei especialmente bonito a filha (que perdeu a mãe tão cedo) admirar nela o ímpeto de ser independente e fazê-lo. A mãe, uma vez por ano, a deixava com parentes para fazer viagens só.

Em tempos de tanta cobrança para que as mães sejam onipresentes e as crianças sejam o centro do universo é bonito ver um contraponto exatamente de quem perdeu a mãe.

O pouco tempo que ela teve com a mãe serviu também pra levar um exemplo de auto-suficiência, independência e desejo de realizar seus sonhos individuais. Porque tornar-se mãe não é necessariamente igual a viver em função dos filhos. Há quem viva, há quem não, não existe regra, colega. Sua opção não é melhor nem pior que a dos outros.

rasgando livros e corações

estávamos lendo o livro fofo da coruja com o otto (“um tanto perdida”) antes de dormir, e na empolgação de passar a página (a história é cheia de surpresas) ele arrancou um pedaço dela fora, meia página! <o> (mesmo a gente tendo avisado mil vezes, antecipando o ocorrido). minha reação foi espontânea e tão de choque com o livro rasgado (como é impactante rasgar livro, não? que coisa!) que mesmo eu não tendo gritado e nem brigado com ele o menino ficou paralisado, coitado, olhando, mexendo na página rasgada com aquela cara de “OPS!”.

“dá pra consertar, mamãe?” — “dá sim, mas nunca vai ficar igual, meu amor”.

continuamos a história, mas ficamos todos meio chateados. acabou, guardou, vamos dormir, beijos, abraços, etc. a gente sempre dá a opção de escolher quem fica com ele para dormir, e surpreendentemente hoje ele escolheu o Fer (ele SEMPRE quer que eu fique, é um grude comigo nessa hora), e ficou repetindo “você me desculpa, papai?”, com aquela carinha de quem fez bobagem.

AI, GENTE. destruiu nosso coração. a gente não brigou com ele, nem gritou, nem NADA, mas não precisa fazer nada disso pra criança perceber que algo errado aconteceu, e tentar consertar. e convenhamos, é só um livro né?

o que reforça pra mim 2 coisas:

1) nenhuma criança precisa apanhar. a gente consegue transmitir a mensagem, eles entendem TUDO!

2) é preciso todo cuidado, amor e respeito do mundo ao lidar com crianças. elas sentem demais a nossa decepção, raiva, medo, apreensão, tensão, etc.

o Fer ficou lá, e eu vim aqui terminar um trabalho pra ver se meu coração cresce e fica do tamanho normal de novo, que agora ele está do tamanho de uma uva passa.

criação com apego

Com algumas diferenças, essa foi a opção que fizemos aqui na forma de criar o Otto. Ele sempre odiou sling, então ficava muito no colo. Sempre pegamos no colo quando chorava, nunca deixamos chorando. Mamava quando queria. Dorme na nossa cama até agora. Sempre escutamos o que ele quer, e negociamos o que fazer e não fazer os 3, ele não é menos considerado por ter 3 anos.

E não, ele não pode fazer tudo o que quer. Aqui adotamos o castigo (sentamos junto com ele pra pensar e conversar sobre o que aconteceu). Quando ele não é legal conosco ou com outras pessoas, procuramos fazer com que haja consequências que ele entenda. Tiramos coisas que ele gosta, por exemplo. Pedimos que ele diga obrigado e por favor, aqui, porque é assim que o tratamos e queremos tratamento igual da parte dele. Não gritamos com ele e não deixamos que ele grite conosco.

E por enquanto estamos contentes com o resultado. Alguns dias são mais difíceis que outros, mas no geral o comportamento dele é bem alinhado com o nosso, a convivência com as outras pessoas também é boa e tranquila. As pessoas elogiam o comportamento dele, que é uma criança bem querida.

Cada família tem uma dinâmica, não acho que exista forma “certa” de educar. Importante é ter mais gente feliz, confiante e boa com seus semelhantes neste mundo. Essa é a nossa meta pra ele, e esse caminho eu acho que leva pra lá 🙂

calendário

há muito tempo eu quis

fazer uma canção

pra gente viver mais.

 

otto,

 

essa é provavelmente a mais importante carta que escrevi aqui nesse espaço até o momento. tenho contado sobre seu desenvolvimento, pequenas histórias que se perderiam no tempo não fossem esses escritos e sobre como me sinto, sempre num esforço de montar o mosaico que é a vida de cada um de nós para sua apreciação um dia. uma experiência única, já que não sei o quanto isso já existe por aí e se haverá alguma outra pessoa contemporânea sua com a mesma experiência de ler os escritos de sua mãe destes anos que a maior parte de nós não lembra, a não ser através das anedotas familiares.

você vai ter mais que as histórias dos mais velhos — família e amigos — pra saber como foi sua infância, e acho que isso é bom. você conta melhor um dia como foi ler tudo isso!

mas hoje queria contar que tive momentos de profunda tristeza e pesar pensando no futuro, e não há absolutamente nada que se possa fazer a respeito. só posso registrar, aproveitando alguns minutos do meu tempo para oferecer mais de mim pra você — tenho hoje 41 anos, e você tem 3. sem nenhuma intenção nem motivo, projetei você para o futuro na idade que tenho hoje (como seria, como será?), e me dei conta que quando você tiver 41 anos eu terei 79 anos. SETENTA E NOVE. com sorte, claro, se eu de fato estiver ainda aqui (é muito provável, mas…). serei uma senhora muito idosa, enquanto você estará no auge da sua vida adulta.

sua avó e avô, meus pais, têm respectivamente 60 e 63 anos neste ano que escrevo. são senhores, claro, mas longe de serem idosos, são muito ativos e têm muitos anos pela frente ainda, tomando a história da família como referência. já têm netas de 12 anos, além de você, e é possível que conheçam seus bisnetos, se eles vierem.

fiquei tão triste, tão profundamente triste em pensar que no momento em que você chegar ao auge da sua vida eu estarei chegando ao fim da minha! queria conhecer você mais velho, meus netos, meus bisnetos. mas minha opção por ser mãe mais tarde, com tudo o que tem de bom, tem isso de mau (e não é pouco). sofri, porque pensei em como seria triste não ter meus pais por aqui em apenas alguns anos, que é o que provavelmente acontecerá com você.

meu filho, saiba que eu daria tudo pra poder ficar mais, o máximo possível, com você. que cada ano, mês, dia será precioso. que se soubesse que assim seria, eu teria trazido você ao mundo antes. mas aí, claro, você não seria você. e nada substituiria você sendo você, se é que me entende.

se cientista eu fosse, faria uma força-tarefa imensa a partir de agora para estender a vida, para chegar não aos 80 mas aos 120 para estar com você até que você fosse um senhorzinho. ver seus filhos e netos, se eles vierem. estar com você só mais um pouquinho.

mas sofrer e reclamar por ações passadas ou possibilidades futuras não faz parte da minha personalidade, e não sofrerei nem pensarei mais nisso. prefiro aproveitar os minutos e segundos agora, e não pensar sobre o que poderia ter sido, ou será. mas queria te contar que jamais senti um amor tão grande que trouxesse essa urgência de mais passado e mais futuro, que me fizesse sonhar com uma solução mágica ou uma máquina do tempo para reorganizar as eras tal que eu pudesse estar mais tempo com alguém no mesmo espaço/tempo.

saiba que amo você e a ideia da sua existência como jamais amei alguma coisa. e saber que você estará nesse mundo depois que eu não estiver mais é muito mais impactante e bonito que a existência de deus, alma, espírito ou qualquer dessas ficções. sua mera existência num mundo sem mim compensa o pesar de não mais ser (ainda que sendo como parte de todo o universo).

viva intensamente, meu querido. faça tudo que deseja fazer imediatamente, sem remorso, sem medo. a vida que existe é aquela desse instante, agora. seja feliz instantaneamente, e não perca tempo jamais elucubrando sobre o que será nem sofrendo pelo que foi.

somos felizes porque somos.

<3

o maior de todos os medos

fui pesquisar no blog se já tinha falado de medo antes, pra não me repetir demais, e descobri que a palavra apareceu bastante. não me espantei, porque uma das coisas que descobri é que depois de ser mãe/pai o medo toma uma proporção completamente diferente e muito maior.

o medo é definido como uma emoção causada pela percepção de perigo ou ameaça, um mecanismo de sobrevivência básico. a menos que você venha com defeito de fábrica, sente medo, a emoção não devia ser novidade pra ninguém. mas eu não sabia o quanto o medo podia ser tão maior, e apavorante, quando se trata dos nossos filhos.

o medo de perder um filho é mais forte que o medo de perder a própria vida. sério: a ideia de morrer é muito melhor que a de perder um filho. se houvesse escolha, estou certa que os pais escolheriam morrer no lugar dos seus filhos.

eu não sentia esse medo antes do otto sair da barriga, quando ele ainda era feto. mas depois que ele nasceu, e vi seu rosto, pele, cabelos bagunçados, ouvi sua voz e senti seu cheiro, um “clic” aconteceu. e não é amor (pra mim, o amor veio gradualmente), é algo como uma pré-programação, é não-racional. no momento em que aquele ser existe e respira, ele é sua responsabilidade, e você moverá montanhas pra que ele sobreviva. está no nosso código genético, na programação do nosso cérebro, e você agirá de forma tal que a prioridade número 1 da sua vida será aquele bebê. mesmo com toda ajuda do mundo, é você o responsável. aquele bebê precisa sobreviver.

a seleção natural é um poderoso instrumento de formação de seres perfeitamente adaptados para garantir que seus descendentes sobrevivam, através do imperativo genético.

antes mesmo de engravidar, quando estava tentando, eu tinha pesadelos recorrentes de que carregava nos braços uma criança imunda, magrinha e chorando, porque eu não conseguia cuidar dela e nem alimentá-la. eu andava desesperada pelas ruas, pedindo ajuda com a criança nos braços, em vão.

e antes de sequer querer engravidar, tive um sonho apavorante que levei pra terapia: eu acordava no meu quarto, na penumbra, e no canto havia uma criança (4, 5 anos) parada, quieta no cantinho, olhando pra mim. não havia nada de mau, feio, sinistro na criança, tipo demian (mas era um menino :)). era só inusitado (no meu quarto, escondida, à noite), mas eu sequer chegava a questionar o motivo — sentia um medo visceral, uma vontade de sair correndo, horrível. e ao elaborar mais a imagem, sobre a criança, veio à tona meu enorme medo de ser mãe, de ser responsável por alguém, de sentir medo pela segurança e saúde de outra pessoa que não fosse eu mesma.

o contexto de nascimento do otto foi muito especial, e apavorante. bem normal que eu tivesse medo dele morrer, ou ter alguma sequela. mas quando ele voltou pra casa, o tempo passou e ficou claro que não havia nenhum problema grave (segundo o pai, só ficaremos 100% tranquilo quando o menino fizer MBA, hahahhaaha!), o medo deveria passar. mas não passou — eu conferia se ele respirava; qualquer suspiro me fazia sentir ansiedade; quando ele chorava eu chorava junto. tinha vontade de fazer ele voltar pra barriga (no meu controle, claro, dentro do MEU corpo), pra proteger, cuidar, preservar.

o tempo passou e descobri que o medo na verdade não passa. o que acontece é que a gente acostuma com ele, e outras coisas práticas e mais urgentes se sobrepõem a ele, ficam mais evidentes. o medo fica em background, é incorporado como parte do dia a dia.

ouvi uma vez uma história muito interessante sobre percepção da realidade, através dos sentidos: alguém que nunca enxergou na vida, se de repente tivesse a capacidade de visão restaurada de uma só vez, enlouqueceria. a quantidade de informação que recebemos é imensa, e só conseguimos lidar com o fluxo de informação porque desenvolvemos a capacidade de filtro, pouco a pouco, desde recém-nascidos. os bebês escutam, vêem e sentem de forma diferente, o sistema neural aprende a captar e decodificar os sinais externos pouco a pouco, é um mecanismo de absorção gradativa, até pra não dar tilt no cérebro. aos poucos, aprendemos a focar no que é importante (ou nos interessa) e “desfocamos” tudo que é segundo, terceiro plano. as coisas continuam existindo, mas com menor importância e impacto, pra que a gente consiga sobreviver num mundo com infinitos estímulos.

já li também que pessoas que têm algum tipo de disfunção de percepção/decodificação e filtro sofrem muito (alguns autistas, por exemplo), e os bebês que mais choram e precisam de colo/conforto nos primeiros meses são justamente os que têm dificuldade de lidar com o excesso de estímulo. ou seja — seus filtros não são formados ainda e eles são sensíveis em excesso.

mas voltando ao assunto: creio que o mesmo se aplica ao medo. ele continua lá, enorme e sempre presente, mas em segundo plano, porque afinal a vida chama e as coisas práticas precisam ser feitas.

no último fim de semana o otto se machucou — andava no nosso terreno, onde construiremos nossa casa, e caiu. eu e o pai estávamos atentos, prestando atenção a onde ele ia, etc., mas não olhamos com tanta atenção assim, assumindo que no chão havia o que há nos chãos: terra, pedras, gramas, insetos. pois que no pedaço de chão que ele caiu, escondidos entre as gramas e as terras e pedras, havia pedaços de ferro de fundação cortados. com pontas. de 10cm. enferrujados, afiados. e ele caiu por cima de 2 destes ferros, quando tropeçou (havia mais). aquele corpinho frágil, fofinho, delicado de criança de 3 anos caiu em cima de ferros afiados e enferrujados. e tudo o que aconteceu foram 2 arranhões — um pequeno, na barriga (a roupa segurou) e o outro enorme, no bracinho descoberto. rasgou a pele, num machucado bem feio mas que aparentemente não doeu e que pouco sangrou. ele foi bem corajoso, não reclamou do machucado (mas reclamou da assepsia no posto de saúde, e muito).

a coragem dele, tão pequenininho, foi o que me sustentou e impediu de chorar, não quando vi o machucado (apesar de ter morrido de pena), mas quando vi os ferros no chão, e pensei nas 1001 possibilidades de terror daquela queda. ferros no peito, na cabeça, no olho, no rosto, no pulmão, e etc. etc. etc. e o medo me invadiu como uma cachoeira, voltando de enxurrada ao primeiro plano. pra me lembrar que não, ele não sumiu, ele está sempre lá, me espreitando, e que vai me pegar cada vez que uma situação de risco normal se transforma em desastre potencial ou real.

abracei aquele corpinho frágil, morrendo de medo e culpa (COMO eu não vi os ferros? como eu deixei meu bebê, minha prole, meu descendente, se arriscar?), e um pouco morta por dentro. fiquei com medo de novo por 1 ou 2 dias, e depois ele voltou ao segundo plano. até a próxima.

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(o assunto abaixo não é diretamente relacionado ao medo, mas acabou aparecendo enquanto escrevia esse texto, resolvi deixar aí)

algumas pessoas comparam o amor/preocupação com filhos e com animais de estimação. tenho ambos, e tive animais antes de sequer pensar em ter filhos, e entendo a comparação. mesmo depois de ter filhos, não me ofendo com a comparação, pois entendo que as pessoas sem filhos querem de alguma forma mostrar que sentem empatia pela sua situação, o trabalho que dá, etc. não é a mesma coisa, isso é fato, mas a correlação ajuda a achar coisas em comum a 2 universos paralelos.

(e ainda acho que ter ferrets dá mais trabalho que ter filhos, em alguns aspectos :))

digo que são paralelos porque, de fato, não dá pra comparar o amor, preocupação (e o medo) que se sente em relação a um filho com aquele que se sente em relação a um animal de estimação. perder um animal é triste, perdi nada menos que 10 nos últimos 12 anos. mas nada, nada sequer se parece com o medo de perder seu filho, é basicamente o fim do mundo e da vida.

se você tem filhos, eu não preciso explicar isso; se você não tem, não adianta explicar.

e o papai?

li essa semana uma matéria falando sobre licença paternidade, que hoje é de apenas 5 dias, e do papel do pai na criação dos filhos. e me dei conta que basicamente nunca escrevi aqui sobre como lidamos com isso, eu e fer, os pais do otto. mas tem motivo: simplesmente não existe diferença entre eu-mãe e ele-pai na criação do otto, e vou explicar um pouco sobre isso.

pra começar, a decisão de ter um filho foi consenso entre nós, depois de 7 anos de casados (sem querer ter filhos, inclusive). eu brinco que optamos por engravidar como “experiência antropológica”, e no fundo é isso mesmo, não é brincadeira não. queríamos passar por esta experiência, aprender com ela. tivemos muitos medos, mas decidimos encarar. e pra quem tem os mesmos questionamentos, digo que ter filhos não é primordial para a vida e/ou felicidade de ninguém, mas é uma experiência única e incrível. como pular de paraquedas, por exemplo, coisa que jamais farei 😀

somente eu carreguei o otto na barriga, mas o fer esteve presente em todos os momentos, procurou informação junto comigo (pouca, não fomos do tipo que lê mil livros), conversamos sobre a escolha do nome, sobre como seria o parto, fizemos o pré-natal juntos mesmo. nunca senti que a gravidez foi um processo “meu”, apesar de toda parte fisiológica que só estando dentro da própria pele para acompanhar. ele foi realmente meu companheiro nesses 9 meses, e no parto-show-de-horror ele estava lá comigo, bem como naqueles 8 dias assustadores de UTI.

o fer é freela, e se planejou bem antes do nascimento para tirar sua licença-paternidade — ele ficou sem trabalhar por 6 meses após o nascimento do otto, junto comigo, full time em casa (acho que ele pegou um ou outro trabalho pequeno, em casa, se não me engano). e quando eu voltei a trabalhar (o otto estava com 6 meses e meio, e já comendo), ele ficou a maior parte do tempo em casa nos próximos meses também, só pegando projetos que não demandassem ficar o dia todo fora.

nos primeiros meses, quando o otto mamava de 2 em 2h (ou menos, já que eu dava o peito quando ele queria), 24/7, amamentar era a tarefa mais desgastante e difícil, e obviamente só eu podia dar o peito. mas o processo de amamentar não é só peito — inclui pegar o bebê, trocar fralda, frequentemente trocar a roupa, mamar, arrotar e (com sorte) dormir. pois eu só fazia a parte do peito, o fer sempre fez todo o resto. durante a noite, era ele que ficava na vigília do belzebu-menino-que-não-dormia, enquanto eu descansava entre mamadas.

algumas coisas o fer não gosta de fazer — dar comida, por exemplo, que faz uma meleca danada. é da personalidade dele, que não gosta de meleca e sujeira de comida, fica aflito. mas ainda assim ele dá, quando precisa. nosso acordo (e conversamos bastante sobre isso, não é “natural”) é de tentar dividir as tarefas de forma que cada um fique com a parte que goste mais ou que desgoste menos. e as coisas que ninguém gosta (trocar fralda, por exemplo) a gente alterna, pra não encher o saco de ninguém.

isso não quer dizer que não teve stress, em especial nos primeiros meses, quando a gente ainda não sabia como lidar com a pessoa nova da casa. brigamos, discutimos, mas chegamos a um acordo, e seguimos. e vai melhorando, depois dos primeiros meses, porque a gente aprende sobre a criança e sobre a nova rotina, tão diferente de antes-do-bebê. essa mudança é especialmente complicada pra quem estava casado há tanto tempo, tão sem rotina e sem compromisso. muda da água para o vinho! mas com maturidade e especialmente boa vontade das 2 partes, as coisas se ajeitam.

mas é importante notar nessa minha história um fator crítico: nunca adotamos a postura de que “papai está ajudando a cuidar da criança”. papai é responsável por esta criança tanto quanto a mamãe! tanto quanto, exatamente na mesma medida, nem mais e nem menos. é fato que a criança demanda mais da mãe, especialmente nos primeiros meses. a ponto do pai se sentir meio “inútil” — exemplo: no colo do pai a criança chora, vai pro colo da mãe e para imediatamente. existe uma ligação não verbal entre mãe e bebê que é real, não dá pra negar. mas isso não significa que a gente não deva deixar o bebê com o pai pra ir tomar banho, comer, dormir ou fazer a unha. mesmo que o bebê preferisse estar com a mãe. nós inclusive fizemos questão de deixar o otto com a babá, tia, avós o máximo possível  entre as mamadas, não só pra termos uma folga (tão importante!) mas também pra que ele acostumasse com outras pessoas e a gente deixasse de ser neurótico (se você não tem filhos ou os seus não ficaram na UTI ao nascer, vai ser difícil entender o quanto a gente fica neurótico e superprotetor).

papai não está “ajudando”, ele está fazendo o que precisa ser feito, quando precisa ser feito. o fato dele estar comigo em casa ajudou demais, e acho que todos os pais deviam ter a oportunidade de passar pelo menos os 6 primeiros meses dos seus filhos cuidando deles, caso assim desejem. se pudesse ser mais acho que seria melhor, porque o primeiro ano é muito intenso e tem questões de formação do bebê que vão acompanhá-lo pelos próximos anos, como os hábitos alimentares e de higiene, por exemplo. a menos que você tenha a sorte que eu tenho, de ter uma babá que é praticamente a minha mãe, vai ser complicado educar seu filho do seu jeito.

graças ao planejamento do fer nos primeiros meses, sua opção de estar mais próximo do otto (ele trabalha em casa sempre que pode, e quando trabalha fora costuma sair depois do almoço somente) tem funcionado muito bem, podemos dizer que somos um casal que educa e cuida do nosso filho de forma 100% compartilhada. entre a babá, escola, ele e eu, conseguimos cuidar do otto num esquema ótimo, cada um oferecendo o que tem de melhor para a educação e crescimento emocional e afetivo.

de manhã, o fer prepara o otto para ir à escola, faz o café da manhã e garante que o otto come enquanto eu tomo banho, me preparo e como também. eu levo ele pra escola, onde ele brinca e interage com outras crianças e os professores, e almoça (sozinho, com as outras crianças). o fer vai buscá-lo, e chegando em casa a maria dá banho, troca de roupa e faz dormir. no meio da tarde ela dá um lanche, leva ele pra passear no parque, andar de bicicleta, comer fruta das árvores, brincar com outras crianças e com os bichos. na volta, já dá o jantar às 17:30h, que é quando eu chego e aí é minha vez de brincar, conversar, às vezes saímos os 3 para andar de bicicleta, etc. quando ele tem fome eu dou banho, o fer coloca pijama, eu escovo os dentes, contamos histórias os 3 juntos, e ele dorme comigo (ultimamente temos dividido a hora de dormir também entre eu e fer, pra ele não acostumar demais a dormir só comigo). nos fins de semana eu fico com o otto no sábado de manhã pro fer poder dormir até mais tarde, no resto do dia variamos. no domingo, o fer fica com ele de manhã pra que eu possa dormir até mais tarde, e depois fazemos algo todos juntos. a hora da comida geralmente é minha (eu que preparo e dou), mas agora que o otto faz menos meleca o papai consegue ajudar sem ficar morrendo de desgosto 🙂

nossa rotina é simples, mas funciona bem exatamente porque não tem tarefa-da-mamãe e tarefa-do-papai. fazemos tudo juntos, tentamos dar uma folga um pro outro e temos ajuda (escola e babá). saímos juntos só os 2 de vez em quando (é raro, porque ainda estamos na fase que queremos fazer tudo com o otto :)), e procuramos conversar quando alguma coisa não parece legal, ou um de nós está se sentindo sobrecarregado. ajustes normais em relacionamentos de adultos. nem tudo são flores, mas encaramos os problemas como parte do processo, sempre lembrando um ao outro que estamos nisso juntos.

dito isso tudo, acho que não devia haver licença maternidade e nem licença paternidade, mas “licença família”. um período para que a família se adapte à nova realidade, e que os pais juntos pudessem decidir como usar esse tempo. ou, como existe em alguns países, a licença vale para um dos pais, eles decidem qual vai ficar em casa com o bebê (é natural que seja a mãe, por causa da amamentação, mas depois do primeiro ano talvez o casal queira mudar, e a mãe volta a trabalhar enquanto o pai fica com o bebê, sei lá).

e aproveito para agradecer ao fer por ter sido sempre um companheiro nessa jornada tão intensa, maluca e divertida. apesar de todas as dificuldades, estamos firmes no intento de estar juntos e criar esse menino tão legal que colocamos no mundo, mostrar pra ele que um mundo mais igual é possível — acho ele vai estranhar quando descobrir que há um mundo tão desigual lá fora, tomando como exemplo o universo dele…

nós como mulheres não devemos nos contentar com homens que “nos ajudam”. eles devem ser parte do processo todo, sempre. não é o gênero que deve definir o que / quanto fazer, mas o acordo entre os dois, a disponibilidade, a possibilidade de cada um. com respeito, com comprometimento.

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fer, você é um homem incrível, que respeita as mulheres como iguais e vive essa igualdade de forma natural. em 10 anos jamais ouvi da sua boca um só comentário machista, e amo você ainda mais por isso. seu comportamento é sempre respeitoso, consistente, afetuoso. você mostra ao nosso filho que ser homem é também ser sensível, que isso não é atributo feminino. nosso filho pode chorar, vestir rosa, brincar com os sapatos na mamãe, sem nunca ser tolhido. tenho certeza que nosso filho será um homem feminista, do qual teremos sempre muito orgulho, graças ao nosso exemplo, graças à forma como vivemos dentro da nossa casa. não tenho nenhum medo de que meu filho se afaste de mim por ser homem e eu ser mulher. por mais que ele se identifique mais com você em alguns momentos por compartilhar o gênero, seu respeito e amor por mim e pelas mulheres ao nosso redor serão sempre a referência dele. obrigada por embarcar comigo nessa de forma tão entregue e dedicada. te amo!