Mentiras categorizadas

Dia desses, na aula on-line, uma das professoras trouxe o filho dela pra apresentar pro Otto (ela é brasileira, professora de apoio dele). Nosso LORDE imediatamente informou — “mas eu não quero conhecer ele!”. Fer, é claro, interferiu, explicou, deu um sambarilove, pra situação não ficar horrível. Ela conhece o Otto, então acabou achando graça, mas depois teve DR.

Explicamos pra ele que isso não se diz. Que por educação, quando alguém nos diz que vai apresentar um membro da família, é educado simplesmente cumprimentar e não dizer se queria conhecer ou não 🙄 mesmo que a gente não queira

Ele ficou indignado — “mas se eu não quero conhecer eu PRECISO dizer isso. Vocês não dizem que mentir é errado? Eu não quero mentir!”

Putz. E a complexidade da explicação sobre os limites da mentira social, e da omissão por educação? É uma enorme sutileza, e pra alguém tão direto como ele, é muito difícil entender porque tanta volta, e tantos dedos.

Ele queria simplesmente avisar a outra pessoa que não está interessado, e vida que segue. Mas não dá, porque as relações são feitas de pequenas concessões (às vezes não tão pequenas… eu lutei por muitos anos pra aprender a impor limites), e ele precisa aprender, mesmo não gostando.

Como a gente ensina que mentir é uma coisa ruim mas que ao mesmo tempo é necessário? Mentira e omissão têm graus, essa é a verdade, mas que difícil explicar isso, e ensinar!

Fer e eu lembramos de um experimento que alguém fez, de tentar passar um período de tempo absolutamente sem mentir, e relatou que é horrível, ou melhor, as consequências são horríveis.

De modo que precisamos educar o menino sincerão a mentir.

Vai dar ruim, claro, mas pelo menos teremos histórias interessantes 😀

Aniversários

Acabo de fazer um exercício de memória aqui lembrando dos temas dos aniversários do Otto até hoje! Já tá na hora de planejar o de 8 anos ❤

1 ano: bolo de arco-íris, nenhum tema específico
2 anos: Wallace & Gromit ❤ (ainda temos os bonecos e as lembranças, a Paula fez mini-Shawns!)
3 anos: Pocoyo, teve até bolo da baleia, gente do céu 😱
4 anos: Wall-e, a Paula fez as botinhas de feltro e colocamos mudinhas nelas de lembrança ❤
5 anos: super heróis (Otto de Iron Man, eu de Robin e Fer de Batman). Demos capas pra todo mundo!
6 anos: super heróis de novo, mas com fantasias livres. Não lembro a lembrança (hahahahha lembrei! O livro escrito por ele mesmo, do Homem Aranha)
7 anos: Gotham City, Batman Lego. Tivemos chaveiros de Lego feitos pelo Vinicius, além da cidade de Gotham!

8 anos: Ninjago, com uma floresta sendo construída dentro da nossa casa, pelo Vini

9 anos: Labirinto do homem-formiga, lindamente construído pelo Vini na varanda e muito bem aproveitado pelas crianças!

Matraca noturna

Otto é e sempre foi uma criança muito silenciosa e na dele. Você até esquece que tem criança em casa!

Mas na hora do banho e de dormir, minha gente… parece que abriu a caixa de Pandora e o menino desanda a fazer perguntas e falar sem parar, as coisas mais LOUCAS do universo.

“Posso ter um formigáreis? Como as formigas respiram? Por que elas se afogam? Por que o vagalume não fica ligado o tempo todo? Você sabia que eu tenho uma espada no Minecraft com 5 de dano? E…”

JESUSAMADO SOCORRO 🤣🤣🤣

L’eau du chou

Procure alguém que te ame como Otto ama repolho cru, gente.

É a comida favorita dele, de longe. Pode faltar qualquer coisa nessa casa, menos repolho (verde ou roxo, ele ama os 2). Tem que ter todo dia, é um inferno, mas enfim, tá bom. Podia ser mandioquinha e teríamos problemas. Repolho é uma comida que tem em tudo que é canto, acho.

Otto gosta de comer coisas com a mão, pegando direto do próprio prato, e se recusa a usar faca porque “sou criança e é perigoso” 🙄 modosque a despeito da insistência dos pais para que ele use a faca pra ajudar o garfo e a insistência da mãe, a louca do guardanapo, pra que ele use o dito cujo, ele limpa a mão NA ROUPA.

Otto colocando o finzinho da salada de repolho no garfo, com a mão:

Eu: “Gato… usa a faca. Ou pelo menos limpa a mão no guardanapo! Senão sua roupa fica toda suja de comida!”

O: “mas aí é até bom, imagina a roupa com cheirinho de repolho? Melhor perfume!”

Ah, gente, não, amor tem limite.

#socorro

Otto tá apaixonado (e viciado) pelos youtubers de MineCraft e Lego games. Um horror, porque eles gritam loucamente, não se entende metade do que falam e conteúdo é raso que só, porém, PANDEMIA, vai ver o que ele gostar mesmo e paciência.

Aí que ele aprendeu a usar a frase “hashtag (X)”, sendo X qualquer coisa. Pra me atormentar, né, porque ODEIO uso de hashtag #como #de #fosse #vírgula, por motivos técnicos de indexação de dados.

Estamos jantando hambúrguer e batatas fritas feitos por nós, e:

O: “peguei hashtag A ÚLTIMA BATATA, hahahaha!”

🙄

Blasé

Olha, a gente pode fazer (e fez, certeza) muita coisa errada na criação desse menino, mas a autoestima é um espetáculo 🤣

Eu: “Otto, te falei que nota de matemática veio no seu boletim do 3o ano?”

O: “não. 10?”

Eu: “aqui não é assim de 0-10, mas foi um A+, excelente! Parabéns!”

O: “ah, legal!”

🤣🤣🤣

Proteína

Otto ontem no banho:

O: “mamãe, por que os humanos precisam comer carne?”

Eu: “eles não precisam, mas a proteína é boa pra nossa saúde e um pedaço pequeno de carne tem muita proteína. Por isso especialmente na fase de crescimento comer carne ajuda.”

O: “tipo… um pedacinho de carne são uns 10 feijões?”

Eu: “hahhahahhaa, um pouco mais de feijão!” (/Leônidas mode on)

Eu: “mas quando você for adulto, se quiser pode ser vegetariano. Muitas pessoas são! Enquanto isso a gente vai comendo a proteína que você gosta. Que carne você gosta?”

O: “coxinha! A carne da coxinha eu gosto.”

(Hahahahhahahhaha!)

Eu: “e sushi?”

O: “ah, gosto!”

Eu: “e churrasco?”

O: “gosto também.”

Eu: “então tá fácil :D”

Acho que um dia ele será vegetariano sim, quando tiver idade pra decidir e entender as trocas que precisa fazer pra continuar bem alimentado. Enquanto isso, vamos de coxinha, sushi e churrasco 😀

“Meia” lerda, eu

Otto está estudando frações, e ele é excelente nesse assunto, dá gosto de ver (pra compensar o desastre que é pra decorar tabuada. E muito me identifico — não soube e não sei de cor até hoje, eu calculo TODAS acima do 6).

Ontem à noite eu tive um problema de frações enquanto fazia pão — precisava colocar 2/3 de xícara e, distraída, coloquei 1/2 xícara. Comecei a discutir com o Fer — bom, e agora? Quanto adiciono pra completar os 2/3?

Depois de algumas elaborações ele disse “falta 1/6!” e eu trouxe outro probleminha — só tenho xícara de 1/3. “Divide na metade então!”. Nenhuma dessas conclusões foi imediata, tipo PÁ-PUM. Ambos tivemos que pensar um pouquinho.

Hoje no almoço decidi colocar o problema pro Otto ver que frações se usam no dia a dia, especialmente na cozinha. Expliquei a 1a parte do problema, ele respondeu “ué, coloca um pouco mais além da 1/2 xícara, assim ó:” (e mostrou um tico com a mão).

Eu: “Mas quero saber a fração. Quanto preciso adicionar?”

O: “1/6, ué.”

=O

Eu: “pera, que tem a 2a parte do problema. eu só tenho um medidos de 1/3, não tenho de 1/6. quanto coloco pra completar os 2/3?)

O: “metade, ué!”

😀

Não é muito legal quando o filho tem 9 anos e já faz fracionamento melhor que você? 🙂

Flor do Lácio

Semana passada Otto estava fazendo uma tarefa de inglês pra aprender palavras compostas (vocabulário mesmo), e foi super divertido notar como inglês é um idioma literal. “Doorknob” (knob = apêndice arredondado; door = porta) ou seja MAÇANETA. “Firefly” (fly = voar ou mosca; fire = fogo), ou seja, VAGALUME ou PIRILAMPO. “Firefighter” (fire = fogo, fighter = lutador) ou seja BOMBEIRO.

Gente, não é demais?! 🤣🤣🤣 Otto inclusive achou “fácil demais”, e é. Pragmático.

Até aí, tudo bem. (Te dedico, Fernando)

Mas chegou em “Jellyfish” (jelly = geleia, fish = peixe), e Otto não curtiu. “Mamãe, água-viva não é um peixe! Por que colocaram um FISH aí??”

Minha explicação é que como vive na água, pra facilitar, chamaram de peixe. E começamos uma conversa sobre o que é ou não considerado peixe (e eu tive que ir pro Google porque é claro que não me lembro).

E a língua portuguesa, que coisa mais linda do mundo, né? Muito poética e divertida. Água-viva, pirilampo, maçaneta, que lindezas.

❤️❤️❤️

Dia das mães

Vi uma amiga falando sobre ser mãe / amor, e a opção de não ser mãe, lembrei que o dia das mães tá chegando (é isso né? Já tou meio perdida) e não quero entrar mais na treta de quem é mãe quem não é, porque percebi que uma das questões fundamentais da maternidade parece ficar escondida nessas tretas. E é dessa questão que quero falar.

Ser mãe é FUNÇÃO, e é muito menos sobre amor e mais sobre cuidado e dependência / responsabilidade em formar outros humanos. Amar é um sentimento, é subjetivo e impossível de discutir. Cuidado e dedicação para formar alguém são coisas concretas, e é nessa esfera que a coisa fica complexa quando se trata de maternidade: pra quem nunca cuidou de um bebê humano até que ele tenha independência suficiente pra sobreviver sozinho fora de casa, é impossível explicar o que isso significa. E não faz diferença se você pariu o bebê, se ele chegou na sua casa com 3 anos ou 11 anos — o cuidado 24/7 que um humano não-adulto requer é absurdamente diferente do cuidado que qualquer animal de estimação da sua escolha requer; é muito diferente também do cuidado que um humano adulto requer (e não estou dizendo que cuidar de animais de estimação nem adultos é fácil. Só é completamente diferente). A diferença fundamental é que uma mãe não faz só atividade de cuidado para sobrevivência, ela forma outro humano, ela transfere pra ele uma quantidade absurda de conhecimento.

Criar humanos para te tornarem adultos é uma tarefa exaustiva, física e emocionalmente, e muitas vezes com pouco retorno afetivo, o que requer que a mãe encontre energia e força e autoestima sabe lá de onde pra seguir. A natureza é muito inteligente, por motivos de evolução, e os nossos filhos nos fazem sentir um amor sem explicação, irracional, mesmo diante das situações em que qualquer pessoa sã sairia correndo ou ligaria pro homem do saco pra buscar a criatura.

Não dá pra sair pra dar um rolê na esquina, deixar água e comida pro bebê enquanto você espairece. Não dá pra pedir pro vizinho ir lá uns minutos por dia dar de comer / beber e brincar com o bebê quando você viaja. Aliás, não dá pra colocar comida no potinho, né. Não dá pra fechar a porta quando a criança quer atenção, não dá pra deixar pra lá as 3 refeições por dia, nem a troca de fralda a cada 2 ou 3h, nem os chamados durante a madrugada, nem as reuniões de escola, as perguntas intermináveis, os ensinamentos mais básicos que você jamais sonhou que precisavam de tanta insistência.

Você já pensou em como uma pessoa aprende se limpar depois de ir ao banheiro? Ou os passos que precisamos seguir no banho pro corpo ficar limpo? Ou como segurar um garfo, como subir uma escada, como sentar, como passar fio dental, como abrir e fechar portas e gavetas sem se machucar? E como funcionam as relações, os protocolos (verbais e não verbais) de comunicação, já pensou?

Imagine que absolutamente TUDO que você sabe, alguém te ensinou, nem que seja fazendo pra você repetir depois, observando de você conseguiu sem se machucar ou machucar os outros.

Diferente dos demais animais, nós não carregamos geneticamente tudo que precisamos saber para sobreviver no nosso meio. Precisamos de alguém — a mãe, no caso, já que a tribo toda que ajudava nisso se esvaziou! — que nos ensine a ser humanos.

Ser mãe é ensinar mini humanos a ser humanos, sobreviver e ajudar a sociedade. Não é só amar, alimentar, cuidar. É FORMAR. Humanos são formados, eles não nascem prontos. Ouvi dizer que há um ditado africano que diz que “é preciso uma vila toda para criar uma criança”, e não é de trocar fralda e dar de comer que isso se trata; é sobre tudo que é preciso ensinar um humano além do básico para a sobrevivência.

Se a tribo existisse e fosse parte da formação dos mini humanos, a mãe humana não seria tão sobrecarregada e nem tão romantizada. A mãe é obviamente importante pra qualquer criatura, mas no caso dos humanos a tribo é ainda mais importante (e preserva a saúde física e mental da mãe). Sem a tribo, a mãe é uma infeliz sobrecarregada que não tem nem como encontrar a felicidade do amor materno, porque ninguém consegue ser feliz com tanta cobrança e tarefas impossíveis.

Mães que têm pais, amigos e família que compartilham a tarefa de criar novos humanos são cada vez menos frequentes. A maioria delas cria seus filhos sozinha, sem companheiro e sem tribo. E ainda tem que fingir que tudo está bem, porque afinal “quem pariu Mateus que o embale” e “nossa, como pode reclamar dos filhos, o maior amor, amor incondicional?!”.

A sociedade é cruel, e é hipócrita. Não à toa inventaram a horrorosa frase “ser mãe é padecer no paraíso”. Não tem paraíso nenhum, e mães padecem porque são sozinhas e invisíveis.

Então quando vejo alguém comparando mães de humanos com “mães” de outros animais, de plantas (!), sei lá, de levain (deve existir; é um ser vivo que precisa de cuidados, afinal), me dá cansaço e tristeza, porque esse tipo de comparação só reforça a ignorância sobre o que significa criar outro humano, e sobre a carga pesada que as mães carregam na sociedade.

Nesse dia das mães, aproveite pra agradecer sua mãe por tudo que ela fez e faz, caso ela tenha tido resistência pra sobreviver à tarefa sem grandes problemas; pergunte pra suas amigas como é essa tarefa de ser mãe, como elas se sentem.

E se você é mãe, não preciso nem dizer nada, você sabe. Obrigada por (tentar) ajudar a colocar mais humanos decentes nesse mundo tão cheio de problemas. Que esses novos humanos sejam melhores que nós.