nem príncipe nem plebeu

desde que o otto começou a falar, e se comunicar bem com a gente, procuramos sempre conversar, negociar, explicar tudo o que fazemos com e para ele, o também o que ele pode e não pode fazer. quando conversar não funciona, usamos o “castigo” — fazemos um “time out”, sentamos com ele no quarto dele num banquinho pra “pensar no que aconteceu” e falar sobre isso. ele não gosta (a menos que queira nos contrariar, aí ele QUER ir pensar), mas o resultado geralmente compensa, pois ele se acalma e falamos sobre o que não deu certo, não foi legal, etc. e ele geralmente sabe direitinho o porquê do castigo ou da bronca.

educar o otto tem me feito repensar uma série de coisas no meu próprio comportamento, porque me peguei repetindo frases que minha mãe dizia quando eu era criança, e que eu odiava. percebi também que eu dizia pra ele coisas que detestaria que dissessem pra mim! resolvi então fazer um exercício difícil, mas importante: me colocar no lugar dele quanto ao que digo e exijo. a ação, a frase, as palavras, o tom, tudo.

por exemplo: “otto, PARA de bater essa colher na mesa, AGORA!”

(frase dita com os devidos grifos, depois de minutos de batuque incansável que estavam me causando uma enxaqueca)

me imaginei na cozinha, batucando com meus talheres, alheia ao barulho (ou até curtindo, sei lá), e alguém muito maior que eu, mais forte, do qual eu dependo e a quem eu amo, falando essa frase assim, do nada. em tom agressivo, e (pelo menos pra mim), sem nenhum motivo. eu tenho absoluta certeza que ia ficar com medo, ou com raiva, ou ambos.

e ao me colocar no lugar dele, veio uma enorme pergunta que independe do medo, raiva, ou surpresa: por que eu deveria parar? só porque alguém grande e bravo (e que eu amo, a propósito) pediu ou mandou?

fiz também um outro exercício: se o otto não fosse meu filho, ou nem fosse uma criança. eu falaria do mesmo jeito, a mesma coisa? não, é claro que não. então por que com ele eu falo e faço assim?

porque por trás da relação adulto/criança e filhos/pais tem a sombra enorme da obediência. e obediência não é respeito, a obediência é baseada na hierarquia, no medo, ela é burra. ela pressupõe uma relação de poder, completamente desigual.

eu ODEIO obediência. eu não acredito nela, nunca acreditei, eu C&A* para hierarquias, e nomes, e títulos. não faz sentido algum eu continuar baseando minha relação com meu filho neste conceito estúpido.

concluí: não quero que meu filho me obedeça. nunca. prefiro mil vezes que ele desobedeça, que questione, que seja um mala-sem-alça, revoltado, chato de galocha. obediência é uma coisa triste.

e mais — tive que ter discussões importantes com o Fer, pai da criança e meu companheiro, a respeito disso. ainda não tenho certeza que ele entendeu meu ponto (tomara que esse texto ajude!), mas combinei com ele: jamais, nunca, dizer coisas como “você não OBEDECEU a mamãe, e por isso <X>” ou “você precisa obedecer a mamãe!”.

**

mas às vezes a gente precisa que a criança obedeça, não? e aí? olha, eu prefiro adotar o verbo COLABORAR, e vou explicar o porquê, não é neurolinguística amadora.

nossa função é educar a criança, ensinar a ela as regras de convívio, a empatia, etc. (com sorte, essa é a função de todos os adultos que cruzarem o caminho dela). a coisa mais básica (e difícil, eu sei) que ele precisa aprender é que existe um limite, físico e social, entre ele e as outras pessoas todas. que se ele não olhar pra onde pisa, vai pisar no meu pé e aprender empiricamente que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo; que quando ele grita, o som chega até meus ouvidos e me incomoda; que se ele deixar um brinquedo no chão, atrapalha a passagem das pessoas. enfim, vocês entenderam. e como fazer com que ele entenda isso, e aprenda a respeitar os limites alheios?

com uma paciência do tamanho do mundo, e parando pra questionar certas coisas, com franqueza.

me perguntei: por que eu respeito os limites alheios? por medo, covardia, porque não quero confrontar. porque não quero chatear a outra pessoa. por preguiça de me impor. porque quero agradar.

e como tomamos essa decisão, de respeitar, ou de colaborar? como aprendemos isso? errando e acertando. o que significa, na prática, que lidando com as consequências do que fazemos aos outros, aprendemos com o erro/acerto, e lembramos do que queremos repetir ou evitar, criando um padrão de comportamento.

consequência é a palavra-chave. as crianças aprendem a respeitar por medo, sim, aprendem que se forem obedientes, não serão punidas. mas eu não quero criar uma criança que me respeita por medo, poxa. eu quero que ele seja rebelde 🙂 um rebelde respeitoso! e tenho certeza que isso é possível, se eu conseguir mostrar claramente as consequências do que ele faz, e se eu mostrar pra ele que eu o respeito, e que quero o mesmo tratamento de volta. é uma troca, e não uma obrigação. o respeito e a colaboração têm relação com o interesse mútuo e (com sorte), com amor.

então, ao invés de dar um grito de “não pisa no meu pé!” quando ele pisa, eu tenho explicar que eu também sinto dor (será que ele sabe? sempre pressuponho que não. e ensino), que quando ele pisa no meu pé, dói, e eu não gosto. ele puxou meu cabelo outro dia, e pedi que parasse, expliquei que doía, etc. ele continuou. eu tentei diferente — mostrei que nós 2 temos cabelos. puxei o dele, de leve, mostrando que podia doer. avisei que para cada puxão no meu cabelo, eu daria um igual no cabelo dele. e assim foi, até que doeu, ele chorou, e parou de puxar meu cabelo. e agora, quando ele puxa sem querer e eu aviso, ele para imediatamente.

o exemplo do cabelo é mais fácil de demonstrar ação/consequência. algumas coisas são mais difíceis, por exemplo: ele começou há alguns meses a ignorar perguntas. ele ouve, mas não responde. estamos ensinando que ele pode dizer que não quer conversar, é direito dele, mas não pode não responder, simplesmente. por quê? porque vivemos em grupo. é uma regra razoável numa comunidade — você pode não querer conversar, mas não pode não responder à pergunta “você vai querer jantar?” porque isso impacta a comunidade. usar a tática de fazer o mesmo com ele não funcionou muito bem por enquanto (ignorar perguntas e conversas), embora eu tenha tentado fazer isso às vezes para que ele sinta qual é o problema.

procuro sempre mostrar pra ele que precisa parar de fazer certas coisas (espirrar água em mim no banho, por exemplo), porque eu não gosto, e não quero. também acho essencial ensinar pra ele que todos temos direito a não querer que invadam nosso espaço físico, que nos toquem, machuquem, incomodem. que precisamos ouvir o outro, prestar atenção ao que estão pedindo. (e sempre que possível, respeitamos a vontade dele. acho que isso ajuda muito neste processo)

em cada pequeno exemplo destes, o que estou ensinando é como colaborar conosco pra que nossa vida juntos seja mais legal, mais tranquila, e até possível às vezes. quero que fique claro que ele é MAIS UM na nossa comunidade, e não o centro dela. ele precisa colaborar conosco, com as coisas que nós também precisamos ou queremos fazer, como por exemplo dormir um pouco mais no fim de semana. eu quero dormir, ele quer ver desenho — ele fica com o ipad, mas às vezes quer que eu fique junto. e eu explico: até as 8h a mamãe vai dormir, e você pode ver o seu desenho. depois brincamos juntos, mas agora, nesta 1h, eu quero fazer outra coisa.

a boa notícia é que cada vez mais isso tem funcionado!

e assim vamos, ensinando as menores coisas, aquelas todas que a gente fazia no automático. e quer saber? é bom. porque a gente aprende muito quando ensina, e aprende inclusive a mudar a si mesmo em coisas que estavam enraizadas e cheias de musgo. crianças obrigam a gente a fazer uma faxina na mente e na alma.

**

quando preciso que ele faça alguma coisa, sempre explico o porquê. e quando o que precisa ser feito não tem negociação, no entanto, faz-se à força. e explico sempre: “você podia ter colaborado, a gente não precisava brigar. mas isso PRECISA ser feito, então vamos lá”. trocar fralda de cocô que já passou do prazo, ir dormir, colocar cinto de segurança, sentar direito na cadeira pra não cair, essas coisas e muitas outras. comer não é uma delas, no entanto. comer, só quando se tem fome (mas os horários da casa são respeitados, nada de refeição fora de hora — regras da comunidade :))

não gosto de falar até a orelha cair. explico 1, 2 e no máximo 3 vezes. sei que crianças não absorvem tudo de uma vez, assim, pá-pum, ok. mas se não colaborou depois do papo, vai à força mesmo, paciência. de novo — consequências. ele sempre tem a opção de nos ajudar, de perguntar, de fazer JUNTO. se não colabora, a comunidade decide 🙂

porque é isso — não quero obediência, deus me livre de criar um menino vaquinha de presépio, mas ele também não é o príncipe herdeiro, não senhores. ele é parte da nossa comunidade, essa pequenininha da nossa casa, e da comunidade maior da família, amigos e escola, e cada vez o círculo dele vai se expandir mais. a cada círculo, ele vai ter que aprender como lidar com limites diferentes, demandas diferentes, e muito menos paciência que a nossa. não farei bem algum a ele sendo condescendente, então procuro ter empatia porém sem exagero.

crianças são tiranas, todas elas. as pessoas falam “ai, meu filho tem personalidade forte, sabe?” como desculpa para falta de educação. minha senhora, todas as crianças têm personalidade forte, é parte do desenvolvimento neural do ser humano, não existe criança bovina. se ela for bovina, algo está errado. cabe a nós, como educadores, ensinar às crianças que há outras pessoas — com quereres e gostares diversos — no mundo, e que elas são parte do mundo, iguaizinhas às demais pessoas.

eu que não vou criar um ser humano mala geração Y!

**

sim, o progresso é lento, e às vezes enche o saco. mas vale a pena, quando a gente vê aquele ser tão pequeno sendo razoável, estando atento às pessoas ao seu redor, e já negociando como fazer o que ele quer através e junto dos outros. integrado à comunidade, pouco a pouco, e não um reizinho cheio de vontades ou uma criança pequena que obedece por puro medo.

pra quem pergunta das coisas legais de ter um filho, essa é uma delas — ver um ser humano decente sendo criado, do zero. fabricado, desde as células até o comportamento e flexão verbal. é absolutamente mágico e incrível.

(e cansa pra caramba)

**

(*) C&A = cago e ando. ou cagando e andando.

o problema dos universais

pratico ioga desde 2002, mas não me tornei daquelas pessoas que falam “iôga” e namastê pra todo mundo, nem pratico em casa (disciplina zero). gosto da prática física (especialmente a que faço atualmente, que é de permanência, muito alongamento e meditação) e do resultado mental de limpeza e tranquilidade. comecei por recomendação de terapia, me apaixonei e pretendo nunca parar.

meu professor atual é um amor, orienta cada aluno individualmente na prática e tem uma especial preocupação com o alinhamento entre corpo e mente. ele repete alguns bordões que parecem bobagem, mas são extremamente profundos (aliás, impressionante como coisas que parecem básicas tocam muitas vezes no cerne das questões fundamentais da vida): “só existe o aqui, e agora. somente no agora é possível ser feliz e pleno”; “você não é seu corpo, mas a consciência que percebe o corpo”; “não julgue as sensações, apenas observe, sinta, como um expectador de si mesmo”; “não lute contra os pensamentos intrusivos, deixe que eles apenas passem, não se apegue”; “não ceda aos apelos do corpo, sua mente pode controlar os impulsos de buscar novamente o conforto”. gosto em especial de uma frase que ele usa muito nos momentos “tensos” da prática (pois ficamos na mesma postura muito tempo, é bem difícil sustentar) — “não se identifique com as sensações físicas, apenas sinta, sem julgar”.

ele fala especificamente da dor muscular de permanecer na mesma posição, mas é impressionante como isso se aplica a qualquer sensação e também a emoções. a nossa necessidade de racionalizar, interpretar e enquadrar sensações e emoções é impressionante. e é por isso que escolhi escrever esse post neste blog — ensinamos os bebês/crianças a  fazer isso, sem perceber, desde muito cedo.

percebi isso um dia observando o otto comer com a babá. ele estava com um pratinho de salada, comendo, e pegou uma beterraba (cozida mas geladinha), colocou na boca e falou (de bocão cheio): “gelado”. a babá imediatamente falou “ah, ele não gosta quando está gelado, tá vendo? sempre reclama!”. e eu imediatamente a corrigi — ele não reclamou, nem cuspiu, nem recusou, ele só fez uma observação sobre a temperatura do alimento. aliás, essa fase que ele está, comenta sobre tudo, especialmente os contrastes: descendo/subindo, quente/frio, embaixo/em cima, etc.

o bebê não julga os próprios sentimentos ou sensações, ele aprende a julgá-los porque nós damos nomes, limites, parâmetros e ensinamos o que é bom/mau. quem disse que comida gelada é ruim/bom? por que sorvete pode ser gelado e feijão não? a própria dor pode ser interpretada de várias formas (falei disso quando estava na 38a semana de gravidez, ainda citando a ioga), e não é em si ruim. o nosso instinto de evitar a dor é simplesmente um mecanismo de defesa, adaptação evolutiva importantíssima.

sei que é impossível evitar a categorização e a transformação de conceitos em palavras, até para que a comunicação se viabilize, mas acho essencial estar atento (especialmente durante a criação de crianças) ao julgamento excessivo ou à transferência da nossa própria identificação sentimento/emoção <> razão para a criança. procurar ouvir mais que falar e estimular o aparecimento de ideias e interpretações “limpas” ao invés de dar respostas prontas talvez seja o primeiro passo 🙂

uma das coisas mais difíceis e interessantes de tornar-se pai/mãe/tutor é se liberar (ou pelo menos tentar…) dos próprios preconceitos e julgamentos, pra proporcionar um ambiente mais propício para criar pessoinhas que pensem por si próprias, ao invés de repetir modelos familiares. na medida do possível, sabendo que a grande barreira são meus próprios limites, quero dar ao meu filho liberdade de pensamento e escolha, e influenciar o mínimo possível sua concepção sobre o mundo.