o que vive na escuridão

acho muito bonita essa interpretação astrológica para o mito da hidra, um dos trabalhos de hércules. embora não esteja certa que a hidra foi enfraquecida pela simples exposição à luz (como menciona a interpretação astrológica), essa versão vai ao encontro da minha argumentação, e vou usá-la 🙂

aviso: não sou psicóloga, aliás, não sou especialista em nada, então por favor sempre me leiam considerando que são somente minhas opiniões, baseadas no que sei e vivi. isso não é um tratado, é somente uma reflexão pessoal.

a hidra é um monstro venenoso, horrível e mortal, que se esconde no pântano, na lama, na escuridão. fica submerso, tornando ainda mais difícil vê-lo e obviamente matá-lo. a estratégia do herói é a de trazer o monstro à luz do sol, fora do seu ambiente tenebroso, cortando uma cabeça de cada vez e cauterizando cada corte, evitando assim que as cabeças tornem a crescer. e ao expô-lo à luz, sua última cabeça torna-se fraca o suficiente para ser possível neutralizá-la. (curioso que parece que essa última cabeça não é exterminada, mas enterrada)

é impossível pra mim não fazer um paralelo entre a hidra e o inconsciente. não que eu veja nosso inconsciente todo exatamente como um monstro, mas penso que tudo aquilo que desconhecemos, o que habita nosso pântano, pode se tornar um problema sem solução até que consigamos trazer o monstro à luz. se vamos matá-lo ou se ele vai se revelar nada mais que um coelhinho da páscoa é outra história…

suponho que nosso pântano seja cheinho de “montros”, e não tenho certeza que do que faz com que eles saiam de lá e venham nos enfrentar à luz do dia. não sei inclusive se eles saem por si próprios ou se nós os arrancamos de lá, na marra, quando fica impossível viver com eles nos assombrando.

há muitos anos venho escrevendo no meu blog pessoal sobre a famigerada tpm, e a apelidei de “maré baixa” lá em 2002. o que acontece na maré baixa, já viram? quem é de praia sabe bem como é — tudo que ficou preso no fundo do lodo, da areia, se expõe. e nem sempre é bonito de ver, porque aparece lixo, coisa podre, bicho morto, e a lama ao sol, gente, fede. tudo aquilo que fica escondidinho quando a maré está cheia, parecendo que está tudo bem e lindo e cheiroso, vira o horror na maré baixa. daí minha metáfora — o problema não é a tpm, ela é apenas a maré baixa; o problema é o lixo que acumulou, o peixe morreu preso ali, etc. e quando baixa a maré, é hora de limpar, arrumar, organizar, pra que na próxima vez o estrago seja mínimo.

pois eu, que achava que os problemas com a maré baixa estavam resolvidos definitivamente após essa minha “descoberta” (mantenha a “casa” limpa e organizada e a crise na tpm é mínima. funciona!), me deparei com uma forma muito mais intensa e dramática de descobrir hidras muito bem acondicionadas nos seus devidos pântanos — a maternidade.

esses monstros que vêem à tona quando nos tornamos pais/mães são geralmente idosos e cascudos, nasceram lá quando nós éramos crianças, adolescentes e ficaram quietinhos, não nos atrapalhavam a ponto de termos necessidade de arrastá-los para a luz e matá-los. quando deixamos de ser filhos somente e nos tornamos pais, alguns destes monstros acordam e se manifestam de forma inconveniente, irritante e — o pior dos piores — como repetição de histórias que odiamos e queríamos esquecer para sempre.

é no meio de uma crise de birra e choro do seu filho que você vai escutar saindo da sua boca — para espanto absoluto seu, inclusive — a frase, aos gritos, “pára de chorar, que não tem motivo nenhum pra você estar chorando!”. ou (com sorte) vai perceber que acaba de dizer pro seu filho que esse jeito que você acaba de ensiná-lo a, digamos, desenhar uma bola, é o CERTO.

certo versus errado; repressão de sentimentos; relação com comida, afeto, animais, idosos, deficientes, pretos; — quer continuar a lista?

não sei dizer quantas coisas eu me vejo dizendo, fazendo ou mostrando para o otto que revelam MUITO sobre mim mesma, sobre como fui criada, sobre todas as limitações e restrições da educação que recebi. às vezes me vejo como se estivesse de fora, e me assusto. todo dia, toda hora é uma surpresa. sabe aquela música dos 80’s, “eu realmente não sabia que eu pensava assim”? pois é. eu não sabia que pensava e sentia muita coisa. estou revendo minha própria educação, modelos, valores passar bem na frente dos meus olhos quando procuro meu próprio caminho para educar o otto.

e esse filme, apesar do roteiro legalzinho ;), nem sempre é bonito.

conhecer-se é fundamental para ser feliz, e também para ser um bom educador. ou pelo menos o melhor educador que você puder ser. porque erros serão cometidos, é inevitável. mas buscar o acerto, e a melhoria de si mesmo, continuamente, é essencial.

mais do que simplesmente “acertar” com meu filho, quero ser a melhor mãe que ele pode ter, e pra isso preciso me tornar melhor sempre, a cada dia. me conhecer, rever, mudar. preciso primeiro perceber que as hidras existem, expô-las à luz e acabar com elas.

até que venha a próxima. ser pai, e mãe, é ser herói de si mesmo, e esse trabalho — diferente do caso do hércules — não tem fim.

dialética aos 2 anos

pra quem não sabe, entre 18 e 30 meses a maior parte dos bebês passa por um período de mudança significativo de comportamento, apelidado pelos americanos de terrible twos (referência aos 2 anos de idade). achei um artigo interessante sobre essa fase aqui.

a principal característica dessa fase é a demonstração de independência, exercício da vontade através do “não” e reforço do “eu”. e isso deve ser considerado positivo pelos pais — significa que o bebê está de fato se desenvolvendo neurologicamente conforme o esperado, pois é justamente nesta fase que o bebê entende que é um ser separado dos pais (mais especialmente da mãe), que tem suas próprias vontades, pensamentos, desejos e que pode exercitá-los. já vi quem chamasse essa fase de “adolescência do bebê” e faz todo o sentido, já que a adolescência é mesmo marcada pelo desejo do jovem de destacar-se da sua família, e criar seu próprio mundo e espaço independentes.

o otto já apresenta sinais de independência há muitos meses, mas nada muito marcante, são pequenas coisas que percebemos no dia a dia: dizer não para coisas que ele normalmente gosta ou resistir a trocar a fralda na hora que precisa trocar. com um pouco de jeito e alguma técnica é possível contornar sem stress.

mas ontem ele chegou a um novo nível: além de dizer “não” pra absolutamente tudo que era pedido ou oferecido, na hora do jantar ele olha o prato de salada (que adora) e diz “não qué querê!” 🙂 e comeu tudo, como sempre, mas no seu tempo, do seu jeito.

temos dormido juntos na minha cama, antes de colocá-lo no seu berço (ele demora pra dormir, acho mais prático fazer assim que ficar plantada do lado do berço dele). deitado na cama, no escuro, ele vira pra mim e diz: “tá do contra!” (repetindo algo que falaram pra ele durante o dia, com certeza). eu ri, e falei que não tem problema, que pode ser “do contra” também.

normalmente ele dorme abraçado comigo, ou segurando no meu braço. mas ontem quando o abracei, como faço toda noite, ele disse “não abaça, dumí shójinho!”. me segurei pra não rir, falei “claro, pode dormir sozinho, a mamãe tá aqui se você precisar”. dei um beijo de boa noite e deixei ele quieto. em alguns minutos ele pediu a hilda (coruja de pano) e o hugo (monstro de pano), que fazem companhia pra ele no berço. peguei os dois, e ele realmente não veio me abraçar — ficou tentando conversar comigo (depois de dar boa noite eu não converso mais com ele, só fico ali junto) e depois de insistir na conversa e ver que não ia funcionar, ele virou e dormiu sozinho com seus bichinhos!

achei uma graça (e muito significativo) que logo depois de começar na escola ele também tenha começado a manifestar seu poder de decisão, sua individualidade, a ponto de querer dormir (a parte mais complicada de toda sua rotina, desde que nasceu) so-zi-nho. e que tenha iniciado o ritual de separação da mãe, através da transferência do apego para os  bichinhos (achamos que ele ia pular essa fase, mas pelo jeito ainda está por vir).

minha forma de lidar com essa necessidade de independência é oferecendo opções quando possível (leia o último link que coloquei nesse texto), pra que ele possa de fato exercer sua vontade. deixo que ele diga não, e não forço quando não é preciso. adio um pouco a troca da fralda, deixo que ele escolha no prato o que quer comer, misturo fruta com salada com sopa, pra que ele decida o que quer primeiro, deixo que ele tenha pelo menos a sensação de que está no controle de algumas coisas. na grande maioria das vezes funciona — ele fica muito feliz de poder fazer as coisas do seu jeito, fica confiante e normalmente não confronta de novo.

ele tem testado um pouco mais os limites físicos também, e tenta fazer coisas “perigosas” (o que têm potencial de causar acidentes). quando o risco do acidente é baixo, tenho procurado deixar acontecer, sob supervisão (cair, por exemplo), pra que ele entenda causa-consequência.

mas não sou do tipo que negocia tudo o tempo inteiro: tem hora que não dá pra ceder, nem conversar, nem negociar. certas coisas são NÃO mesmo, com letras maiúsculas, e aí simplesmente exerço autoridade e pronto. às vezes é preciso trocar fraldas à força (porque não posso discutir naquele momento, e temos que sair, por exemplo), tirar coisas perigosas da mão dele ou desgrudá-lo do armário que ele resolveu se pendurar (e pode cair em cima dele). sempre converso e explico os motivos, mas quando precisa ser rápido, é inconveniente ou arriscado, não dou opção.

aliás, se tem coisa que detesto é observar essas mães bovinas, que falam com voz mole e com a bunda imóvel na cadeira, enquanto vêem os filhos fazendo merda. “fulaninhooô, coloca o sapaaaaato que a gente precisa ir pra casa. vou contar até 2 milhões, hein?!”. quero morrer. tem que colocar o sapato e sair e a criança tá enrolando? levanta essa bunda e coloca à força, pronto. depois, em casa, conversa e explica.

por enquanto estamos conseguindo lidar bem com a fase “do contra”. cedendo às vezes, confrontando outras. até pra que ele saiba que sim, pode e deve exercitar suas vontades, mas não sempre. que às vezes ele precisa sim se adequar às pessoas ao redor, mesmo que fique chateado.

como não tenho medo de cara feia e nem ligo pra chororô, quando ele fica bravo ou chora eu consolo, pego no colo e explico: eu sei que é difícil ser contrariado, não fazer o que a gente quer. pode chorar, a mamãe te entende.

mas não é e continua sendo não.

o 1o dia na escola

decidimos desde que o otto nasceu que ele ficaria em casa, com a babá, até completar 2 anos. a decisão foi tomada junto com o pediatra, que nos aconselhou a evitar escola antes dessa idade principalmente porque o sistema imunológico do bebê não está completamente desenvolvido até os 24 meses e a incidência de doenças é muito grande, dando um trabalho danado para os pais (lembre que a maior parte das escolas e creches não aceitam crianças doentes, elas precisam ficar em casa quando estão com febre, por exemplo).

mas só pra esclarecer: nós somos adeptos da filosofia de que a exposição aos germes é importante para a saúde, deixamos o menino lamber o chão, beijar o cachorro, comer terra, enfim. nossa decisão tinha mais a ver com comodidade que qualquer outra coisa.

além disso, a maior parte das crianças toma iniciativas de socialização com outras crianças por volta de 2 anos somente. antes disso, elas brincam fisicamente juntas, mas cada uma no seu próprio mundinho, sem de fato socializar. ou seja — ele não estaria perdendo muita coisa nesse aspecto.

chegando perto dos 2 anos, percebemos que o otto começou a se interessar mais por outras crianças, e principalmente que estava ficando mimado demais (tudo é dele, não aceita ser contrariado, etc,.). sabemos que faz parte da idade, e sendo filho único fica complicado não dar atenção excessiva e mimar. mas ficar o dia todo com uma babá que é praticamente avó dele (faz tudo que ele quer e mais um pouco) estava nos preocupando. somos bastante rígidos com ele (ou pelo menos tentamos!) e temos horror de crianças mimadas. colocá-lo na escola logo que completasse 2 anos era essencial pra nós.

depois de uma pequena pesquisa na cidade (moramos em vinhedo), optamos por uma escola waldorf. vimos opções construtivistas também, que achamos interessantes, mas além da abordagem pedagógica (da qual falo daqui a pouco), o que mais nos encantou na escola que escolhemos foi o espaço físico, com poucas crianças e o menu de almoço. a escola é uma pequena chácara, com 2 turmas somente (maternal e jardim) e 1/2 período. muito espaço verde, todos os brinquedos de madeira e pano (materiais naturais) e um cardápio orgânico muito próximo da forma como alimentamos o otto em casa até o momento: nada industrializado no dia a dia, sem temperos excessivos, sem açúcar e doces. muitas frutas, comidas preparadas em casa.

novamente, não somos radicais-odara. o otto come pipoca, feijoada, bolo, chocolate, já comeu salsicha e linguiça, mortadela, enfim. mas nada disso é regra, é sempre exceção. no dia a dia, ele come arroz, feijão, proteínas variadas na semana (frango e ovo só orgânico), verduras e legumes orgânicos na sua maoria (quando não tem também não estressamos, come o que tem), sem sal e sem açúcar, pouco tempero, muitas frutas e de vez em quando bolo simples feito em casa. ele não come “sobremesa”, somente frutas depois das refeições, não come frituras e nem embutidos. suco só damos de laranja natural (feito na hora) e de uva orgânico (ele nem gosta tanto assim de suco, na verdade). mas quando comemos fora damos batata frita, bolo. o que nunca demos e não pretendemos dar antes que ele seja bem maior é refrigerante (tratamos como bebida alcoólica — é de adulto e ponto final) e balas/pirulitos. de resto, é isso: fazemos o melhor no dia a dia, e concedemos exceções sem problema.

voltando à escola: a alimentação segue os mesmos princípios que nós seguimos, com a vantagem de colocá-lo pra comer na mesa, junto aos coleguinhas (seja o que zeus quiser quando ele começar a almoçar lá… a bagunça vai ser épica). uma das coisas que nos animou quanto ao sistema waldorf foi que eles não têm “aulas” para crianças até os 6 anos completos. eles não ensinam letras, números, absolutamente nada que se pareça com alfabetização ou coisa assim. as crianças aprendem atividades manuais e criativas somente, são livres para brincar e desenvolver outras habilidades tais como pintar, cantar, tocar instrumentos, desenhar e até cozinhar.

quem tem a expectativa de ver seu prodígio fazendo contas e lendo antes dos 7 anos não deve ficar muito contente com a abordagem, mas pra nós ela pareceu perfeita. somos muito mentais, eu e o fer. fomos alfabetizados muito cedo, somos ambos excelentes em matemática e sempre estivemos entre os primeiros das nossas turmas. valorizamos bastante o intelecto, e exatamente por isso achamos que precisamos balancear de alguma forma esse nosso modus operandi inconsciente para com nosso filho. é natural que o otto aos 2 anos conte até 40 (e aumentando a cada semana…) e já saiba todas as letras do alfabeto. isso aconteceu sem que a gente percebesse, mas certamente tem influência nossa, mesmo que inconsciente.

sabemos que nosso filho não é um gênio (esses são gênios, vejam os números 8 e 9. o número 8 aos 2 anos fazia operações algébricas…), ele simplesmente responde ao ambiente em que vive. queremos que ele tenha oportunidade também de ser exposto e experimentar coisas que nós não oferecemos de forma natural (aquarela, e outras atividades criativas) simplesmente porque somos quem somos. nós vamos querer ensinar o otto a andar de bicicleta, plantar, cozinhar, ver filmes, ler livros e gibis, fazer contas e jogar jogos. são as coisas que nós gostamos de fazer, nossa zona de conforto.

não sabemos ainda se essa pedagogia vai nos deixar confortáveis depois dos 6 anos. pretendemos visitar as opções de escolas waldorf na região para crianças maiores, e então decidir. mas por enquanto estamos confiantes que essa é a melhor opção pra ele, que já se mostra um menino bastante organizado e um tanto perfeccionista (impressionante como isso já se manifesta aos 2 anos!).

**

é claro que estávamos tensos com sua primeira experiência na escola. ele sempre foi muito mimado e protegido, não só por ser filho único mas porque nasceu numa circunstância muito preocupante. ainda há o fantasma de possíveis seqüelas do parto (por mais que os pediatras que consultamos tenham nos assegurado que tudo está indo muito bem), qualquer bobagem que todo mundo diz que é normal, como ele começar a falar somente aos 20 meses, nos preocupa.

e existem as outras crianças do mundo, aquelas que podem morder, bater ou simplesmente chatear nosso filhinho querido. ele vai chorar? vai sofrer? como podemos poupá-lo, afinal?

não sou uma mãe diferente das outras, é claro que me preocupo com meu filho. mataria e morreria por ele. mas quando me comparo ao pai dele, percebo que não sou superprotetora, e que desejo com certa ansiedade que ele comece a enfrentar dificuldades típicas de tornar-se um ser humano: confrontar diferenças, lidar com a frustração, aprender a dividir, aprender a defender-se, entender que o mundo não gira em torno dele, aprender a negociar e lidar com o outro.

por mais que eu vá sofrer quando ele sofrer (é inevitável. não é possível ser mãe e não se doer pela dor do seu filho), estou absolutamente certa que enfrentar frustrações e dificuldades o quanto antes fará dele um adulto melhor, vai ajudá-lo a lidar melhor com as adversidades para o resto da vida. minha missão como mãe é prepará-lo para ser um adulto independente, que sabe ultrapassar obstáculos porque tem confiança em si mesmo e sabe que é sempre possível tentar de novo, mudar, adaptar-se. se conseguir isso, considero minha missão como mãe e educadora cumprida.

e parte dessa missão é deixá-lo responder do jeito dele às barreiras e desafios. orientando e acolhendo, sempre, mas sem sufocá-lo ou protegê-lo da realidade.

e foi com esse espírito que no 5o dia da adaptação na escolinha eu coloquei ele no chão, ajeitei a mochilinha nas suas costinhas pequenas e deixei andar SHOJINHO (sozinho, como ele pediu, e eu respeitei) até sua professora. lá dentro, eu o convenci a guardar a mochila e entrar na sala (ele queria ir para o quintal, claro), avisei que iria trabalhar e que ele ficaria lá com os amiguinhos e as professoras. e ele me deu um beijo contrariado (não por eu ir embora, mas por ele não poder ir para onde queria) e saiu andando, sem nem olhar pra trás.

tive tanto orgulho dele! e tive orgulho também de mim, porque não sofri nem um pouco e fui muito feliz naqueles instantes de demonstração da independência dele. tive toda a certeza de que sou e serei uma boa mãe, que não sufocarei meu filho e nem terei crises de depressão no dia em que ele for viver sua vida independente da minha.

foi só um instante, um beijo e um tchau, mas foi também a projeção de um futuro possível e totalmente coerente com tudo que acredito. que ser mãe não é padecer no paraíso, nem sofrer. ser mãe é contribuir para um mundo melhor através da criação de pessoas cada vez melhores, mais felizes, confiantes e independentes.

vá ser feliz, chorar, sofrer e descobrir as maravilhas do mundo, meu filho querido. não estarei sempre do seu lado fisicamente, mas estarei sempre junto cada vez que você virar as costas e andar sem mim, pois minha missão foi muito bem cumprida se você simplesmente souber que é capaz de tudo que quiser.

PS 1: a propósito, hoje cedo deixei ele de novo na escolinha e fui embora (desta vez ele fica a manhã toda). novamente ele fez questão de usar a mochila ele mesmo, mas me deu a mão para entrar. entrou sozinho, me deixou ajudar com a mochila e me deu um beijão e um sorriso de tchau, antes de ir cuidar da sua vidinha.

PS 2: ele agora não pode entrar no carro que quer ir para a “ecolinha”. voltou ontem da escola sorrindo e repetindo o caminho todo “tá feliz! tá feliz!”. como não ser feliz junto?

o problema dos universais

pratico ioga desde 2002, mas não me tornei daquelas pessoas que falam “iôga” e namastê pra todo mundo, nem pratico em casa (disciplina zero). gosto da prática física (especialmente a que faço atualmente, que é de permanência, muito alongamento e meditação) e do resultado mental de limpeza e tranquilidade. comecei por recomendação de terapia, me apaixonei e pretendo nunca parar.

meu professor atual é um amor, orienta cada aluno individualmente na prática e tem uma especial preocupação com o alinhamento entre corpo e mente. ele repete alguns bordões que parecem bobagem, mas são extremamente profundos (aliás, impressionante como coisas que parecem básicas tocam muitas vezes no cerne das questões fundamentais da vida): “só existe o aqui, e agora. somente no agora é possível ser feliz e pleno”; “você não é seu corpo, mas a consciência que percebe o corpo”; “não julgue as sensações, apenas observe, sinta, como um expectador de si mesmo”; “não lute contra os pensamentos intrusivos, deixe que eles apenas passem, não se apegue”; “não ceda aos apelos do corpo, sua mente pode controlar os impulsos de buscar novamente o conforto”. gosto em especial de uma frase que ele usa muito nos momentos “tensos” da prática (pois ficamos na mesma postura muito tempo, é bem difícil sustentar) — “não se identifique com as sensações físicas, apenas sinta, sem julgar”.

ele fala especificamente da dor muscular de permanecer na mesma posição, mas é impressionante como isso se aplica a qualquer sensação e também a emoções. a nossa necessidade de racionalizar, interpretar e enquadrar sensações e emoções é impressionante. e é por isso que escolhi escrever esse post neste blog — ensinamos os bebês/crianças a  fazer isso, sem perceber, desde muito cedo.

percebi isso um dia observando o otto comer com a babá. ele estava com um pratinho de salada, comendo, e pegou uma beterraba (cozida mas geladinha), colocou na boca e falou (de bocão cheio): “gelado”. a babá imediatamente falou “ah, ele não gosta quando está gelado, tá vendo? sempre reclama!”. e eu imediatamente a corrigi — ele não reclamou, nem cuspiu, nem recusou, ele só fez uma observação sobre a temperatura do alimento. aliás, essa fase que ele está, comenta sobre tudo, especialmente os contrastes: descendo/subindo, quente/frio, embaixo/em cima, etc.

o bebê não julga os próprios sentimentos ou sensações, ele aprende a julgá-los porque nós damos nomes, limites, parâmetros e ensinamos o que é bom/mau. quem disse que comida gelada é ruim/bom? por que sorvete pode ser gelado e feijão não? a própria dor pode ser interpretada de várias formas (falei disso quando estava na 38a semana de gravidez, ainda citando a ioga), e não é em si ruim. o nosso instinto de evitar a dor é simplesmente um mecanismo de defesa, adaptação evolutiva importantíssima.

sei que é impossível evitar a categorização e a transformação de conceitos em palavras, até para que a comunicação se viabilize, mas acho essencial estar atento (especialmente durante a criação de crianças) ao julgamento excessivo ou à transferência da nossa própria identificação sentimento/emoção <> razão para a criança. procurar ouvir mais que falar e estimular o aparecimento de ideias e interpretações “limpas” ao invés de dar respostas prontas talvez seja o primeiro passo 🙂

uma das coisas mais difíceis e interessantes de tornar-se pai/mãe/tutor é se liberar (ou pelo menos tentar…) dos próprios preconceitos e julgamentos, pra proporcionar um ambiente mais propício para criar pessoinhas que pensem por si próprias, ao invés de repetir modelos familiares. na medida do possível, sabendo que a grande barreira são meus próprios limites, quero dar ao meu filho liberdade de pensamento e escolha, e influenciar o mínimo possível sua concepção sobre o mundo.

quando queres o sim e o não, talvez

uma leitora generosa desse blog deixou um link nos comentários deste post sobre como conversar com crianças que fala sobre dizer não. acho que vale compartilhar um pouco da minha experiência, pois decidi conscientemente como lidar com a questão, e até o momento fui bem-sucedida.

não sou dessas mães que são contra dizer não para crianças. já vi mães que não falam a palavra não (sei lá porque… dá azar? traumatiza? :)), e acho bem estranho. poxa, receber nãos é parte da vida!

mas concordo com o seguinte: fica complicado (e chato) quando você fala não o tempo todo, pra tudo. quando a criança começa a se movimentar e explorar, se não houver um mínimo de liberdade no ambiente onde ela fica e TUDO é proibido, a vida vai ser uma sucessão de nãos, o que é muito frustrante. crianças precisam de ambientes que possam ser explorados, experimentados com o corpo todo (a boca inclusive). você não precisa deixar sua casa inteira disponível para a criança, mas alguma área disponível precisa existir, para que ela faça o que foi programada pra fazer nesta fase (sem obstáculos frequentes): explorar.

ou seja — a criança precisa ouvir sim também, combinado com os nãos. até pra perceber a diferença, e aprender como funciona quero/não quero, pode/não pode. li em algum lugar que é bom balancear esses sim/não, de forma que um não fique muito mais frequente que o outro. falar sim demais pode criar situações de perigo ou tornar seu filho uma daquelas crianças sem limite que todos detestam; falar não demais pode deixar a criança intimidada e contrariada, e os 2 comportamentos são muito difíceis de lidar.

como equilibrar?

o ambiente

em casa, adaptamos algumas coisas principalmente para evitar perigos graves (cantos de vidro, tomadas, objetos pesados que poderiam cair em cima do bebê, etc.) e para evitar quebrar coisas que não podem ser repostas ou são caras demais (enfeites, eletrônicos mais delicados).

a casa ficou quase a mesma, mas não dá pra disfarçar que uma criança mora lá (nossa morada não é mais capa da casa claudia… :D), sempre tem um brinquedo, coisas espalhadas e alguns protetores de canto de mesa. ou seja — na medida do possível pra nós, cedemos para poder falar mais sim que não.

mas lembre que falar o sim é importante: observe a criança explorar e incentive a exploração de coisas que podem ser exploradas. dessa forma, quando você precisar dizer não, pode sempre contrapor ao sim. por exemplo: “o dvd player não pode pegar, otto, por que você não brinca com as caixas de dvd, que estão aqui?”

nós acabamos cedendo com algumas coisas que talvez não devêssemos, porque achamos graça e depois ficou muito difícil de mudar. o otto não engatinhava, ele “minhocava”. temos torres de cds na sala, e não tiramos. ele aprendeu a tirar os cds de dentro, e espalhar no chão. achamos super bonitinho ele tirando os cds com os dedinhos, e deixamos. só que ele cresceu, e começou a tirar mais e mais cds, espalhar no chão, abrir, destruir as caixas, e por aí vai. aí, aquilo que antes era permitido virou proibido, e foi muito chato ensinar pra ele a não estragar, na brincadeira. cds foram perdidos no processo, nos estressamos, ele chorou. penso que teria sido melhor já evitar a brincadeira no início, mesmo que inofensiva, pensando no futuro. mas pais de primeira viagem são assim mesmo 🙂

entenda como a criança funciona

a maior parte dos conflitos com crianças nesta idade (1 a 4 anos) é relacionada à necessidade de afirmar-se como um individuozinho independente 🙂 segundo o que tenho lido sobre desenvolvimento de crianças, isso é parte do crescimento e desenvolvimento cerebral — é sinal que a criança está se desenvolvendo como devia. está aprendendo a ser um ser separado, independente, e precisa se afirmar nesta condição.

quando os pais ou cuidadores não dão algum espaço para que a criança ocupe, a convivência pode ser muito desgastante. pense que a criança é completamente sujeita às regras e ideias de uma família que já existia, de adultos que já têm feito as coisas “do seu jeito” por muitos anos, e esperam que a criança simplesmente se adeque. só que ela vem programada para confrontar, testar e “ser ela mesma” (de preferência ao contrário do que é proposto :)).

o que fazer? criar aberturas para que a criança possa fazer as coisas do jeito dela de vez em quando. obviamente isso demanda um pouco de neurônios da sua parte — como dar à criança opções sem transformar sua vida num inferno ou criar um monstro? o que eu fiz foi dar opções em situações simples, tais como oferecer opções de roupa/sapato (viáveis, pra não me infernizar. não ofereça a fantasia de batman se não é uma possibilidade), oferecer sempre várias opções de comida na refeição (se tiver vários vegetais diferentes como opção, se a criança não quiser 1 ou 2 deles, tá tudo OK. e tem que variar sempre, pra não “viciar” a escolha).

outra coisa útil é oferecer opções no caso do não. o otto por exemplo não pode ficar de pé na banheira, durante o banho (escorrega). todo dia (sem exceção) ele tenta ficar de pé, ou fica de fato. ele sabe que não pode, porque já expliquei que ficar de pé é perigoso, e escorrega (ele já escorregou, quase caiu, ficou com medo e continua instindo, porque faz parte da idade, oras). fiz 2 coisas — avisei que se ele insistir em ficar de pé o banho acaba (e cumpro a promessa, já tirei do banho várias vezes depois de ter acabado de entrar) e disse que ele pode ficar sentado (o “normal”, que a gente espera) ou pode ficar de joelhos. ficar de joelhos é uma concessão, um compromisso entre o que eu quero (sentado) e o que ele quer (de pé). dou a ele as opções, e ele normalmente prefere (adivinhem?) “de joelhinho”. ele fica de pé, eu já aviso “otto, como é o combinado? aqui no banho, só sentado ou de joelhos. senão, acaba o banho. quer sair do banho?”. depois dessa conversa o mais normal é ele sentar ou ajoelhar, e afirmar a escolha — ele fala “sentado” ou “joelhinho”, olhando pra mim com aquele tom de que ELE optou. e quando preciso tirar ele do banho, ele já não chora, só fala “mamãe avisou!”. ou seja, ele sabe as regras, testou e entendeu as consequências.

procuro pensar em opções sempre, em todas as situações, pra evitar obrigá-lo a alguma coisa. na hora de comer eu acho o mais complicado, porque não é possível realmente obrigar ninguém a comer. isso não é problema aqui em casa e acho que temos a sorte dele ter ótimo apetite e gostar de comer, mas também acho que darmos várias opções e respeitar quando ele não quer faz diferença. ele avisa quando não quer (não insistimos) e paramos quando ele diz que está satisfeito (“feito!”, indicando com a mão que acabou). quando ele não falava, simplesmente respeitávamos quando ele cuspia. e percebi que às vezes deixava de lado as coisas que ele não queria comer, e quando eu menos esperava ele mesmo pegava com as mãos e comia, sem ninguém dar. ou seja — quando ele teve espaço pra escolher e comer sozinho, ele comeu.

também destaco algumas ocasiões que ele simplesmente se recusava a comer (entre 1 ano e 1 ano e meio), e eu tive uma intuição de que ele queria comer sozinho, deixei. funcionou muito bem — deixá-lo tentar (com as mãos e com talheres) foi a solução. várias vezes ele só comeu depois que deixamos que ele fizesse tudo sozinho. depois misturamos, deixamos uma parte do prato pra ele comer, e outra a gente vai oferecendo. essa é a melhor combinação, porque conseguimos controlar mais ou menos o que e quanto come, mas ao mesmo tempo ele se sente no controle da situação.

suponho que com roupas seja mais ou menos igual. acostumamos a escolher tudo, e sempre pensei que a criança só escolhe roupas e sapatos bem maior. a verdade é que com menos de 2 anos a criança já quer fazer suas escolhas, colocar roupas e sapatos sozinhos, e quanto mais pudermos deixar escolher, melhor. sempre orientando e ensinando, mas deixando que eles sejam independentes. o otto gosta de colocar as crocs dele sozinho. ao invés de insistir em colocar eu mesma (que é muito mais rápido e prático), deixo ele tentar, mostro como é o jeito certo e observo, corrijo. aquela tarefa que você faz em 3 segundos, ele demora 3 minutos. é chato esperar, e às vezes estamos com pressa (é a hora de não dar opção, claro), mas sempre que possível, deixe. lembre que colocar sapatos nos pés certos, sozinho, é um grande empreendimento pra um bebê, é um aprendizado que ele vai levar pra vida depois, sem nem saber.

e é disso que trata criar crianças — ensinar tudo o que no futuro nem sabemos como aprendemos. um dos grandes aprendizados (e fonte de grande fascínio) de tornar-se pai e mãe é descobrir o quanto é complexo aprender todas as coisas simples e inconscientes que fazemos quando adultos.

ensinando o não de verdade: eles também devem poder usar!

não acho que crianças devam ser tratadas como adultos, pois afinal não têm o mesmo repertório e nem entendem todas as regras de convívio. mas também acho que precisamos aproveitar toda oportunidade para ensiná-las como funciona o mundo “dos adultos”, e aprender sobre “não” é um ótimo exemplo.

para que a criança entenda de verdade como funciona o sim/não, é essencial que ela também possa exercitar e praticar. ou seja — é preciso dar espaço para que ela diga SIM e NÃO. quando começar a fase de você ter que dizer não para a criança, ensine que isso é uma “ferramenta” que ela também pode usar. por incrível que pareça, isso ajuda muito no processo como um todo e também vai ajudar você a entender o que seu filho gosta e não gosta. isso funciona também porque dá à criança a sensação boa de ter algum controle sobre si mesma, que é exatamente o que ela vai querer a partir de 1 ano mais ou menos.

falei um pouco sobre isso no bloco anterior, mas aqui quero contar sobre uma prática que com o otto funcionou bem demais: ensiná-los a expressar frustração e dizer “não” (mesmo sem falar!)

percebi quando o otto estava com menos de 1 ano (10, 11 meses) que ele dava chilique quando contrariado. foi inclusive o motivo de ter começado a ler o livro sobre essa idade, porque se tem coisa que sempre detestei é criança que dá escândalo. e o otto dava — nem andava ainda e já se jogava, gritava, uma coisa histérica.

o que melhor funcionou pra ele (entre outras coisas combinadas) foi ensinar a se comunicar de outra forma que não o chilique. pense no seguinte — o chilique funciona! comunica perfeitamente bem que ele está contrariado, e aciona todos os adultos ao redor a fazer o que ele quer (a gente acaba fazendo qualquer coisa pra aplacar chilique, principalmente em público). ou seja: corrija os chiliques em casa, mude o modus operandi, porque na rua são muito difíceis de corrigir. uma vez corrigido o problema em casa, provavelmente não vai acontecer na rua.

então, a primeira coisa que ensinamos foi como se comportar quando estiver contrariado. ensinamos 2 coisas: a dizer não com o dedinho (ele não falava nada) e a “dar bronca” quando estivesse bravo — ele aprendeu a apontar o dedinho em riste pra gente, balançando, e grunhindo, com cara de bravo 🙂

pode parecer bobo (e é super engraçado, mas não pode rir, tá?), mas funciona se você reagir da forma correta a cada estímulo. o que “combinamos” com ele depois de ensinar o não/bravo: os chiliques não vão funcionar. a gente só vai responder ao dedinho/bravo. chiliques vão ser ignorados. e assim fizemos — ensinamos, ele aprendeu e repetiu. cada vez que ele começava com chilique, a gente falava “enquanto você não parar de gritar e espernear, não vamos fazer nada”. tem que ter paciência, pois nas 1as vezes ele demorava a perceber que não ia funcionar, e depois de um tempão “testava” a outra forma de comunicação. quando ele tentava, a gente respondia imediatamente e incentivava, elogiava. em pouquíssimo tempo ele entendeu e mudou o jeito de se manifestar. crianças são extremamente perceptivas, espertas e adaptáveis. elas vêm preparadas para aprender e se adaptar ao que funciona. se o chilique funcionar, amigos, ferrou.

uma das coisas mais importantes deste processo é que a criança, além de aprender como se comunicar de forma eficiente, tem a sensação de ser compreendida. sentir-se entendido nesta fase de comunicação precária (até que eles dominem o verbo) é um calmante natural. parece mágica — basta que a criança perceba que entendemos o que ela precisa e se acalma. quando ela consegue também “ganhar” um combate (fazendo o que “quer”), tanto melhor.

o desafio é ensinar isso tudo a uma criança tão pequena, dar alguma liberdade (para criar um ser humano confiante e que toma decisões!) e ao mesmo tempo incentivar comportamentos que sejam socialmente aceitos. não é fácil, mas tenho achado muito estimulante. além de me fazer pensar sobre mim mesma (*).

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(*) este é assunto pra outro post longo, mas dou uma palhinha: preste atenção ao quanto da sua frustração e dificuldade em lidar com a criança tem a ver com problemas SEUS (perfeccionismo, ideias “fixas” sobre o que é certo e errado, réplica inconsciente da educação que você mesmo recebeu na infância). ser pai/mãe é ter que se confrontar com todos os seus fantasmas, acredite.

conversando com crianças

escrevi um post bem completo sobre feedback em geral, mas achei importante escrever aqui especificamente sobre como dar feedback para crianças, pois creio que a forma como fazemos isso durante a primeira infância faz uma diferença enorme para o resto da vida. receber críticas faz parte do processo de aprendizado e crescimento, acho impossível educar alguém sem pontuar comportamentos inadequados. mas se nem nós, adultos, que já aprendemos a racionalizar o mundo, ficamos neutros à crítica, por mais que ela seja bem explicada e legítima, como as crianças lidam com isso?

[acho que é  importante mencionar neste ponto que sou contra punições físicas. fui uma criança que apanhou (de chinelo) e não tenho nenhum trauma (pelo menos que tenha aparecido até hoje, mesmo depois da terapia :D). confesso que os sermões da minha mãe me afetaram (e afetam) mais que as chineladas. mas sou contra, sim, porque acho covardia bater em quem não pode se defender, é bem simples. bater é um recurso que descarrega a raiva e frustração dos pais, que gera medo na criança (o comportamento se altera por medo de apanhar de novo) e que não se preocupa em entender de onde vem o problema. porque, afinal, se você vai se dar ao trabalho de entender o porquê do comportamento inadequado, bater na criança acaba sendo desnecessário. além disso, se apanhar resolvesse mesmo toda criança que apanha seria um amor.]

antes de mais nada, então, uma constatação que pra mim foi novidade: crianças não são boas com racionalização. isso não quer dizer que elas não pensam e não entendem o que se passa ao seu redor; quer apenas dizer que elas não dominam a técnica de compreender e mapear o mundo através das lentes da razão, pois isso é aprendido e dominado com o tempo e o uso. crianças são serem emocionais, simplesmente porque é desta forma que seu cérebro funciona nesta fase (mais direito, menos esquerdo). este livro que gosto muito (e me ajudou com o otto desde pouco antes de 1 ano) fala bastante sobre isso, ensinando técnicas para lidar com crianças de 1 a 4 anos de forma simples e sem grandes dramas e punições.

a maior parte do mundo dos adultos supervaloriza a racionalização. tudo é explicado, dissecado, provado e analisado. não que eu seja anti iluminista, mas creio que perdemos quando valorizamos demais o racional em detrimento do emocional, esquecemos que somos compostos de razão e emoção e valorizamos mais a primeira que a segunda. e as crianças, predominantemente emocionais na primeira infância, perdem mais ainda. sem perceber, muitos pais e tutores ensinam suas crianças que existem sentimentos “bons” e “maus”. que sentir raiva, medo, inveja, ciúme, cobiça é errado e deve ser evitado. nem digo escondido, porque esconder pressupõe aceitar a existência. somos ensinados a suprimir, temer e ter vergonha dos sentimentos “negativos”. mas como fazer isso? não sentir os sentimentos negativos seria como deixar de respirar! então aprendemos a negar e principalmente disfarçar sentimentos “inaceitáveis”, travestindo-os de outra coisa.

para ilustrar esse texto, vou usar uma história minha que acredito ser perfeita para demonstrar todo o assunto, e que me rendeu vários insights na terapia. eu tinha 10 anos, mais ou menos, era natal. nos meses anteriores, criei uma expectativa de ganhar de presente da minha avó materna um par de patins. eu amava patins, era início dos anos 80, calculem. sonhei muito com os tais patins, e na noite de natal finalmente eles chegaram. o problema é que quando abri o presente, me deparei com patins de plástico, bem vabagundos e obviamente diferentes dos que tinha idealizado. não sei dizer se falei alguma coisa, ou se fiz cara de decepção, mas certamente demonstrei meu desagrado. só me lembro bem claramente da minha mãe me chamando no canto, e me dando a maior bronca do mundo, pois minha decepção tinha chateado a minha avó, coitada, que era muito pobre e tinha se sacrificado pra comprar aqueles patins que eu tinha desprezado. lembro que chorei muito, e me senti a última das criaturas, uma sem coração e sem consideração, mimada.

esse é só um exemplo, tenho muitos outros parecidos da minha infância. quando criança, fui ensinada a obedecer sem questionar, fazer o que me mandavam e aceitar o que me dessem, sem reclamar. só quando me tornei adolescente é que meus pais me deram espaço para o questionamento e tomada de decisão (fiz minha primeira tatuagem com 15 anos, com aprovação de ambos!). logo que comecei a dominar a racionalização me convenci de que tinham razão de ser tão rígidos, que assim eu não me tornaria uma mulher mimada e sem noção, aprenderia o valor das coisas e a respeitar os outros. é verdade que aprendi a respeitar os outros, e não sou nem um pouco mimada, mas tem um pequeno detalhe — não aprendi a respeitar a mim mesma, expressar meus sentimentos nem a impor limites. e estes são atributos fundamentais para qualquer adulto ser minimamente feliz convivendo com outros.

e onde foi que minha mãe errou nessa história? vamos supor que eu tenha deixado claro (verbalmente ou não) para minha avó que estava decepcionada com o presente. o que ela devia ter feito?

em primeiro lugar, devia ao menos tentar colocar-se no meu lugar e tentar ver a situação através dos meus olhos de 10 anos (mas vejam que ela conseguiu se colocar no lugar da minha avó muito bem. tenho certeza que minha avó não foi reclamar com ela, mas ela teve empatia absoluta com o adulto na situação). aliás, arrisco dizer que ela deve ter projetado suas próprias frustrações de criança e adulta nessa situação, algo como “eu era muito mais pobre e não reclamava! nem ganhava presente de natal!”.

se tivesse se colocado no meu lugar, ela teria percebido que é absolutamente normal ficar chateado por ganhar um presente vagabundo. mesmo que não fosse vagabundo — sonhar com X e ganhar Y é motivo de frustração. não importa se a expectativa era real, imaginária, se eu devia ou não ter criado expectativa, é irrelevante. o sentimento de frustração é legítimo, e compreensível. sem julgamento de certo/errado, é simples entender.

essa é a primeira dica — não julgue sentimentos, reconheça o direito do outro a sentir o que estiver sentindo. sentimentos são o que são, nem bons nem ruins, nem certo nem errados. dê à criança o direito de sentir o que quer que ela esteja sentindo. não diga que a criança não deve ou “não tem porquê” sentir X. todas as pessoas têm direito de sentir o que sentem, ponto final.

e quanto ao fato de eu ter demonstrado que me chateei, chateando minha pobre avó? ela poderia ter me explicado sua percepção — que quando eu demonstrei tão claramente minha decepção, minha avó tinha se sentido mal por não ter agradado, e que ela também tinha se sentido mal por empatia. reconheço o potencial educacional de mostrar que minha reação de desprezo ou chateação com o presente também teve consequências, que se por um lado eu me chateei por não ganhar o que queria, por outro a minha avó estava decepcionada por não ter me agradado. seria uma forma de mostrar causa/consequência sem julgar quem está certo ou errado, só mostrando fatos.

a segunda dica é — mostre como o nosso comportamento afeta os demais ao redor, ou seja, quais são as consequências dos nossos atos. use a realidade (o exemplo) para demonstrar que quando sentimos e falamos/mostramos X, as pessoas como consequência também sentem e falam/demonstram Y. é assim que funcionam os relacionamentos, ação e reação. cada oportunidade destas é uma chance de mostrar para a criança como funcionam os relacionamentos. elas têm direito de sentir o que quiserem, e de se manifestarem, porém existem consequências, e precisamos lidar com elas. esse é o processo, super difícil, de amadurecimento.

minha mãe devia ter reconhecido meu direito de me chatear, sem me fazer sentir inadequada por não gostar do que ganhei, isso nem se discute. e poderia também ter me feito perceber que quando eu demonstrei minha chateação, isso causou uma frustração na minha avó (causa/efeito). poderia ter me dito que era uma opção minha disfarçar a frustração ou demonstrá-la, dependendo de como quisesse lidar com as consequências.

mas e se eu tivesse sido realmente grosseira  — tipo jogado o presente no chão ou dito que aquilo era uma “porcaria”? meu sentimento continuaria válido, a diferença é que neste caso meu comportamento não seria socialmente aceitável. a criança pode sentir o que quiser, mas precisa respeitar minimamente as regras da comunidade em que vive. destaco “comunidade” porque alguns comportamentos são aceitos em certos círculos e não são em outros. como pai ou educador, acho que devemos “equalizar” comportamento conforme a sociedade de forma mais ampla possível, para que a criança não sinta um choque quando sai do convívio familiar para um círculo mais amplo.

daí vem a terceira dica — diga exatamente que comportamento é esperado, e deixe claras as consequências caso não seja adequado. não adianta dizer “não faça assim” e não dizer o que espera que seja feito. dê o exemplo no dia a dia, e reforce no momento da conversa, mostre como se comportar de forma aceitável. fale sobre as vantagens de comportar-se desta forma, das desvantagens de outras formas. explique o que pode e vai acontecer caso insista em se comportar de forma inadequada. e, é claro…

… a quarta dica é — garanta que existam consequências (ou esclareça consequências que não foram percebidas). na minha história, seria tão simples quanto minha mãe chamar minha atenção para a chateação da minha avó com meu comportamento. se eu tivesse sido grosseira, ela poderia além de falar da chateação da minha avó, explicar que ser grosseiro não é uma opção, pedir que eu me desculpasse pela grosseria e aplicar algum tipo de castigo (doar os patins? não usá-los? ou qualquer outra coisa que me fizesse “sentir” a consequência).

mas não esqueça da dica mais importante, e mais crítica, quando se trata com crianças — não coloque em questão seu amor por elas em função de comportamentos inadequados. ninguém *é* o que *faz*. não é porque alguém erra em alguma situação que é errado, ponto final. as pessoas erram de forma circunstancial, às vezes por ignorância, às vezes de propósito, mas só os psicopatas não se importam. a grande maioria das pessoas erra por falta de orientação, educação e feedback. a maioria das pessoas não quer chatear as outras, causar conflitos. e as crianças erram porque estão aprendendo, porque seguem exemplos muitas vezes errados, porque não sabem controlar seus impulsos ou porque querem chamar a atenção. cabe aos educadores, em especial os pais, entender os motivos da criança e ensiná-la a se comportar de forma adequada.

**

são poucos pontos para praticar, mas é longe de ser simples, especialmente pelos seguintes fatores:

– como ter empatia com o sentimento do outro quando nunca tiveram empatia com os seus, ou quando você mesmo não tem empatia consigo mesmo?

– como separar claramente sentimento e comportamento como coisas independentes?

– como orientar sobre comportamento adequado caso você mesmo não seja o melhor dos exemplos?

– como “impor” consequências balanceadas, compatíveis com o comportamento inadequado?

– c0mo deixar claro para a criança que nós a amamos mesmo quando elas erram, que errar não é definitivo e que elas podem corrigir seu comportamento?

 

não sei se é claro pra vocês como é pra mim que para conseguir seguir estes passos minimamente precisamos:

– conhecer a nós mesmos muito bem

– livrar-nos de fantasmas e traumas do passado

– perdoar nossos próprios erros, e saber que erramos e erraremos de novo e que podemos acertar

– amar e aceitar a pessoa e criticar somente o comportamento

– conseguir nos colocar no lugar do outro

– dar bons exemplos, fazer o que diz — walk the talk.

 

pode ser difícil, sim, mas é perfeitamente possível, e muito gratificante porque funciona. não só com crianças mas com adultos também. e é possível também se recuperar de uma educação que não se preocupou com nenhuma dessas coisas — eu sou prova viva disso!

e para lidar com crianças na idade do otto (até 4 anos) em situação de crise de comportamento (chilique :D), adicionaria alguns complementos:

1) fale com a criança “de igual pra igual” — com palavras simples, muitas repetições das palavras-chave e com muitas expressões faciais. a melhor forma de se “conectar” com a criança é olhar no olho e demonstrar que você entendeu como ela se sente. quando ela perceber que você entendeu como ela está se sentindo (empatia), o chilique acaba. juro por deus.

2) explique de forma simples o que você quer que a criança não faça e o que você quer que ela faça. por exemplo: “otto, andar sozinho na rua não pode. na rua, só com a mão dada.”

3) dê opções, sempre. mesmo que elas pareçam bobas pra você, para a criança é importante sentir que decidiu. por exemplo: “otto, você pode dar a mão para andar na rua ou você vai no colo. o que você prefere?”. não quer dar a mão? não vai andar sozinho, ponto final.

e, é claro, bom senso: há situações em que não cabe conversar, discutir e dar opções. esse processo de feedback tem como objetivo educar a criança para aprender a se comportar em sociedade, é trabalho de formiguinha, de todo dia, não é uma ocasião ou outra de “faça o que eu digo” que vai traumatizar a criança.

no mais, gente… boa sorte pra todos nós 🙂

crianças e tecnologia

sei que tem quem ache que deixar crianças usarem gadgets é coisa ruim, de pais que não querem dar atenção pra criança e que crianças devem brincar com outras coisas. concordo com a preocupação, e discordo da demonização de devices (inclusive da TV).

acho que a grande questão da discussão é o quanto a atividade é completamente passiva ou ativa e principalmente o balanceamento entre tipos.

computador, TV, aparelho de som, gibi, iphone, ipad ou qualquer outro device podem ser educativos e estimulantes, tudo depende do que está rodando nele, a personalidade da criança e obviamente a participação dos pais no processo.

sentar no sofá e ver TV (ou ver vídeo no youtube, ou assistir clips no ipad…) é passivo; ouvir música também. mas é completamente passivo, não estimula nenhuma área do cérebro? claro que não, poxa. ver desenhos, ouvir música, ver e ouvir vídeos são estímulos, sim. são estímulos diferentes de resolver quebra-cabeça e interagir com o device, é claro. assim como brincar de quebra-cabeça é diferente de correr e jogar bola. estímulos diferentes, desenvolvimentos diferentes. e minha opinião é que há grandes benefícios em todo tipo de atividade, o importante é que os pais se dediquem a direcionar, garantir que seus filhos serão expostos ao máximo de possibilidades, aprendendo de tudo um pouco.

acho importante ter momentos de calma e introspecção, ouvindo música, por exemplo. ou o mergulho no mundo interior/fantasia de contar uma história, ler um livro, ver um filme. gostaria que meu filho também aprendesse o prazer e a importância de divertir-se com calma, por si próprio, seja sozinho ou acompanhado de algum estímulo.

claro que o desenvolvimento físico é importante também — correr, pular, subir/descer, explorar fisicamente o mundo é essencial para o desenvolvimento de qualquer ser humano. neste ponto, sou uma mãe privilegiada — vivemos numa cidade pequena, moro num condomínio com inúmeras possibilidades de lazer. podemos fazer coisas simples como correr na grama, brincar na areia, em brinquedos de parquinho, subir em árvores, comer frutas do pé, nadar na piscina, dar comida aos patinhos no lago, tomar banho de mangueira. jogamos bola, brincamos no quintal, observamos o pôr do sol, as árvores, as flores e os bichinhos, e meu filho é exposto a isso o dia todo (e ele adora).

fiquei pensando que o problema talvez seja que essa nossa realidade é diferente da realidade de tantas outras crianças que vivem em cidades grandes ou mais pobres (com menos opções de área de lazer legal e segura). é compreensível que levantem questões sobre crianças submetidas predominantemente às atividades, digamos, passivas.

aqui em casa, gastamos uma parte do tempo brincando com o otto de coisas como quebra-cabeça, livrinhos, carrinhos, cantando músicas e interagindo com os brinquedos e entre nós. ele não gosta ainda de TV, e só assiste 10min de desenho de manhã e à tarde, que é o tempo de tomar a mamadeira (sentamos com ele no sofá e vemos desenho e damos mamadeira), e ele parece gostar. mas acabou a mamadeira, corre pra fazer outra coisa e ignora a TV de novo.

ele gosta muito do iphone e ipad (são os devices que temos em casa. tenho um blackberry também, mas ele não liga pra ele, afinal não tem nada legal :D), e procuramos deixá-lo brincar somente quando não tem mais nada pra fazer ou queremos distraí-lo enquanto fazemos outra coisa. o ipad e iphone viraram nossa salvação no carro, quando precisamos esperar alguma coisa e ele está impaciente, mas em especial nas primeiras horas do dia. o otto acorda às 6:30h, então usamos 1h da manhã (até a babá dele chegar) pra cochilar um pouco enquanto ele brinca na nossa cama com apps de quebra-cabeça, vê histórias ou vídeos (e nos chama pra ajudar, de vez em quando).

bom, pra quem como nós acha que brincar com devices é legal, não estraga a criança e nem transforma os pais em negligentes 😀 segue a dica de um site que faz crítica de apps para crianças e as nossas dicas pessoais sobre apps (para iphone e ipad) que o otto ama (e a gente também), desde mais ou menos 6 meses, quando começou a brincar com os devices.

apps4kids: site especializado em apps para crianças, tem MUITA coisa, separada por idade inclusive.

the fantastic flying books (grátis): essa app (exclusiva para ipad) não é para a idade do otto, mas ele ADORA (e nós também). é uma história interativa, muito lindamente contada e desenhada, e tem algumas oportunidades de interação bem fofas. ele passa um tempão indo, voltando, explorando, é uma graça. e a história é linda.

toca boca (alguns grátis, outros não): é uma empresa de jogos que ganhou nosso coração, dica do antenadíssimo tio weno. eles têm vários jogos legais, nós baixamos o paint my wings, hair xmas, toca doctor (o nosso preferido) e toca monsters (o preferido do otto-ogro, de longe, já que trata de comida).

memory (grátis): adoramos esse jogo simples de memória, com 3 opções de desenhos e várias de complexidade. o otto ainda não entendeu 100% como joga, mas gosta de achar os desenhos iguais, tem musiquinha legal e tudo. acho que pode ser mais legal ainda pra crianças maiores.

talking tom: sucesso absoluto entre crianças (e adultos meio lesados como eu), o gato repete o que a gente fala e reage a alguns estímulos, alguns deles nada nobres como socar o pobrezinho até ele desmaiar. todos contando com a crueldade infantil para vender apps 😀 aí tem a namorada do tom, e esse vídeo hollywood que o otto AMA assistir mil vezes.

talking bacteria: mais uma app que eu adoro mas digo que é pro otto (embora ele também ame e morra de rir). essa são simplesmente bactérias que repetem o que a gente fala (bem engraçado), se reproduzem quando damos donuts, morrem quando usamos uma pílula e ficam LOUCAS quando fazemos cócegas ou damos uma droga. não é muito educativo mas, olha, é bem engraçado 🙂

drawing: essa app é simples e fácil de usar, você desenha com os dedos usando cores do lápis (com espessuras diferentes), e tem também “figurinhas” pra colar. o otto adora ficar riscando, colocando as figurinhas, apagando e começando tudo de novo. bem simples e boa, mas tem um banner em cima que às vezes distrai a criança (e irrita a adulta aqui).

bongos!: claro, por que não dar a uma criança uma app que faz BARULHO, não é? 🙂

nano keyboard: o bongô não é suficiente? use essa app de piano/órgão pra alegrar sua vida nas longas viagens de carro!

a galinha pintadinha, a onipresente: como pude esquecer justo essa, a mais amada pelo menino? no iphone tenho “a galinha de emergência” (a versão teaser da app completa do ipad) que tem só 2 vídeos (funciona quando não tem mais nada, mas ele reclama que não tem as músicas que ele gosta). no ipad você baixa uma jukebox das músicas/vídeos e compra um a um. atualmente são 3 dvds, com várias músicas do cancioneiro nacional infantil e outras inéditas deles. poderia escrever um post só sobre essa franquia — há quem ache ruim, mas eu ainda não entendi o porquê, francamente. as músicas são (na maior parte) aquelas que ouvíamos quando crianças, muito bem executadas e com vídeos lindos. os arranjos e execução são ótimos, as animações fofas e engraçadas, não consegui achar defeito. a única coisa que me incomodou foi a última atualização da app, que mudou completamente o look & feel (mas verdade seja dita — eu demorei mais pra me adaptar que o otto) e veio com 1 música grátis (“lava a mão”) que é na verdade propaganda de sabonete. dispensável. e não dá pra apagar/esconder as músicas que você não quer comprar. elas ficam todas lá, com indicação de preço (antes de baixar) ou o “play” (depois de compradas). acabei comprando quase tudo, porque o otto vê o desenhinho da música e quer ouvir. acho que seria legal com os pais ter a opção de esconder músicas que não queremos comprar.

vou dar mais uma olhada no ipad e ver se não esqueci nada (claro que tinha esquecido, a mais querida de todas, a última!) mas essas são as queridinhas lá de casa. e pra quem tem curiosidade, tenho iphone desde antes do otto nascer, e como sempre me viu usando obviamente teve curiosidade, e eu deixei ele explorar. sei que é um device caro, mas sempre usei proteção (tela + externa), ele nunca fez nenhum estrago. desde as primeiras tentativas, com poucos meses, entendeu perfeitamente como funcionava o sistema de toque com os dedos. não acho que meu filho seja um gênio porque domina esses devices rapidamente com poucos meses de idade, acho é que o iphone/ipad são realmente intuitivos, e o bebê não tem conceitos pré estabelecidos de como as coisas funcionam, então eles exploram sem restrição.

por enquanto estamos felizes com nossa relação (e a dele) com atividades físicas/mentais, passivas e ativas. somos pais que gostam de tecnologia, acho natural que ele também se interesse, até pelo exemplo. continuaremos a estimular o gosto dele pelas atividades físicas, pois isso é um problema que nós temos (somos sedentários) e não queremos que ele vá para o mesmo caminho, estamos tentando mudar nossos hábitos para também dar exemplo.

no mais, divirtam-se com suas crianças, não sejam muito radicais e deixem também suas dicas de apps legais 🙂