a saga do perupatolinha mineiro

por raquel carvalho

Tem coisas que a gente só faz por amigo. Amigo de quem se gosta muito. Então. Tenho essa amiga-do-peito que, sabe Deus porquê, decidiu mudar para Brasília. Resolvi organizar mais uma despedida em alto estilo para os colegas chiques do trabalho chique. É lógico que escolhi uma receita chique porque não sou boba nem nada…

Um peru com um pato e com um frango dentro, mais vários recheios diferentes no meio, grita pelo meu nome e sobrenome completo. Pois bem. Animada, já fui logo convidando as pessoas para, na despedida, comer o tal prato. À medida que a lista de convidados crescia, minha preocupação também. Resolvi, cinco dias antes, que era hora de começar a providenciar os ingredientes.

Neste ponto da história, é preciso dizer que tem hora que morar em Belzonte é uma m.! Para conseguir ostras frescas, fui a três lugares diferentes. E na véspera do almoço, a empresa que prometeu conseguir as tais ostras furou a entrega da encomenda… Para comprar um peru de 8 kilos, rodei meia dúzia de supermercados e terminei telefonando para a Sadia (!) que enfim me informou o único local onde conseguiria o tal bicho. A pimenta caiena eu consegui no Mercado Central, as demais no Mercado do Cruzeiro, a agulha de lona em uma loja de maquinário de costuras e por aí foi… Considerando que eu tinha todos os utensílios domésticos, comprar apenas os ingredientes foi uma visão dantesca do inferno. E o preparo não tinha nem começado…

É preciso dizer que eu contei com duas ajudas preciosas. Uma do melhor desossador da capital mineira, o Gonçalves, que trabalha no O Fino da Carne do Mercado do Cruzeiro (fica ao lado da barraca do Tião que tem os melhores sequilhos e biscoitos mineiros). Gonçalves desossou até mesmo o peru que eu não comprei lá e ficou per-fei-to. A outra ajuda é da santa da assistente para assuntos domésticos que está comigo há cinco anos na condição de braço direito e esquerdo, às vezes das duas pernas também. Pois bem. Meu clone aperfeiçoado fez todos os recheios sozinha. Nessa fase, o máximo era solucionar dúvidas, pelo telefone, diretamente do trabalho. Em outras palavras: ela fez a receita toda (rs) e eu só participei da parte do temperar as carnes, montar e assar o bicho, bem como das etapas finais do prato…

Depois de um dia de labuta, às 21 horas da véspera do almoço marcado para o feriado do dia 8 de dezembro, estávamos nós prontas para fechar o bicho e costurar, quando surge a brilhante idéia de “desentortar” a agulhar comprada em forma de meia lua “para ficar mais fácil”. Vou frisar que eram NOVE HORAS DA NOITE DA VÉSPERA DE UM FERIADO NA CIDADE DE BELO HORIZONTE, quando eu escuto um suave “tec” na agulha. Ham ham. Murphy, aquele f.d.p., agarrou o “patola” (delicado apelido da nossa receita) e não soltou. A maldita da agulha quebrou, eu tinha 35 convidados confirmados e nenhuma idéia brilhante para como fechar aquela coisa lotada de coisas outras.

Falando no celular com todos os amigos que pudessem ter uma agulha e, ao mesmo tempo, dirigindo para um shopping, debaixo de um verdadeiro dilúvio, no meio de um engarrafamento monstro, eu xinguei a Zel (que traduziu a receita e a colocou no blog). E minha avó que me ensinou a cozinhar. E minha mãe que me ensinou a fazer salada quando eu tinha 5 anos. E Rosilene que quebrou a agulha. E principalmente eu mesma, a imbecil que se meteu em um rolo desses no mês mais caótico do ano.

Faltando 10 minutos para as 22 horas, achei em um armarinho do shopping, no meio de linhas e rendas, uma agulha de bordar, pequena mas melhor do que nada. Para encurtar a saga, passava das onze da noite quando, em casa, dei os últimos pontos no “patola”, completamente destruída e em frangalhos. Antes de dormir, devido ao surto psicótico em que me encontrava, liguei para Zel que, delicadésima, retornou no dia seguinte cedo e deu valiosas dicas. O fato de ter acordado às seis da madrugada do dia seguinte para colocar o bicho no forno foi só um detalhe irrelevante para um loooongo dia de comemoração.

A festa foi maravilhosa. O perupatolinha valeu cada grama de esforço. Ah! E eu amo a Zel.

Dicas da Capital Mineira:

– Não perca tempo rodando supermercados. O Verde Mar é mais caro, mas tem praticamente tudo lá e de qualidade 100% (o que eu só descobri depois…): as ostras frescas, o peru de 8 kilos, a maioria dos temperos diferentes e as entradas mais deliciosas do universo.

– Para desossar, procurar Gonçalves no O Fino da Carne do Mercado do Cruzeiro (fica ao lado da barraca do Tião que tem os melhores sequilhos e biscoitos mineiros).

– A dica da Zel de colocar dois tabuleiros com água debaixo do bicho enquanto está assando, tendo o cuidado de tirar o caldo que vai soltando o tempo todo, é fundamental. Depois de duas horas assando com o forno um tantinho aberto, é possível fechar, colocar em forno médio e deixar por mais quatro horas, antes de tirar o papel alumínio para dourar.

– Diminuí o sal e a pimenta de tudo um pouco, devido ao número de problemas coronarianos e de pressão do público alvo.

– O molho de berinjela e batata doce foi pouco para atender toda a demanda dos esfomeados.

– Se for receber mais de 30 convidados é imprescindível que haja outros pratos (ex: abóboras recheadas, massa de espinafre).

**

raquel agora é do time do “perpatolinha: EU FIZ”. camisetas, feitas pelo weno, em breve 🙂

0 comments to “a saga do perupatolinha mineiro”
0 comments to “a saga do perupatolinha mineiro”
  1. Senhor, Salvai-me da tentação!

    Passei a tarde à toa no trabalho e hoje vim bisbilhotar – coisa que só faço quando estou em casa.

    Eu nem gosto de ‘aves’, mas to aqui, babando, enlouquecida e pensando se tento convencer meu pai a fazer.

    beijocas

  2. Zel, sua chique

    Perto lá do lançamento do Papel Manteiga meu computador teve uma morte súbita e perdi todos – repito – todos os e-mails e alguns arquivos importantes. De chorar. Agora, preciso que por favor tu me envie um e-mail para que eu possa te convidar para um brinde amanhã. Tem lançamento FinaFlor e quero muito que tu possa ir. Tá?

    dois beijos

  3. pois eu já mandei a receita pra minha amiga que é praticamente uma chef gourmet. Não, não é preguiça eu até mandei dizer que ajudo, corto legumes, compro os ingredientes, bato a torta de maracujá (que é um escândalo, receita dela mesma), seguro as bordas na hora de costurar, qualquer parada mas cada vez que eu leio os relatos e vejo as fotos eu chego à conclusão de que um prato assim tào trabalhoso TEM que ficar bom, então é melhor deixar pra quem sabe fazer a parte mais gastronômica da coisa. Quando a gente fizer eu mando as fotos. Tá marcado pra março.

Deixe uma resposta